Então... É Natal!

(Foto: Google Imagens)


Verdade que sou meio avessa às festas de fim de ano, são festividades baseadas no consumo e desperdício. Como disse o historiador Leandro Karnal em sua coluna para o Jornal Estadão dias atrás, o Natal é uma festa infantil, hoje, algo para alegrar crianças e o comércio apesar da dita crise. Eu vou mais longe, diria que se trata da festa da redenção dos adultos, onde imbuídos de uma pseudo felicidade incautos e ébrios se abraçam declarando um amor de festas do qual mal se lembram nos outros dias do ano. Embriagados de uma alegria plástica que cheira a álcool e fumaça de churrasco se empanturram de comida como se o mundo fosse acabar na mesma noite em que a personagem principal da festa é lembrada só no presépio.

Se gosto de Natal e festas de fim de ano? Acho que está claro que para mim tanto faz, porque se temos que nos alegrar isso tem que ser ao longo dos 365 dias do ano, junto daqueles que realmente importam, daqueles que nos fazem pessoas melhores, que nos respeitam e nos aceitam como somos, despertando em nós o que temos de melhor e isso nem sempre acontece junto da família, aliás, ela fica linda nos retratos. Já a comida, esta é secundária, afinal enquanto uns esbanjam e desperdiçam outros apenas sonham com algo a mais na despensa durante o ano todo.

Não tenho nada contra aqueles que curtem fazer uma Ceia de Natal, decorar a casa e receber as pessoas, mas eu não faço mais isso... trato com amor cada prato que preparo ao longo de todo o ano, minha celebração com a comida acontece todos os dias nos quais preparo algo, seja aquele arroz branco com um lindo e redondo ovo frito, seja a paella que planejo fazer nos primeiros dias do ano.

Realismo! A vida para além da vitrine bonita que nos colocamos quando chegam essas datas.

Celebração de verdade é quando fazemos algo com amor, seja para o marido, amigos, não quando você tem que fazer aquela sobremesa, salada ou farofa por obrigação porque todo mundo tá esperando e fizeram você acreditar que é o melhor que você faz, comida específica para uma data específica onde o seu prato vai ser apenas mais um numa imensa mesa de comida, onde aquele cunhado chato que come feito um porco enche o prato com tudo misturado e não consegue sentir o sabor de nada pois já está com o paladar comprometido de tanta cerveja. Ah! E tem ainda os “chatos” da cebola e da uva passa, figuras ímpares dos encontros em família sem os quais os jantares seriam muito mais aprazíveis.

No mundo corporativo a coisa não é diferente, entra ano sai ano a “equipe” de colaboradores só rema junto quando sai para uma dinâmica de grupo onde terá que enfrentar um rafting vertiginoso, no resto do ano é “cobra comendo cobra” e a fofoca correndo solta. Daí chega hora do amigo secreto, a presepada mais idiota que se pode cair... muito melhor gastar o dinheiro com algum presente para si próprio a ter que adivinhar o que poderia agradar aquela pessoa que mal lhe dá bom dia ao longo do ano, da qual você nem sabe o nome.

Na verdade somos muito nostálgicos e precisamos disso ao longo da vida, porém quando conseguimos ser um pouco mais racionais somos taxados de amargos ou coisa pior... sentimos saudades do Natal da infância, onde tudo era lúdico e fantástico, mesmo quando a irmã mais velha resolve contar para os demais que não existe papai Noel, que os presentes e doces foram deixados pelo pai... venhamos e convenhamos papai Noel, coelho da Páscoa, palhaço e coisas do gênero são personagens bizarros que assustam muitas crianças. Eu mesma tenho um episódio inesquecível com o “bom velhinho”, nasci no dia 23 de dezembro, uma data terrível para comemorações para não dizer outra coisa, na única festa de aniversário que tive, aos quatro anos, o fotografo resolveu fantasiar-se de papai Noel, resultado: passei a minha festa inteira debaixo da mesa me escondendo daquela coisa vermelha que resolveu me seguir todo o tempo, só deixei me fotografar, aliás uma única foto, depois que ele voltou a ser gente como a gente. Passados os anos minha festa de aniversário se resume a cortar um panetone e cantar “Noite Feliz”... Dããã!!

Por isso não gosto desse período do ano, acho um saco, uma hipocrisia geral... evito grandes aglomerações, compras, encontros e viagens. Não foi sempre assim, eu até que tentei ser como as demais pessoas mas confesso que esse período me deixa com péssimo humor então volto para minha concha, a grande vantagem é que ostra não precisa de muito além de um limãozinho né?

Pois bem, deixo os clichês, convenções e o peru recheado com farofa para quem curte esses momentos. Eu prefiro minha parte em sono, silêncio e se pudesse ter um pouco de neve ao invés desse calor dos infernos seria bem bom. Acho que vou pedir pro Papai Noel, quem sabe ele me atende... sempre fui uma boa menina. A propósito, mando a cartinha para o escritório dele na Lapônia ou para a sede da Coca-Cola? 

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