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Minha amada mortal.



Gonzalo de Diego (foto_ Meg Mamede) 
"Vou te encontrar vestida de cetim,

Pois em qualquer lugar esperas só por mim

E no teu beijo provar o gosto estranho

Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar

Vem, mas demore a chegar.

Eu te detesto e amo morte, morte, morte

Que talvez seja o segredo desta vida

Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida" (...)



(Trecho de: Canto para minha morte, música de Raul Seixas e Paulo Coelho)


Paty Lorret (foto Meg Mamede)
A música os aproximou e os uniu. A morte os separou. O que era alegria e arte acabou, dando lugar a um imenso vazio. Ele preso num lápso de tempo, num momento em que a existência dela enchia de beleza e inspiração suas vidas. Juntos eram um só e muitos. Juntos cantavam, amavam, viviam. Separados morreram, os dois. Ele perdido num turbilhão de lembranças e pensamentos. Ela já não era a mesma de antes, jazia em seu leito eterno, decrépita, sem vida. Ele, triste e desolado, sonhava com ela todo o tempo. Ouvia sua voz sussurrando canções. Sentia seu beijo quando o vento mais suave tocava sua face. Chamava seu nome no meio da noite. Falava sozinho, enquanto caminhava por aquela imensa casa. Todas as noites nas quais conseguia dormir, almejava não mais acordar, para estar com ela onde quer que ela estivesse. Alucinado, a via vestida de branco pela casa, com olhar distante, com o mesmo sorriso malicioso que o encantara desde o primeiro encontro. Ao se aproximar para tocá-la, a imagem se esvanecia e ele retornava a sua dor. Ele se perdeu no tempo, entre garrafas de vinho e a fumaça dos cigarros. Uma vida sem melodia, sem rima, sem poesia, decadente. Sem sua amada que partira ainda jovem, ele se sentia um maldito, quase imortal, condenado a vagar solitário, tendo por companhia apenas o violão, o mesmo que ela tocava com graça, enchendo a casa de alegria. Estar sem ela era como estar sem ar. Todas as noites, não suportando mais a ausência, desejava dormir um sono profundo, tranquilo e despertar junto dela. Seu desejo fora atendido, num dia qualquer, não despertou. Não abriu os olhos, já não estava. Feliz se foi. O que os separara, os unira para sempre e… onde quer que estivessem a música se faria ouvir novamente.


** Fotos Gonzalo de Diego e Paty Lloret na Casa Llaguno_by Meg Mamede. Inspirado em "A Noiva Cadáver" filme de Mike Johnson e Tim Burton, por sugestão do fotografo Borja de Diego. www.bilbaobabilonia.blogspot.com (agosto/2009).

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