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Entre o casto e o sensual.

“Quem prepara imagens lascivas e desonestas de modo que seja provável que elas venham a comover os outros, esse comete pecado mortal; idem para aquele que possui e mantém imagens que desonram a Deus e os santos”.

Trechos de manuais do confessor, direcionados aos artistas que tratavam temas escabrosos, na França do século XVII
. (Revista História Viva, jan/2006 p.39).


Queria comentar sobre aspectos da arte ligados à história cultural das sociedades ocidentais de origem judaico-cristã: as pinturas com temas religiosos que mudaram sua estética a partir do renascimento, humanizando os ícones, reaproximando o homem de Deus através das formas, desacralizando as representações.

No antigo testamento livro de Gênesis (1:27): encontramos passagem que nos fala da humanização dos ícones e santos. No principio: e Deus disse: façamos o homem a nossa imagem e semelhança, e Deus criou o homem a sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” e este homem e mulher que habitavam o paraíso, viviam nus como vieram ao mundo e assim com uma nudez inocente e casta são representados pelos artistas em momentos da história da arte. Quando Deus veio à terra e ao adotar a forma humana, na pessoa de Jesus, fisicamente se parecia como qualquer outro Homem. Ele teve fome, sede, cansaço e esteve suscetível às paixões humanas.

Até com olhar laico podemos ver uma pintura ou ler uma obra literária com inocência, desprendimento material, sem malícia, pois conhecemos mesmo que superficialmente algumas passagens bíblicas. Despidos do pensamento e valores materiais somos capazes de encontrar nas obras de arte referências ao amor, seja ele paterno ou fraterno.

A partir do renascimento o resgate do classicismo grego se fez presente nas obras. Na busca pela forma perfeita, os corpos mirrados e deselegantes, aquela nudez natural da iconografia medieval deu lugar ao movimento e à beleza das formas de corpos bem delineados, proporcionais e belos. Inclusive nas obras que retratam cenas bíblicas e religiosas, o que incomodou a Igreja. Mesmo antes do Concílio de Trento em 1563 que combateu com mais rigor a “sensualidade e lascívia” nas artes, o monge dominicano Jerônimo Savonarola, entre 1497 e 1498, já promovia as chamadas “Fogueiras das vaidades”, grandes fogueiras na praça central de Florença, onde queimavam símbolos e objetos da vaidade. Pinturas de artistas como Sandro Botticelli não escapariam. Não condenaram somente a nudez dos corpos retratada nas obras, mas também o gestual, o vestuário, a expressão facial. Interpretados como elementos carregados de sensualidade e luxuria e que portanto, pecavam contra a castidade e profanavam a santidade.

E nos dias de hoje? Como vemos estas obras?



“O Batismo de Jesus Cristo” de Almeida Junior (Pinacoteca do Estado de São Paulo) e “São Sebastião na Coluna” de Perugino (Museu de Arte de São Paulo).

Notamos que esses não são modelos atuais de beleza. No primeiro quadro há um Jesus Cristo e João Batista magros e apesar da pouca roupa não há sensualidade, temos uma cena de obediência e entrega. O Batismo. Apesar de corpos envoltos em panos, esta imagem nos remete a um outro tipo de beleza. A beleza do momento onde o pai se faz presente em forma de luz, e o amor se faz presente entre os homens de maneira fraternal.

Na outra obra, temos a representação de São Sebastião um tanto quanto intrigante. Retratado de maneira lânguida, com um olhar perdido e formas ambíguas, onde o sensual e o angelical se misturam.

(...) “O complexo calvário de santas heresias encapsulado por São Sebastião deve ter começado com a imagem criada por Fra Bartolomeo (1473-1517), pintor italiano da escola de Florença, “especializado” em temas religiosos. Sua pintura em afresco sobre o mártir foi retirada das paredes da igreja pelos monges, sob a “acusação” de que era fonte de pensamentos pecaminosos durante as confissões das mulheres e induziam fiéis a devaneios eróticos” (...). (“Os mil martírios de São Sebastião” de Carlos Adriano)

O que essas obras têm em comum?

Ao observar melhor notamos que ambas obras têm o olhar voltado para os céus, na procura pela compaixão do Deus pai, numa postura de coragem e respeito, bem como, a paixão humana representada através do sofrimento de São Sebastião, que preso à coluna é perfurado pelas flechas de arqueiros mauritanos.

Podemos então enxergar com amor, o que os olhos insistem em ver com outros adjetivos? Entendendo a paixão como um sentimento que exprime sofrimento, não necessariamente aquela paixão louca que nos consome quando estamos “ardendo em amor” e destituídos da malícia podemos entender a abnegação presente nessas pinturas? É possível perceber que o amor do Pai ou do próximo sobrepujam às questões da carne?

Cada um, cada um. Deixo a provocação.

Veja também:

- Legenda Áurea: Vida dos Santos, de Jacopo Vazzari. São Paulo. Cia das Letras. 2003.
- Fogo sobre a terra, de William Manchester. Rio de Janeiro. Ediouro, 2004.
- Bíblia Sagrada – Edição Ecumênica. Barsa. 1972
- Revista História Viva. Ano III - nº 27, janeiro 2006


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