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Viajando de Trem.


















Quando criança nossa casa estava localizada em frente à estação de trem do meu bairro, uma estação antiga de onde só saiam trens com vagões e bancos de madeira. Era mágico poder entrar naquele trem para visitar os parentes que viviam nas cidades vizinhas. Mas a alegria de entrar no trem, sentir o cheiro da madeira e ver a paisagem passando como um filme pela janela duraria pouco, por questões políticas e interesses econômicos, a estação seria desativada e não teríamos mais a facilidade de atravessar a rua e embarcar numa viagem para Guararema, Jacareí, Taubaté – cidades do Vale do Paraíba –, todos perdemos. A estação ficaria esquecida, abandonada por anos, servindo de local de manobra para barulhentos trens de carga, que só faziam atrapalhar nosso sono durante a madrugada, incomodando até hoje os moradores por conta do trânsito caótico que se forma próximo à passagem de nível, toda vez que longos trens de carga passam por lá ou param para manobras. A estação também serviu de escritório para uma empresa de cimento e hoje desconheço o seu uso. Seria maravilhoso se aquela construção fosse transformada num Centro de Memória do distrito de Cesar de Souza ou mesmo da RFFSA, antiga Central do Brasil. Sonhar ainda não paga impostos!

Tempos atrás lendo “Os pés alados de Mercúrio: Relatos de viagens à procura do self” de Luis Pellegrini, lembrei-me das minhas viagens de infância. Pellegrini menciona sua primeira viagem de trem sozinho, ainda muito jovem, seu pai o embarca num trem com destino a casa de parentes no interior de S.Paulo e numa mescla de medo e ansiedade ele segue viagem. Aquela viagem o mudaria para sempre, no trem ele conhece alguns jovens maiores que ele, que deveriam estar retornando do exército para casa e apesar da diferença de idade o recebem no grupo e o fazem participar da conversa, enquanto tomam cerveja e ele um refrigerante, passam a viagem contando suas histórias. Pellegrini atento escuta tudo com curiosidade. O autor diz que entrou naquele trem “menino” e saiu “homem”. Achei isso fantástico.

Por que estou contanto tudo isso mesmo? Verdade que me deu vontade, hoje organizando umas coisas em casa, livros, papéis e mais papéis, encontrei algo há muito esquecido. No meio de um caderno de poesias, encontrei um impresso do concurso de redação “Viajando de Trem” promovido pela RFFSA em São Paulo, de 1982, voltado para alunos do 1º. e 2º. Grau, para o qual enviei uma poesia representando a EEPG. Prof. Rubens Mercadante de Lima e recebi Menção Honrosa. Meu primeiro e único prêmio, ainda como precoce escritora (risos).

Muitas foram as situações que vivenciei num trem, quem me conhece sabe que eu não dirijo, não tenho carta, brinco dizendo que, malemal, dirijo carrinho de supermercado e por isso mesmo vou onde os meus pés me levam, e claro... uso e abuso de ônibus, trens e outros meios de transporte e foi viajando que vivi as situações mais inusitadas possíveis, conheci gente, fiz amigos, passei apuro e ri muito depois – de Mogi para S.Paulo, de Tiradentes para São João Del Rey, de Orduña para Bilbao ou Córdoba, da Bobadela para Lisboa ou de Lisboa para o Porto, de Barcelona para Milão –. Foi viajando num trem que sonhei chegar à Florença e fiquei em Perpignan, mas essa é outra história.

Aproveito para protestar contra a política brasileira, contra os políticos brasileiros que vivendo num país tão extenso, não têm preocupação com a construção e manutenção de uma malha ferroviária descente, que traga qualidade de vida e melhores condições de transporte à população brasileira. É vergonhoso o escancarado interesse pelas rodovias e tudo que está relacionado a ela e à produção petrolífera do país. Por que não investir em tecnologias mais limpas e menos poluentes? Por que não reduzir os custos, dando maior mobilidade e conforto para que o brasileiro possa conhecer seu país? Por que não optar por um meio de transporte mais rápido e seguro, que pode ligar o Brasil de norte a sul, leste a oeste? Por que não gerar novos postos de trabalho e alavancar de vez a locomotiva chamada Brasil? Por que acabar com itinerários como os que eu conheci quando criança, transformando antigas Estações de trem em depósitos de lixo, entregues ao vandalismo?

Essas são respostas que não temos. Quem sabe, com alguma sorte as próximas gerações sejam contempladas com o desenvolvimento do setor. Por hora nos resta a reflexão e uma atitude menos consumista e preconceituosa em relação aos velhos trens que ainda circulam nas cidades brasileiras. Não adianta comparar com o que há fora do país, há que exigir dos governantes melhorias para o setor, afinal é no Brasil que vivemos.

O trem
Vai andando,
Vai levando
Tanta gente,
Tantos sonhos,
Tantas vidas diferentes.
Vai seguindo,
Vai sumindo
Vai plantando novas idéias,
Novos amores,
Novas amizades e descobertas,
Vai seguindo deu destino.
Vai deixando outras coisas.
O trem
É como criança;
Segue levando esperanças
Para um mundo diferente.
Trem, assim te imagino,
Como um sonho que traz
Paz, esperanças e amor
Daqueles, que com você vão.


(Menção honrosa - 1982, concurso realizado pela RFFSA)




* Foto de Ricardo Koracsony, 2003.
** A estação de Cesar de Souza foi inaugurada em 1893, pela Central do Brasil, homenageando o engenheiro João Augusto César de Souza, chefe da 5a divisão da Central em 1890 e deu origem ao antigo bairro, hoje Distrito de César de Souza. O que sobrou da então estação ferroviária inaugurada em 1921 já foi até escritório de uma empresa de cimento, mas seria um lugar perfeito para um Centro de Memória do bairro ou da própria RFFSA (antiga Central do Brasil).

Comentários

  1. Adorei seu Blog, o amor que tem em escrever, seu jeito transmite um pouco de sua personalidade, suas fotos são lindas, espero que continue com esse romantismo ao transmitir seus ideais...

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  2. Ciertamente que viajar en tren es todo un placer. Aquí en Perú hay pocas líneas ferroviarias y las que hubo aquí en el Norte desaparecieron por el interés de carreteras. Uno de los trenes más altos del mundo está cerca a Lima, pero no se usa con frecuencia para el turismo. Otra vía bella y que disfruté en mi niñez en Arequipa es el tranvía. Ya no existen, pero era tan bello ir en él. Como bien dices Meg hay que exigir que vengan esos medios seguros, limpios y económicas para que toda la gente use su derecho de conocer su país.
    Un abrazo desde Trujillo

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  3. Hola Gerardo,
    Quedo muy feiz con su visita y comentarios... como sabes estoy de vuelta a Brasil, en un momento de adapatación a nueva rutina, verdad que es un regreso a mi vida de siempre...jeje. Estoy un poco ausente de la net, pronto visitaré sus ultimos articulos. Como sabes es siempre placentero ler tus cosas. Abrazos desde Mogi das Cruzes, Brasil.

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