terça-feira, 27 de julho de 2010

Santa Anna das Cruzes de Mogy e Santa Emerenciana (Errata).


Há alguns anos o dia da padroeira da cidade tornou-se feriado municipal, mas muito antes disso, Santa Anna emprestaria seu nome a Huma Villa de Serra aSima que viria a ser conhecida posteriormente por Mogi das Cruzes. De acordo com texto do Foral de elevação de Mogi a vila, datado de 1º de setembro de 1611 o então povoado de Mogi Mirim se constituiria na vila nomeada Santa Anna das Cruzes de Mogy e é por esse motivo que no dia 26 de julho – dia de Santa Anna – os mogianos podem curtir o friozinho em casa ou havendo ponte e sol, fazer o que mais gostam: descer a serra.

Santa Ana ou Santana – do latim Anna, do hebraico Hannah – significa “graça”. Santa Ana descendia de Araão, casou-se com Joaquim da linhagem do rei Davi, tornaram-se pais de Maria e avós de Jesus. Anna em sua condição de mulher estéril foi agraciada com a maternidade aos 40 anos. A figura de Santana – fusão de título e nome – está diretamente ligada à família e a educação dos filhos, tanto é assim que em sua iconografia o mais comum é encontrar imagens onde ela aparece com Maria a sua esquerda, em seu colo ou não, segurando um livro aberto, a popular “Santana Mestra” ou de mãos dadas com Maria, conhecida por “Santana Guia”. O culto às divindades femininas remonta da antiguidade, desde os primórdios a fertilidade seja da terra ou da mulher foi fator importante e determinante para grupos e sociedades. O poder de gerar, alimentar e renovar-se está diretamente ligado ao feminino, sejam as divindades pagãs, seja na iconografia do catolicismo, seja a relação estabelecida com a agricultura e a fecundidade da terra. O culto a Santana já existente no oriente surgirá no ocidente no século VIII, já no século X é celebrado em Nápoles, Itália, a festa da concepção de Santana, que em seguida se estenderia para outras partes da Europa. Sem origem nas sagradas escrituras, o culto a Santana é de origem popular, ligado a terra, tendo sido apropriado pelo catolicismo, chegando ao Brasil pela mão de colonizadores católicos.

Houve um tempo em que a iconografia dos santos me interessava bastante. Fruto da educação católica e do meu interesse pelas artes, observar os santos e santas era uma forma de também aprender história e, ao longo dessas minhas andanças pelo país, visitando igrejas e museus muitas foram as “Santanas” que encontrei.

Acabei equivocando-me em parte deste texto quando o publiquei no último dia 24, mas ao consultar o amigo Juan Carvalho (com quem dividi o sonho de implantar um serviço educativo no MIC de Mogi das Cruzes, há alguns anos atrás), tive a dúvida esclarecida e compartilho com meus leitores a informação correta. A imagem existente no acervo do MIC trata-se Santa Emerenciana, mãe de Santana, avó de Maria e bisavó de Jesus, na foto, segundo o amigo Juan “(...) A imagem a qual você se refere não é a tradicional Santana, mas sim, Santa Emerenciana, a bisavó de Jesus.. Não me lembro direito qual o lado ao certo, mas essa santa Emerenciana segura no braço direito a filha Santana, e no esquerdo a neta, Maria, que segura seu filho Jesus, que foi perdido com o tempo (...) Eu escrevi sobre essa imagem no meu TCC da graduação em artes, onde eu explicava melhor essa questão. Existe, que eu saiba, uma outra Emerenciana na igreja da Ordem Terceira do Carmo do Rio de Janeiro, aquela igreja ao lado da capela imperial, mas em tamanho menor”.
Quanto a outra imagem, não há dúvida alguma, pois em uma de minhas visitas ao Museo de Bellas Artes de Bilbao, adquiri o guia do acervo do museu e de lá tirei as informações para este artigo, além do que o comentário do amigo Juan veio para confirmar minha afirmação.

“A santa em estilo gótico alemão mostra sim ser Santana, porque em seus braços ela carrega um menino e Maria que, pelo que me parece carrega um livro, que é o símbolo da educação recebida da mãe”.
Mantendo as informações anteriores no que diz respeito à produção das peças, ambas foram feitas em madeira policromada e em tamanho grande, mostrando a força da mulher e do feminino nas antigas sociedades, seja na estatuária de Santana, seja na de sua mãe, Santa Emerenciana. Cada uma das imagens apesar de ter a mesma composição estética, são produções de períodos e lugares diferentes, e isso fica claro se observarmos as características físicas, roupas e acessórios com as quais foram representadas. A primeira pertence ao MIC - Museu de Arte Sacra das Igrejas do Carmo de Mogi das Cruzes e a outra ao Museo de Bellas Artes de Bilbao. Sobre a Santa Emerenciana que fotografei no MIC, ninguém melhor que o Juan Carvalho para contar um pouco dessa história, e foi o que ele fez ao enviar-me as informações que transcrevi anteriormente, já a Santana do MBAB, trata-se de produção do ateliê do alemão Michel Ehart (c. 1485-90) com 151 x 43 x 30 cm, possuindo uma postura austera e rígida, como imaginamos ser o caráter do povo alemão. As roupas também refletem os usos e costumes alemães, como o toucado na cabeça da santa – parte do vestuário da mulher casada da Alemanha no final do século XV –.

Mesmo sabendo, agora, que as imagens são de santas distintas, ainda assim, é possível perceber as similitudes entre as duas e estabelecer diálogos entre elas, pois a mensagem principal da Mãe Ancestral, no caso da Santana, tem raiz na educação recebida por ela da mãe Emerenciana. A educação passada de geração para geração, reforçando a idéia da mulher como a educadora e a guia que conduz a família.

Aproveito para agredecer aqui a importante colaboração do amigo Juan Carvalho.



Para conhecer um pouco mais da imaginária brasileira em especial a iconografia de Santana no Brasil, visite: Santanas “Coleção Angela Gutierrez”
http://www.santanas.com.br/geral.asp

Para Saber mais sobre a Santa Emerenciana de Mogi das Cruzes, entre em contato com Juan Cezar de Carvalho Borges, cujo TCC teve como objeto de pesquisa e ponto de partida a imagem de Santa Emerenciana pertencente ao acervo do Museu das Igrejas do Carmo de Mogi das Cruzes – MIC.

Ver também:
- Santa Anna das Cruzes de Mogy, de Jurandyr F. Campos e Tunico de Paula.
- Guia do Museu de Bellas Artes de Bilbao.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O Amor e uma Cabana.

Sempre ouvi essa frase por aí, gente que almeja um amor e uma cabana e crê que só isso lhes basta. Será? Tenho minhas dúvidas. Os românticos são tipos sofredores, em especial os apaixonados. As paixões nos exaltam, nos desequilibram, subimos alto para logo cair vertiginosamente. A paixão nos dá uma sensação de leveza, de que podemos tudo para em seguida nos deixar em pedaços. A paixão – do latim patior significa sofrer, suportar algo difícil – seja por um homem ou mulher, seja pelo time de futebol, seja pelo que seja a paixão é sinônimo de exagero e sofrimento. Eu só me dei conta depois de sofrer inúmeras vezes, além disso, participando de um bate-papo com o historiador Nicolau Sevcenko, escutei algo a certa altura que fez refletir, usando como exemplo a "paixão de Cristo" e a legendária história de "Tristão e Isolda", Sevcencko conseguiu de maneira simples esclarecer a diferença entre paixão e amor. Como disse, me apaixonei e sofri muitas vezes, hoje sei que o amor é muito mais sereno e equilibrado, além disso, quem ama não adoece e não me refiro ao livro do cardiologista Marco Aurélio D. Silva, apesar dele tratar da relação entre o amor e as doenças, me refiro ao estado que o amor em suas mais variadas formas pode nos deixar, o importante é estar pronto, receptivo e predisposto a amar, independente do “outro”. Já o romantismo, não sei até que ponto é bom ou não para relação a dois. Invenção do Homem moderno da Europa no final do XVIII, o romantismo teve especial importância na unificação da atual Alemanha, onde surgiria o movimento literário conhecido por Sturm und Drang – tempestade e ímpeto – quem nunca leu ou ouviu falar das cartas do jovem Werther, relatos da sua paixão por Charlotte, da obra “Os sofrimentos do jovem Werther” de Goethe. Deixando de lado as artes, passando para a vida cotidiana, o romantismo tomou conta do ocidente e a apropriação popular do amor romântico peculiar do gênero romance veio dar cor e dor aos corações mais sonhadores e idealistas. Ainda hoje, passado anos da minha tentativa de cursar Direito lembro-me bem de um texto intitulado “A razão sábia e a paixão louca” que discutimos em alguma disciplina e que explica muito do que vemos todos os dias na tv, nos jornais e na Internet, todos esses crimes movidos pela passionalidade. Mas voltando ao amor... Ah! O Amor, esse sim merece um lugar especial em nossas vidas e agora que eu o conheci, não quero mais deixá-lo partir, verdade que eu sempre parti e continuo partindo, mas agora sei que posso levá-lo comigo para onde eu for. Nunca é tarde para nada, pensei que conheceria somente o amor paterno, o fraternal, já que não tive filhos e até alguns anos atrás não havia experimentado o “amor” de um homem, foi preciso viajar quilômetros, falar outra língua, me afastar de tudo e de todos para descobrir que também sou capaz de amar. Mas a descoberta maior foi a de que posso sim ser feliz com esse amor, mesmo estando longe, porque minha felicidade depende de um conjunto de coisas, não somente do "amor e uma cabana", mesmo que essa cabana tenha quase 60 janelas... risos. O amor que experimentei é tranquilo, equilibrado, não é possessivo e ciumento “quando estive com ele estive nos braços da paz” como na música de Dominguinhos e Nando Cordel. Com ele aprendi que o amor depende de cada um de nós, que amamos as pessoas de maneiras diferentes, não tem como amar mais ou menos, pois ninguém é igual, além disso, a vida sempre nos impõe escolhas, eu, por exemplo: escolhi retornar ao Brasil porque necessitava outras coisas que também amo e que aqui deixei, meus pais, amigos, meus projetos. A rotina pode ofuscar o amor, roubando-lhe o brilho, transformando a relação em sofrimento. Confesso sem pesar que não derrubei lágrima alguma ao despedir-me dele no aeroporto, parti feliz. Parti com a certeza de que ele me deu o maior dos presentes que eu poderia ter recebido de alguém, pois com ele aprendi a lição de como “amar e ser amada” e hoje sei que Vinicius foi só razão quando escreveu os versos do seu Soneto de Fidelidade e eu, finalmente “posso dizer do amor que tive, que não é imortal posto que chama, mas que será infinito enquanto dure”.


Eu recomendo:

Os sentidos da Paixão, organizado por Adauto Novaes. Cia das Letras
A Paixão no banco dos réus de Luiza Nagib Eluf. Editora Saraiva.
Quem ama não adoece de Marco Aurélio Dias da Silva. Best Seller.
Médico de homens e de alma de Taylor Caldwell. Record.
Para viver um grande amor de Vinicius de Moraes. Cia das Letras.

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