terça-feira, 29 de junho de 2010

Futebol, Samba e Feijoada.

Aguia de Ouro - SP. Jogo entre Brasil e Costa do Marfim em 20/06/10
(foto Meg Mamede)


Retornei ao Brasil em plena Copa do Mundo, evento que em 2010 tem a África do Sul como anfitriã colocando o continente em evidência. A beleza, a alegria e os contrastes do continente têm no Brasil sua equivalência, afinal, nós brasileiros temos na África uma das nossas matrizes, o que faz identificar-nos com aquele povo e cultura. E por falar em cultura, assisti ao jogo entre Brasil e Costa do Marfim ao som do samba e ao sabor da feijoada. Por primeira vez estive numa quadra de escola de samba. A convite da amiga Rose, vesti a camisa da escola do grupo especial de São Paulo Águia de Ouro – fundada em 1976 a partir de um batuque diferente que rolava na Vila Anglo Brasileira, resultado do encontro entre integrantes do time de futebol amador Faísca de Ouro e sambistas ex-integrantes da Pérola Negra –, pintei a cara com as cores do Brasil e fui para quadra assistir o jogo com cerca de 1.500 pessoas. Como bem observou minha amiga, aquele espaço bem debaixo de um movimentado viaduto da zona oeste paulistana, é o espaço da democracia, algo que não é, e nunca será imposto de cima para baixo, pois emana do povo. Depois desse comentário parei para refletir por um instante e percebi que ali, sob o viaduto, esperando na fila para provar a gostosa feijoada servida, procurando uma mesa vazia, ou não, para compartilhar, “todos éramos iguais”. Desconhecidos e famosos, “popozudas” e magrelas, pobres e ricos, brancos e negros, jovens e velhos, paulistanos, paulistas, cariocas e baianos, todos reunidos pelo mesmo motivo: ver a bola balançar na rede do adversário e em uníssono gritar de alegria festejando o gol, uns mais, outros menos. As vuvuzelas – nome sul africano dado a já conhecida corneta – ditaram o ritmo do ensurdecedor barulho produzido a cada gol marcado pela seleção Canarinho e para desmentir a máxima de que nesses lugares só há confusão, desde que cheguei até o momento que saí não vi discussão ou briga alguma, para ser sincera e para minha surpresa a única atitude mais exaltada que presenciei, foi justamente a de um professor universitário, com o qual compartilhávamos mesa, que incomodando com o som das cornetas e apitos durante a partida, lançou uma laranja em direção aos jovens que agitavam o evento, que por sua vez não revidaram a atitude e continuaram com a festa como se nada houvesse acontecido. Melhor para todos. Voltando à festa popular, a feijoada estava pra lá de boa, talvez os dois anos que estive fora me fez apreciar muito mais tudo aquilo, aumentando de alguma maneira minha percepção sobre o país, nossa gente e nossos hábitos. Fiquei feliz por fazer parte de algo de expressividade popular, onde a simplicidade e a alegria juntas foram capazes de tornar o espaço democrático, onde a apropriação acontece de forma natural, onde todos são bem vindos independentemente de classe, credo, etnia ou título, bastando para isso: vestir a camisa, colocar o melhor sorriso na cara e preparar-se para cair na folia. Começo a entender o que faz do povo brasileiro tão singular e sincrético e porque o mundo se encanta frente ao gigante.

Como bem cantou Caymmi Quem não gosta de samba bom sujeito não é É ruim da cabeça ou doente do pé... acrescente a isso a Feijoada e em tempos de mundial o Futebol.

Veja mais fotos no site da escola Águia de Ouro:

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus José Saramago.

Eu gostava dele. Aquela língua afiada, aquela mente brilhante, aquele humor ácido e aquela escrita corrida, apressada, ligeira, rápida que para mim é sinal de vida.

Mas, infelizmente e diferente do seu livro onde... "No dia seguinte ninguém morreu"... eis que ela chegou para ele, assim como chegará para todos. Vai o homem e ficam as letras, as metáforas, os prêmios, a crítica, os admiradores e seu legado.

Adeus Saramago!

terça-feira, 15 de junho de 2010

A melhor tortilla de patatas do mundo!

Joseba de Muguruza e a rica tortilla de patatas do Café Samaná.

De volta ao Brasil há duas semanas ainda estou matando as saudades de muita coisa, entre elas: a comida da mamy, a salada de agrião – que só comia em Portugal, já que no País Basco o mais parecido que encontrei foram canónigos – e agora começo a sentir a falta dos hábitos do País Basco, em especial a tortilla de patatas do Joseba do Bar Samaná em Orduña. Essa tortilla de patatas que lembra a omolete que a minha mãe fazia – na qual costumava acrescentar cebola –, é algo antigo na história da culinária. Na realidade a batata originaria da América do Sul que era chamada de papa – em quéchua – pelos incas, foi parar na Europa pelas mãos dos colonizadores. Hernán Cortés em suas cartas descreve muito do que encontrava nos mercados da Mesoamérica, já em crônica da Companhia das Índias datada de 1519 fala-se da tortilla (tortilha em português) de ovos que era conhecida tanto na Europa pelos espanhóis, como na América pelos aztecas, que as preparavam e as vendiam nos mercados de Tenochtitlan acompanhada de pão de milho.

Na Espanha, a tortilla de patatas é citada por primeira vez em um documento anônimo de 1817, dirigido à Corte de Navarra, onde se fazia uma comparação entre as condições dos agricultores da região e os moradores de Pamplona e da La Ribera Navarra, já que alguns deles devido a escassez de alimentos usavam truques para driblar essa falta "...dos o tres huevos en tortilla para cinco o seis, porque nuestras mujeres la saben hacer grande y gorda con pocos huevos mezclando patatas, atapurres de pan u otra cosa...". Mas há outras histórias sobre a tortilla de patatas, uma delas é que teria sido o general basco Tomás de Zumalacárregui (Guipúzcoa: 1788-1835), quem em Bilbao teria criado um prato, simples, rápido e nutritivo para saciar a fome do exército carlista e dali em diante o prato passaria a ser difundido pelo país. Há também outras versões para a criação dessa especialidade gastronômica: a de uma dona de casa navarra que teria preparado algo com simplicidade usando ovos, batatas e cebola e que o general Zumalacárregui teria gostado tanto que a popularizaria ou ainda que a tortilla teria sido criada em Villanueva de la Serena, Extremadura, mais ao sul da Espanha.

Independente de qual seja a verdadeira origem da tortilla de patatas a verdade é que ganhamos nós quando a experimentamos, seja a preparada de maneira tradicional ou em suas variadas formas de preparo, pois cada cozinheiro acrescenta o ingrediente ou o segredo culinário que queira. Segundo Joseba de Muguruza do Café Samaná de Orduña, para que sua tortilla de patatas seja a “melhor do mundo” o segredo é: fazê-la com amor. Quando cheguei no País Basco pesava 50kg, voltei para o Brasil pesando 54kg, não comi tortilla de patatas todos os dias que lá estive, mas sempre que chegava no Café Samaná e via aquela tortilla sorrindo pra mim, não resistia. Provei outras tortillas de patatas em outros lugares da Espanha, com pimentões, com carne, com camarões, com jamón, com bacalhau, etc, mas nada se compara ao inigualável sabor da “número 1”, me refiro aquela tortilla feita com amor e ingredientes de qualidade, por isso recomendo: se for à Espanha, arrume um tempinho para visitar Orduña, conhecer suas belezas naturais, seu patrimônio histórico e cultural e as delícias gastronômicas que aquela localidade vizcayna oferece e não se esqueça: procure o Café Samaná na calle Barria, 13, peça Txacolí ou um Crianza de La Rioja para acompanhar a melhor “tortilla de patatas del mundo”. Você não se arrependerá! Afinal, tudo que é feito com amor é muito mais saboroso.


Receita de Tortilla de Patatas tradicional:
Porção para 4 pessoas:

Ingredientes:

6 ovos
300 gr de batatas
9 colheres de azeite de oliva
Sal

Preparação:

Corte as batatas em pequenas lâminas (fatias finas e pequenas) e frite-as bem devagar numa frigideira com o azeite quente, tampando-a para que cozinhe um pouco as batatas, movendo-a de vez em quando para que não grudem. Uma vez prontas tire-as da frigideira em um escorredor de frituras, em seguida junte-as em uma tigela com os ovos já batidos e acrescente o sal. Coloque um pouco de azeite na frigideira, somente para untá-la, em seguida coloque a mistura de ovos batidos e a batata, mova levemente a frigideira em movimentos circulares e tampe-a por alguns minutos para que a mistura fique uniforme, quando perceba que a mistura está coalhando, isto é, com certa liga, cubra a frigideira com um prato e gire-a para dar a volta na tortilla, com cuidado para que ela não quebre, depois, movimente-a um pouco mais e tire-a para que não fique muito seca.

Sirva com pequenas fatias de pão e se tiver um vinho tinto ou um Txacolí não hesite em provar essa combinação.

Como dizem os espanhóis e bascos: ¡Que aproveché!.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Celebrando a diversidade.

Parada Gay de São Paulo 2010 (foto by_Meg Mamede)


Meu primeiro fim de semana em São Paulo foi uma overdose de informação. Na realidade um choque! O retorno a megalópole paulista foi um retorno ao caos se comparado aos quase dois anos que vivi em um pueblo vizcayno com cerca de 4.500 mil habitantes, onde o som mais alto que se ouvia era dos pássaros no jardim, alternando-se com algum trator, caminhão de gás ou as campanadas da igreja. Onde as ruas nada tinham de semelhante com o enlouquecedor trânsito da Terra da Garoa. E por falar em garoa, tínhamos lá o que chamam de sirimiri que me recordava o sereno típico de São Paulo. Mas, não estou reclamando não, estou feliz por estar de volta, rever a família, os amigos, os sabores e cores desse país colorido e diverso. E falando em diversidade, no domingo resolvi ir à Livraria Cultura do Conjunto Nacional - lá na Paulista - e era o dia da diversidade, o dia da maior Parada Gay do mundo. Eu estive lá, no meio da multidão. Poucos metros separam o metrô Consolação do Conjunto Nacional, contudo chegar ao Café Viena da livraria custou um pouco, afinal, enquanto o povo seguia em direção oposta atrás de algum dos 15 trios elétricos que animaram a festa, nós seguíamos em direção contrária. Já no Café da livraria nos sentimos aliviadas e protegidas do alvoroço que se formava lá fora, entre música eletrônica, sol, bebedeira e outras cositas mas o público da Parada do Orgulho GLBT caiu na folia e deu seu recado, afinal homofobia ou qualquer outro tipo de preconceito é out, demodê, eu diria pouco inteligente, porém, há outros aspectos que independentemente da nossa formação, educação ou berço, como queiram chamar, é chocante sim. Uma coisa é levantar a bandeira da liberdade de escolha, usar a parada para conscientizar as pessoas sobre questões da cidadania, outra coisa é converter a festa em um espetáculo dantesco, literalmente a visão do inferno. Em determinado momento a alegria e entusiasmo da festa deu lugar à bizarrice, ao grotesco, à bebedeira, pancadaria, vandalismo e destruição do patrimônio alheio. Não posso, nem quero ser hipócrita, confesso que há sim choque de geração, entre a minha e as mais jovens, não conseguiria estar lá mais do que os minutos que gastei para chegar do metrô ao Conjunto Nacional, me senti chocada com algumas cenas e hoje mais do que nunca sei que escolhi bem não ter filhos. Uma coisa é orientação sexual guiada pelos desejos do corpo e do coração, usando o bom senso, afinal, para que serve o livre arbítrio? Outra coisa é querer chocar, rebelar-se com comportamentos estimulados por modismos - beijos televisimos de divas andrógenas e pop stars -, adolescentes que mal conseguem interpretar um texto ou compreender o enunciado de uma prova, desesperados por provar tudo como se o mundo fosse realmente acabar em 2012. Pronto falei, tô chocada! Para sala de aula não volto mais, não sou capaz de compreender ou me fazer compreender. Definitivamente esse não é o meu mundo. Apoio sim as causas que buscam a liberdade e que sejam verdadeiras, que celebrem a diversidade de maneira saudável e com muito respeito ao "outro".

Viva diferença! Abaixo a baixaria!

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