terça-feira, 18 de maio de 2010

Traduzindo português para português.

Como já contei aqui, passei uns meses em Portugal, primeiro estive em viagem de férias – Évora, Lisboa, Cascais, Sintra, Nazaré, Aveiro, Porto, Bussaco, Coimbra – de volta à Lisboa tentei, juro que tentei me adaptar. Queria estudar, ingressei numa pós da Universidade Católica Portuguesa, buscava algo na área de museus e patrimônio ou história cultural, eis que surge de última hora a possibilidade de cursar relações culturais internacionais. O fato é que iniciado o curso, ainda nos primeiros meses, percebi que apesar do “culturais” inserido no nome da pós o programa estava mais voltado para as questões das relações internacionais que não é bem lá minha área de interesse, além do que fiquei doente, me senti só, senti falta do meu amor e acredite falava português, mas... como me avisou a amiga Talita, não comunicava, tudo isso me desanimou demasiado. Trocando em miúdos, falando a mesma língua mas não fazendo comunicação, foi difícil a integração (até rimou), por isso voltei para Espanha e daqui toco pro Brasil em duas semanas. Uma vez, numa conversa escutei uma grande tolice de um português, que com arrogância e um tom acusador afirmou: “vocês brasileiros estragam a língua portuguesa!”. O portuga em questão, deve ter esquecido que a língua é viva e está sujeita a mudanças que nem eles mesmos conseguiram evitar, tanto é assim que alguns estudiosos afirmam que o português mais puro ou mais próximo da sua origem é o falado, surpreenda-se, em alguns lugares do nordeste brasileiro, isso quem comentou foi uma professora da UCP, eu não saberia dar mais detalhes, de qualquer maneira vale lembrar que o mundo lusófono hoje é composto de números entre 200 e 240 milhões de pessoas. O português é a sexta língua mais falada do planeta (terceira entre as línguas ocidentais, depois do inglês e o castelhano), é a língua oficial de sete países: Angola (17 milhões de habitantes, 2007), Brasil (190 milhões, 2008), Cabo Verde (450 mil, 2002), Guiné Bissau (1,4 milhão, 2006), Moçambique (20 milhões, 2007), Portugal (10,5 milhões, 2008) e São Tomé e Príncipe (157 mil, 2005), além de ser falada em outros lugares como Macau na China, ou seja, haja sotaques e variações quanto à pronúncia, a gramática e o vocabulário. A coisa se passou assim, do descobrimento até meados do século XVIII a língua tupi-guarani que até então era falada no Brasil juntamente com o português, foi proibida, mas algumas palavras do léxico tupi-guarani foram incorporadas ao português, em geral nomes de animais, plantas, geografia, etc, e com a chegada dos escravos trazidos da África, outras contribuições foram acrescidas, em especial da cultura iorubá – oriundos da Nigéria – e do quimbundo da Angola, criando uma forma “creola” de falar. Enquanto isso a ex-metrópole absorvia alguma influência francesa distanciando-se do português da colônia que ironicamente estava mais próximo das raízes e dos “modos” de falar dos primeiros portugueses que aqui estiveram. Sendo o Brasil um país de dimensões continentais e tendo recebido correntes migratórias de origens distintas e distribuídas pelo país, não há como não perceber essas influências na língua portuguesa falada aí. Veja: o português sai da sua terra, atravessa os oceanos, estabelece-se em outros rincões transformando-os em suas colônias, impõe suas leis, vontades e credo entre outras coisas, e depois diz que nós é que alteramos a língua deles? Ora, pois! De facto há algo errado nessa história, mas não se trata da língua e nem da forma como o brasileiro, o angolano ou o moçambiquenho a emprega, o que está errado é a forma de pensar de alguns portugueses em relação às ex-colônias. Para descontrair sem mudar de assunto deixo algumas palavras e expressões que me soaram tão curiosas quanto engraçadas.

- Deitar no caixote. Se você pensou em morrer, errou. Significa: Jogar o lixo na lixeira.
- Isso é fixe! Ou Que fixe! Não se trata de nenhuma expressão nordestina adotada por um luso. Significa: Isso é legal, bacana, maneiro.
- É muito gira! ou Que Giro! Não tem nada rodando não. Significa: Bonito, elegante, legal, massa, irado, depende de como é empregado.
- Comboio: Trem
- Autocarro: Ônibus
- Eléctrico: Bonde.
- Bicha. Não é o que você pensou, é uma fila. Inclusive você pode dizer que está “no rabo da bicha, esperando um cacete ou para tomar uma pica no cu” que ninguém vai estranhar. Significa que você está no fim da fila esperando um pão francês ou ainda, para tomar uma injeção na bunda, claro!
- Écran: Tela de TV ou monitor do computador (que lindo!!).
- Telemóvel: Não se trata de uma tv com mais mobilidade, é apenas um celular.
- Cueca: Calcinha de mulher.
- Quarto ou casa de banho: banheiro.
- Passadeira: faixa de pedestre.
- Guarda-fatos: Se você pensou num álbum de fotos ou algo parecido, errou. Signfica: Guarda-roupas.

Etc, etc, etc.

Pra terminar quero dizer que “gostei imenso” de viajar e conhecer um pouco mais Portugal, mas... o pá!! não troco meu Brasil por nenhum outro lugar do mundo.

Nota: Os números populacionais aqui citados foram extraídos de outros sites e mesmo não sendo exatos, servem como estimativa.


Saiba mais sobre o novo acordo ortográfico da língua portuguesa acessando:
www.livrariamelhoramentos.com.br/Guia_Reforma_Ortografica_Melhoramentos.pdf


Livro que recomendo:
Portugal traduzido: abecedário de reflexões de John Wolf.

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