segunda-feira, 24 de maio de 2010

¡Hondarribia, vamos de pintxos!

Terrazas da San Pedro Kalea

No meu último fim de semana em Euskadi, escolhi despedir-me conhecendo um pouco mais dessa comunidade autonoma da Espanha, que de espanhola não tem muito, como se auto proclamam: são bascos e têm isso muito claro desde criança, falando euskera, ostentando a bandeira basca em suas janelas, conservando suas tradições e costumes, praticando esportes rurais tipicamente bascos, mas... me pergunto: nas Olímpiadas, nas Copas do Mundo de Futebol, nas corridas de F1 para quem torcem? Deixa pra lá, isso não vem ao caso, é pura provocação, até porque o esporte e a música sempre serviram para promover a união e fraternidade entre “as gentes”. Voltando à Hondarribia, é uma cidade que faz fronteira com a França, na realidade é uma localidade banhada pelo mar cantábrico e a Bahia de Txingudi, formando a desembocadura do rio Bidasoa que separa a parte basca em território espanhol da parte basca em território francês, a localidade de Hendaya. Um lugar de clima agradável, entorno muito bem cuidado, com barcos e veleiros passeando pela bahia e um monumental centro histórico que remonta do período medieval quando a cidade era um próspero porto comercial, mas o destaque desse meu passeio de fim de semana foi sem dúvida alguma a gastronomia. Conhecida por sua cozinha internacional o País Vasco nos leva a cometer o pecado da gula sempre que salimos de pintxos ou como é comum no norte da Espanha salir de poteo isto é: sair de bar em bar, nos fins de semana ou feriados, com um grupo de amigos para tomar vinhos e experimentar alguma delícia da cozinha tradicional ou de autoria antes do almoço ou do jantar, que normalmente ocorre mais tarde do que nós brasileiros estamos acostumados, assim que... na hora de almoçar ou jantar já tomamos umas quantas taças de vinho e experimentamos uns quantos pintxos também e... foi assim meu último fim de semana por aqui, acompanhado de muito sol, vinhos e exquisitos sabores da premiada gastronomia hondarribitarra. Começamos por umas bolas de carne picante, eu provei uma espécie de canudinho de camarão que estava para lá de bom acompanhado de um vinho crianza, Joseba preferiu um pintxo à base de polvo, depois de potear um pouco resolvemos ir para pousada para echar una siesta, saímos novamente por volta das 7 horas da tarde com um sol que parecia não querer ir embora, paramos para tomar uma manzanilla (chá de camomila) e seguimos do centro histórico para a região próxima da bahia e do porto de Hondarribia, depois de uma caminhada seguimos para a San Pedro Kalea – uma rua no centro da cidade - onde os bares e suas terrazas (mesas na calçada) já estavam cheios de poteadores. Entramos aleatoriamente na Ardoka Vinoteka e confesso que não queria mais sair, um lugar agradável, com formas e cores mordenas, vinhos para todos os gostos e culinária de autor de beleza e sabor inesquecíveis, queria provar tudo...risos. Começamos por um arroz meloso con hongos y foie, depois bacalao confitado con crema de marisco e provamos também taco de vaca con hongos e idiazabal, tudo regado com um bom tinto de La Rioja, todos esses pintxos cuidadosamente preparados, uma beleza de ver e comer. Em seguida estivemos em outros bares, provei tantos pintxos que não sobrou espaço para jantar, mas ainda tinha o domingo e como não havia experimentado um postre (sobremesa) do Ardoka, voltaria com certeza. Hondarribia é muito frequentada por franceses, melhor dizendo os bascos que vivem do outro lado do rio Bidasoa, afinal comer – e muito bem –, encher o tanque de combustível e passar um fim de semana agradável é mais barato no lado espanhol, apesar da moeda ser a mesma, mas há turistas de todas as partes, assim como e imigrantes, em especial argentinos. No domingo tomamos nosso café na terraza do Hotel San Nicolas, próximo do Parador de Hondarribia, uma castelo construído no século X, cuja vista privilagiada da Bahia de Txigundi é um incentivo para começar bem o dia, logo seguimos a Plaza Mayor para um festival local de corais, a música é levada a sério pelos moradores da localidade, cerca de 20 corais no programa, ouvimos um pouco e em seguida fomos passear pela margem da bahia e de novo para a San Pedro Kalea, que ademais de lojas, restaurantes de bares com suas terrazas, também está ladeada de plátanos, árvore comum aqui no norte. Paramos em uma dessas terrazas, fazia muito calor, encontramos uma mesa à sombra e resolvemos comer uma salada mista e uma prato a base de bacalhau – a maneira como preparam o bacalhau aqui é bem distinta de como costumamos comer no Brasil, assim como em Portugal –, mas é tão bom quanto, tomamos vinho e água. Em seguida adivinhem onde eu quis ir para a sobremesa? Ardoka Vinoteka, onde fechamos com chave de ouro esse passeio gastronômico por Euskadi, pedimos vinho, provamos o salmorejo cordobés, melhor pedida em dias de calor – assim como o gaspatxo, típicos do sul da Espanha – e em seguida uma torrija con helado que é um verdadeiro manjar dos deuses, Joseba como de costume tomou seu cortadito descafeinado, coisa que recusei, queria manter o sabor da torrija em minha boca por mais tempo, depois dela só água. Eu sempre digo que há muitas maneiras de viajar: cinema, livros, artes, mas não podemos esquecer a culinária, pois é ao redor da mesa que as conversas decisivas ou despretensiosas acontecem e é através dos sentidos, neste caso, visão, olfato e paladar que fazemos viagens para lá de deliciosas. Eu que sempre faço uma verdadeira “salada” para contar minhas “viagens” misturando cinema, literatura e agora a recente descoberta dos sabores gastronômicos bascos, recomendo alguns filmes que mostram bem a viagem sensorial que se faz através dos alimentos, da comida, da culinária, da cozinha ou da gastronomia como cada um queira chamar.

Bom apetite, ops! Quero dizer... Boa Viagem!

- A Festa de Babette de Gabriel Axel (Dinamarca, 1987)
- Como Àgua para Chocolate de Alfonso Arau (México, 1992)
- O Tempero da Vida de Tassos Boulmetis (Grécia – Turquia, 2003)
- Ratatouille de Jan Pinkava e Brad Bird (EUA, 2007)
- Estomago de Marcos Jorge (Brasil – Itália, 2007)
- Vatel – Um Banquete Para o Rei de Rolland Joffé (França - Reino Unido, 2000)
- Sideways – Entre Umas e Outras de Alexander Payne (EUA, 2004)
- A Grande Noite de Stanley Tucci e Campbell Scott (EUA, 1996)
- Julie & Julia de Nora Ephron (EUA, 2009)


** Na foto central: pintxos do Bar y Restaurante Rafael, Ardoka Vinoteka y Goxodenda, todos em la San Pedro Kalea, Hondarribia. (fotos by Meg Mamede)

Um comentário:

  1. Adorei Meg!!! Que delícia...
    Prepare-se pra pobreza daqui,afinal, luxo como este descrito só pra quem tem muita grana no nosso país...rsrsrsrs Afinal, quando vc chegar aqui, pra tomar um vinho no mínimo decente vc vai desembolsar pelo menos uns R$ 50,00...
    Floh

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