Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

De Atlântida ao Eldorado: o sonho dos viajantes de outrora.

"Soldados e Indios de Mogi das Cruzes" - 1834 - de Jean Baptiste Debret

O que leva o Homem a buscar o desconhecido? Nos séculos passados, naturalistas, botânicos, pintores, desenhistas, cartógrafos, antropólogos e outros especialistas foram responsáveis juntamente com os idealizadores e financiadores de expedições que partiram da Europa rumo à África, Ásia e América de alimentar o imaginário humano. Para nós americanos, mais precisamente latino-americanos, os relatos fantásticos iniciam-se justamente com os descobrimentos e a colonização espanhola e portuguesa de parte do continente, pode haver relatos anteriores a esse período, mas é a partir desse marco que gostaria de comentar.

No caso do Brasil, as expedições iniciam-se com a chegada dos portugueses, a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel trata-se do primeiro relato, em forma de crônica, que popularmente conhecemos ainda nos primeiros anos da educação formal. Posteriormente e logo após seu descobrimento, entre os anos de 1501 e 1503, o Brasil terá duas expedições exploratórias do território, ambas vindas de Lisboa com a intenção de verificar a existência de pau-brasil ao longo da costa brasileira e fechar acordos comerciais para a cobiçada madeira de cor avermelhada utilizada na manufatura têxtil européia, entre os nomes que estiveram explorando o litoral brasileiro nesse período estão Gaspar de Lemos, Américo Vespúcio e Fernando de Noronha. Já nos anos de 1516 a 1526 as expedições teriam outro objetivo, a de proteger o litoral brasileiro do contrabando de pau-brasil por parte dos franceses, contudo essas missões militares não tiveram muita eficácia no combate ao tráfico ílicito da madeira devido a longa extensão litorânea do país.

Passado alguns anos o alemão Hans Staden, que em sua segunda viagem ao Brasil foi capturado pelos índios tupinambás no litoral paulista, seria um dos responsáveis pela imagem exótica e antropofágica atribuida ao Brasil, fruto do relato de Staden publicado em 1557 por Andres Colben intitulado “Duas viagens ao Brasil” que serviu também como fonte para estudiosos de várias áreas.

Entre o século XVI e o inicio do XVII os franceses tentaram por mais de uma vez estabelecer-se em algumas regiões do país atraídos pelo comércio do pau-brail – Recife, Rio de Janeiro, Ceará e Maranhão – apesar de aliados a tribos indígenas como os tamoios ou tupinambás no Rio de Janeiro, os franceses foram derrotados pelos portugueses e expulsos dessas regiões.

Ainda no século XVII os holandeses também tentaram estabelecer-se em terras brasileiras empreendendo expedições e algumas delas, como as de van Noort e van Spielbergen fracassaram em seu intento, porém é no Recife que Johan Maurits van Nassau-Siegen, conhecido pelos brasileiros como Mauricio de Nassau, foi administrador de 1637 a 1644, período em que o domínio holandês em terras brasileiras conheceu seu auge, pois o humanista Nassau fez mais que comercializar açúcar, traçou o plano urbanístico da cidade e incentivou as ciências e as artes, vieram com ele os pintores Frans Post e Albert Eckout, além de Willen Piso e Georg Marggraf que juntos escreveriam o primeiro trabalho de cunho médico-científico sobre a natureza brasileira, intitulado “Historia Naturalis Brasiliae” publicado em 1648 em Amsterdã.

No inicio do século XIX, mais precisamente no ano de 1809, o viajante Henry Koster nascido em Lisboa e de origem inglesa, desembarca em Recife para curar-se de uma tuberculose, onde posteriormente se estabeleceria, uma vez recuperado empreende viagens por todo o nordeste brasileiro, de Recife à Paraíba, passando pelo Ceará e depois do Recife ao Maranhão de onde em 1811 viajaria à Inglaterra retornando ao Brasil no mesmo ano e, em 1815 novamente na Inglaterra escreveria um livro sobre o Brasil, publicado em 1816 intitulado “Viagens ao nordeste do Brasil”, retornando ao Recife faleceria em 1820.

De 1817 a 1820 tivemos a visita de viajantes que influenciaram várias áreas do conhecimento, o material produzido pelos alemães Carl Friedrich Philipp von Martius e Johann Baptiste von Spix conhecido por “Viagem pelo Brasil 1817-1820” serviria não somente para o estudo da botânica ou da história natural, mas também para a geografia, antropologia e linguística. Já o austríaco Thomas Ender, se tornaria conhecido como o pintor viajante que retratou em suas aquarelas cenas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Ainda no XIX outros curiosos viajantes passaram pelo Brasil, a expedição Lansgdorff, organizada pelo barão alemão naturalizado russo, Georg Heinrich von Langsdorff duraria de 1824 a 1829 e juntamente com o Barão viriam os desenhistas franceses Adriano Taunay e Hércules Florence – conhecido também como inventor da fotografia no Brasil, radicado anos depois em Campinas –, o astrônomo da marinha russa Rubtsov e o biólogo alemão Luiz Riedel. Lansgdorff iniciaria a viagem em Minas Gerais avançando pelo interior de São Paulo, sempre navegando rios, dividido em dois grupos a expedição chegaria ao Mato Grosso e à Amazônia, mas, devido à morte do desenhista Adriano Taunay e a enfermidade do barão, a expedição regressaria desde Belém do Pará até o Rio de Janeiro através da costa brasileira sob o comando do jovem Hércules Florence cujo diário de viagem seria publicado pelo IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – sob o título de “Esboço da viagem do Sr. Langsdorff no interior do Brasil”.

Outro conhecido artista viajante que chegou com expedição Langsdorff mas não prosseguiu com ela permancendo no Brasil entre os anos de 1821 a 1825, foi o pintor alemão Johann Moritz Rugendas que retrataria de maneira singular e detalhada os usos e costumes do povo brasileiro em sua obra “Viagem Pitoresca ao Brasil”.

Em 1816 chega ao Brasil o artista Jean-Baptiste Debret, que veio com a missão artística francesa para o Rio de Janeiro, permanecendo até 1931 quando retornou à França e publicou “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, traçando além dos aspectos da natureza, do homem e da sociedade brasileira no início do XIX, um retrato do cotidiano brasileiro.

Dentre tantos homens, por fim uma mulher, Lady Maria Dundas Graham Callcott, conhecida como Maria Graham, viajou para o Brasil em três ocasiões, permancendo de 1821 à 1826 como preceptora da princesa D.Maria da Glória filha de D.Pedro I do Brasil, de onde se ausentou por pouco tempo para viajar à Londres e publicar entre outras coisas o livro “Diário de uma Viagem ao Brasil, e residência lá, durante os anos 1821, 1822 e 1823”, com textos e ilustrações próprias.

Desde a abertura dos portos brasileiros por Dom João VI em 1808, o país teve um aumento considerável no número de estrangeiros, tanto viajantes quanto imigrantes, que atraídos pelo Novo Mundo ou em busca do seu próprio Eldorado, se lançaram rumo ao exótico destino: o sedutor país tropical chamado Brasil que povoado por índios nus e canibais e, toda sorte de animais e plantas tomava conta do imaginário europeu num misto de paraíso e inferno.

E por falar em Eldorado, já no século XX o legendário e experiente explorador inglês – antropólogo e militar – Percy Harrison Fawcett, desapareceu misteriosamente enquanto buscava o que chamou de Cidade Z, uma cidade perdida no coração da Amazônia brasileira, mas precisamente na Serra do Roncador entre Mato Grosso e Pará, juntamente com o filho Jack Fawcett e o amigo Raleigh Rimmell, em maio de 1925. O coronel Fawcett já havia estado na Amazônia anteriormente, realizou expedições entre 1906 e 1924 mapeando a região num trabalho para a Real Sociedade Geográfica de Londres, pesquisando a fauna e a arqueologia local, mas deixou claro antes de partir que se não retornasse, que nenhuma outra expedição fosse empreendida com motivo de encontrá-lo, porém seu desaparecimento iniciou uma febre de expedições, homens em busca de alguma glória também sucumbiram, George Miller Dyott que em 1928 se salvou por milagre de um ataque indígena, Albert de Winton desapareceu em 1933 e muitas outras foram as expedições - alemães, italianas, russas e argentinas – que também pereceram na selva amazônica em busca de uma Atlântida, uma Tartessos.... um Eldorado americano.

Apesar das tragédias, há uma vasta produção literária e artística legada por esses intrépidos homens e mulheres viajantes que como já mencionei serve de fonte para as mais variadas áreas do conhecimento, obviamente há muita linguagem empolada como o próprio von Martius observou quando escreveu o tratado de “como escrever a história”, mas há que se considerar que essas são produções de outros tempos e contextos históricos diferentes, ainda assim há coisas muito interessantes e divertidas para ler e ver, só temos que embarcar nessa viagem iniciática onde esses Homens serão nossos olhos, compartilhando conosco suas viagens através das experiências, do conhecimento e sensações apontadas em seus relatos.

Boa viagem!


Para saber mais:
-Imaginário e viajantes no Brasil do século XIX: cultura e cotidiano, tradição e resistência de José Carlos Barreiro.
-Andanças pelo Brasil colonial: Catálago comentado (1503-1808) de Jean Marcel Carvalho França e Ronald Raminelli.
-Viajantes: a paisagem vista por outros olhos de Leonardo D. Silva.
-O Brasil dos Viajantes de Ana Maria Belluzzo.
-O Enigma do Coronel Fawcett: O Verdadeiro Indiana Jones de Hermes Leal.
-Duas Viagens ao Brasil de Hans Staden (traduzido por Angel Bojadsen).

Acesse os links:
http://www.itaucultural.org.br/viajantes/inicio.html

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/-viajantes_viam_um_brasil_degenerado-.html

Comentários

  1. Viajei e vou retornar.
    Quero saber de cor e salteado.
    Que aula boa!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Obrigada pela visita e comentário. Em breve seu comentário será publicado.

Postagens mais visitadas