sexta-feira, 28 de maio de 2010

Aviso aos Navegantes.

Esses dias estarei off, não haverá novas postagens até que eu organize minhas coisas em casa, isso mesmo estou voltando para S.Paulo, de onde pretendo seguir contando histórias, impressões, descobertas, compartilhando um pouco desse roteiro chamado vida, como sugeri o blog. Confesso ficar imensamente feliz quando um amigo comenta ou me manda um e-mail falando do que encontra por aqui e a surpresa se estende quando um desconhecido comenta ou passa a seguir o blog, como tenho dito, escrever é um exercício prazeroso, ademais de aprendizado e companhia quando estamos longe dos nossos, nos faz interagir com o mundo. Logo estarei por aí (e por aqui também).


Obrigada pela visita!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Mais uma de amor!

"(...) Amar não é ter que ter
Sempre certeza
É aceitar que ninguém
É perfeito prá ninguém
É poder ser você mesmo
E não precisar fingir
É tentar esquecer
E não conseguir fugir, fugir...

Agora o que vamos fazer
Eu também não sei
Afinal, será que amar
É mesmo tudo?
Se isso não é amor
O que mais pode ser?
Tô aprendendo também...(...)"


Tô indo, mas... o meu amor será sempre teu!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

¡Hondarribia, vamos de pintxos!

Terrazas da San Pedro Kalea

No meu último fim de semana em Euskadi, escolhi despedir-me conhecendo um pouco mais dessa comunidade autonoma da Espanha, que de espanhola não tem muito, como se auto proclamam: são bascos e têm isso muito claro desde criança, falando euskera, ostentando a bandeira basca em suas janelas, conservando suas tradições e costumes, praticando esportes rurais tipicamente bascos, mas... me pergunto: nas Olímpiadas, nas Copas do Mundo de Futebol, nas corridas de F1 para quem torcem? Deixa pra lá, isso não vem ao caso, é pura provocação, até porque o esporte e a música sempre serviram para promover a união e fraternidade entre “as gentes”. Voltando à Hondarribia, é uma cidade que faz fronteira com a França, na realidade é uma localidade banhada pelo mar cantábrico e a Bahia de Txingudi, formando a desembocadura do rio Bidasoa que separa a parte basca em território espanhol da parte basca em território francês, a localidade de Hendaya. Um lugar de clima agradável, entorno muito bem cuidado, com barcos e veleiros passeando pela bahia e um monumental centro histórico que remonta do período medieval quando a cidade era um próspero porto comercial, mas o destaque desse meu passeio de fim de semana foi sem dúvida alguma a gastronomia. Conhecida por sua cozinha internacional o País Vasco nos leva a cometer o pecado da gula sempre que salimos de pintxos ou como é comum no norte da Espanha salir de poteo isto é: sair de bar em bar, nos fins de semana ou feriados, com um grupo de amigos para tomar vinhos e experimentar alguma delícia da cozinha tradicional ou de autoria antes do almoço ou do jantar, que normalmente ocorre mais tarde do que nós brasileiros estamos acostumados, assim que... na hora de almoçar ou jantar já tomamos umas quantas taças de vinho e experimentamos uns quantos pintxos também e... foi assim meu último fim de semana por aqui, acompanhado de muito sol, vinhos e exquisitos sabores da premiada gastronomia hondarribitarra. Começamos por umas bolas de carne picante, eu provei uma espécie de canudinho de camarão que estava para lá de bom acompanhado de um vinho crianza, Joseba preferiu um pintxo à base de polvo, depois de potear um pouco resolvemos ir para pousada para echar una siesta, saímos novamente por volta das 7 horas da tarde com um sol que parecia não querer ir embora, paramos para tomar uma manzanilla (chá de camomila) e seguimos do centro histórico para a região próxima da bahia e do porto de Hondarribia, depois de uma caminhada seguimos para a San Pedro Kalea – uma rua no centro da cidade - onde os bares e suas terrazas (mesas na calçada) já estavam cheios de poteadores. Entramos aleatoriamente na Ardoka Vinoteka e confesso que não queria mais sair, um lugar agradável, com formas e cores mordenas, vinhos para todos os gostos e culinária de autor de beleza e sabor inesquecíveis, queria provar tudo...risos. Começamos por um arroz meloso con hongos y foie, depois bacalao confitado con crema de marisco e provamos também taco de vaca con hongos e idiazabal, tudo regado com um bom tinto de La Rioja, todos esses pintxos cuidadosamente preparados, uma beleza de ver e comer. Em seguida estivemos em outros bares, provei tantos pintxos que não sobrou espaço para jantar, mas ainda tinha o domingo e como não havia experimentado um postre (sobremesa) do Ardoka, voltaria com certeza. Hondarribia é muito frequentada por franceses, melhor dizendo os bascos que vivem do outro lado do rio Bidasoa, afinal comer – e muito bem –, encher o tanque de combustível e passar um fim de semana agradável é mais barato no lado espanhol, apesar da moeda ser a mesma, mas há turistas de todas as partes, assim como e imigrantes, em especial argentinos. No domingo tomamos nosso café na terraza do Hotel San Nicolas, próximo do Parador de Hondarribia, uma castelo construído no século X, cuja vista privilagiada da Bahia de Txigundi é um incentivo para começar bem o dia, logo seguimos a Plaza Mayor para um festival local de corais, a música é levada a sério pelos moradores da localidade, cerca de 20 corais no programa, ouvimos um pouco e em seguida fomos passear pela margem da bahia e de novo para a San Pedro Kalea, que ademais de lojas, restaurantes de bares com suas terrazas, também está ladeada de plátanos, árvore comum aqui no norte. Paramos em uma dessas terrazas, fazia muito calor, encontramos uma mesa à sombra e resolvemos comer uma salada mista e uma prato a base de bacalhau – a maneira como preparam o bacalhau aqui é bem distinta de como costumamos comer no Brasil, assim como em Portugal –, mas é tão bom quanto, tomamos vinho e água. Em seguida adivinhem onde eu quis ir para a sobremesa? Ardoka Vinoteka, onde fechamos com chave de ouro esse passeio gastronômico por Euskadi, pedimos vinho, provamos o salmorejo cordobés, melhor pedida em dias de calor – assim como o gaspatxo, típicos do sul da Espanha – e em seguida uma torrija con helado que é um verdadeiro manjar dos deuses, Joseba como de costume tomou seu cortadito descafeinado, coisa que recusei, queria manter o sabor da torrija em minha boca por mais tempo, depois dela só água. Eu sempre digo que há muitas maneiras de viajar: cinema, livros, artes, mas não podemos esquecer a culinária, pois é ao redor da mesa que as conversas decisivas ou despretensiosas acontecem e é através dos sentidos, neste caso, visão, olfato e paladar que fazemos viagens para lá de deliciosas. Eu que sempre faço uma verdadeira “salada” para contar minhas “viagens” misturando cinema, literatura e agora a recente descoberta dos sabores gastronômicos bascos, recomendo alguns filmes que mostram bem a viagem sensorial que se faz através dos alimentos, da comida, da culinária, da cozinha ou da gastronomia como cada um queira chamar.

Bom apetite, ops! Quero dizer... Boa Viagem!

- A Festa de Babette de Gabriel Axel (Dinamarca, 1987)
- Como Àgua para Chocolate de Alfonso Arau (México, 1992)
- O Tempero da Vida de Tassos Boulmetis (Grécia – Turquia, 2003)
- Ratatouille de Jan Pinkava e Brad Bird (EUA, 2007)
- Estomago de Marcos Jorge (Brasil – Itália, 2007)
- Vatel – Um Banquete Para o Rei de Rolland Joffé (França - Reino Unido, 2000)
- Sideways – Entre Umas e Outras de Alexander Payne (EUA, 2004)
- A Grande Noite de Stanley Tucci e Campbell Scott (EUA, 1996)
- Julie & Julia de Nora Ephron (EUA, 2009)


** Na foto central: pintxos do Bar y Restaurante Rafael, Ardoka Vinoteka y Goxodenda, todos em la San Pedro Kalea, Hondarribia. (fotos by Meg Mamede)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Brasil, meu Brasil brasileiro.


Sai para tomar meu café e ler os jornais como de costume, mais uma vez dou de cara com o Brasil, esse gigante têm sido presença constante por aqui. Eu que sempre enchi a boca pra dizer que sou brasileira, apesar dos rótulos, imagino não ter escolhido melhor momento para retornar à “terra das palmeiras”. Razão tinha Gonçalves Dias “as aves daqui nao gorjeiam como as daí” porém “as gentes” de todas as partes esforçam-se para cantar o Brasil e mostrar um pouco da alegria natural que faz dos brasileiros um povo singular. Ao abrir meus e-mails deparo com vídeo de 2008 de Aquarela do Brasil nas vozes do Perpetuum Jazzile feat(da Eslovênia) & BR6 enviado pelo amigo Ricardo de BH, sem vergonha de parecer piegas confesso que me emocionei.



Para ler a matéria do jornal El País acesse:
http://www.elpais.com/articulo/economia/Brasil/pais/serio/camino/retorno/elpepieco/20100520elpepieco_6/Tes#

E mais:
http://www.elpais.com/especial/alianza-nueva-economia-global/

Site oficial do Perpetuum Jazzile: http://www.perpetuumjazzile.si/

Site oficial do BR6: http://www.vocalbr6.com/

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Arrumando as malas II.

E agora que a partida é próxima e a chegada também,
só me resta o tempo,

Esse mesmo que me faz Senhora de mim e dona de nada,


Deixo um pouco de mim e levo algo do outro,

Como o filho pródigo que à casa sempre retorna,

Volto para o ponto de partida,

E... se o tempo for meu cúmplice,

Muitas outras partidas e chegadas terei!


Monólogo final do filme Lavoura Arcaica na voz de Raul Cortez, baseada em obra homônima de Raduan Nassar

terça-feira, 18 de maio de 2010

Traduzindo português para português.

Como já contei aqui, passei uns meses em Portugal, primeiro estive em viagem de férias – Évora, Lisboa, Cascais, Sintra, Nazaré, Aveiro, Porto, Bussaco, Coimbra – de volta à Lisboa tentei, juro que tentei me adaptar. Queria estudar, ingressei numa pós da Universidade Católica Portuguesa, buscava algo na área de museus e patrimônio ou história cultural, eis que surge de última hora a possibilidade de cursar relações culturais internacionais. O fato é que iniciado o curso, ainda nos primeiros meses, percebi que apesar do “culturais” inserido no nome da pós o programa estava mais voltado para as questões das relações internacionais que não é bem lá minha área de interesse, além do que fiquei doente, me senti só, senti falta do meu amor e acredite falava português, mas... como me avisou a amiga Talita, não comunicava, tudo isso me desanimou demasiado. Trocando em miúdos, falando a mesma língua mas não fazendo comunicação, foi difícil a integração (até rimou), por isso voltei para Espanha e daqui toco pro Brasil em duas semanas. Uma vez, numa conversa escutei uma grande tolice de um português, que com arrogância e um tom acusador afirmou: “vocês brasileiros estragam a língua portuguesa!”. O portuga em questão, deve ter esquecido que a língua é viva e está sujeita a mudanças que nem eles mesmos conseguiram evitar, tanto é assim que alguns estudiosos afirmam que o português mais puro ou mais próximo da sua origem é o falado, surpreenda-se, em alguns lugares do nordeste brasileiro, isso quem comentou foi uma professora da UCP, eu não saberia dar mais detalhes, de qualquer maneira vale lembrar que o mundo lusófono hoje é composto de números entre 200 e 240 milhões de pessoas. O português é a sexta língua mais falada do planeta (terceira entre as línguas ocidentais, depois do inglês e o castelhano), é a língua oficial de sete países: Angola (17 milhões de habitantes, 2007), Brasil (190 milhões, 2008), Cabo Verde (450 mil, 2002), Guiné Bissau (1,4 milhão, 2006), Moçambique (20 milhões, 2007), Portugal (10,5 milhões, 2008) e São Tomé e Príncipe (157 mil, 2005), além de ser falada em outros lugares como Macau na China, ou seja, haja sotaques e variações quanto à pronúncia, a gramática e o vocabulário. A coisa se passou assim, do descobrimento até meados do século XVIII a língua tupi-guarani que até então era falada no Brasil juntamente com o português, foi proibida, mas algumas palavras do léxico tupi-guarani foram incorporadas ao português, em geral nomes de animais, plantas, geografia, etc, e com a chegada dos escravos trazidos da África, outras contribuições foram acrescidas, em especial da cultura iorubá – oriundos da Nigéria – e do quimbundo da Angola, criando uma forma “creola” de falar. Enquanto isso a ex-metrópole absorvia alguma influência francesa distanciando-se do português da colônia que ironicamente estava mais próximo das raízes e dos “modos” de falar dos primeiros portugueses que aqui estiveram. Sendo o Brasil um país de dimensões continentais e tendo recebido correntes migratórias de origens distintas e distribuídas pelo país, não há como não perceber essas influências na língua portuguesa falada aí. Veja: o português sai da sua terra, atravessa os oceanos, estabelece-se em outros rincões transformando-os em suas colônias, impõe suas leis, vontades e credo entre outras coisas, e depois diz que nós é que alteramos a língua deles? Ora, pois! De facto há algo errado nessa história, mas não se trata da língua e nem da forma como o brasileiro, o angolano ou o moçambiquenho a emprega, o que está errado é a forma de pensar de alguns portugueses em relação às ex-colônias. Para descontrair sem mudar de assunto deixo algumas palavras e expressões que me soaram tão curiosas quanto engraçadas.

- Deitar no caixote. Se você pensou em morrer, errou. Significa: Jogar o lixo na lixeira.
- Isso é fixe! Ou Que fixe! Não se trata de nenhuma expressão nordestina adotada por um luso. Significa: Isso é legal, bacana, maneiro.
- É muito gira! ou Que Giro! Não tem nada rodando não. Significa: Bonito, elegante, legal, massa, irado, depende de como é empregado.
- Comboio: Trem
- Autocarro: Ônibus
- Eléctrico: Bonde.
- Bicha. Não é o que você pensou, é uma fila. Inclusive você pode dizer que está “no rabo da bicha, esperando um cacete ou para tomar uma pica no cu” que ninguém vai estranhar. Significa que você está no fim da fila esperando um pão francês ou ainda, para tomar uma injeção na bunda, claro!
- Écran: Tela de TV ou monitor do computador (que lindo!!).
- Telemóvel: Não se trata de uma tv com mais mobilidade, é apenas um celular.
- Cueca: Calcinha de mulher.
- Quarto ou casa de banho: banheiro.
- Passadeira: faixa de pedestre.
- Guarda-fatos: Se você pensou num álbum de fotos ou algo parecido, errou. Signfica: Guarda-roupas.

Etc, etc, etc.

Pra terminar quero dizer que “gostei imenso” de viajar e conhecer um pouco mais Portugal, mas... o pá!! não troco meu Brasil por nenhum outro lugar do mundo.

Nota: Os números populacionais aqui citados foram extraídos de outros sites e mesmo não sendo exatos, servem como estimativa.


Saiba mais sobre o novo acordo ortográfico da língua portuguesa acessando:
www.livrariamelhoramentos.com.br/Guia_Reforma_Ortografica_Melhoramentos.pdf


Livro que recomendo:
Portugal traduzido: abecedário de reflexões de John Wolf.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Cristóbal Balenciaga no Museo de Bellas Artes de Bilbao.

Cristóbal Balenciaga em "El diseño del Límite" no Museo de Bellas Artes de Bilbao.

Próximo do dia internacional dos museus – 18 de maio – andei refletindo sobre a resignificação e apropriação dos museus nos dias atuais. Acabei de ver no Museu de Belas Artes de Bilbao, entre arte sacra, pinturas, esculturas e retrospectiva fotográfica de Alberto Shommer (1952-2009), a exposição intitulada “El diseño del límite” nada mais nada menos que 35 peças de alta costura de Cristóbal Balenciaga (1895-1972) supensas no ar, algumas delas circundadas por um fino fio de luz, outras em vitrines ovaladas que lembram filmes futuristas, sem manequins ou outro tipo de sustentação as roupas têm vida própria e cobram protagonismo pelos corredores e espaços que ocupam, num projeto museográfico que contempla a beleza das formas e cores. Balenciaga nasceu em Getaria / Gipuzkoa, nome basco reverenciado no mundo da moda, representando muito bem sua terra natal. Começou bastante cedo, filho de pai pescador e mãe costureira, com somente 13 anos copiou um vestido da marquesa de Casa Torres, que se tornaria sua mecena enviando-o à Paris para formar-se em alta costura. Em 1913 abriu seu próprio atêlie em San Sebastian, em seguida Barcelona e Madri, para em 1937 entrar de vez no cenário internacional da moda abrindo sua casa de alta costura no número 10 da avenida George V em Paris. Lendo comentários e notícias sobre a exposição deparei com artigo interessante do jornal Deia, publicação de Bilbao, do qual destaco o seguinte trecho: “Cuando en 1973 el Metropolitan de Nueva York mostró la retrospectiva El mundo de Balenciaga, muchos se llevaron las manos a la cabeza porque la moda había llegado a los museos. El mismo museo celebró en 1983 la polémica exposición Yves Saint Laurent y más adelante las muestras dedicadas a Versace y Dior. Hoy en día la mayoría de los gurús de la moda, como YSL, Balenciaga, Pertegaz, Prada y Armani, han tenido su retrospectiva. En el Guggenheim Bilbao, 400 diseños del modisto italiano Giorgio Armani compartieron techo en 2001 con las obras de Richard Serra, Robert Morris, Richard Long y Kandinsky. Y es que si el cine es el séptimo arte, para muchos la moda es el octavo, una faceta más de la cultura y el arte contemporáneo” (…). A moda como arte e, por que não nos museus? Verdade seja dita, os objetos têm e fazem história, assim como seus criadores, sejam eles artesãos, pintores, escultores, fotográfos e costureiros ou estilistas de moda, Balenciaga por exemplo era reconhecido pela beleza geométrica dos cortes e por seu conhecimento dos tecidos e harmonia cromática – isso me lembrou as aulas de cubismo e fauvismo, onde as formas e cores são os principais elementos na composição estética –. O artista Balenciaga era chamado de “o arquiteto da alta costura” e segundo os organizadores da exposição liberou o corpo de mulher das ataduras da velha moda, elevando a alta costura à categoria de arte. Chanel o respeitava, enquanto Dior professava sua grande admiração, entre as clientes mais fiéis e habituais figuravam as atrizes Marlene Dietrich e Ingrid Bergman. O homem hermético, reservado e grande artista Balenciaga inspiraria nomes como: Hubert de Givenchy, Oscar de la Renta e Emanuel Ungaro, estrelas da moda responsáveis por vestir as estrelas da 7ª Arte. No mundo contemporâneo há espaço para tudo e para todos, inclusive nos museus, para mim os fins justificam os meios, afinal muitos museus sofrem com a falta de visitas, com uma exposição diferenciada é possível atrair visitantes distintos do habitual, aumentando a frequência e diversificando o público, dessa maneira é possível também desempenhar seu papel por excelência e que por definição segundo o ICOM é o de “uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberto ao público, e que adquire, conserva, estuda, comunica e expõe testemunhos materiais do homem e do seu meio ambiente, tendo em vista o estudo, a educação e a fruição”, assim a resignificação dos museus e a apropriação dos seus espaços, seja pelo artista/objeto, seja pelo público é o que legitima a existência dessas instiuições, garantindo a preservação da memória e história de um determinado grupo e/ou sociedade, bem como, o incentivo e manutenção do ócio cultural.

A exposição “El diseño del límite” de Cristóbal Balenciaga poderá ser vista no Museo de Bellas Artes de Bilbao de 10/5 à 26/9/2010. Vale a pena ver.

terça-feira, 11 de maio de 2010

De Atlântida ao Eldorado: o sonho dos viajantes de outrora.

"Soldados e Indios de Mogi das Cruzes" - 1834 - de Jean Baptiste Debret

O que leva o Homem a buscar o desconhecido? Nos séculos passados, naturalistas, botânicos, pintores, desenhistas, cartógrafos, antropólogos e outros especialistas foram responsáveis juntamente com os idealizadores e financiadores de expedições que partiram da Europa rumo à África, Ásia e América de alimentar o imaginário humano. Para nós americanos, mais precisamente latino-americanos, os relatos fantásticos iniciam-se justamente com os descobrimentos e a colonização espanhola e portuguesa de parte do continente, pode haver relatos anteriores a esse período, mas é a partir desse marco que gostaria de comentar.

No caso do Brasil, as expedições iniciam-se com a chegada dos portugueses, a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel trata-se do primeiro relato, em forma de crônica, que popularmente conhecemos ainda nos primeiros anos da educação formal. Posteriormente e logo após seu descobrimento, entre os anos de 1501 e 1503, o Brasil terá duas expedições exploratórias do território, ambas vindas de Lisboa com a intenção de verificar a existência de pau-brasil ao longo da costa brasileira e fechar acordos comerciais para a cobiçada madeira de cor avermelhada utilizada na manufatura têxtil européia, entre os nomes que estiveram explorando o litoral brasileiro nesse período estão Gaspar de Lemos, Américo Vespúcio e Fernando de Noronha. Já nos anos de 1516 a 1526 as expedições teriam outro objetivo, a de proteger o litoral brasileiro do contrabando de pau-brasil por parte dos franceses, contudo essas missões militares não tiveram muita eficácia no combate ao tráfico ílicito da madeira devido a longa extensão litorânea do país.

Passado alguns anos o alemão Hans Staden, que em sua segunda viagem ao Brasil foi capturado pelos índios tupinambás no litoral paulista, seria um dos responsáveis pela imagem exótica e antropofágica atribuida ao Brasil, fruto do relato de Staden publicado em 1557 por Andres Colben intitulado “Duas viagens ao Brasil” que serviu também como fonte para estudiosos de várias áreas.

Entre o século XVI e o inicio do XVII os franceses tentaram por mais de uma vez estabelecer-se em algumas regiões do país atraídos pelo comércio do pau-brail – Recife, Rio de Janeiro, Ceará e Maranhão – apesar de aliados a tribos indígenas como os tamoios ou tupinambás no Rio de Janeiro, os franceses foram derrotados pelos portugueses e expulsos dessas regiões.

Ainda no século XVII os holandeses também tentaram estabelecer-se em terras brasileiras empreendendo expedições e algumas delas, como as de van Noort e van Spielbergen fracassaram em seu intento, porém é no Recife que Johan Maurits van Nassau-Siegen, conhecido pelos brasileiros como Mauricio de Nassau, foi administrador de 1637 a 1644, período em que o domínio holandês em terras brasileiras conheceu seu auge, pois o humanista Nassau fez mais que comercializar açúcar, traçou o plano urbanístico da cidade e incentivou as ciências e as artes, vieram com ele os pintores Frans Post e Albert Eckout, além de Willen Piso e Georg Marggraf que juntos escreveriam o primeiro trabalho de cunho médico-científico sobre a natureza brasileira, intitulado “Historia Naturalis Brasiliae” publicado em 1648 em Amsterdã.

No inicio do século XIX, mais precisamente no ano de 1809, o viajante Henry Koster nascido em Lisboa e de origem inglesa, desembarca em Recife para curar-se de uma tuberculose, onde posteriormente se estabeleceria, uma vez recuperado empreende viagens por todo o nordeste brasileiro, de Recife à Paraíba, passando pelo Ceará e depois do Recife ao Maranhão de onde em 1811 viajaria à Inglaterra retornando ao Brasil no mesmo ano e, em 1815 novamente na Inglaterra escreveria um livro sobre o Brasil, publicado em 1816 intitulado “Viagens ao nordeste do Brasil”, retornando ao Recife faleceria em 1820.

De 1817 a 1820 tivemos a visita de viajantes que influenciaram várias áreas do conhecimento, o material produzido pelos alemães Carl Friedrich Philipp von Martius e Johann Baptiste von Spix conhecido por “Viagem pelo Brasil 1817-1820” serviria não somente para o estudo da botânica ou da história natural, mas também para a geografia, antropologia e linguística. Já o austríaco Thomas Ender, se tornaria conhecido como o pintor viajante que retratou em suas aquarelas cenas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Ainda no XIX outros curiosos viajantes passaram pelo Brasil, a expedição Lansgdorff, organizada pelo barão alemão naturalizado russo, Georg Heinrich von Langsdorff duraria de 1824 a 1829 e juntamente com o Barão viriam os desenhistas franceses Adriano Taunay e Hércules Florence – conhecido também como inventor da fotografia no Brasil, radicado anos depois em Campinas –, o astrônomo da marinha russa Rubtsov e o biólogo alemão Luiz Riedel. Lansgdorff iniciaria a viagem em Minas Gerais avançando pelo interior de São Paulo, sempre navegando rios, dividido em dois grupos a expedição chegaria ao Mato Grosso e à Amazônia, mas, devido à morte do desenhista Adriano Taunay e a enfermidade do barão, a expedição regressaria desde Belém do Pará até o Rio de Janeiro através da costa brasileira sob o comando do jovem Hércules Florence cujo diário de viagem seria publicado pelo IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – sob o título de “Esboço da viagem do Sr. Langsdorff no interior do Brasil”.

Outro conhecido artista viajante que chegou com expedição Langsdorff mas não prosseguiu com ela permancendo no Brasil entre os anos de 1821 a 1825, foi o pintor alemão Johann Moritz Rugendas que retrataria de maneira singular e detalhada os usos e costumes do povo brasileiro em sua obra “Viagem Pitoresca ao Brasil”.

Em 1816 chega ao Brasil o artista Jean-Baptiste Debret, que veio com a missão artística francesa para o Rio de Janeiro, permanecendo até 1931 quando retornou à França e publicou “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, traçando além dos aspectos da natureza, do homem e da sociedade brasileira no início do XIX, um retrato do cotidiano brasileiro.

Dentre tantos homens, por fim uma mulher, Lady Maria Dundas Graham Callcott, conhecida como Maria Graham, viajou para o Brasil em três ocasiões, permancendo de 1821 à 1826 como preceptora da princesa D.Maria da Glória filha de D.Pedro I do Brasil, de onde se ausentou por pouco tempo para viajar à Londres e publicar entre outras coisas o livro “Diário de uma Viagem ao Brasil, e residência lá, durante os anos 1821, 1822 e 1823”, com textos e ilustrações próprias.

Desde a abertura dos portos brasileiros por Dom João VI em 1808, o país teve um aumento considerável no número de estrangeiros, tanto viajantes quanto imigrantes, que atraídos pelo Novo Mundo ou em busca do seu próprio Eldorado, se lançaram rumo ao exótico destino: o sedutor país tropical chamado Brasil que povoado por índios nus e canibais e, toda sorte de animais e plantas tomava conta do imaginário europeu num misto de paraíso e inferno.

E por falar em Eldorado, já no século XX o legendário e experiente explorador inglês – antropólogo e militar – Percy Harrison Fawcett, desapareceu misteriosamente enquanto buscava o que chamou de Cidade Z, uma cidade perdida no coração da Amazônia brasileira, mas precisamente na Serra do Roncador entre Mato Grosso e Pará, juntamente com o filho Jack Fawcett e o amigo Raleigh Rimmell, em maio de 1925. O coronel Fawcett já havia estado na Amazônia anteriormente, realizou expedições entre 1906 e 1924 mapeando a região num trabalho para a Real Sociedade Geográfica de Londres, pesquisando a fauna e a arqueologia local, mas deixou claro antes de partir que se não retornasse, que nenhuma outra expedição fosse empreendida com motivo de encontrá-lo, porém seu desaparecimento iniciou uma febre de expedições, homens em busca de alguma glória também sucumbiram, George Miller Dyott que em 1928 se salvou por milagre de um ataque indígena, Albert de Winton desapareceu em 1933 e muitas outras foram as expedições - alemães, italianas, russas e argentinas – que também pereceram na selva amazônica em busca de uma Atlântida, uma Tartessos.... um Eldorado americano.

Apesar das tragédias, há uma vasta produção literária e artística legada por esses intrépidos homens e mulheres viajantes que como já mencionei serve de fonte para as mais variadas áreas do conhecimento, obviamente há muita linguagem empolada como o próprio von Martius observou quando escreveu o tratado de “como escrever a história”, mas há que se considerar que essas são produções de outros tempos e contextos históricos diferentes, ainda assim há coisas muito interessantes e divertidas para ler e ver, só temos que embarcar nessa viagem iniciática onde esses Homens serão nossos olhos, compartilhando conosco suas viagens através das experiências, do conhecimento e sensações apontadas em seus relatos.

Boa viagem!


Para saber mais:
-Imaginário e viajantes no Brasil do século XIX: cultura e cotidiano, tradição e resistência de José Carlos Barreiro.
-Andanças pelo Brasil colonial: Catálago comentado (1503-1808) de Jean Marcel Carvalho França e Ronald Raminelli.
-Viajantes: a paisagem vista por outros olhos de Leonardo D. Silva.
-O Brasil dos Viajantes de Ana Maria Belluzzo.
-O Enigma do Coronel Fawcett: O Verdadeiro Indiana Jones de Hermes Leal.
-Duas Viagens ao Brasil de Hans Staden (traduzido por Angel Bojadsen).

Acesse os links:
http://www.itaucultural.org.br/viajantes/inicio.html

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/-viajantes_viam_um_brasil_degenerado-.html

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Relatos de viagem: minha nova paixão.

A cada dia que passa quero mais e mais ler as histórias e impressões relatadas pelos mais diversos viajantes deste ou de outros tempos, gente intréprida que por diferentes motivos deixou tudo, ou nada, para trás e lançou-se ao estimulante mundo das viagens, como costumo dizer físicas ou metafísicas, reais ou fictícias, especialmente aqueles que na literatura encontraram uma maneira de fazer com que outras pessoas viajem também, seja através de relatos, novelas, crônicas, personagens ou imagens. Li parte da lista de livros que indico aqui no blog em “livros para viajar”, além de resenhas e comentários sobre algumas das obras, quantos aos autores, alguns deles dispensam apresentação, são universais. Mas é da nova geração de autores que gostaria de destacar um nome: Andrés Neuman, argentino de Buenos Aires, radicado em Granadá onde foi professor de literatura hispano-americana, publicou seu primeiro livro Bariloche aos 22 anos. Lendo El viajero del siglo de Neuman, viajo no tempo e espaço como se estivesse em outra dimensão, cada detalhe da imaginária Wandernburgo e seus habitantes, situada numa Alemanha do XIX – pós-napoleônica – seus habitantes, suas ruelas, seus hábitos e esquisitices me fazem refletir sobre o que nos leva a ficar ou não em determinados lugares. Por que o viajante é como é? Nômade, passageiro, inquieto, passante, um flâneur. O que os move? O que os faz ficar ou partir? Como vêem o outro e a si mesmos? Enquanto Hans vai descobrindo o lugar, as pessoas e o amor, estendendo sua estada sem se dar conta de porque exatamente ficou, lembro da minha própria história aqui em Orduña, com suas ruas estreitas e casas antigas, a estranhice das gentes à primeira vista, ah! e o amor... claro, mas isso é outra história. El viajero del siglo é um diálogo entre a Europa da restauração e os planos de uma União Européia futura, entre a literatura clássica e a moderna, uma visão atual de um passado onde a globalização e todos os temas contemporâneos se fazem presentes em uma argumentaçao cativante. Terminado este que venha o próximo Como viajar sin ver onde o próprio Neuman se converte em personagem, relatando suas experiências e impressões ao largo de uma viagem por 19 países da América Latina e Miami, viagem comparada "como una versión brutal de esos viajes programados, de la modalidad más habitual del turismo contemporáneo", para promover o outro viajante: El viajero del siglo, obra premiada do autor. Essa vertiginosa viagem serviu como uma radiografia em tempo real da América Latina e inspirou o escritor em seu novo trabalho, segundo o qual “tenía una sensación casi mágica de que estaba haciendo záping con el espacio". Bem, sorte dos leitores, sorte a minha que após um período no Brasil pretendo seguir nova viagem e cujo destino coincidentemente será o continente americano, mas precisamente América do Sul e Cuba, ocasião na qual espero conhecer um pouco mais da cultura hispano-americana. Por hora me contento em alimentar meu afã com os relatos de viagem que encontro pelo caminho, para depois quem sabe concretizar o sonho de terminar o meu próprio.

Para saber mais sobre Andrés Neuman e seus livros acesse: http://www.andresneuman.com/

Outras viagens que podem interessar:

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