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Semana Santa na Espanha – Explosão Barroca.

Como acontece em muitas cidades brasileiras, entre as quais destaco a mineira Ouro Preto, a Semana Santa na Espanha é especialmente esperada. Com um valor para além do religioso, a Semana Santa é considerada em algumas cidades como sua festa maior, conferindo-lhes identidade e tradição, alimentado a fé, a cultura e o turismo, aquecendo os corações dos fiéis e as economias locais. Os lugares mais procurados pelo turista, seja espanhol ou estrangeiro, para conhecer essa festa em todo seu esplendor é certamente Sevilha e Málaga, porém se não todas, quase todas as cidades espanholas com suas irmandades religiosas, chamadas aqui de confradías, têm uma programação de procissões ou desfiles com os famosos “pasos” passagens bíblicas que encenam a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo e em sua grande maioria trazem peças de artistas barrocos, obras carregadas de toda a expressividade e dramaticidade peculiar do estilo. A Semana Santa espanhola, ademais de seu forte sentido catequético, tem um sentido didático, maneira encontrada pelos então reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão, para recuperar a expressão e a dimensão religiosa perdida após séculos de influência muçulmana. A partir do XVI as irmandades religiosas espanholas terão seus destinos marcados pela Reforma Protestante, o Concilio de Trento e a posterior Contra-Reforma Católica, que em contraposição ao protestantismo fomentou o culto às sagradas imagens com sentido duplo, além de marcar o credo professado, serviu de ferramenta na catequese da população que em sua grande maioria era analfabeta.

Na infância, as imagens em tamanho natural me causavam um certo medo, tinha a sensação que elas me observavam o tempo todo, na quaresma e Semana Santa as coisas pioravam, ver aquelas imagens vestidas e com perucas, imagens de roca vestidas para as procissões, os altares destituídos da costumeira decoração e cobertos com panos roxos, me causavam certa estranheza. As procissões das quintas e sextas-feiras santas eram sempre tristes, o cheiro de incenso mesclado com as velas queimadas, as orações e alguns cânticos entoados, somados ao choro de algum devoto, especialmente durante a Via Crucis, conferiam um ar de muito sofrimento aqueles dias, coisa que demorei a compreender, levei anos para apreciar altares e a arte sacra, em especial a arte barroca brasileira, para tanto foi necessário muitas viagens às cidades mineiras e visitas a igrejas e museus. Este ano, assisti as procissões da Semana Santa aqui em Orduña (norte da Espanha), vendo a procissão do "Santo Enterro" na sexta-feira santa, onde saem todos os pasos, não senti, nem vi a emoção que presenciei em procissões pelo Brasil, talvez porque não estive na Igreja ou envolvida com as práticas religiosas local. Nas ruas da cidade o que vi me pareceu algo mais figurativo, uma festa para turista ver, entre muitos nazaremos e alguns romanos o desfile levou pouco mais de 30 minutos para dar a volta pela praça e passar por algumas ruas da cidade, contudo, não posso deixar de mencionar a beleza de algumas peças, cujos autores desconheço. A celebração da Semana Santa em Orduña, começou em 1469, sendo uma das mais antigas de Vizcaya, a cargo do atual convento de Santa Clara, anteriormente, ermida de Santa Maria, possui elementos bastante representativos do patrimônio cultural local e desde 1676 a Santa Escola de Cristo tem levado com simplicidade e certa austeridade o evento, talvez por isso me pareceu uma celebração contida ou ainda, desprovida de emoção, se comparada ao que vi pela tv direto de Sevilha e Málaga, onde a Semana Santa apresenta imaginária religiosa de grande beleza e representatividade barroca. Em Sevilha, acompanhada do êxtase dos fiéis, que lutam por conseguir um bom lugar para ver de perto os pasos, a famosa “Macarena” Virgem mais popular da cidade, é recebida com gritos de ¡Guapaaa!. Segundo alguns historiadores da arte, em nenhuma outra cidade da Espanha se alcançou tanto esplendor barroco e a dimensão da capital Andaluz. Com um total de 58 procissões e 116 pasos, durante sete dias e noites estabelecem a cada ano novos recordes, num ambiente encantado, definido como uma “vertigem de incenso”. Assim como acontece no Brasil, nas cidades históricas de Minas Gerais, a maioria da imaginária religiosa barroca é feita em madeira policromada, buscando a sensibildiade popular e a expressividade, em geral os artistas trabalham para as irmandades religiosas (gremios y confradías), um trabalho que busca provocar a mais profunda emoção religiosa no espectador, com vestuário rico em detalhes e brilhos, cabelos naturais, olhos e lágrimas de vidro, numa teatralidade única a Semana Santa Espanhola é uma explosão barroca de encher os olhos e o coração.

(Fotos do Santo Enterro, Orduña 2010 - by Meg Mamede)

Comentários

  1. Pois é.
    Sem conservadorismos, entendo que a tradição é um meio de preservar valores.
    No Brasil, vemos isto no Norte, Nordeste e em Minas Gerais.
    Pelos outros cantos, a tradição é confundida - se há alguma que se possa chamar assim.

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  2. Oi Barbara, verdade que em alguns lugares a tradiçao nao se preserva, em outro sofre mudanças, ainda assim cada lugar tem sua história e algo para ser lembrado, uns mais outros menos. O Brasil têm muito para mostrar, disso nao tenho dúvidas. Abs.

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