quinta-feira, 15 de abril de 2010

Imigração - Os dois lados da moeda.



Não é fácil ser imigrante nos dias de hoje, acredito que nunca tenha sido, porém com crise econômica, aumento do terrorismo, políticas protecionistas, ressurgimento de movimentos nacionalistas – o que alguns já vêm como neo-facismo – e resquícios de um passado racista em determinados lugares do planeta, ser imigrante, sobretudo “sem papel” é um risco que nem todo mundo está preparado para correr. Quando digo preparado não me refiro somente aos recursos financeiros, até porque quem emigra na maioria das vezes, sai de seu país em busca de melhores oportunidades, trabalho, etc, uma nova vida e supostamente não deve ter lá muitos recursos, mas, possui algo que os outros, os que ficam, não têm, isto é; a coragem de lançar-se ao desafio seguindo rumo ao desconhecido e incerto, em outros casos a motivação vem da desesperança. É nesse momento, que o emocional fala mais alto, os vínculos existentes no “outro lugar”, o apoio dos que ficaram, a educação – me refiro aos valores e a formação recebida da família e as experiências de vida –, uma boa dose de auto-estima e equilíbrio são de grande importância na hora de iniciar essa empreitada.

Nesses dois anos vivendo na Europa – entre Espanha e Portugal – como já contei em outros artigos, fui testemunha ocular de como têm vivido e como têm sido tratados os imigrantes por aqui, inclusive, vivi eu própria um episódio bastante delicado devido a minha situação de indocumentada. Com o visto vencido para transitar ou permanecer no Espaço Schengen, arrisquei-me em uma viagem à Itália, planejava permanecer um tempo para estudar, no meio do caminho fui retida por falta de visto em vigor, ou ainda por não possuir autorização de residência ou trabalho, passei 12 longos dias num centro de retenção de imigrantes, na cidade de Toulouse na França – situação que suplantei com humildade, educação, uma boa dose de humor e muita sorte.

Na Europa há estereótipos como em todo lugar e eu seria hipócrita se dissesse que no Brasil não rotulamos as “gentes”, basta aprofundar-se um pouco mais na temática das fronteiras do território brasileiro, ver como o movimento migratório no norte do Brasil se dá. Grande parte dos imigrantes, são oriundos da Bolívia, Perú, Venezuela, Colômbia (países fronteiriços) e saem dos seus países atraídos pela possibilidade de trabalho na Zona Franca de Manaus ou por oportunidades na exploração florestal e mineração, para permanecer na clandestinidade, fora de qualquer levantamento estatístico e o que é pior, marginalizados por parte da sociedade. Em São Paulo a coisa não é diferente, apesar da metrópole ter recebido levas e levas de imigrantes em momentos distintos da sua história e de tê-los acolhido, os rótulos e preconceitos existem, o mais curioso é ver imigrante explorando imigrante, como o caso dos coreanos que contratam bolivianos para trabalhar nas confecções em condições nem sempre justas, reproduzindo assim a situação que eles mesmos enfrentaram quando chegaram à São Paulo.

Retornando ao Velho Mundo, logo que cheguei e nos primeiros meses, eu não compreendia muito bem esse movimento da sociedade anti-imigrante, esse rechaço por parte da população dos países europeus em relação aos que chegavam desde África, América do Sul, Leste Europeu ou Ásia, tão pouco era ou sou a favor de medidas drásticas ou leis mais contundentes como as aprovadas e colocadas em prática na Itália, porém também sei que alguns imigrantes colaboram de alguma maneira para que isso ocorra e, para dar somente um exemplo disso cito um artigo do jornal “20 minutos” uma publicação gratuita de Bilbao de 14 de abril cujo o titulo “Bilbao destapa cada vez más fraudes en el cobro de ayuda social” mostra bem para que vêm algumas pessoas, trocando em miúdos: a matéria trata da descoberta de mais de 1000 casos de fraude no recebimento de ajuda social dada pelo governo basco à imigrantes na cidade de Bilbao, gente que alega não ter condições de manter-se e recebe cerca de 700 euros da chamada Renta de Garantia de Ingresos ou entre 400 e 1800 euros das Ayudas de Emergência Social detalhe: muitos deles têm um emprego sem contrato, um pequeno negócio próprio (como ambulantes e sem o pagamento de impostos), tem casa (vivenda) paga pelo governo e alguns deles ainda mantêm seus filhos em escolas particulares, com isso o Ayutamento de Bilbao calcula ter desembolsado a quantia de cerca de 400.000 mil euros / mês para pagamento dos fraudulentos, cerca de 2,5 milhões de euros nos últimos dois anos – os números apresentados pela Diputación Foral de Vizcaya são de 7,5 milhões de euros para 11.500 famílias em conceito de renda básica e 14,5 milhões de euros para 10.300 que pediram ajuda para emergência social –. Como reagem os mais de 4 milhões de espanhóis desempregados, com suas hipotecas atrasadas entre outras coisas, quando lêem notícias como essa?

Verdade seja dita “Papagaio come o milho e o Periquito leva a fama”, mas, nem todos os imigrantes agem dessa forma, há muita gente honesta que trabalha muito para conquistar seu espaço e o respeito do “outro”. E há aqueles que desafortunadamente, não tendo quase nada a perder, acreditando que a Europa é o melhor lugar do mundo, o lugar das oportunidades, como foi a América há tempos atrás, deixa tudo e se lança à aventura das travessias – como os cubanos e mexicanos com destino aos EUA – no caso da Europa, em especial para Espanha e Itália, gente que chamou a atenção do jornalista basco Martín Aldalur (Zarautz, 1982) que acaba de lançar livro intitulado Clandestinos, cujo tema central é a migração africana que chega à Espanha em embarcações conhecidas por pateras ou cayucos, sem esquecer o passado, ele também lança um olhar sobre seu próprio país. Com mais de 300 depoimentos, traz a luz um processo complexo e carregado de prejuízo. Histórias de sofrimento e injustiças, mas acima de tudo, de superação, história de anônimos que deixaram tudo para trás para tentar alcançar as costas européias, para isso, Martin Aldalur viajou desde o Senegal até as Ilhas Canárias, Espanha, seguindo a rota dos imigrantes africanos, esses mesmos alegres senegaleses que costumo ver pelas ruas de Orduña, sempre com um sorriso no rosto transmitindo uma alegria natural independente das tristezas que carreguem. Além dos senegaleses, que não vivem em Orduña, mas que estão de passo vendendo alguns artigos como ambulantes, há outros grupos que tenho observado aqui, são eles os dos latino-americanos, hispanofalantes, em especial os equatorianos, um grupo específico que fala quéchua e são bastante fechados, relacionando-se mais freqüentemente dentro do próprio grupo e depois os marroquinos, que são maior número na Espanha e têm um histórico diferente dos outros imigrantes, vivem de maneira muito peculiar e evitam a aculturação. Mas o que acabo de contar não é uma regra, trata-se das impressões que acumulei ao longo desses quase dois anos no País Basco, obviamente há gente de todo o tipo e não seria eu irresponsável em dizer que esse o aquele é melhor ou pior, existem rótulos por toda parte e como mulher e brasileira eu sei bem como é, mas como já mencionei, tudo depende da educação que tivemos, do comportamento e dos nossos objetivos, ademais disso não devemos, enquanto imigrantes, nunca esquecer quem somos, de onde viemos e porque viemos. Aculturar-se faz parte do processo, mas, não a perda da identidade.

Os motivos que me trouxeram aqui e que me levarão a outros rincões são distintos dos que aqui chegaram em pateras ou cayucos, mas isso não me faz diferente, estou no mesmo barco dos “sem papéis”, em águas mais tranqüilas, mas no mesmo barco. Hoje consigo entender um pouco mais o comportamento de alguns europeus em relação à chegada de imigrantes, mas ainda assim, sei que “os tempos mudam” e que a médio prazo, quando a taxa de natalidade e densidade demográfica estiver em baixa e a Europa se tornar um continente de idosos, o imigrante terá um papel importante na construção ou melhor na reconstrução do continente. Segundo Joseph Chamie, diretor da Divisão de População da ONU, a Itália, por exemplo, deverá ter em 2050 uma população 22% menor que a de hoje e composta, sobretudo, de idosos. Essa tendência gera no país uma série de debates sobre o papel da imigração, pois sem ela a economia italiana pode encolher por falta de trabalhadores em idade produtiva e é justamente na Itália que os imigrantes têm tido maiores problemas, já que a lei aprovada em 2009 transformou o “sem papel” em criminoso.

Eu adoraria viver num mundo em que não houvesse fronteiras, onde realmente o direito de ir e vir fosse respeitado, onde a cor da pele, os traços do rosto, o credo e outras preferências não fossem motivo para impedimentos.

Eu sei, eu sei, continuo viajando...


Recomendo o filme Território Restrito de Wayne Kramer (Crossing Over, EUA, 2009).

E para saber mais sobre o livro Clandestinos de Martín Aldalur acesse:
http://www.clandestinos.info/

5 comentários:

  1. No, don't "Imagine"...

    Quero viver prá ver a Europa ser de maioria muçulmana e negra e indiana pois estes têm filhos e europeus não. Mais umas 2 gerações e estará feito.

    Má eu? Vieram, colonizaram a gente de modo vil e agora querem o quê?

    22 de abril - descobrimento do Brasil - que ainda se descobre através da síntese racial que somos e isso nos salvará do caos - pode crer.
    1 abraço e esteja bem.

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  2. Oi Bábara,
    Imagine que há países com discurso de que não serão multiraciais no futuro, verdade seja dita, sem isso não terão é futuro. Obrigada pela visita. Abs.

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  3. Oi Barbara,
    Estou estudando idiomas na Espanha e meu visto vence em novembro. No entanto, queria viajar pela Europa por mais 2 meses e 1/2 como turista. Você sabe se é possível isso? Se eu mostrar que sou funcionária pública no Brasil e mostrar todos os bilhetes, reservas de hotel, etc. vc acha que posso ter problemas? Vc tinha tudo isso quando ficou detida na Itália. Obrigada, Cláudia

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  4. Claudia, sou a Meg, a Barbara é uma visitante. Mas vamos lá, sobre o que me perguntou. Não cheguei a Itália, tive problemas quando viajei de trem com destino a Itália, em todas as fronteiras os passaportes são pedidos quando das viagens em trem, avião, embarcações, talvez de carro não haja tanta fiscalização, mas pode acontecer também, nas fronteiras da França por exemplo eles vistoriam até ônibus, os franceses não estão deixando passar nada, como eu disse no texto, se o cidadão extra-comunitário não tiver um visto válido, seja de turismo (até 90 dias dentro do Espaço Schengem), estudante (tempo determinado para atender ao curso) ou de trabalho (também tempo determinado para atender ao trabalho), já a Itália é pior, sorte eu não ter ido até lá... como mencionei em outros posts em 2009 o governo transformou o delito administrativo em crime passível de prisão de 3 a 18 meses e multa de 5 a 10mil euros para o extra-comunitário sem papel (entenda-se visto válido, nas mesmas condições anteriores). Não sei para qual países da Europa quer viajar com visto vencido, seja qual for é melhor verificar antes e não arriscar. Eu tive sorte e apesar disso pude retornar à Espanha pois tinha outros documentos que comprovavam minha história e me ligavam aquele país. Na dúvida, retorne ao Brasil para depois retornar à Europa, a situação de crise no continente faz com que as medidas de segurança interna e controle de fluxos migratórios sejam mais rígidos. Faça um balanço de tudo e veja o que é melhor. Não arrisque. Documentos brasileiros de nada valem aí, se não tiver dupla cidadania ou permissão de trabalho ou estudo válidos, ou DNI no caso da Espanha (equivalente ao nosso RG) ... são outros países, outro continente, outras leis, outra história. Comprende? Bueno, que desfrute de todo y que tengais mucho éxito! Saludos desde Brasil.

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  5. Oi Meg, valeu pela resposta. Tenho pesquisado muito na internet e agora, com o seu comentário, tive a certeza que não devo arriscar. Muchas gracias! Besos.

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