quinta-feira, 29 de abril de 2010

Anish Kapoor no Guggenheim Bilbao.

Instalação em aço inoxidável e aço carbono - Bilbao 2010
(foto by_Meg Mamede)


Ontem tirei o dia para fazer o que mais gosto, sair sem destino e vagar pelas ruas, flanando pela cidade. Peguei o trem com destino a Bilbao, quase um déjà vu Mogi-Sampa, dos dias que saia cedo de casa e gastava o tempo entre museus e o comércio local. Ao invés de um pedaço de pizza um pintxo, no lugar da Pinacoteca do Estado e MASP, o Museu de Bellas Artes de Bilbao e o Guggenheim, ao invés dos sebos e livrarias da capital paulista, uma pequena feira de livros no centro histórico de Bilbao. No Bellas Artes pude ver além das obras do acervo, uma obra emprestada do Museu do Prado “O rapto de Deidâmia” do artista flamengo do período barroco Peter Paul Rubens (1577-1640), porém, o que fez com que me sentisse em casa foi rever Anish Kapoor (1954) no Guggenheim, me lembrei da exposição “Ascensión” do artista indiano no CCBB de S.Paulo em 2007, uma das poucas exposições de artistas contemporâneos com esculturas e instalações que confesso ter apreciado, talvez pelas formas, efeitos espelhados e sobretudo pelas cores utilizadas, especialmente o vermelho que tanto gosto. Conhecido por suas obras tridimensionais, que invadem o espaço físico e psicológico do observador, Anish Kapoor tem peças em coleções de arte contemporânea dos principais museus do mundo e também obras instaladas a céu aberto nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália e Nova Zelândia, trabalhando com esculturas de pigmentos, aço, bronze, intervenções no chão, na parede e em áreas abertas e fechadas, obras com grandes dimensões inclusive, como Cloud Gate. Apesar do calor infernal que fez ontem por aqui, passei um dia estupendo, como diriam os espanhóis, cheguei à casa exausta e feliz. A seguir um vídeo para recordar o artista em sua passagem por São Paulo.


domingo, 25 de abril de 2010

Pra não dizer que não falei das flores.

Abril, primavera na Europa. Época das flores, do verde e da esperança. Esperança de mudança para portugueses que em 25 de abril de 1974 testemunharam a derrubada do então regime político ditatorial que se estendia desde 1926. O levante militar daquele dia de abril não encontrou grande resistência das forças leais ao governo, que cederam perante o movimento popular que logo teria o apoio dos militares. Este dia passou para história portuguesa como “25 de Abril” ou “Revolução dos Cravos”. Conduzido por oficiais intermediários na hierarquia militar (o MFA), na sua maior parte capitães que tinham participado na Guerra Colonial. Num gesto eternizado, um cravo vermelho em uma espingarda simbolizaria o fim de um período nefasto para portugueses e para as ex-colônias portuguesas na África. A florista que entregou o cravo vermelho aos soldados bem poderia ter se inspirado em Tistou de Tistou les pouces verts, livro de Maurice Druon escrito em 1957 cujo enredo trata entre outras coisas da relação de amizade entre o pequeno Tistou, menino rico, e o jardineiro da casa Sr. Bigode, que descobre o dom especial do “menino do dedo verde” que ao tocar algo faz com que nasçam flores, convertendo a fábrica de canhões do pai em uma fábrica de flores, mudando o nome da cidade de Mirapólvora para Miraflores. Verdade é que a vontade de paz é universal, assim como a tirania do Homem. Seria maravilhoso se houvesse muitos mais Tistous e floristas como a portuguesa do 25 de Abril, empunhando flores, transformando o mundo bélico em que vivemos em eterna primavera.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um livro, um amigo.

Cartaz para o dia do livro 2007 criação de Esther Carreras
Quantas foram as vezes que ele me fez companhia me levando para lugares distantes sem que eu saísse do lugar ou que foi comigo para algum lugar que o levei. Não me lembro qual foi meu primeiro livro, creio que tenha sido um livro que o tio Miguel me deu de presente quando eu era criança, uma encadernação bonita com histórias infantis. Depois vieram os livros do pré-primário, seguido das leituras obrigatórias do ginásio, mas o melhor de tudo foi a fascinante descoberta da biblioteca da escola e a liberdade de escolher. Que lugar mágico era aquele e quase sempre eu lia o que não me correspondia, títulos dos quais tenho vaga memória, que se misturam na minha cabeça e às vezes saltam um trecho, uma frase, uma personagem. Lembro-me das noites que não dormi com medo de que algum alienígena invadisse o planeta, acabara de ler O terror Rithiano de Damon Knigth, sempre me atraiu leituras fantásticas e escritores como Edgar Alan Poe, Steve King, títulos como Os quatro cavaleiros do apocalipse de Vicente Blasco Ibáñez, A erva do Diabo de Carlos Castaneda, passando pela avó do CSI, popular no Brasil na década de 80 Ágatha Christie embalou muitas das minhas noites. Há livros que nunca esquecemos, amei ler Memórias de um fusca e Memórias de um Cabo de Vassoura de Orígenes Lessa, sofri com Pollyanna e Pollyanna Moça de Eleanor H. Porter, ri muito com Antoninho Fincapé e seu defunto de Rogério C. de Cerqueira Leite, me apaixonei pela poesia, comecei a escrever em companhia das coleções Para gostar de ler e Vaga-lume ambas da editora Ática, nunca me esqueci de Tistu de O menino do dedo verde de Maurice Druon e enrubesci com Decameron de Boccaccio, leitura proibida que li às escondidas e precocemente. Autores como Clarice Lispector, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, José de Alencar, Eça de Queirós, Pablo Neruda, Camões, Fernando Pessoa, Erico Veríssimo, Lima Barreto e muitos outros estiveram comigo e não poderia deixar de citar Anne e Serge Golon que certamente são responsáveis pelo meu interesse por história e relatos de viagem. Sei que no mundo hi-tech em que vivemos os livros impressos têm sido tema para inúmeras discussões, seja do ponto de vista da ecologia, seja do ponto de vista tecnológico ou econômico, mas meu saudosismo não me deixa mentir, nada como poder levar nosso amigo para qualquer parte, sentir suas páginas sob os dedos, o cheiro de um livro novo, as histórias todas de um livro velho, estar rodeada deles e poder relembrar cada história ao observá-los ou folheá-los. Estando longe de casa, do país, quando quero me sentir em São Paulo, não tenho dúvida, entro em uma livraria e entre um livro e outro, um café ou lendo algum trecho sentada num banco qualquer me sinto como se estivesse na minha cidade, há coisas que não mudam, os sentimentos são os mesmos, não importa se estou em Lisboa, Bilbao ou no Porto, as sensações se repetem, tenho que me conter para não levar tudo que gostaria, ademais de lê-los, gosto de vê-los, de tê-los à mão e senti-los e creio que eu não sou a única. Considero os livros como grandes amigos, amigos que não me pedem nada, me contam coisas, me fazem chorar, rir e ver a vida sob outro ângulo, melhor ainda, sob vários ângulos, por isso no Dia Internacional do Livro não poderia deixar de lembrá-los. E por falar em homenagens, acabo de saborear um Rioja oferecido pelo Bar Samaná, oferta para todos que comprem um livro aqui em Orduña durante este fim de semana incentivando o comércio e a cultural local.

Amigo livro, brindamos por ti. Osasun!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Imigração - Os dois lados da moeda.



Não é fácil ser imigrante nos dias de hoje, acredito que nunca tenha sido, porém com crise econômica, aumento do terrorismo, políticas protecionistas, ressurgimento de movimentos nacionalistas – o que alguns já vêm como neo-facismo – e resquícios de um passado racista em determinados lugares do planeta, ser imigrante, sobretudo “sem papel” é um risco que nem todo mundo está preparado para correr. Quando digo preparado não me refiro somente aos recursos financeiros, até porque quem emigra na maioria das vezes, sai de seu país em busca de melhores oportunidades, trabalho, etc, uma nova vida e supostamente não deve ter lá muitos recursos, mas, possui algo que os outros, os que ficam, não têm, isto é; a coragem de lançar-se ao desafio seguindo rumo ao desconhecido e incerto, em outros casos a motivação vem da desesperança. É nesse momento, que o emocional fala mais alto, os vínculos existentes no “outro lugar”, o apoio dos que ficaram, a educação – me refiro aos valores e a formação recebida da família e as experiências de vida –, uma boa dose de auto-estima e equilíbrio são de grande importância na hora de iniciar essa empreitada.

Nesses dois anos vivendo na Europa – entre Espanha e Portugal – como já contei em outros artigos, fui testemunha ocular de como têm vivido e como têm sido tratados os imigrantes por aqui, inclusive, vivi eu própria um episódio bastante delicado devido a minha situação de indocumentada. Com o visto vencido para transitar ou permanecer no Espaço Schengen, arrisquei-me em uma viagem à Itália, planejava permanecer um tempo para estudar, no meio do caminho fui retida por falta de visto em vigor, ou ainda por não possuir autorização de residência ou trabalho, passei 12 longos dias num centro de retenção de imigrantes, na cidade de Toulouse na França – situação que suplantei com humildade, educação, uma boa dose de humor e muita sorte.

Na Europa há estereótipos como em todo lugar e eu seria hipócrita se dissesse que no Brasil não rotulamos as “gentes”, basta aprofundar-se um pouco mais na temática das fronteiras do território brasileiro, ver como o movimento migratório no norte do Brasil se dá. Grande parte dos imigrantes, são oriundos da Bolívia, Perú, Venezuela, Colômbia (países fronteiriços) e saem dos seus países atraídos pela possibilidade de trabalho na Zona Franca de Manaus ou por oportunidades na exploração florestal e mineração, para permanecer na clandestinidade, fora de qualquer levantamento estatístico e o que é pior, marginalizados por parte da sociedade. Em São Paulo a coisa não é diferente, apesar da metrópole ter recebido levas e levas de imigrantes em momentos distintos da sua história e de tê-los acolhido, os rótulos e preconceitos existem, o mais curioso é ver imigrante explorando imigrante, como o caso dos coreanos que contratam bolivianos para trabalhar nas confecções em condições nem sempre justas, reproduzindo assim a situação que eles mesmos enfrentaram quando chegaram à São Paulo.

Retornando ao Velho Mundo, logo que cheguei e nos primeiros meses, eu não compreendia muito bem esse movimento da sociedade anti-imigrante, esse rechaço por parte da população dos países europeus em relação aos que chegavam desde África, América do Sul, Leste Europeu ou Ásia, tão pouco era ou sou a favor de medidas drásticas ou leis mais contundentes como as aprovadas e colocadas em prática na Itália, porém também sei que alguns imigrantes colaboram de alguma maneira para que isso ocorra e, para dar somente um exemplo disso cito um artigo do jornal “20 minutos” uma publicação gratuita de Bilbao de 14 de abril cujo o titulo “Bilbao destapa cada vez más fraudes en el cobro de ayuda social” mostra bem para que vêm algumas pessoas, trocando em miúdos: a matéria trata da descoberta de mais de 1000 casos de fraude no recebimento de ajuda social dada pelo governo basco à imigrantes na cidade de Bilbao, gente que alega não ter condições de manter-se e recebe cerca de 700 euros da chamada Renta de Garantia de Ingresos ou entre 400 e 1800 euros das Ayudas de Emergência Social detalhe: muitos deles têm um emprego sem contrato, um pequeno negócio próprio (como ambulantes e sem o pagamento de impostos), tem casa (vivenda) paga pelo governo e alguns deles ainda mantêm seus filhos em escolas particulares, com isso o Ayutamento de Bilbao calcula ter desembolsado a quantia de cerca de 400.000 mil euros / mês para pagamento dos fraudulentos, cerca de 2,5 milhões de euros nos últimos dois anos – os números apresentados pela Diputación Foral de Vizcaya são de 7,5 milhões de euros para 11.500 famílias em conceito de renda básica e 14,5 milhões de euros para 10.300 que pediram ajuda para emergência social –. Como reagem os mais de 4 milhões de espanhóis desempregados, com suas hipotecas atrasadas entre outras coisas, quando lêem notícias como essa?

Verdade seja dita “Papagaio come o milho e o Periquito leva a fama”, mas, nem todos os imigrantes agem dessa forma, há muita gente honesta que trabalha muito para conquistar seu espaço e o respeito do “outro”. E há aqueles que desafortunadamente, não tendo quase nada a perder, acreditando que a Europa é o melhor lugar do mundo, o lugar das oportunidades, como foi a América há tempos atrás, deixa tudo e se lança à aventura das travessias – como os cubanos e mexicanos com destino aos EUA – no caso da Europa, em especial para Espanha e Itália, gente que chamou a atenção do jornalista basco Martín Aldalur (Zarautz, 1982) que acaba de lançar livro intitulado Clandestinos, cujo tema central é a migração africana que chega à Espanha em embarcações conhecidas por pateras ou cayucos, sem esquecer o passado, ele também lança um olhar sobre seu próprio país. Com mais de 300 depoimentos, traz a luz um processo complexo e carregado de prejuízo. Histórias de sofrimento e injustiças, mas acima de tudo, de superação, história de anônimos que deixaram tudo para trás para tentar alcançar as costas européias, para isso, Martin Aldalur viajou desde o Senegal até as Ilhas Canárias, Espanha, seguindo a rota dos imigrantes africanos, esses mesmos alegres senegaleses que costumo ver pelas ruas de Orduña, sempre com um sorriso no rosto transmitindo uma alegria natural independente das tristezas que carreguem. Além dos senegaleses, que não vivem em Orduña, mas que estão de passo vendendo alguns artigos como ambulantes, há outros grupos que tenho observado aqui, são eles os dos latino-americanos, hispanofalantes, em especial os equatorianos, um grupo específico que fala quéchua e são bastante fechados, relacionando-se mais freqüentemente dentro do próprio grupo e depois os marroquinos, que são maior número na Espanha e têm um histórico diferente dos outros imigrantes, vivem de maneira muito peculiar e evitam a aculturação. Mas o que acabo de contar não é uma regra, trata-se das impressões que acumulei ao longo desses quase dois anos no País Basco, obviamente há gente de todo o tipo e não seria eu irresponsável em dizer que esse o aquele é melhor ou pior, existem rótulos por toda parte e como mulher e brasileira eu sei bem como é, mas como já mencionei, tudo depende da educação que tivemos, do comportamento e dos nossos objetivos, ademais disso não devemos, enquanto imigrantes, nunca esquecer quem somos, de onde viemos e porque viemos. Aculturar-se faz parte do processo, mas, não a perda da identidade.

Os motivos que me trouxeram aqui e que me levarão a outros rincões são distintos dos que aqui chegaram em pateras ou cayucos, mas isso não me faz diferente, estou no mesmo barco dos “sem papéis”, em águas mais tranqüilas, mas no mesmo barco. Hoje consigo entender um pouco mais o comportamento de alguns europeus em relação à chegada de imigrantes, mas ainda assim, sei que “os tempos mudam” e que a médio prazo, quando a taxa de natalidade e densidade demográfica estiver em baixa e a Europa se tornar um continente de idosos, o imigrante terá um papel importante na construção ou melhor na reconstrução do continente. Segundo Joseph Chamie, diretor da Divisão de População da ONU, a Itália, por exemplo, deverá ter em 2050 uma população 22% menor que a de hoje e composta, sobretudo, de idosos. Essa tendência gera no país uma série de debates sobre o papel da imigração, pois sem ela a economia italiana pode encolher por falta de trabalhadores em idade produtiva e é justamente na Itália que os imigrantes têm tido maiores problemas, já que a lei aprovada em 2009 transformou o “sem papel” em criminoso.

Eu adoraria viver num mundo em que não houvesse fronteiras, onde realmente o direito de ir e vir fosse respeitado, onde a cor da pele, os traços do rosto, o credo e outras preferências não fossem motivo para impedimentos.

Eu sei, eu sei, continuo viajando...


Recomendo o filme Território Restrito de Wayne Kramer (Crossing Over, EUA, 2009).

E para saber mais sobre o livro Clandestinos de Martín Aldalur acesse:
http://www.clandestinos.info/

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Ensemble, C’est Tout.

Às vezes somos supreendidos com um belo filme e sem esperar a noite televisiva termina bem, ainda mais quando não há longos e tediosos intervalos comerciais. Não sei como anda a coisa no Brasil, mas ao menos aqui na Espanha a tv aberta tem opções para além dos enlatados norte-americanos. Nas últimas semanas assisti a boas produções: a argentina XXy de Lúcia Puenzo (2007), a espanhola Entre vivir y soñar com direção de Alfonso Albacete e David Menkes (2005) e a francesa Ensemble, C’est Tout de Claude Berri (2007) e é sobre essa última que gostaria de falar. Pouco sei sobre filmes e diretores franceses, vi alguns filmes produzidos ou co-produzidos na França, mas, confesso que ultimamente meu interesse aumentou em relação ao cinema francófono. Ensemble, C’est Tout com Guillaume Canet (Amor ou consequência, 2003) Laurent Stocker, Françoise Bertin e a talentosa Audrey Tautou, conhecidíssima no Brasil por O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001), possuidora de extensa lista de filmes e prêmios na bagagem, me deixou com uma leve e agradável sensação ao terminar, trata-se desses filmes em que as relações humanas são o que são, com seus conflitos, acertos, equívocos, intolerância, amor, compaixão e amizade. Os quatro personagens da trama interagem numa dinâmica realista que apesar das diferenças latentes e das angústias pessoais, consegue ultrapassar barreiras equilibrando as relações e, é dai que quando ou de onde menos se espera a amizade ou quem sabe o amor pode surgir e surpreender, afinal, “ninguém é uma ilha”.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Mi vista de Euskal Herria.

Assim como a atriz basca Leyre Berrocal que apresentou em 2008 um dos capítulos de "Tu vista de Euskal Herria" pela ETB, para mim a Sierra Salvada e seu entorno é um lugar mágico e encantador, com paisagens e lugares belíssimos. Lugares onde passei momentos inesquecíveis durante essa minha viagem pelo País Basco. Das vistas desde o Txarlazo ou do Monte Santiago e seu mirante, voando em parapente sobre a Serra e a pequena Orduña ou passeando pela vizinhança é possível perceber os motivos que me fizeram permanecer quase dois anos aqui. A tranquilidade, a qualidade de vida, o ar puro e as cores de cada estação do ano é um convite a ficar. Esse lugar fez e sempre fará parte da minha história. Eskerrik Asko Orduña!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Semana Santa na Espanha – Explosão Barroca.

Como acontece em muitas cidades brasileiras, entre as quais destaco a mineira Ouro Preto, a Semana Santa na Espanha é especialmente esperada. Com um valor para além do religioso, a Semana Santa é considerada em algumas cidades como sua festa maior, conferindo-lhes identidade e tradição, alimentado a fé, a cultura e o turismo, aquecendo os corações dos fiéis e as economias locais. Os lugares mais procurados pelo turista, seja espanhol ou estrangeiro, para conhecer essa festa em todo seu esplendor é certamente Sevilha e Málaga, porém se não todas, quase todas as cidades espanholas com suas irmandades religiosas, chamadas aqui de confradías, têm uma programação de procissões ou desfiles com os famosos “pasos” passagens bíblicas que encenam a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo e em sua grande maioria trazem peças de artistas barrocos, obras carregadas de toda a expressividade e dramaticidade peculiar do estilo. A Semana Santa espanhola, ademais de seu forte sentido catequético, tem um sentido didático, maneira encontrada pelos então reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão, para recuperar a expressão e a dimensão religiosa perdida após séculos de influência muçulmana. A partir do XVI as irmandades religiosas espanholas terão seus destinos marcados pela Reforma Protestante, o Concilio de Trento e a posterior Contra-Reforma Católica, que em contraposição ao protestantismo fomentou o culto às sagradas imagens com sentido duplo, além de marcar o credo professado, serviu de ferramenta na catequese da população que em sua grande maioria era analfabeta.

Na infância, as imagens em tamanho natural me causavam um certo medo, tinha a sensação que elas me observavam o tempo todo, na quaresma e Semana Santa as coisas pioravam, ver aquelas imagens vestidas e com perucas, imagens de roca vestidas para as procissões, os altares destituídos da costumeira decoração e cobertos com panos roxos, me causavam certa estranheza. As procissões das quintas e sextas-feiras santas eram sempre tristes, o cheiro de incenso mesclado com as velas queimadas, as orações e alguns cânticos entoados, somados ao choro de algum devoto, especialmente durante a Via Crucis, conferiam um ar de muito sofrimento aqueles dias, coisa que demorei a compreender, levei anos para apreciar altares e a arte sacra, em especial a arte barroca brasileira, para tanto foi necessário muitas viagens às cidades mineiras e visitas a igrejas e museus. Este ano, assisti as procissões da Semana Santa aqui em Orduña (norte da Espanha), vendo a procissão do "Santo Enterro" na sexta-feira santa, onde saem todos os pasos, não senti, nem vi a emoção que presenciei em procissões pelo Brasil, talvez porque não estive na Igreja ou envolvida com as práticas religiosas local. Nas ruas da cidade o que vi me pareceu algo mais figurativo, uma festa para turista ver, entre muitos nazaremos e alguns romanos o desfile levou pouco mais de 30 minutos para dar a volta pela praça e passar por algumas ruas da cidade, contudo, não posso deixar de mencionar a beleza de algumas peças, cujos autores desconheço. A celebração da Semana Santa em Orduña, começou em 1469, sendo uma das mais antigas de Vizcaya, a cargo do atual convento de Santa Clara, anteriormente, ermida de Santa Maria, possui elementos bastante representativos do patrimônio cultural local e desde 1676 a Santa Escola de Cristo tem levado com simplicidade e certa austeridade o evento, talvez por isso me pareceu uma celebração contida ou ainda, desprovida de emoção, se comparada ao que vi pela tv direto de Sevilha e Málaga, onde a Semana Santa apresenta imaginária religiosa de grande beleza e representatividade barroca. Em Sevilha, acompanhada do êxtase dos fiéis, que lutam por conseguir um bom lugar para ver de perto os pasos, a famosa “Macarena” Virgem mais popular da cidade, é recebida com gritos de ¡Guapaaa!. Segundo alguns historiadores da arte, em nenhuma outra cidade da Espanha se alcançou tanto esplendor barroco e a dimensão da capital Andaluz. Com um total de 58 procissões e 116 pasos, durante sete dias e noites estabelecem a cada ano novos recordes, num ambiente encantado, definido como uma “vertigem de incenso”. Assim como acontece no Brasil, nas cidades históricas de Minas Gerais, a maioria da imaginária religiosa barroca é feita em madeira policromada, buscando a sensibildiade popular e a expressividade, em geral os artistas trabalham para as irmandades religiosas (gremios y confradías), um trabalho que busca provocar a mais profunda emoção religiosa no espectador, com vestuário rico em detalhes e brilhos, cabelos naturais, olhos e lágrimas de vidro, numa teatralidade única a Semana Santa Espanhola é uma explosão barroca de encher os olhos e o coração.

(Fotos do Santo Enterro, Orduña 2010 - by Meg Mamede)

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