segunda-feira, 13 de maio de 2013

Museus do Mundo: Calouste Gulbenkian – Lisboa.


Imagens: “Retrato de uma jovem” de Giacomo Ghirlandaio, Calouste Gulbenkian em uma de suas viagens e baixo-relevo de estudo de Faraó (extraídos do site da Fundação Calouste Gulbenkian)


Desde muito tempo as artes têm no mecenato uma forma de incentivo e patrocínio, a começar por imperadores romanos, passando pela Igreja, seguido dos príncipes do renascimento, até chegar nos dias de hoje, onde geralmente, as grandes fortunas movimentam o mercado das coleções e fomentam a produções artísticas. Desse movimento nascem às coleções particulares que afortunadamente, em muitas das vezes são acessíveis ao público através das fundações que administram esses bens, salvaguardando o patrimônio e promovendo a difusão de bens materiais de grande valor histórico-cultural. Destaco aqui o Museu Calouste Gulbenkian, fundado por Calouste Sarkis Gulbenkian, turco de origem Armênia, que chegou a Lisboa no ano de 1942, em plena II Guerra Mundial de passo para os EUA e, acabou ficando até sua morte em 1955 aos 86 anos. Em Portugal, especialmente Lisboa sentiu-se acolhido como em nenhum outro lugar, resolvendo estabelecer-se. A retribuição de Gulbenkian ao povo lisboeta e aos estrangeiros que visitam o museu ou participam das atividades e programas da fundação que leva seu nome, vai além do vasto acervo de obras de arte e objetos que adquiriu em suas viagens (cerca de 6000 peças, desde a Antiguidade até ao princípio do séc. XX). Na estação de metrô São Sebastião, que dá acesso à Fundação Calouste Gulbenkian há algumas reproduções de obras do museu e foi o “retrato de uma jovem” de Giacomo Ghirlandaio, artista renascentista, que me fez passar algumas tardes pelos corredores do museu. Com acervo tão extenso é impossível ver tudo em uma única visita, são vários núcleos representativos: da arte egípcia com documentos que marcam momentos da civilização egípcia desde o Império Antigo até à Época Romana, com destaque para a bela coleção de moedas gregas e “medalhões” que fazem parte do tesouro encontrado em Abuquir, Egito, em 1902, para além de esculturas, cerâmicas, vidros, jóias e gemas. Seguindo encontramos um pequeno núcleo onde se destaca um baixo-relevo assírio proveniente do Palácio de Assurnasirpal, depois, podemos apreciar a produção artística do Oriente – Pérsia, Turquia, Síria, Cáucaso e Índia – do século XII ao século XVIII, tapetes, tecidos, iluminuras, encadernações, lâmpadas de mesquita, azulejos e cerâmicas de Iznik. Há também, pergaminhos iluminados provenientes da Armênia dos séculos XVI e XVII e porcelanas e pedras brutas da China e lacas do Japão. Para os apreciadores das artes plásticas, as esculturas do acervo de Gulbenkian são de encher os olhos, com obras de Jean de Liège, Antonio Rosselino, Andrea della Robbia, Pisanello, Jean-Baptiste II Lemoyne, Pigalle, Caffieri, Carpeaux, Barye, Dalou a Rodin, percorrem desde a Idade Média até o século XIX. Já a pintura é uma viagem às escolas e diferentes estilos da tradição européia, encontramos os séculos XV, XVI e XVII, bem representados pelos principais centros de produção artística, com obras de Lochner, Van der Weyden, Bouts, Ghirlandaio, Moroni, Frans Hals, Ruisdael, Rubens e Rembrandt. As obras de Largillière, Boucher, Hubert Robert, Fragonard, Lépicié, Nattier e Quentin de La Tour representam a produção pictórica do século XVIII na França. O século XVIII está ainda representado por uma área dedicada ao pintor veneziano Francesco Guardi enquanto outro setor é reservado a pintores ingleses como Lawrence e Gainsborough. Turner e Burne-Jones documentam a pintura inglesa no século XIX. A pintura oitocentista francesa está representada, com obras de Corot, Millet, Rousseau e Fantin-Latour, bem como de Manet, Degas, Renoir e Monet. E, não terminamos. Ainda nos espera iluminuras, livros raros elaborados entre o XIII e XVI – produção flamenga, francesa, holandesa, inglesa, italiana e alemã –, tapeçarias de Flandres e de Itália do XVI e, do XVIII francês as tapeçarias de manufaturas dos Gobelins, Beauvais e Aubusson, um notável conjunto de móveis das épocas da Regência, Luís XV e Luís XVI de artistas como Cressent, Oeben, Riesener, Jacob, Carlin e Sené e peças de ourivesaria, da autoria dos melhores ourives franceses como F.-T. Germain, Durand, Lenhendrick, Roettiers e Auguste. Para finalizar as belas jóias criadas por René Lalique (1860-1945) integra um núcleo excepcional pela quantidade e qualidade dos trabalhos expostos. Como podem imaginar, o que acabo de descrever é uma parte do acervo do Calouste Gulbenkian, assim como outros museus do mundo, outras obras e objetos estão guardados em reserva técnica e por vezes saem a título de empréstimos para ser exposta em alguma parte do mundo ou mesmo para completar alguma nova concepção museográfica ou para dialogar com alguma exposição temporária que o museu receba. O colecionismo é o que deu origem aos atuais museus, peças e objetos de arte acumulados ao longo dos anos tornando-se acervos particulares e que através de fundações ou doações a outras instituições podem ser vistos e apreciados pelo público em geral, objetos que têm e fazem história, seja dos os que os produziram ou daqueles que o adquiriram. O museu moderno como conhecemos hoje surge entre o XVII e XVIII, a partir das doações de coleções particulares às cidades, como a dos Grimani à Veneza, dos Crespi à Bolonha, dos Maffei à Verona. Mas, o primeiro museu verdadeiro, surge a partir da doação da coleção de John Tradescant, feita por Elias Ashmole, à Universidade de Oxford, quando é criado o Ashmolean Museum (1683). Já no Brasil, os museus em sua grande maioria, surgiram no século XX, com exceção do Museu do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano que data de 1862 e do Museu de Mineralogia e Geologia da Escola Nacional de Minas e Metalurgia de Minas Gerais, de 1876. O que melhor conheço e destaco aqui, por sua variedade e qualidade do acervo, é o MASP – Museu de Arte de São Paulo, fundado em 1947 pelo jornalista e empresário Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi, jornalista e crítico de arte italiano, lugar onde teve inicio minha paixão pela história da arte. São homens e mulheres colecionadores e mecenas das artes que em todo o mundo impulsionam o mercado das artes e colaboram inegavelmente para a difusão desses bens. Entre os colecionadores e mecenas brasileiros cito: Gilberto Chateaubriand, ex-diplomata brasileiro, filho de Assis Chateaubriand – com coleção que pode ser vista no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – cujo acervo de arte atinge cerca 7000 obras; o empresário Paulo Geyer com sua extensa coleção do século XIX – doada para o Museu Imperial de Petrópolis –; o advogado carioca Sérgio Fadel que sob o ponto de vista de abrangência histórica e segundo críticos de arte é uma das mais completas de arte brasileira, com obras que vão do século XVIII até os dias atuais – em coleção privada –; as respectivas coleções das empresárias e irmãs Ema e Eva Klabin – a primeira em exposição na Fundação Ema Gordon Klabin em São Paulo e Eva Klabin na fundação que leva seu nome no Rio de Janeiro – e a coleção de José e Paulina Nemirovsky – na Fundação José e Paulina Nemirovsky em São Paulo–. Sei que há outros colecionadores e mecenas de arte no Brasil, mencionei apenas alguns nomes do eixo São Paulo-Rio, por tratar-se de coleções que conheço pessoalmente, melhor dizendo, por tratar-se de parte dos acervos que vi exposto nas várias exposições que visitei nos últimos anos. Acredito que todos esses homens e mulheres imbuídos do mesmo espírito de Calouste Gulbenkian, ademais de bem sucedidos e influentes, souberam (e espero que outros também o saibam) devolver a sociedade parte do que dela receberam, através de atividades de cunho caritativo, artístico, educativo e científico que suas Instituições promovem, preservando o patrimônio e viabilizando o acesso à cultura a todos aqueles que têm sede de conhecimento.

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