segunda-feira, 1 de março de 2010

Ciclogénesis Explosiva “la Tormenta Perfecta”

Há um ano atrás escrevi sobre os câmbios climáticos aqui no blog, passado treze meses, novamente tivemos a visita nada desejada de um fenômeno metereológico chamado ciclogênesis explosiva ou tempestade perfeita – felizmente, não se trata de um fenômeno habitual, mas seus efeitos podem ser devastadores, semelhante a de um ciclone tropical. Resulta do choque de massa de ar quente com outra de ar frio. O encontro das diferentes massas desenvolve rapidamente uma profunda tempestade em um período muito curto, dando lugar a ventos intensos e fortes chuvas –. Nomeada “Xynthia”, diferente de “Klaus” que passou por aqui em janeiro de 2009, chegou à Espanha pela Comunidade Autônoma de Galícia vinda da Ilha da Madeira, Portugal, fazendo com que algumas comunidades autônomas da Espanha entrassem em alerta vermelho, entre elas, a do País Basco (Euskadi) onde a velocidade dos ventos atingiram 228 km/h e foi justamente aqui em Orduña que a cilogênesis explosiva teve seu ápice. Na última quinta-feira tivemos fortes ventos por aqui, já na sexta houve calmaria, o pior estava por vir. A previsão era de que no sábado Xynthia chegaria. Na noite de sexta-feira fechamos e reforçamos todas as janelas da Casa Llaguno, acredite quase 60 entre janelas e balcões e nos preparamos para os fortes ventos que chegariam a partir das 15h do sábado. As previsões não estavam erradas e o alarme dado pelo governo basco fez com as pessoas se preparassem para o que viria, por sorte não houve vítimas fatais, apesar de incidentes registrados em Viscaya, Álava e Gipuzcoa, entre eles 39 focos de incêndio, acidentes de trânsito e danos causados em casas e comércios, em especial aqui em Orduña onde o vento atingiu o recorde de 228 km/h às 22h e parte do telhado de uma prédio de 4 andares foi levado pelo vento, atingindo carros e o bloco de prédios vizinho, destruindo janelas, rompendo paredes e causando pânico nos moradores que foram evacuados pelos bombeiros voluntários da cidade e levados para um lugar seguro. Outro problema foi a falta de energia elétrica que acabou por volta das 22h e só foi restabelecida na manhã do domingo. Particularmente, passei muito medo, estive das 20h30 às 24h no bar Samaná, onde uma dezena de pessoas resolveu ficar, já que o funcionamento dos trens foi suspenso até o dia seguinte, depois fui para casa onde permaneci sozinha até a chegada de Joseba. No escuro e com as janelas do quarto tremendo todo o tempo ao sabor do vento que soprava sem trégua, não consegui pregar os olhos, tinha a impressão de que elas iam soltar-se a qualquer momento e lançar-se em minha direção. Em meio ao medo ainda tive tempo para o humor, humor negro na realidade, enquanto me encolhia sob o edredon pensei “eu sempre desejei morrer dormindo, mas... justo hoje não consigo nem pregar os olhos”... aos poucos e ao longo da madrugada o vento foi perdendo a força e os ruídos originados por ele foram ficando menos intensos, adormeci e só despertei quando Joseba chegou a casa. Amanheceu um lindo domingo de sol e eu segui por todo o dia com uma dor de cabeça infernal, fruto da noite mal dormida e do medo que passei. A Casa Llaguno que tem mais de 100 anos mostrou-se muito resistente (como outras construções bascas) tivemos apenas duas telhas tiradas, nenhuma árvore sofreu danos maiores que alguns galhos caídos – lenha para os dias de frio – menor sorte tiveram os moradores de casas mais isoladas onde o vento açoitou sem piedade levando parte de cercas, muros e telhados, tombando carros, containeres de lixo e árvores, causando temor e prejuízos. Agora a tempestade perfeita que passou por aqui, seguiu para outros países da Europa, ceifando dezenas de vidas na França, Bélgica e Alemanha, ganhando força e deixando um rastro de destruição e pânico. Mais uma vez a reflexão se faz necessária e com o passar dos anos com mais urgência, afinal somos todos testemunhos de que as catástrofes previstas há algumas décadas atrás, quando o chamado “efeito estufa” ganhava os noticiários como novidade quase insólita para alguns, hoje se mostra mais realidade que nunca: Puerto Principe, Madeira, São Paulo, Santiago do Chile, Canárias, Orduña e muitos outros lugares têm experimentado a fúria da Mãe Natureza. Quando aprenderemos a respeitá-la? Qual será a herança deixada para as próximas gerações? Medo? Insegurança? Ou apenas imagens para recordar um período em que o planeta Terra foi verde, azul e de muitas outras cores que o cinza e o negro que se vislumbra toda a vez que uma tragédia ocorre em alguma parte do planeta. Você deve estar pensando "quanto pessimismo" por isso e para provocar termino com a frase de Saramago - em entrevista para El País de 05/03/09, quando do lançamento do filme “Ensaio sobre a cegueira” na Espanha - “los únicos que pueden tener interés en cambiar el mundo son los pesimistas, los que ven que las cosas no van bien". Imagino que para os demais as coisas estejam boas como estão. Copenhagen que o diga!

** Fotos dos danos causados pela ciclogênesis Xynthia em Orduña, Viscaya. Extraídas do jornal "El Correo" edição Viscaya de 01/03/10.

Um comentário:

  1. Hola Meg, gran verdad, ¿cuándo aprenderemos la lección? Y peor aún con el sistema que gobierna el mundo que quiere más producción para más consumo, más basura, más ocupación humana de espacios naturales, más minería. El terremoto de Chile también nos ha mostrado lo que la naturaleza hace con el hombre. Y es cierto lo que dice Saramago, sólo los "pesimistas" (así se ha llamado a la gente que quiere reflexionar) alertan y piden detener y reflexionar sobre lo que estamos haciendo. El sistema es perverso y todos lo adoran. En realidad, sí soy pesimista (luego de lo de Copenhague) y hasta que el agua no nos llegue al cuello, nos vamos a dar cuenta. Estuve por Europa y la gente, en Berlín, estaba sorprendida por lo del frío; pero me libré de lo sucedido en estos días. Suerte y a seguir remando.

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