sábado, 30 de outubro de 2010

Medo da Morte.

Quem não tem? Eu morro de medo só de pensar. Seria esse pleonasmo vicioso figura ou vício de linguagem? Sei lá! Vou morrer sem saber. Mas isso não vem ao caso e espero que a morte também demore a vir. Verdade é que me peguei pensando no tema ao reler o texto “Minha Amada Mortal” que escrevi há um ano para amiga Paty (da banda La Verónica) inspirada em fotos que ela e Gonzalo fizeram na casa dos Muguruza. Na época e por sugestão do irmão do Gonzalo, o fotógrafo Borja de Diego, escrevi algo inspirado em “A Noiva Cadáver” filme de Tim Burton e na música “Canto para minha morte” de Raul Seixas e Paulo Coelho. Há alguns anos atrás lendo Philippe Ariès “História da Morte no Ocidente” e João José Reis “A morte é uma festa” compreendi “a passagem” como um “evento” que cada lugar e época realiza a seu modo. No ocidente, da Idade Média para Idade Moderna há uma grande mudança de comportamento em relação à morte, sua higienização nos dias atuais gerou um mercado de produtos e serviços e a mudança na mentalidade alimentada pela religião fez com que o Homem moderno sofresse muito mais que o medievo. Me lembro que quando criança velávamos os familiares em casa, entre o cheiro de velas queimadas e coroas de flores que exalavam um forte cheiro, dávamos adeus aos nossos mortos. Aquele cena e aquele odor de morte impregnavam a casa e a memória dos presentes, por outro lado, eram tão solenes aqueles cortejos a pé, o comércio baixava as portas em sinal de respeito e as pessoas acenavam em despedida. Hoje tudo é diferente, o dia de finados é um dia triste por natureza, sinônimo de choro e chuva. Em nosso país o comércio da morte está em plena expansão, encontramos até planos de previdência mortuária. Há alguns anos meu pai fez um, incluindo filhos e agregados, claro que não inclui traslado internacional por isso já disse que o “corpinho” aquí poderia até descansar em alguma parte do jardim dos Muguruza, o que seria um luxo…risos. Brincadeiras à parte, pois o assunto é sério, enquanto asiáticos fazem festa, comem, bebem em homenagem aos seus mortos e os mexicanos saem às ruas no Dia dos Mortos em uma de suas maiores festas, nós brasileiros choramos e sofremos, cultuamos cemitérios e ritualizamos a morte. Aceitar a interrupção é algo demasiado doloroso e, não é para menos, não tem coisa pior que ver alguém que amamos baixar a sete palmos de terra ou virar cinzas literalmente. Por isso que há anos decidi não ir a velórios e enterros… irei ao meu porque serei obrigada. A mudança de comportamento, foi reforçada pelo modelo de sociedade patriarcal e os ritos cristãos, na Idade Média a relação do Homem com a Morte era diferente. Lendo “A morte é uma festa” compreendi um pouco mais a nossa história com a morte, em especial as mudanças surgidas no final do século XIX. “A Revolta da Cemiterada” passagem abordada pelo historiador João José Reis no livro é um retrato antigo do que vemos hoje, o sentido comercial que a vida moderna deu à morte. Em uma viagem a Évora, Portugal, visitei a famosa Capela dos Ossos situada na Igreja de São Francisco e o que mais me impressionou não foi a morbidez do lugar ou o amontoado de ossos que adornam a Capela, ao sair parei por um instante frente à porta de entrada e ao levantar a cabeça li a frase “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos” e, me soou como um lembrete para viver bem aquele e todos os outros dias da minha vida. Curioso que em Paraibuna, cidade próxima da minha cidade natal, onde estive algumas vezes, há uma frase similar a da Capela dos Ossos à entrada do cemitério “Nós que aquí estamos por vós esperamos” (a qual nunca notei) frase que Marcelo Masagão daria como título ao documentário que dirigiu em 1998, onde recortes do século XX nos lembram momentos da História, suas personagens conhecidas ou não, que deram caras e vozes à história contemporânea e que já "partiram dessa para uma melhor". Houve um tempo que interessada em arte tumular, além de textos que tratavam especificamente do assunto e livros de historiadores como Reis e Ariès, busquei algo de ficçao também. Dos títulos lidos dois me tocaram sobremaneira, creio que pela forma como foram escritos, me refiro a “Todos os Homens são mortais" de Simone de Beauvoir e “As Intermitências da Morte” de José Saramago, ambos conseguiram me prender do inicio ao fim. A imortalidade em contraponto à idéia da morte me fez pensar na necessidade de renovação e me fez ver a morte sob outros pontos de vista, mas… não vou adiantar as histórias do Conde Fosca e nem falar do caos provocado quando da ausência da Morte. Leia-os e você irá se surpreender quando perceber que a morte é algo tão necessária quanto o ar que respiramos.

Enquanto isso... “Viva como se fosse o último dia. Porque um dia será"!

(*) Fotos do Dia de Muertos, Festa tradicional no México.

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