domingo, 31 de janeiro de 2010

Nudez e Erotismo nas Artes.

“A emoção estética deixa o ser humano num estado favorável à recepção de emoções eróticas. A arte é cúmplice do amor. Tire o amor e não haverá mais arte”.

Remy de Gourmon (Poeta e dramaturgo francês 1858-1915)

Ao visitar museus e outros espaços expositivos deparamos com a arte nas mais variadas formas, estilos e escolas. Quando o olhar ainda não está acostumado a essas representações, nos prendemos à visão do todo, às cores e formas, depois de algum tempo notamos espaço, perspectiva, claro e escuro e às vezes a pincelada ou paleta do artista. Há alguns anos iniciei minhas “viagens” através das imagens. Iniciei com passeios para além do que os olhos vêm, lia obras como lia um poema. Comecei com algumas obras de nu do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, mais precisamente obras do XIX.

O corpo humano, suas formas e movimentos sempre foram inspiração para arte. No renascimento encontramos os primeiros nus nas obras de Dürer e Van Eyck, além de Rafael, Da Vinci e Michelangelo, este último, teve parte do afresco “Juízo Final”, pintado no altar da Capela Sistina, Vaticano, coberta por panos e roupas, julgaram-no obsceno para o contexto em virtude da nudez das figuras. Eram os editos papais que se cumpriam, interrompendo por hora a ordem estética resgatada do classicismo grego.

Encontramos o nu na pintura, na escultura, no teatro, na fotografia, no cinema e na literatura. É um tema, freqüente, inquietante e sensual, nos remete ao erotismo, às paixões e conseqüentemente ao amor e suas variantes – o desejo, a traição, a tragédia – como nas obras de Nelson Rodrigues – o "Anjo Pornográfico" da dramaturgia brasileira –, mas... não podemos esquecer que a nudez nos remete também ao nascimento, ao batismo, ao despojamento material, como na cena de nudez do filme “Irmão Sol, Irmã Lua” – filme de Franco Zefirelli – onde a escolha de Francisco a santidade às coisas do mundo é retratada – à beleza e à pureza como na obras “O nascimento de Vênus” de Sandro Boticelli (Galleria degli Uffizi, Florência / Itália) ou “O batismo de Jesus Cristo” de Almeida Junior (MASP, São Paulo / Brasil) pinturas que me levaram a pensar na criação do Homem e na beleza da vida. Obras que evocam sentimentos e tocam tão profundamente como a poesia. Pude então, a partir da observação das artes, pictórica ou não, ampliar minha capacidade de abstração seguindo por caminhos até então desconhecidos.

Começo “a viagem” – minha viagem - com Pintura (Alegoria) óleo sobre tela de Almeida Junior, 1892 (Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil). O que vejo nesta obra? Uma bela mulher com cabelos longos a cobrir seu “monte de Vênus” – pele alva, seios bem feitos e firmes como os de "Moema" de Vitor Meireles (MASP, São Paulo / Brasil) – professor de Almeida Junior na Academia Imperial de Belas Artes, Rio de Janeiro – lábios vermelhos, nas mãos pincéis e paleta, cena e paisagem esvoaçantes em alegoria à arte e ofício da “pintura”. Além da alegoria à pintura, lembrei dos mitos greco-romanos, as figuras de Atena ou Minerva, Deusa entre outras coisas da arte e ofício e as muitas Musas inspiradoras das artes, a força da herança helênica presente na cultura ocidental. Já a proeminência do ventre me remeteu aos mitos da criação e maternidade, que viriam através das diversas representações de Vênus encontradas na Europa pré-histórica, a Mãe-Terra, a Lua, símbolos ligados aos ciclos da fertilidade e agricultura, além da representação de Eva no Éden anterior ao pecado original, casta, angelical, sendo enlaçada pelo vento que brinca com seus cabelos, retornando à pureza já mencionada.

Almeida Junior era antes de tudo um realista, com influências românticas e pré-impressionistas, suas personagens são pessoas de carne e osso, que conheceu pessoalmente, gente com nome, que comia, vivia e amava. Sua musa inspiradora Maria Laura do Amaral Gurgel – sua ex-noiva, que se casou com um primo – modelo, retratada em muitas de suas obras, inclusive em "Pintura" foi pivô de seu abrupto e trágico desaparecimento do cenário artístico brasileiro. Almeida Junior morreu apunhalado em novembro de 1899 na cidade de Piracicaba, São Paulo, por José de Almeida Sampaio, marido de Maria Laura, seu grande amor. Lendo Olavo Bilac - escritor também do XIX - encontrei passagens que me recordaram a obra "Pintura" de Almeida Junior e também a sua trágica morte. Bilac, deve ter causado furor com seus poemas, instigando uma sociedade onde a nudez feminina era proibida, como o voyerismo do autor em "Satânia". A sensualidade e erotismo de seus versos parnasianos também teve uma musa inspiradora, que coincidentemente tratava-se de sua ex-noiva, Beatriz “Nua, de pé, solto o cabelo às costas,/ sorri.(...) / Profusamente a luz do meio-dia /Entra e se espalha, palpitante e viva. (... ) / Como uma vaga preguiçosa e lenta, /Vem lhe beijar a pequenina ponta / Do pequenino pé macio e branco. / Sobe...Cinge-lhe a perna longamente; / Sobe... - e que volta sensual descreve/ Para abranger todo o quadril! - prossegue,/ Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,/ Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,/ Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo/ Da axila, acende-lhe o coral da boca.(...) / E aos mornos beijos, às carícias ternas / Da luz, cerrando levemente os cílios, /Satânia os lábios úmidos encurva / E da boca na púrpura sangrenta /Abre um curto sorriso de volúpia.../ Corre-lhe à flor da pele um calafrio; / Todo o seu sangue, alvoroçado, o curso/ Apressa; e os olhos, pela fenda estreita/ Das abaixadas pálpebras radiando,/ Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam, / Fitos no vácuo, uma visão querida...(...)”.

Já em "Sonho" Bilac fala da vida e da morte, do idílio e da tragédia “Ter nascido homem outro, em outros dias, / - Não hoje, nesta agitação sem glória, / Em traficâncias e mesquinharias, / Numa apagada vida merencória... / Ter nascido numa era de utopias, / Nos áureos ciclos épicos da História, / Ardendo em generosas fantasias, / Em rajadas de amor e de vitória: / Campeão e trovador da Idade Média, / Herói no galanteio e na cruzada, / Viver entre um idílio e uma tragédia; / E morrer em sorrisos e lampejos, / Por um gesto, um olhar, um sonho, um nada, / Traspassado de golpes e de beijos!”

Nossa vida e a história da humanidade desde sempre, esteve e está repleta de representações artísticas sensuais. O amor e o sexo movem o mundo, lembra? Para mim, a sensualidade e o erotismo presentes nas muitas obras produzidas ao longo da nossa história revelam formas de encarar a vida, as paixões e o amor. Ver a arte literalmente despida de vulgaridade e obscenidade imposta por valores morais e religiosos, contemplar a beleza do nu transcendendo formas e modelos sociais, enxergar com o coração as coisas que passam despercebidas e encarar a sensualidade com naturalidade é um exercício que nos convida a despojar-se do ter numa deliciosa viagem. Um exercício para poucos.

Fontes:

- Museus e Exposições, Teatro e Cinema.
- Os livros: Tarde e Sarças de Fogo de Olavo Bilac, Do Olimpo a Camelot: um panorama da mitologia européia de David Leeming, Erostismo: Antologia Universal de Arte e Literatura Eróticos de Charlotte Hills e William Wallace e Teatro Completo de Nelson Rodrigues: Tragédias Cariocas de Nelson Rodrigues.
- Filme: Irmão Sol, Irmã Lua de Franco Zefirelli, 1972.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Tamborrada 2010 - Donostia, Gipuzkoa.

Nesta terça-feira estivemos em San Sebastián (Donostia) capital de Gipuzkoa, para ver a Tamborrada 2010. Festa onde os donostiarras comemoram o dia do patrono da cidade. Sob chuva torrencial Joseba e eu assistimos a abertura da Tamborrada iniciada às 24h00 com o hastiamento da bandeira da cidade e o som dos tambores e canções conhecidas pela maioria dos presentes. Todos os anos, nos dias 19 e 20 de janeiro a festa se repete. Bandas musicais (comparsas) e as companhias gastronômicas (homens com roupas de cozinheiros e mulheres com trajes típicos) saem pelas ruas da cidade acompanhados de seus tambores e barris, enchendo a cidade de alegria, tradição iniciada no inicio do século XIX quando da ocupação napoleônica na península Ibérica. Segundo alguns historiadores, essa festa teria origem durante a Guerra de Independência (1808-1812). Embora existam diferentes versões sobre o papel desempenhado por tambores e barris, hoje são eles os protagonistas da Tamborrada. A representação por um lado dos soldados de Napoleão que ocuparam a cidade marchando em formação e tocando seus tambores e, do outro, as mulheres que batiam os barris que levavam consigo para trazer água das fontes em resposta ao som dos tambores militares. É curioso pensar no quebra-cabeça da história, onde uma ação desencadeia outra, me refiro a de que enquanto espanhóis (bascos) facilitaram a entrada dos franceses, já que naquele momento não tinham como combate-los, estes seguiram rumo à Portugal, dando continuidade aos planos de Bonaparte, já a família real portuguesa lançaria-se à ousada empreitada de cruzar o Atlântico rumo ao Brasil, chegando a Salvador e seguindo para o Rio de Janeiro, transferindo a metrópole para uma de suas colônias, gerando uma inversão de papéis. O que muitos chamariam de fuga, nada mais era que uma estratégia há muito pensada e defendida em outros momentos da história portuguesa, mas isso é outra história. Verdade que entre histórias, guarda-chuvas, vinhos, pintxos exquisitos da culinária basca e tambores, passamos mais uma noite divertida em Euskadi. "Estamos nós também, na rua, aonde seja, sempre contentes, sempre alegres!"


"Bagera...!
gure bai
¡Kalera...!
Nora nai
¡Beti pozez! Beti alai!"



quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Meu mundo por um Chocolate.


Há dias que não quero outra coisa se não saborear chocolates: bombons, trufas, ou barras. A vontade é tanta que chego a salivar só de pensar em um chocolatinho derretendo na minha boca. Quando era criança, me contentava com choquito, prestígio, laka, diamante negro e me parecia um manjar dos deuses, e o era, afinal não conhecia outros sabores e por isso mesmo não tinha como escolher entre esse ou aquele. Ainda assim passei a infância e adolescência acabando com as caixas de chocolate do bar do meu pai e depois as caixas de bombons sortidos Nestlé, Lacta ou Garoto. A primeira vez que experimentei um sabor diferente, um chocolate mais refinado foi quando a Kopenhagem abriu uma franquia na minha cidade, tinha uns 16 ou 17 anos quando provei a famosa Língua de Gato e em seguida presentiei um namoradinho com um Coração de chocolate Kopenhagem para comermos juntinhos no dia dos namorados. Depois disso provei alguns chocolates suíços que minha amiga Carmen Margareth sempre me trazia de suas viagens à Europa. De criança sonhava visitar uma fábrica de chocolate, como Charlie, personagem de A Fantástica Fábrica de Chocolate (filme de 1971 dirigido por Mel Stuart) e me fartar de tantas variações e sabores. Quem é da minha geração além te ter visto o referido filme em sua primeira versão, também colecionou as séries de fauna e flora dos chocolates Surpresa da Nestlé, era uma delícia cada vez que saia um card repetido, um chocolate a mais até completar a coleção. Aos poucos fui conhecendo e experimentando as várias formas e uso do chocolate: o bolo Prestígio que meu irmão caçula adorava fazer, as trufas da D.Hideli, os mousses do Mirella, o famoso bolo Floresta Negra preferência da amiga Daise, os fondues com frutas que experimentei em Monte Verde ou um simples e quente Choconhaque que tomava quando sentia meus pés frios. Hoje o que mais aprecio são os After Eigths Mints, os chocolates com recheios cítricos, o chocolate meio amargo e chocolate quente para tomar com churros (algo que aprendi a gostar aqui no País Basco). De fato o Chocolate é uma viagem, lendo o livro do jornalista americano Mort Rosenblum, viajei literalmente do cultivo do cacau aos exigentes chocolatiers europeus. A bebida de mortais e de Deuses é responsável por disputas corporativas, alquimia e paixões. Rosenblum nos revela a história do chocolate de maneira tão prazerosa quanto o próprio chocolate. Do seu uso ainda na América pré-colombiana a sua viagem à Europa pelas mãos do colonizador espanhol e português, passando pelas denominações de origem que garantem a qualidade do produto final. O atual cultivo do cacau na África e América e as implicações política, social, econômica e mais recentemente ecológica geradas por essa produção. Com breve menção ao Brasil, capítulo no qual me lembrei da novela Renascer do inicio dos 90 de Benedito Ruy Barbosa, produção que se desenvolveu em torno das plantações de cacau de Ilhéus na Bahia e que traria ao conhecimento do público, expressões como: Vassoura de Bruxa e Podridão Parda, nomes populares dados aos males – pragas e fungos - que atacam os cacaueiros da América Latina e de outras partes do planeta. A viagem continua no Velho Mundo, onde a disputa entre os chocolatiers suiços, belgas e franceses na produção do melhor chocolate só é menos interessante quando o autor descreve as sensações ao desgustar Pralines, Palets d’or ou Ganachés pelo mundo afora. Já os segredos de cada especialidade, de cada artesão do chocolate ou das grandes companhias, esses seguem bem guardados em cada lugar visitado como um precioso e porque não dizer lucrativo tesouro. Para mim o chocolate tem efeitos terapêuticos. Ponto! Só eu sei o beneficio que ele me traz quando entro na tpm, risos, mesmo que pesquisas e estudos apontem para o contrário não abro mão desse velho e bom companheiro e é nessa hora precisamente que troco o meu mundo por uns bons bombons ou uma barra bem servida de chocolate. Na falta deles me vale uma bolacha, de chocolate claro, uma caixinha de bis ou quiçá uma balinha toffees de chocolate... Verdade seja dita, um mundo, um reino pode valer muito pouco em algumas situações....risos.

Agora os deixo porque o Chocolate me espera.

Para saber mais:
Chocolate: Uma Viagem, título da Edição Portuguesa. No Brasil o livro intitula-se Chocolate – Uma Saga Agridoce Preta e Branca de Mort Rosenblum, Ed. Rocco.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

"A menina que brincava com fogo" Stieg Larsson.

Falei da Trilogía Millenium no blog quando assisti em Lisboa o primeiro filme “Os homens que não amavam as mulheres” baseado na obra do escritor sueco Stieg Larsson. Acabei de ver o segundo filme em dvd “La chica que soñaba con una cerilla y un bidón de gasolina” cujo título em português é “A menina que brincava com fogo”. Amanhã 8 de janeiro estréia a última parte da trilogía “La reina en el palacio de las corrientes de aire” e irei ao cinema para conferir, até porque no segundo filme a sensação é de derrotismo. Me refiro a força que a heroína passa todo o tempo e sua vertiginosa viagem ao inferno, além disso, o ponto de interrogação sobre a relação dos protagonistas. Claro que falando assim, estou embuida de romatismo barato, lugar comum nas comédias românticas e não em filmes como este, porém, quem nunca ouviu dizer que “os brutos também amam”? Ante tanta violencia e dor, há que haver lugar para fecilidade, para o prazer e porque não dizer para o amor. Não quero prolongar-me, até porque muitos irão ao cinema para ver o filme e os que leram a trilogía conhecem bem a história. Quero apenas aproveitar para postar texto de Kurdo Baksi, amigo de Stieg Larsson publicado em El País de 02/01/10.

Intérprete de los silencios
KURDO BAKSI 02/01/2010

Me duele escribir estas palabras: Stieg Larsson no era un reportero demasiado bueno. Por una sencilla razón: en el mundo de Stieg Larsson no existía la neutralidad. Y sin embargo hay que reconocer rotundamente que Stieg Larsson era uno de los mejores investigadores del mundo. Una suerte de Lisbeth Salander, sin lugar a dudas. De hecho, Lisbeth Salander tiene mucho de su creador, Stieg Larsson. Stieg nació en agosto 1954 en Skellefteå, en el norte de Suecia, donde la nieve es omnipresente y el sol escaso, cerca del territorio de los lapones, los dueños verdaderos de esas regiones.

Allí la frialdad lo domina todo, física y mentalmente. Stieg creció entre hombres que no hablan mucho. Entre amantes del silencio, un silencio que está muy bien contado, por ejemplo, en las películas de Ingmar Bergman. Entablar relaciones es en esta parte del mundo muy difícil: los vecinos viven siempre lejos, el paisaje es inhóspito y la soledad, un deporte nacional. Los hombres no lloran, ni tiene ninguna importancia lo que ha pasado y lo que va a pasar.

A los 12 años pidió a sus padres una máquina de escribir porque había decidido ser escritor y periodista. Era algo muy caro, pero Stieg insistía, así que sus padres, que no tenían el dinero, pidieron un préstamo para comprarla. Era un día de otoño de 1966, Stieg lo recordaba como un día muy importante en su vida. Desde entonces se sintió escritor y esa máquina no dejó de teclear días y noches en ese mundo de silencios del norte. Stieg empezó a escribir novelas cortas, anécdotas, y esa máquina de escribir se convirtió en el amigo con el que compartir su soledad y con quien sobrellevar el frío del clima y el de los hombres. Empezó también a hacer fotos, algo que acabó siendo asimismo una obsesión. Bosse, su amigo de la niñez que sigue viviendo en la misma ciudad, y la primera víctima del afán fotográfico de Stieg, le recuerda declarando que él tenía la responsabilidad de documentar los hechos injustos del mundo.

Era muy joven cuando decidió luchar contra la injusticia, pero la vida no le trataba con la misma moneda. Stieg anhelaba entrar en la universidad y conseguir el carné de periodista. Estaba seguro de que con esa acreditación en sus manos iba a viajar a todos los lugares conflictivos y a cambiar el mundo. Pero la universidad le dio un jarro de agua fría: no tenía las calificaciones suficientes para entrar en la facultad de periodismo. La carta de rechazo que recibió fue muy importante en la vida de Stieg, tanto que le costaba hablar de ello y sólo lo hizo con cinco personas: sus padres, su hermano, su novia y yo. Pero esta carta resultó de alguna forma definitiva en su vida, una carta que guardaba el rastro de las lágrimas prohibidas y secretas en el territorio de los hombres silenciosos, y que resulta ser una de las razones esenciales en el estímulo de la escritura de Los hombres que no amaban a las mujeres, La chica que soñaba con una cerilla y un bidón de gasolina y La reina en el palacio de las corrientes de aire. Una obra que devorarán 23 millones de lectores en todo el mundo, la respuesta y la revancha de Larsson.

La respuesta negativa de la facultad de periodismo causó un hondo pesar en mi amigo. Para conjurar esa mala noticia decidió por un lado cambiar de nombre, Stig por Stieg, un nombre de cinco letras y menos corriente que le parecía que tenía más futuro; y por otro lado, se trasladó a Estocolmo, e hizo de la ciudad la base de un guerrillero sin armas. Si la universidad no le quería, había otras alternativas. Con un objetivo muy claro, empezó como grafista en 1979 en una agencia de noticias sueca, la TT (lo que sería Efe en España). Su plan era prudente pero su sueño grande: pretendía trabajar como grafista unos años y poco a poco ir introduciéndose en la escritura de artículos para la agencia.

Sin embargo, su paciencia era más escasa de lo que exigía esa estrategia. Él no quería limitarse a escribir artículos: quería cambiar el periodismo en TT. Sus quejas no gustaban a sus jefes, y cada día estaba más solo a la hora del almuerzo. Pero alguno de sus superiores aceptó publicar los artículos que Stieg escribía por las noches: 28 artículos en 20 años, un artículo y medio por año. No es una cifra que me haga muy feliz.

Cuando tuve ocasión de trabajar y editar los artículos de Stieg Larsson, eché de menos a menudo que tuvieran al menos la pretensión de neutralidad. Los textos de Stieg parecían más discursos políticos que artículos periodísticos, excepto en una ocasión en que me sentí especialmente orgulloso: un reportaje acerca del Transiberiano de Moscú a Pekín, en el verano de 1987. Se publicó en la revista de viajes Vagabond y es un texto excelente que muestra lo mejor del Larsson periodista. Stieg describe con la precisión con que lo haría una cámara la experiencia de los viajeros de un compartimiento durante una semana de viaje. Se trata de un texto vivísimo que no ahorra detalles llenos de ironía y respeto, y que está en el origen de lo que brindaría más tarde a sus lectores con Millennium. Lamentablemente, no volvió a escribir en esa revista. Algo que le sucedía con frecuencia.

El año 1995 será muy importante en la trayectoria periodística de Stieg con la fundación de Expo, la revista antirracista. Stieg quiere tomar partido y expresar una condena tajante en contra de los racistas en sus textos, pero sus colegas prefieren que escriba de una forma más neutral. El artículo más extenso del primer número de Expo está escrito por Stieg: dos páginas sobre las bombas de Oklahoma ese mismo año.

No era un buen reportero, como dije al principio, porque era un excelente escritor, un narrador de verdad. No sabía escribir sucintamente, detestaba la condensación. Sus artículos siempre acababan resultando más largos de lo que se le pedía: de las 12.000 pulsaciones que me enviaba, yo tenía que recortar, muchas veces con pesar, a 3.000. Tenía mucho más talento como editorialista en una revista de investigación o como analista en un periódico de izquierdas. Le gustaba reflexionar y comentar largamente la realidad. La brevedad, la concesión y la neutralidad no eran lo que fue a buscar a Estocolmo, lejos de los hombres silenciosos del norte. -

Kurdo Baksi (Batman, Turquía, 1965) es escritor y periodista, autor de Min vän Stieg Larsson, que se publicará en Suecia el 18 de enero y en España en abril (Mi amigo Stieg Larsson, Destino). Fue redactor jefe de la revista de Larsson, Expo, entre 1998 y 2003.

“A Menina que brincava com fogo.”




segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Sans-papiers e sua pacífica revolução.

(Le Centre de Rètention Admnistrative de Cornebarrieu - Toulouse. Um dos Centros para imigrantes sem papéis espalhados pela França)


Não sei porque mas... lendo este artigo hoje pela manhã, lembrei-me das aulas de história, mais precisamente do papel dos sans-cullotes na revoluçao francesa. Será que os sans-papiers não estão a caminho de promover uma revolução também? Posso imaginar quais cabeças rolariam.


"El capitalismo moderno y la jerarquía global de la división del trabajo entre países ricos y pobres han restaurado un "mercado de trabajo de los desterrados" y utilizan la 'ilegalidad' como explotación"

"Los 2.000 sin papeles (inmigrantes indocumentados) que se han instalado en un edificio vacío del centro de París, en la rue Baudelique, número 14, en el distrito 18, no se esconden de nada. Más bien al contrario. Estos africanos occidentales, turcos, paquistaníes y chinos, entre otros, hacen todo lo posible por llamar la atención de la opinión pública sobre su falta de derechos y su paradero. Cada miércoles se celebra la "marcha de protesta de los sans-papiers", en la que se reparten panfletos y se exhiben pancartas llamativas para recabar amplios apoyos con el objetivo de obtener un estatuto legal. Las democracias ricas llevan la bandera de la igualdad y de los derechos humanos hasta los rincones más remotos de la tierra, sin darse cuenta de que las fortificaciones fronterizas con las que los Estados pretenden frenar los flujos migratorios pierden, de este modo, la base de su legitimidad."

Artigo de: Ulrich Beck sociólogo e professor da Universidade de Munique e da Escola de Ecomomia de Londres. Traduzido por M. Sampons para o Jornal El País de 04/01/10.

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