domingo, 12 de dezembro de 2010

De volta à Terra da Garoa.

Decoração de Natal na Av. Paulista

Depois de dois anos fora do país e seis meses na provinciana Mogi das Cruzes, o que já estava me deixando agoniada, eis que retorno à Sampa. Pode parecer loucura ser apaixonada por essa megalópole que beira à esquizofrenia, onde gente estressada, bi-polar, impaciente convive com deprimidos e toda sorte de fobias. Pensando bem, o que é ser normal neste mundo? Deixar a pequena e pacata Orduña, ao norte da Espanha, seguido de uma forçada estada em Toulouse na França, depois, uma breve temporada na melancólica Lisboa, retornando ao Brasil com parada em Mogi – terra do caqui –, para depois acabar nas imediações da Avenida Paulista no coração de São Paulo é realmente uma mudança radical. Mas eu que adoro desafios e mais ainda, adoro a livraria Cultura, os cinemas alternativos, o Pedaço da Pizza, os espaços culturais, museus e cafés espalhados pelos arredores, não poderia estar em lugar melhor. Imagine o buxixo que é viver onde tudo acontece. Bares abertos até altas horas, com suas mesas enfileiradas nas estreitas calçadas da região, gente de todas as tribos circulando pelas ruas, arranha-céus disputando espaço e a luz do sol. E por falar em céu, imagine o tráfego de helicópteros ao longo do dia, só nesta semana vi da minha janela uns três helicópteros pousando e decolando, um barulho ensurdecedor que se mistura com vozes, buzinas dos carros e o som que o vizinho compartilha com o resto do prédio acreditando que todo mundo curte Tropa de elite, osso duro de roer, pega um pega geral, também vai pega você! Pois é, bem-vindos a São Paulo! Não esqueça de trazer protetor solar, a cidade é um forno no verão, guarda-chuva, quase todos os dias caí um toró por aqui, protetor auricular se quiser dormir, atenção redobrada – especialmente no final do ano, quando todos querem garantir o “peru do natal” inclusive os malacos de plantão – e uma dose extra de paciência, a cidade exige isso o tempo todo. São Paulo tem de tudo e para todos os gostos e bolsos, tem até roteiro turístico para quem curte lendas urbanas, isso mesmo, um “tour pelos mistérios e fantasmas da Capital”, só não se diverti quem não quer. Com tudo isso posso dizer que estou feliz, há alguns anos aprendi a amar essa louca cidade. Ainda não sei se será desta vez que criarei raízes, de qualquer maneira passarei um longo período por aqui, até que algo ou alguém me faça querer estar em outro lugar. Enquanto isso não acontece vou curtir as luzes de Natal da Paulista, as ofertas culturais da cidade e as pizzas da minha pizzaria preferida. Preparada para encarar mais um ano e muito trabalho nessa louca e linda capital, afinal, não sou mais a “caipira” que chegando à Avenida Paulista há anos atrás perguntou ao jornaleiro “Onde fica a Paulista?” e ouviu, entre o riso e a ironia: “Cê tá pisando nela!”.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Cinema em casa.

Adoro cinema, mas não gosto de todos os gêneros. De quando em quando vejo algo de terror, de dia e acompanhada, e foi o que aconteceu neste domingo. Meu irmão começou a ver o filme Assombração de Oxide Pang Chun e Danny Pang – original Gwai wik / Re-cycle (Tailândia / Hong Kong, 2006), ele dormiu e eu assisti até o fim. O filme me fez pensar muito, apesar daqueles zombies todos, não é nada aterrorizante, achei-o até reflexivo, eu diria que é quase um “Alice no país das maravilhas” do suspense. Os asiáticos são muito cuidadosos no que se refere à plástica, à fotografia e, entre penumbras, sombras, cinzas e marrons destacam-se cores como o vermelho, o amarelo e o verde, dando uma beleza quase poética às cenas, especialmente à das lápides. Não vou contar o filme aqui é melhor vê-lo, quero evitar spoilers. O cinema asiático é outra forma de fazer cinema, seja o gênero que seja, os orientais têm uma maneira muito peculiar para 7ª arte e não é pra qualquer um gostar. Logo que comecei a ver o filme lembrei-me de Três… Extremos de Fruit Chan, Park Chan-Wook e Takashi Miike – orginal Three… Extremes – (Coréia do Sul / Japão / Hong Kong, 2004) onde três histórias diferentes dialogam entre si por conta do suspense que cada uma, a seu modo, traz, sem cair no lugar comum. Achei a abordagem dos temas elegante, como disse antes, com uma estética impecável, marca de muitos dos diretores asiáticos. As três histórias: Box, Dumplings e Cut têm algo de transgressor e surreal, beirando à bizarrice, mas não são menos bonitas por isso. Mais uma vez chamo atenção para a fotografia, enquadramentos e trilha sonora ao longo de cada história. Cansado de ver remake norte-americano ou intermináveis filmes em série, onde tudo é previsível e repetido? Então.... da próxima vez que for escolher um filme, opte por produções asiáticas ou algo diferente do que está acostumado. Você pode se surpreender.

Assombração (Gwai wik / Re-cycle)




Três... Exremos (Three... Extremes)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Feira do Largo da Ordem e o contador de histórias Hélio Leites.

Já estive outras vezes em Curitiba, mas desta vez foi especial. Não fiz nada óbvio, quero dizer, não estive nos pontos turísticos mais visitados da cidade, até porque já os conheço de outras viagens, mas passei momentos inesquecíveis e... só meus(nossos). Fizemos questão de visitar a feirinha do Largo da Ordem, passeio descontraído e interessante para um domingo ensolarado, e que sol, nos pegou em cheio e nem notamos. Coisa que acontece quando estamos bem acompanhados e não percebemos o tempo passar e as coisas acontecerem. Mas nem tudo passou despercebido, entre uma parada aqui outra ali para apreciar artesanato, objetos antigos, conversar e fazer fotos, conheci uma figura ímpar, o artista plástico, poeta e contador de histórias Hélio Leites. Criador dos “(in)utensílios” ele nos mostra sua arte de maneira simples e divertida, numa cadência de palavras sem pausa, uma seqüência de idéias sem interrupção, talvez, ativadas pela memória que cada objeto lhe traz. Da história da latinha da sardinha e o sermão dado aos peixes por Santo Antonio, já que os homens não lhes deram atenção ao São Longuinho feito de batedor de claras em neve e que dá pulinhos com uma facilidade. Os palitos de sorvete convertidos em um palito de cabelo ou um broche em forma de uma ave cuja cor pode determinar nosso humor, alertando os desavisados quando a mulher ou a namorada está na tpm, por exemplo – neste caso usando o vermelho – miniatura cuja venda pelo valor de R$ 6,00 lhe propicia a compra de muitos pãezinhos, o que ele brinca usando o trocadilho de “o milagre dos palitos”. Incrível como ele chama a atenção de quem passa pela feira sem grande esforço, aquelas peças minimamente detalhadas e de materiais simples, objetos do nosso cotidiano transformado em outro objeto, trazem consigo histórias e algumas lições. A cabeleira branca, a cara engraçada o jeito irreverente de Hélio Leites me pareceu uma mistura do engenhoso professor Pardal e o cientista pra lá de genial interpretado por Christopher Lloyd em “De volta para o futuro” e me arrancou muitos sorrisos. Para Paulo Leminski – poeta curitibano – Hélio Leites era um "significador de insignificâncias" e se olharmos sob essa ótica é realmente o que ele faz e o que todos nós deveríamos fazer, resignificar as coisas em nossas vidas. Buscar a sardinha na lata da sardinha e não Nemo, evitando muitos problemas. Acreditar no milagre da vida e como costumo dizer, transformar os limões que ganhamos ao longo dela em uma doce e refrescante limonada. Se você nunca esteve em Curitiba, quando tiver oportunidade não deixe de visitar a Feira do Largo da Ordem e parar para ouvir as histórias do artista Hélio Leites, mais do que arte, você terá lições de simplicidade na dose certa e se tiver dinheiro poderá levar alguma lembrança da feira também, afinal nem só de palavras vive o Homem.

Conheça um pouco mais de Hélio Leites:




Veja também:
Pequenas Grandezas: Miniaturas de Hélio Leites de Rita de Cássia Baduy Pires.

(Foto: Hélio Leites by Meg Mamede)

sábado, 6 de novembro de 2010

Halloween em Santos.

De origem anglo-saxônica a festa de Halloween não é muito comum no Brasil, mas nos últimos anos tem ganhado mais adeptos, sendo mais um motivo pra reunir os amigos e passar bons momentos e, foi exatamente o que fiz neste feriado. Entre o dia das bruxas, de todos os santos e dos mortos, mais viva que nunca, aproveitei o feriado e me diverti muito. Desci a serra do mar sem intenção de ir à praia – o que foi inevitável–, fui visitar a amiga Mary e curtir a animada festa de Halloween que ela preparou. No fim das contas acabei aproveitando a estada em Santos para passear pelo maior jardim a beira mar do mundo – cerca de 7 km de orla com flores e muito verde brindando a primavera e os turistas que por lá passam –. Visitei o centro histórico, o Palácio do Café, a Pinacoteca Benedicto Calixto e o Mercado Municipal, deu até pra pegar um cineminha no posto 4. Cidade importante para história de São Paulo e do Brasil, elevada a Vila em 1545, Santos foi porta de entrada para colonizadores e imigrantes que venceram a Serra do Mar – chamada de a Muralha por alguns – em diferentes momentos da nossa história. Mas dessa vez foram criaturas da noite que invadiram Santos, na verdade invadiram a casa da Mary. Bruxas, caveiras, fantasmas, vampiros e até uma múmia dançaram até altas horas num ambiente cuidadosamente decorado por nossa anfitriã. Enquanto muitos criticam a data, por não se tratar de algo tipicamente brasileiro – me refiro ao nosso folclore e suas criaturas fantásticas – ou até mesmo por atribuir à festa um caráter diabólico, acredito que o fenômeno da miscigenação em nosso país resulta num caldeirão cultural onde tudo é assimilado, transformado e incorporado, além do que, brasileiro adora uma festa. E por falar em caldeirão, entre deliciosos coquetéis, petiscos, biscoitos em forma de dedos de bruxa, ratinhos sabor a cajuzinho, fantasminhas de suspiro e muita música, todos se divertiram muito. Infelizmente o feriado acabou e o jeito foi subir a serra com gostinho de quero mais e a máquina fotográfica cheia de recordações. O que há séculos foi descoberto por outros povos, hoje continua recebendo criaturas, ops! gente de toda a parte que desembarca no porto seja a trabalho, seja a turismo e aqueles que como eu, descem e sobem a serra, não numa vassoura, mas olhando da janela o mar e a serra desejando ter nascido imortal para aproveitar tudo que a vida oferece, seja a oferta travessura ou gostosura.

(Fotos by_Meg Mamede)

sábado, 30 de outubro de 2010

Medo da Morte.

Quem não tem? Eu morro de medo só de pensar. Seria esse pleonasmo vicioso figura ou vício de linguagem? Sei lá! Vou morrer sem saber. Mas isso não vem ao caso e espero que a morte também demore a vir. Verdade é que me peguei pensando no tema ao reler o texto “Minha Amada Mortal” que escrevi há um ano para amiga Paty (da banda La Verónica) inspirada em fotos que ela e Gonzalo fizeram na casa dos Muguruza. Na época e por sugestão do irmão do Gonzalo, o fotógrafo Borja de Diego, escrevi algo inspirado em “A Noiva Cadáver” filme de Tim Burton e na música “Canto para minha morte” de Raul Seixas e Paulo Coelho. Há alguns anos atrás lendo Philippe Ariès “História da Morte no Ocidente” e João José Reis “A morte é uma festa” compreendi “a passagem” como um “evento” que cada lugar e época realiza a seu modo. No ocidente, da Idade Média para Idade Moderna há uma grande mudança de comportamento em relação à morte, sua higienização nos dias atuais gerou um mercado de produtos e serviços e a mudança na mentalidade alimentada pela religião fez com que o Homem moderno sofresse muito mais que o medievo. Me lembro que quando criança velávamos os familiares em casa, entre o cheiro de velas queimadas e coroas de flores que exalavam um forte cheiro, dávamos adeus aos nossos mortos. Aquele cena e aquele odor de morte impregnavam a casa e a memória dos presentes, por outro lado, eram tão solenes aqueles cortejos a pé, o comércio baixava as portas em sinal de respeito e as pessoas acenavam em despedida. Hoje tudo é diferente, o dia de finados é um dia triste por natureza, sinônimo de choro e chuva. Em nosso país o comércio da morte está em plena expansão, encontramos até planos de previdência mortuária. Há alguns anos meu pai fez um, incluindo filhos e agregados, claro que não inclui traslado internacional por isso já disse que o “corpinho” aquí poderia até descansar em alguma parte do jardim dos Muguruza, o que seria um luxo…risos. Brincadeiras à parte, pois o assunto é sério, enquanto asiáticos fazem festa, comem, bebem em homenagem aos seus mortos e os mexicanos saem às ruas no Dia dos Mortos em uma de suas maiores festas, nós brasileiros choramos e sofremos, cultuamos cemitérios e ritualizamos a morte. Aceitar a interrupção é algo demasiado doloroso e, não é para menos, não tem coisa pior que ver alguém que amamos baixar a sete palmos de terra ou virar cinzas literalmente. Por isso que há anos decidi não ir a velórios e enterros… irei ao meu porque serei obrigada. A mudança de comportamento, foi reforçada pelo modelo de sociedade patriarcal e os ritos cristãos, na Idade Média a relação do Homem com a Morte era diferente. Lendo “A morte é uma festa” compreendi um pouco mais a nossa história com a morte, em especial as mudanças surgidas no final do século XIX. “A Revolta da Cemiterada” passagem abordada pelo historiador João José Reis no livro é um retrato antigo do que vemos hoje, o sentido comercial que a vida moderna deu à morte. Em uma viagem a Évora, Portugal, visitei a famosa Capela dos Ossos situada na Igreja de São Francisco e o que mais me impressionou não foi a morbidez do lugar ou o amontoado de ossos que adornam a Capela, ao sair parei por um instante frente à porta de entrada e ao levantar a cabeça li a frase “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos” e, me soou como um lembrete para viver bem aquele e todos os outros dias da minha vida. Curioso que em Paraibuna, cidade próxima da minha cidade natal, onde estive algumas vezes, há uma frase similar a da Capela dos Ossos à entrada do cemitério “Nós que aquí estamos por vós esperamos” (a qual nunca notei) frase que Marcelo Masagão daria como título ao documentário que dirigiu em 1998, onde recortes do século XX nos lembram momentos da História, suas personagens conhecidas ou não, que deram caras e vozes à história contemporânea e que já "partiram dessa para uma melhor". Houve um tempo que interessada em arte tumular, além de textos que tratavam especificamente do assunto e livros de historiadores como Reis e Ariès, busquei algo de ficçao também. Dos títulos lidos dois me tocaram sobremaneira, creio que pela forma como foram escritos, me refiro a “Todos os Homens são mortais" de Simone de Beauvoir e “As Intermitências da Morte” de José Saramago, ambos conseguiram me prender do inicio ao fim. A imortalidade em contraponto à idéia da morte me fez pensar na necessidade de renovação e me fez ver a morte sob outros pontos de vista, mas… não vou adiantar as histórias do Conde Fosca e nem falar do caos provocado quando da ausência da Morte. Leia-os e você irá se surpreender quando perceber que a morte é algo tão necessária quanto o ar que respiramos.

Enquanto isso... “Viva como se fosse o último dia. Porque um dia será"!

(*) Fotos do Dia de Muertos, Festa tradicional no México.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Aroma de Café.

Enquanto estive fora e por todos os lugares que passava sempre provava um cafezinho. Hábito que aqui no Brasil eu não tinha, na verdade só tomava café pela manhã. Adorava passar em alguma padaria paulistana pra tomar café – de coador – com leite e comer pãozinho, sem miolo e com manteiga, na chapa. Coisa que na Europa não tem. Minto, tem em Portugal, especialmente em Lisboa - não podemos esquecer que as padarias espalhadas pelo Brasil são herança lusa -, já na Espanha os hábitos são outros e o café expresso é preferência por lá. Puro, cortadito, descafeinado o con leche. Para mim o melhor café, sem dúvida, era o que o Joseba servia pela manhã: zumito de naranja, café con leche, tostadas con mantequilla y mermelada, bollo o croissant e era a melhor maneira de começar o dia. E foi assim também meu último dia em Orduña, antes de seguir para o aeroporto de Bilbao passamos por Samaná e, gentilmente como sempre fazia, Joseba me colocou um último café, não comi nada, estava ansiosa e confusa, apenas tomei meu café em silêncio, observando o desenho feito na espuma branca da minha xícara. Hoje ouvindo a canção Sueños Rotos da banda espanhola La Quinta Estación me lembrei dos cafés que tomei, em especial daquele, cujo gosto estava entre o amargo da partida e o doce da esperança de um dia voltar a vê-lo.

"Volver a verte otra vez
Con los ojitos empapados del ayer
Con la dulzura de un amor que nadie ve
Con la promesa de aquel ultimo café
Con un montón de sueños rotos
Volver a verte otra vez"



(Fotos_by Meg Mamede)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Cultura Imaterial: Festas.

Quem não gosta de festa? Desde que o mundo é mundo temos por hábito nos reunir para festejar. Seja para agradecer a colheita, o nascimento do filho, a coroação do rei, o dia do santo ou o casamento. Sempre encontramos motivos para celebrar. Festas que acontecem pelo mundo afora foram trazidas para o Brasil pela mão dos colonizadores e imigrantes, passadas de geração para geração e são representadas dentro do conjunto de expressões e tradições de um grupo ou sociedade. O que chamamos de patrimônio cultural imaterial. Nosso país tem festas para todos os gostos e a mais famosa delas, o Carnaval, tem origem no entrudo português, traz elementos da corte, da senzala, da casa grande e dos cortiços, mesclando-se numa festa pagã cujas origens, segundo alguns historiadores, estão no Antigo Egito, passando pela Grécia e Roma. Entre os carnavais mais famosos os de Veneza, Itália; Nova Orleans, E.U.A; Nice, França; Las Palmas de Canárias, Espanha e Oruro na Bolívia fazem a alegria do folião, mas nada se compara ao Carnaval brasileiro. Temos também as festas religiosas como o Círio de Nazaré de Belém do Pará que atraí milhões fiéis e turistas e a Festa do Sr. do Bonfim em Salvador, BA, onde ritos católicos se fundem com a cultura afro dos candomblés e umbandas. Já a Festa do Boi de Parintins, no coração da Amazônia, traz fortes elementos da cultura indígena num grande espetáculo de conotação popular. Temos ainda as Festas Juninas que acontecem nos quatro cantos do país e, na Festa de São João de Campina Grande, PB, moradores e turistas passam o mês embalados pelo forró, na que ficou conhecida como a maior festa de S.João do mundo. Verdade, pois o santo é comemorado em quase toda a Europa, países como Portugal, Espanha, França, Itália e acredite Letônia e Estônia, todos têm suas respectivas festas em homenagem ao santo, mas nem uma tão grandiosa. E por falar em tradição não poderia esquecer a Festa do Divino de Mogi das Cruzes, uma das mais antigas do Estado de São Paulo e o Akimatsuri, Festa do Outono, contribuição da colônia japonesa da cidade. Logo que cheguei a Euskadi, norte da Espanha, estive em algumas festas: Otxomaio em Orduña, Vitória-Gasteiz e Bilbao, com suas comidas e bebida típicas e o povo tomando as ruas das cidades até o amanhecer. Estive também na Festa de San Fermin em Pamplona, onde o famoso encierro atrai gente de todas as partes do mundo, de Ernest Hemingway a anônimos brasileiros como eu. Na Tamborrada de Donostia, bandas musicais conhecidas por comparsas e as companhias gastronômicas saem pela cidade acompanhados de seus tambores e barris. Tradição iniciada quando da ocupação napoleônica na península Ibérica. De um lado os soldados de Napoleão ocupando a cidade, marchando em formação e tocando seus tambores e, do outro, as mulheres que em resposta batiam nos barris que levavam consigo para trazer água das fontes. É curioso pensar no quebra-cabeça da história, uma ação desencadeando outra. Enquanto espanhóis davam passagem aos franceses, estes seguiam rumo a Portugal e a família real portuguesa cruzava o Atlântico rumo ao Brasil. Chegando a Salvador e seguindo para o Rio de Janeiro, transferindo a metrópole para colônia numa inversão de papéis. Trouxeram entre outras coisas, parte da nossa herança cultural e algumas das festas que hoje fazem a alegria do brasileiro. O país que tem o maior espetáculo da terra, também é o detentor de uma cultura imaterial riquíssima, por isso, a manutenção da tradição e o respeito às expressões populares são fundamentais para preservação da nossa cultura, garantindo o sentimento de identidade e continuidade que dá cor, tom, feição e alegria a nossa gente.

(foto: Fiestas en Euskadi by_Meg Mamede)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Lisboa que eu não vi.


Há alguns dias estive no Museu da Língua Portuguesa na Estação da Luz em São Paulo e, fiquei encantada com o aproveitamento do espaço, a quantidade e qualidade da informação existente, tanto que em uma única visita é impossível ver tudo. Na exposição Fernando Pessoa, plural como o universo pude experimentar algo que não acreditava ser possível: saudades de Portugal. Não que não seja um país interessante, ao contrário, era eu que não estava num momento interessante e por isso não consegui me adaptar totalmente a vida em Lisboa e aproveitar melhor os meses que lá vivi. Em uma das salas da exposição, junto dos livros de Pessoa, comecei a folhear e reler alguns trechos de Lisboa, o que o turista deve ver e fui tomada de uma nostalgia. Fotos, imagens antigas, jornais e trechos de livros me transportaram para uma Lisboa que não conheci, talvez por estar com o pensamento e o coração em outro lugar não tenha conseguido enxergar tudo que aquela cidade podia me oferecer. Ainda assim, conheci lugares, cantinhos, paisagens e vivi momentos só meus que não serão nunca esquecidos. Uma manhã de sol no Cais do Sodré olhando o Tejo, uma tarde no Museu Calouste Gulbenkian, uma noite inteira pelos bares do Bairro Alto e Chiado, comer os famosos pastéis de Belém antes ou depois – ou os dois – de visitar o Mosteiro dos Jerônimos, andar de elétrico pelo centro de Lisboa fotografando os azulejos, as roupas penduradas e as gentes, apreciar as vistas desde o Castelo de São Jorge ou dos mirantes espalhados pela cidade, caminhar pelas ruelas da Mouraria, tomar uma café no Café “A brasileira” e fazer a famosa foto ao lado do poeta maior Fernando Pessoa, que juntamente com Florbela Espanca e José Saramago são meus escritores portugueses favoritos. Há muito pra se ver. Hoje com a distância consigo perceber muito do que perdi tendo passado um tempo melancólico e de certa maneira introspecto. Talvez eu não tenha conseguido captar a alma lisboeta e por isso tenha aproveitado menos. Ao visitar a Torre do Tombo – uma torre que não é torre – observar as Gárgulas cravadas num prédio moderno cujo interior é recheado de história, parte da nossa inclusive, comecei a entender algumas coisas e conhecer respostas às perguntas que fazemos todas às vezes que pensamos no nosso passado histórico. Passando algum tempo no Monumento aos Descobrimentos – Padrão dos Descobrimentos como é chamado – olhando o horizonte do mesmo lugar onde outrora navegantes partiram de sua terra em busca do novo e desconhecido, senti uma vontade imensa de retornar ao Brasil. Como na música de Vinicius de Morais e Homem Cristo imortalizada na voz da diva Amália Rodrigues “Saudades do Brasil em Portugal” eu precisava voltar para querer partir de novo.

Hoje cá, posso dizer que gostei imenso de lá.

sábado, 9 de outubro de 2010

Entre o casto e o sensual.

“Quem prepara imagens lascivas e desonestas de modo que seja provável que elas venham a comover os outros, esse comete pecado mortal; idem para aquele que possui e mantém imagens que desonram a Deus e os santos”.

Trechos de manuais do confessor, direcionados aos artistas que tratavam temas escabrosos, na França do século XVII
. (Revista História Viva, jan/2006 p.39).


Queria comentar sobre aspectos da arte ligados à história cultural das sociedades ocidentais de origem judaico-cristã: as pinturas com temas religiosos que mudaram sua estética a partir do renascimento, humanizando os ícones, reaproximando o homem de Deus através das formas, desacralizando as representações.

No antigo testamento livro de Gênesis (1:27): encontramos passagem que nos fala da humanização dos ícones e santos. No principio: e Deus disse: façamos o homem a nossa imagem e semelhança, e Deus criou o homem a sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” e este homem e mulher que habitavam o paraíso, viviam nus como vieram ao mundo e assim com uma nudez inocente e casta são representados pelos artistas em momentos da história da arte. Quando Deus veio à terra e ao adotar a forma humana, na pessoa de Jesus, fisicamente se parecia como qualquer outro Homem. Ele teve fome, sede, cansaço e esteve suscetível às paixões humanas.

Até com olhar laico podemos ver uma pintura ou ler uma obra literária com inocência, desprendimento material, sem malícia, pois conhecemos mesmo que superficialmente algumas passagens bíblicas. Despidos do pensamento e valores materiais somos capazes de encontrar nas obras de arte referências ao amor, seja ele paterno ou fraterno.

A partir do renascimento o resgate do classicismo grego se fez presente nas obras. Na busca pela forma perfeita, os corpos mirrados e deselegantes, aquela nudez natural da iconografia medieval deu lugar ao movimento e à beleza das formas de corpos bem delineados, proporcionais e belos. Inclusive nas obras que retratam cenas bíblicas e religiosas, o que incomodou a Igreja. Mesmo antes do Concílio de Trento em 1563 que combateu com mais rigor a “sensualidade e lascívia” nas artes, o monge dominicano Jerônimo Savonarola, entre 1497 e 1498, já promovia as chamadas “Fogueiras das vaidades”, grandes fogueiras na praça central de Florença, onde queimavam símbolos e objetos da vaidade. Pinturas de artistas como Sandro Botticelli não escapariam. Não condenaram somente a nudez dos corpos retratada nas obras, mas também o gestual, o vestuário, a expressão facial. Interpretados como elementos carregados de sensualidade e luxuria e que portanto, pecavam contra a castidade e profanavam a santidade.

E nos dias de hoje? Como vemos estas obras?



“O Batismo de Jesus Cristo” de Almeida Junior (Pinacoteca do Estado de São Paulo) e “São Sebastião na Coluna” de Perugino (Museu de Arte de São Paulo).

Notamos que esses não são modelos atuais de beleza. No primeiro quadro há um Jesus Cristo e João Batista magros e apesar da pouca roupa não há sensualidade, temos uma cena de obediência e entrega. O Batismo. Apesar de corpos envoltos em panos, esta imagem nos remete a um outro tipo de beleza. A beleza do momento onde o pai se faz presente em forma de luz, e o amor se faz presente entre os homens de maneira fraternal.

Na outra obra, temos a representação de São Sebastião um tanto quanto intrigante. Retratado de maneira lânguida, com um olhar perdido e formas ambíguas, onde o sensual e o angelical se misturam.

(...) “O complexo calvário de santas heresias encapsulado por São Sebastião deve ter começado com a imagem criada por Fra Bartolomeo (1473-1517), pintor italiano da escola de Florença, “especializado” em temas religiosos. Sua pintura em afresco sobre o mártir foi retirada das paredes da igreja pelos monges, sob a “acusação” de que era fonte de pensamentos pecaminosos durante as confissões das mulheres e induziam fiéis a devaneios eróticos” (...). (“Os mil martírios de São Sebastião” de Carlos Adriano)

O que essas obras têm em comum?

Ao observar melhor notamos que ambas obras têm o olhar voltado para os céus, na procura pela compaixão do Deus pai, numa postura de coragem e respeito, bem como, a paixão humana representada através do sofrimento de São Sebastião, que preso à coluna é perfurado pelas flechas de arqueiros mauritanos.

Podemos então enxergar com amor, o que os olhos insistem em ver com outros adjetivos? Entendendo a paixão como um sentimento que exprime sofrimento, não necessariamente aquela paixão louca que nos consome quando estamos “ardendo em amor” e destituídos da malícia podemos entender a abnegação presente nessas pinturas? É possível perceber que o amor do Pai ou do próximo sobrepujam às questões da carne?

Cada um, cada um. Deixo a provocação.

Veja também:

- Legenda Áurea: Vida dos Santos, de Jacopo Vazzari. São Paulo. Cia das Letras. 2003.
- Fogo sobre a terra, de William Manchester. Rio de Janeiro. Ediouro, 2004.
- Bíblia Sagrada – Edição Ecumênica. Barsa. 1972
- Revista História Viva. Ano III - nº 27, janeiro 2006


terça-feira, 28 de setembro de 2010

Um pouco de poesia.

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

(Florbela Espanca, poetisa portuguesa - 1894/1930)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Nunca prove uma roupa se não vai comprá-la.

De tempos em tempos recebemos vídeos como esse ou o da cerveja Heineken, inteligentes e engraçadíssimos, faz tempo que não vejo no Brasil propagandas assim. As produções publicitárias por aqui carecem de criatividade, houve tempos em que ríamos mais com propagandas que mesclcavam humor e sacadas inteligentes. Onde foram parar as cabeças pensantes das décadas de 80 e 90?
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Quem procura acha.

Joelmir Beting, o que você quis dizer com isso? Que você não é diferente de outros machos machões? Que você não é exceção à regra? Que você parte do senso comum? Ou o que? Perdoe-me se cometo algum equívoco, mas não entendi porque você encerrou a matéria em horário nobre, em rede nacional, com essa infeliz afirmação. Você por acaso nasceu de chocadeira? Não tem mãe? Irmã? Esposa? Filha? Amigas? Colegas de profissão? Eu o tinha em melhor conceito, ainda bem que podemos rever conceitos. Não faço parte de nenhuma associação de proteção à Mulher, de nenhum grupo feminista ou GLS, simplesmente sou Mulher e estava por acaso com a tv ligada no momento em que você humano como eu, do gênero masculino, errou. Não sou jornalista e não conheço as leis que regem a profissão e a liberdade de expressão no país. Tão pouco conheço o código de ética do profissional do jornalismo, mas como cidadã sei dos meus direitos e me senti incomodada, acredito não ter sido a única, pela maneira como você se referiu a uma amiga de profissão, que mesmo não sendo brasileira, merece seu respeito como Mulher e profissional. Sua atitude denota comportamento sexista e reforça atitudes nada respeituosas para com a Mulher. Como formador de opinião deveria ter sido imparcial. Enquanto muitos no país e no mundo, promovem uma cruzada para tentar mudar o quadro de violência e maus tratos contra a Mulher, um ícone do jornalismo brasileiro, referência para muitos na profissão abre a boca para dizer algo tão absurdo. Você deveria ter ficado de boca fechada, ou deixar para tecer seu maldoso comentário entre amigos, na mesa do bar, no vestiário do clube, no âmbito privado, nunca publicamente. O Homem Joelmir Beting pode dizer o que quiser na esfera privada – nossa Constituição assim lhe/nos permite – mas em frente às câmeras de tv deveria ser mais prudente. Nós mulheres devemos assumir que também temos culpa pelo que acontece conosco, não me refiro à exploração da nossa beleza ou sensualidade ou por causa do uso de um vestido mais curto para ir ao trabalho ou à universidade. Nós temos direitos sobre nosso corpo, não somos propriedade de ninguém e fazemos com ele o que bem entendermos. Refiro-me à educação que a Mulher como mãe, tia, avó, professora deve dar aos filhos e filhas, ensinando-os a respeitar o ser humano independente de gênero, credo, classe social ou formação. Só quem é Mulher, tendo sofrido ou não maus tratos – físico, psicológico ou verbal – é capaz de perceber a importância de lutar contra a violência, seja ela doméstica, no trabalho, nas escolas e outros lugares em que a Mulher desempenha seus muitos papéis. Quanto ao conceituado jornalista da Band, como ser humano que é pode reverter a situação favoravelmente, retratando-se com humildade e sendo mais cauteloso, evitando assim, qualquer desconforto perante a sociedade e o (seu) público. Afinal, como ele mesmo mencionou “Quem procura acha”.

A matéria que cito no texto está disponível no link indicado abaixo, não foi possível incorporá-lo ao post.

Jornalista reclama de cantada em jogo de futebol americano

A jornalista mexicana estava nos Estados Unidos para entrevistar um jogador mexicano do time, porém atraiu a atenção de todos os jogadores. Além dos olhares, o treinador arremessava as bolas na direção de Sainz. Após se queixar, Inês recebeu um pedido de desculpas do dono do Jets.

http://videos.band.com.br/v_70394_jornalista_reclama_de_cantada_em_jogo_de_futebol_americano.htm


** A imagem que ilustra o texto, trata-se da capa da cartilha “Diga NÃO à Violência contra a Mulher” organizada pela Rede Oblata da Pastoral do Instituto Oblatas lançado em 2008.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Neste mundo nada se cria...

Tudo se copia ou se faz paródia, versão ou como queiram chamar. E no vácuo do sucesso de Liz Gilbert veio Andrew Gottlieb criador da série americana “Z Rock” uma sátira a celebridades do mundo do rock, que numa sacada de marketing e aproveitando o estrondoso sucesso de Comer, Rezar, Amar – a busca de uma mulher por todas as coisas da vida na Itália, na Índia e na Indonésia (lançado em 2006 nos EUA, 2008 no Brasil e que já virou filme com Julia Roberts e Javier Barden), lançou em 2008 (no Brasil em 2009) seu Beber, Jogar e F@#er – a jornada de um homem em busca de diversão na Irlanda, em Las Vegas e na Tailândia. Segundo alguns comentários e resenhas, trata-se de obra fictícia diferente da autobiografia da jornalista e agora escritora de sucesso Liz Gilbert. Não li, mas confesso que me deu curiosidade ao ver o livro numa livraria dia desses. Imagino que contraponto hilário deve ser. Em tempos em que livros de auto ajuda roubam a cena e ganham cada vez mais adeptos, até que um chiste vai bem. Entre ver Tiririca e companhia em propaganda eleitoral, porque não passar esse tempo lendo um livro desses, até porque, não dá pra contar as impressões pessoais sem antes lê-lo. Na verdade não sou muito de comédia, mas, imagino ser uma boa pedida quando se está em uma grande livraria, esperando o tempo passar, sentada em uma cadeira ou banco confortável com o livro sobre as pernas, numa dessas leituras que não requer muito esforço, o problema será não rir alto e atrapalhar as outras pessoas. Outra opção será o cinema, já que a Warner comprou os direitos do livro. Resta saber se será mais uma dessas estúpidas comédias para americano ver. Se for, prefiro sair para beber, jogar bingo ou sei lá o que, mas não vou ao cinema nem f@#endo!

domingo, 12 de setembro de 2010

História Colonial de Mogi das Cruzes.

Ontem foi a vez de prestigiar a professora e amiga Madalena Marques Dias no lançamento do livro História Colonial de Mogi das Cruzes – Elite e Formação da Vila na livraria Nobel de Mogi das Cruzes. Madalena, mogiana como eu - ou mogicruzense como ela costuma dizer -,
recebeu amigos, alunos e ex alunos, entre eles, a amiga Maria Emília que deixou o Planalto de Piratininga para visitar a quatrocentona Mogi das Cruzes. E por falar em séculos de história, o livro em questão foi mais um presente que a cidade recebeu no seu 450° aniversário, comemorado no último dia 1°. O livro lançado pela Oriom Editora é fruto da dissertação de mestrado da professora Madalena. Folheando a publicação encontramos um pouco mais da história da fundação da Vila de Santana, a história dos colonos vicentinos, a distribuição da riqueza entre os fundadores da vila, as relações de poder e prestígio na Mogi de antigamente, assim como, algumas fotos e documentos daquele período. A cidade conta com produções interessantes de autores e datas diferentes, cada um a seu modo contribuiu para que a história da cidade seja conhecida pelos que aqui nasceram, os que aqui vieram viver e curiosos que buscam saber um pouco mais desta “provinciana” e agradável cidade.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Caminhos da Cultura.

O que é cultura? Há muitas definições para a palavra e muitos equívocos também. Podemos falar de cultura a partir do ponto de vista: histórico, artístico, sociológico ou antropológico. Porém minha proposta para a coluna Cult da Woman’s Mag é oferecer leituras interessantes e fluídas que falem de cultura de maneira leve e prazerosa baseando-se em experiências vividas. Gostaria de compartilhar com o leitor algumas histórias aproveitando que o mundo globalizado transformou as experiências pessoais em universais, fazendo com que as pessoas identifiquem-se com as histórias do outro. Além do que, com o advento da mundialização da cultura, hoje é possível dançar salsa em Luanda, comer um kebab em Córdoba, ver videoclipes produzidos em Hollywood em qualquer continente, provar a culinária basca em São Paulo, assistir ao Magic of the Dance em Bilbao, é ainda ouvir o Perpetuum Jazzile da Eslovênia cantando Aquarela do Brasil de Ary Barroso ou simplesmente comer uma deliciosa tapioca, um yakissoba ou um pastel de Belém em qualquer esquina das grandes cidades do Brasil. Todos têm cultura, equivoca-se aquele que pensa que a pessoa que não teve acesso à educação formal ou o privilégio de nascer em berço de ouro não a tenha. Somos produtos do meio em que vivemos. Neles são produzidas a cultura material e imaterial, ajudando, em conjunto com a língua a forjar a identidade de um grupo ou sociedade. Veja o exemplo do índio, ele pode desconhecer a arte barroca produzida em Minas Gerais, o renascimento do século XVI ou nunca ter saído de sua reserva. No entanto, ele também produz cultura ao repassar as suas tradições e produção artesanal. A cultura não é fruto somente da produção elitizada e segmentada de um grupo ou sociedade, tão pouco se restringe à erudição, ela é a soma de tudo isso e de outros aspectos que abordarei aqui a cada mês. Todos nós temos cultura de acordo com nosso entorno e vivências. Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, nós brasileiros somos fruto de uma mestiçagem, cujas matrizes – luso, afro e indígena – resultaram em uma gente singular e uma cultura sincrética. O Brasil, país de dimensões continentais, recebeu levas e levas de imigrantes de todo o mundo e em momentos distintos da sua história. E a nossa gente, fruto dessa mestiçagem, tem uma das culturas mais diversa e multifacetada que se conhece, um mosaico heterogêneo que se reflete na música, na culinária, nas artes, nas festas, nos usos e costumes do brasileiro. Há muitos caminhos para ampliar nossa cultura: a literatura, o cinema, as artes, as viagens. E é sobre esses assuntos que falarei nas próximas edições. Convido você leitor, interessado em viajar no tempo, a conhecer um pouco mais da cultura brasileira e de outros rincões do mundo por onde passei e por onde passarei.







Artigo publicado na coluna Cult da Revista Woman’s Mag – Agosto 2010, n° 1

Fotos que ilustram o artigo: Zuheros / Espanha, Detalhe da Torre parte da Cadetral Mesquita de Córdoba/ Espanha e Palácio da Regalera, Sintra /Portugal
© Meg Mamede

sábado, 4 de setembro de 2010

Pra você guardei o Amor.


"Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive
E vi sem me deixar
Sentir
Sem conseguir
Provar
Sem entregar
E repartir"

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Em busca do paraíso.

Próximo a minha viagem de volta ao Brasil assisti “Éden a oeste” filme do diretor grego Costa-Gravas (França / Grecia / Itália, 2009) e não pude conter as lágrimas, não sei se pela história do ingênuo Elias vivido pelo lindíssimo ator italiano Riccardo Scamarcio , personagem que sonha chegar à França e ter melhores dias, ou se pela minha própria história. Reservas à parte, os motivos que me levaram a cruzar o oceano não foram os mesmo que os daquele personagem, porém, sempre nos identificamos com algo. A França que Elias vê como Éden não tem nada de paraíso para imigrantes sem papéis, sem emprego e sem dinheiro. Os sonhos são necessários, alimentam o homem e são fundamentais para mantermos a humanidade, mas não matam a fome e não pagam as contas no final do mês. Atualmente a tendência é o agravamento da situação para imigrantes que se encontram em situação irregular em países como França, Itália, Alemanha, Inglaterra e outros países da Europa, bem como EUA e, os jornais têm mostrado isso com freqüência. Retornando à França, a hostilidade com que o governo francês tem tratado os imigrantes é até contraditório se pensarmos que o próprio presidente Sarkozy nascido na França, é filho de pai húngaro exilado naquele país e mãe de origem judia, mas claro que a política e a economia sobrepujam qualquer humanidade, sempre foi e sempre será assim. A política protecionista adotada em momentos de crise econômica se reflete muito bem no que temos visto: França para os franceses, Itália para os italianos, e prisão para imigrantes sem papel. Pior ainda, é a situação daqueles que se arriscam na travessia do México para os EUA, maior que o risco de ser preso e repatriado é o risco de ser morto como os 72 imigrantes assassinados por traficantes em San Fernando, Estado de Tamaulipas. Mais uma vez a vida imita a arte, ou seria o contrário? Ao ouvir a notícia imediatamente me lembrei do filme “Para além da fronteira” do diretor Wayne Kramer (EUA, 2008), que assisti em Lisboa – no Brasil “Território restrito” – e que me fez repensar a situação daqueles que estão fora de seu país e de maneira irregular, no filme a atriz brasileira Alice Braga interpreta a imigrante Mireya Sanchez, morta por “coyotes” – pessoas que promovem a travessia ilegal, mas que muitas vezes fazem tráfico de drogas e armas também – quando tentava retornar aos EUA desde o México, após ter sido presa e repatriada pela polícia de imigração norte americana. O que leva o ser humano a sair do seu lugar e seguir para outro é algo antigo na história da humanidade, cada povo, cada momento da história e cada qual tem os seus motivos, porém, nada é mais valioso que a vida. No filme de Costa-Gravas o problema da imigração ilegal é tratado com mais leveza e às vezes até dá lugar ao humor, diferente da realidade nua e crua mostrada pelo diretor Wayne Kramer, mas quem nunca saiu da cidade onde nasceu talvez tenha dificuldades para entender o que significa emigrar e todas as conseqüências que a atitude acarreta. Nos dias atuais planejamento e bom senso são essenciais e, temos que pensar nos que ficam: a família, os amigos e todo o sofrimento que uma atitude impulsiva pode causar, afinal, existem situações que preferimos ver somente no cinema e nunca protagonizá-las.


Veja também outros filmes que abordam a questão da imigração:

Código Desconhecido de Michael Haneke (França, 2000)
Entre os Muros da Escola de Laurent Cantet (França, 2008)
O dia da Saia de Jean-Paul Lilienfeld (França. 2008)

sábado, 21 de agosto de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Bienal do Livro 2010.

Terça-feira foi dia de reencontrar o querido amigo Ricardo Faria, historiador, professor e escritor mineiro. Nossos encontros têm tempo certo para acontecer, quase um fenômeno astronômico eu diria, acontecendo de maneira cíclica a cada dois ou três anos. Astros que dependem de uma conjunção especial para estarem juntos, risos. 2005 na Anpuh UEL, 2007 Anpuh UNISINOS e agora em 2010 na Bienal do Livro de São Paulo. Entre livros, textos, história, parada para o “lanchinho” e muito riso, as horas passaram rapidamente. Desta vez a tônica da nossa discussão foi a tal “pós-modernidade” e o “hibridismo”, conceitos atuais que substituem a famosa “quebra de paradigma” ou os “parâmetros que norteiam o bojo de algo”, trocando em miúdos, os modismos que ajudam a promover e vender produções que muitas vezes são nada mais nada menos que “variações do mesmo tema”, cheios de adornos e firulas que só fazem aborrecer o leitor não especializado – e o especializado também –. Por outro lado, percebemos que os campeões de venda nos dias atuais, sem sombra de dúvida, são os livros de auto-ajuda, as novelas negras e vampirescas ou o famoso besteirol. Não é para menos, eles ajudam a desopilar o fígado e dar boas gargalhadas. Não sei como foram as primeiras Bienais do livro de SP, mas o mercado editorial também entrou para a era do espetáculo, entre Drag Queens performáticas, ciberespaços, espaços gourmet e outras atrações, a feira é um grande parque de diversões, onde crianças entusiasmadas com o personagem que ganha vida, adolescentes high techs e professores enlouquecidos, tudo é motivo de festa, ao menos isso, porque os livros continuam caríssimos e inacessíveis para a maioria dos brasileiros. Infelizmente o Brasil não é um país de leitores e o pior de tudo é o grande número de analfabetos funcionais existentes, contradizendo os números do último censo do IBGE para educação no país. Apesar do aumento da escolaridade no país apontado pelo censo, o que encontramos nas escolas, empresas e outros lugares são pessoas com dificuldade de interpretação, seja de textos, de enunciados, etc. Gente que escreve e lê sim, mas não compreende. Fala português, mas, não se comunica. O pior de tudo que isso se aplica a profissionais de todas as áreas, inclusive professores. Na era da informação, a formação tem sido deixada de lado, ler é importantíssimo, seja o que for, afinal exercitar a mente com leituras, independente das preferências, é a melhor forma de manter-se jovem. Para o corpo o exercício físico, o futebol, a caminhada, a dança, para a mente a leitura.

21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
De 12 a 22/08/2010 – Anhembi – SP
Mais informações acesse: http://www.bienaldolivrosp.com.br/

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um brinde a Amizade!




"Amigo: alguém que sabe tudo a teu respeito e gosta de ti assim mesmo." (Elbert Hubbard)



Não há coisa melhor que estar entre amigos, velhos ou novos amigos. Nesta última sexta-feira passei uma noite deliciosa na casa dos amigos Rosangêla e Thales. Rô, como a chamo desde criança, nos recebeu, a mim e o grupo que ali esteve com toda a atenção e carinho que lhe é peculiar. Além da bela decoração e ambiente para lá de acolhedor, cometemos todos, sem exceção, o pecado da gula. Regados a muito vinho nos deleitamos com os queijos e os saborosos caldos – caldo de mandioquinha, de cenoura e caldo verde – e outros petiscos que nossa anfitriã fez questão de preparar pessoalmente, deixando todos surpresos com seus dotes culinários, mais uma qualidade a ser acrescentada às outras que minha querida amiga Rô possui. Depois de muitas fotos, muito riso, muito vinho, ainda sobrou animação para dançar e a noite foi curta para tanta alegria. Para mim foi uma daquelas noites surpreendentes, para qual não criamos expectativas e nos divertimos como nunca. Rô e Thales obrigada pela noite.

Rô obrigada pela amizade!





Beijos da amiga de ontem, hoje e sempre!


Meg

sábado, 14 de agosto de 2010

Peter Burke e Maria Lúcia G.Pallares-Burke apresentam Gilberto Freyre.

Nesta quinta-feira 12 de agosto, tive o privilégio de conhecer e ouvir importantes nomes da história cultural. Referência nos estudos e pesquisas das mídias entre outras coisas, Peter Burke dispensa apresentações. Com muitos livros publicados no Brasil, entre os quais: O Renascimento Italiano: Cultura e Sociedade na Itália, História e Teoria Social, A Escrita da História, A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV, Uma história social da Mídia: de Gutenberg a Internet, Testemunha Ocular, O que é história cultural, o historiador, pesquisador e professor inglês Peter Burke juntamente com a esposa e também historiadora, a brasileira Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke apresentaram o livro Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre, trabalho escrito a quatro mãos que originalmente foi editado para o público anglófono, como mencionado por Peter Burke “para inglês ler” e que posteriormente seria adaptado e publicado no Brasil pela editora UNESP no ano passado. Depois de participarem da FLIP no Rio de Janeiro, que este ano homenageou o autor de Casa Grande e Senzala e que segundo os organizadores do evento “é o mais literário pensador social brasileiro” Peter Burke e Maria Lúcia G. Pallares-Burke, autora de Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos e também responsável pela curadoria das atividades em homenagem a Freyre na FLIP 2010 vieram à S.Paulo e deram aos presentes no auditório do Cedem/Unesp o presente de conhecer detalhes, curiosidades e abordagem escolhida pelo casal para elaborar o livro. Para essa apresentação de Freyre, o casal Burke se valeu da correspondência pessoal, prefácios, anotações em livros que o autor lia, além da produção de Freyre que em alguns momentos lhes fornecia pequenos relatos autobiográficos e, o fato de Maria Lucia ser brasileira e, portanto, conhecedora da cultura do seu país, foi determinante para a produção do livro. A admiração de um historiador reconhecido internacionalmente por um pensador brasileiro que transitava entre a literatura, a história, a sociologia, a antropologia – sem esquecer seu interesse pela pintura – numa postura interdisciplinar incomum entre seus pares e que segundo Peter Burke encontraria equivalência na Europa em nomes como Fernand Braudel e Johan Huizinga, não poderia passar em branco e por isso mesmo deveria ser apresentado ao mundo. Começando pela Inglaterra Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre esclarece que: para conhecer a cultura brasileira, há que se considerar o legado deixado por esse pernambucano cultuado por uns, criticado por outros. Às vezes incompreendido, noutras vezes amado. E... é esse Gilberto Freyre “homem-orquestra”, controverso, narcisista, gênio genioso, interdisciplinar e, sobretudo humano, que nos foi apresentado com elegância inglesa e beleza brasileira.





Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre
Editora Unesp (S.Paulo, 2009)
Maria Lucia Garcia Pallares-Burke e Peter Burke
Gênero: Biografia

domingo, 8 de agosto de 2010

Comer, Rezar e Amar.

Se você pensou no livro da norte-americana Elizabeth Gilbert, acertou. Mas, isso aqui não é resenha não, até porque o livro foi lançando em 2007 no Brasil e foi bastante resenhado, criticado, rotulado e o mais engraçado é que eu ainda não tinha ouvido falar dele até que retornei ao país em maio deste ano, coincidentemente, após dois fora do Brasil, período que embarquei numa viagem de auto conhecimento, num parênteses aberto em minha vida para viver em outros lugares, num tempo diferente do meu tempo em São Paulo. Brinco dizendo que foram dois anos da minha vida sem mim, onde pude me ver com distanciamento, deslocada do meu eixo, quase em outra dimensão. Cansada de tudo e buscando respostas embarquei no que alguns acharam loucura e outros, coragem. Fui criticada por deixar tudo e seguir rumo ao desconhecido e incerto, mas também fui invejada por conta da ousadia e desprendimento, são poucos os que aos quase 40 anos largariam tudo para fazer o que eu fiz, mas não me arrependo de nada e faria tudo de novo. Assim como para Elizabeth Gilbert foi um tempo para comer, engordei quase 4 quilos graças à culinária basca, quando cheguei na Espanha pesava cerca de 51 quilos, rezei pouco isso é verdade, mas visitei e fotografei muitas igrejas e o melhor de tudo: amei como nunca havia amado antes. Terminei de ler o livro esses dias e me identifiquei com muitas passagens e situações vividas pela autora, acredito que todo mundo deveria viajar sem rumo ou planejamento pelo menos uma vez na vida em busca do self ou para conhecer seus limites, saber o quanto é capaz de adaptar-se, ou não, para perceber que ninguém é uma ilha e que todos somos iguais em determinadas situações e apenas humanos independente da origem, educação, credo, cor ou classe social. Essa viagem pode ser empreendida aqui mesmo no Brasil, afinal o Brasil é tão extenso e diferente, nossa dimensão continental nos remete a vários Brasis, assim não há desculpa de não falar outra língua ou não conhecer os costumes das gentes, aqui mesmo a diversidade da linguagem e da região em que nos encontramos já nos garantirá uma desafiadora estada e um grande aprendizado. Viver um tempo em algum lugar que não o nosso, só quem já teve uma experiência assim sabe do que estou falando. Lendo sobre Elizabeth Gilbert soube que ela terminou novo livro “Comprometida” fruto de tudo que viveu a partir de sua estada em Bali, Indonésia, onde conheceu o seu atual marido, o brasileiro José Neves. Para uma mulher divorciada que havia prometido pra si mesma que nunca mais se casaria, ficou claro – como ela mesma menciona – que nunca devemos dizer “nunca”. Quanto a mim, aprendi que as experiências humanas são universais, que o que sinto ou penso aqui ou quando vivia em Orduña, são os mesmo sentimentos e pensamentos que outros têm em outros lugares do planeta, e é por isso que quero dividir minha experiência de viagem com quem queira. Uma viagem que começou a partir de anseios, questionamentos e uma vontade de engolir o mundo que me consumia e que com pouco dinheiro e uma grande dose de ousadia se tornaria realidade. A próxima viagem será a edição do livro Um bar chamado Samaná: Uma viagem para recordar, onde pretendo contar o que fazia uma brasileira num bar em estilo irlandês, com nome dominicano em pleno País Basco. Adianto que, ela tomava o melhor café da região enquanto lia os jornais, conversava com as pessoas e alimentava os sonhos, entre eles, o de escrever um livro onde as histórias daquela viagem entrelaçada com sua história de vida e de outras pessoas seriam ordenadas, ou não, para depois cair na rede ou ir para o papel. Mas isso ainda leva algum tempo, como tudo nessa vida. Eu que sempre fui muito independente, ou pensava ser, fui aprender durante essa estada fora que podemos ir além, aprendi que independência é poder ser “senhora do seu tempo” e “dona do seu próprio destino” e é comendo, rezando, amando ou fazendo qualquer outra coisa que se queira que chegamos a isso.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Turista.


Um dia alguém chegou,

olhou de longe, me observou.

Logo... tomou coragem e se aproximou.

Era você que chegou de mansinho, devagarzinho e me tocou.

Tocou tão fundo, que confesso, me encantou.

Ah... Você era tão diferente!

Tímido, calado, tranquilo. Me conquistou.

E eu, fiquei assim... apaixonada, sem eira nem beira, feito barata tonta.

E você? Seu Turista!

Como chegou me deixou.


(Meg, 06/05/85)

Poema retirado de um caderno de poesias feito na adolescência e esquecido por anos**

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Viajando de Trem.

Quando criança nossa casa estava localizada em frente à estação de trem do meu bairro, uma estação antiga de onde só saiam trens com vagões e bancos de madeira. Era mágico poder entrar naquele trem para visitar os parentes que viviam nas cidades vizinhas. Mas a alegria de entrar no trem, sentir o cheiro da madeira e ver a paisagem passando como um filme pela janela duraria pouco, por questões políticas e interesses econômicos, a estação seria desativada e não teríamos mais a facilidade de atravessar a rua e embarcar numa viagem para Guararema, Jacareí, Taubaté – cidades do Vale do Paraíba –, todos perdemos. A estação ficaria esquecida, abandonada por anos, servindo de local de manobra para barulhentos trens de carga, que só faziam atrapalhar nosso sono durante a madrugada, incomodando até hoje os moradores por conta do trânsito caótico que se forma próximo à passagem de nível, toda vez que longos trens de carga passam por lá ou param para manobras. A estação também serviu de escritório para uma empresa de cimento e hoje desconheço o seu uso. Seria maravilhoso se aquela construção fosse transformada num Centro de Memória do distrito de Cesar de Souza ou mesmo da RFFSA, antiga Central do Brasil. Sonhar ainda não paga impostos!

Tempos atrás lendo “Os pés alados de Mercúrio: Relatos de viagens à procura do self” de Luis Pellegrini, lembrei-me das minhas viagens de infância. Pellegrini menciona sua primeira viagem de trem sozinho, ainda muito jovem, seu pai o embarca num trem com destino a casa de parentes no interior de S.Paulo e numa mescla de medo e ansiedade ele segue viagem. Aquela viagem o mudaria para sempre, no trem ele conhece alguns jovens maiores que ele, que deveriam estar retornando do exército para casa e apesar da diferença de idade o recebem no grupo e o fazem participar da conversa, enquanto tomam cerveja e ele um refrigerante, passam a viagem contando suas histórias. Pellegrini atento escuta tudo com curiosidade. O autor diz que entrou naquele trem “menino” e saiu “homem”. Achei isso fantástico.

Por que estou contanto tudo isso mesmo? Verdade que me deu vontade, hoje organizando umas coisas em casa, livros, papéis e mais papéis, encontrei algo há muito esquecido. No meio de um caderno de poesias, encontrei um impresso do concurso de redação “Viajando de Trem” promovido pela RFFSA em São Paulo, de 1982, voltado para alunos do 1º. e 2º. Grau, para o qual enviei uma poesia representando a EEPG. Prof. Rubens Mercadante de Lima e recebi Menção Honrosa. Meu primeiro e único prêmio, ainda como precoce escritora (risos).

Muitas foram as situações que vivenciei num trem, quem me conhece sabe que eu não dirijo, não tenho carta, brinco dizendo que, malemal, dirijo carrinho de supermercado e por isso mesmo vou onde os meus pés me levam, e claro... uso e abuso de ônibus, trens e outros meios de transporte e foi viajando que vivi as situações mais inusitadas possíveis, conheci gente, fiz amigos, passei apuro e ri muito depois – de Mogi para S.Paulo, de Tiradentes para São João Del Rey, de Orduña para Bilbao ou Córdoba, da Bobadela para Lisboa ou de Lisboa para o Porto, de Barcelona para Milão –. Foi viajando num trem que sonhei chegar à Florença e fiquei em Perpignan, mas essa é outra história.

Aproveito para protestar contra a política brasileira, contra os políticos brasileiros que vivendo num país tão extenso, não têm preocupação com a construção e manutenção de uma malha ferroviária descente, que traga qualidade de vida e melhores condições de transporte à população brasileira. É vergonhoso o escancarado interesse pelas rodovias e tudo que está relacionado a ela e à produção petrolífera do país. Por que não investir em tecnologias mais limpas e menos poluentes? Por que não reduzir os custos, dando maior mobilidade e conforto para que o brasileiro possa conhecer seu país? Por que não optar por um meio de transporte mais rápido e seguro, que pode ligar o Brasil de norte a sul, leste a oeste? Por que não gerar novos postos de trabalho e alavancar de vez a locomotiva chamada Brasil? Por que acabar com itinerários como os que eu conheci quando criança, transformando antigas Estações de trem em depósitos de lixo, entregues ao vandalismo?

Essas são respostas que não temos. Quem sabe, com alguma sorte as próximas gerações sejam contempladas com o desenvolvimento do setor. Por hora nos resta a reflexão e uma atitude menos consumista e preconceituosa em relação aos velhos trens que ainda circulam nas cidades brasileiras. Não adianta comparar com o que há fora do país, há que exigir dos governantes melhorias para o setor, afinal é no Brasil que vivemos.

O trem
Vai andando,
Vai levando
Tanta gente,
Tantos sonhos,
Tantas vidas diferentes.
Vai seguindo,
Vai sumindo
Vai plantando novas idéias,
Novos amores,
Novas amizades e descobertas,
Vai seguindo deu destino.
Vai deixando outras coisas.
O trem
É como criança;
Segue levando esperanças
Para um mundo diferente.
Trem, assim te imagino,
Como um sonho que traz
Paz, esperanças e amor
Daqueles, que com você vão.

(Menção honrosa - 1982, concurso realizado pela RFFSA)


* Foto de Ricardo Koracsony, 2003.
** A estação de Cesar de Souza foi inaugurada em 1893, pela Central do Brasil, homenageando o engenheiro João Augusto César de Souza, chefe da 5a divisão da Central em 1890 e deu origem ao antigo bairro, hoje Distrito de César de Souza. O que sobrou da então estação ferroviária inaugurada em 1921 já foi até escritório de uma empresa de cimento, mas seria um lugar perfeito para um Centro de Memória do bairro ou da própria RFFSA (antiga Central do Brasil).

terça-feira, 27 de julho de 2010

Santa Anna das Cruzes de Mogy e Santa Emerenciana (Errata).


Há alguns anos o dia da padroeira da cidade tornou-se feriado municipal, mas muito antes disso, Santa Anna emprestaria seu nome a Huma Villa de Serra aSima que viria a ser conhecida posteriormente por Mogi das Cruzes. De acordo com texto do Foral de elevação de Mogi a vila, datado de 1º de setembro de 1611 o então povoado de Mogi Mirim se constituiria na vila nomeada Santa Anna das Cruzes de Mogy e é por esse motivo que no dia 26 de julho – dia de Santa Anna – os mogianos podem curtir o friozinho em casa ou havendo ponte e sol, fazer o que mais gostam: descer a serra.

Santa Ana ou Santana – do latim Anna, do hebraico Hannah – significa “graça”. Santa Ana descendia de Araão, casou-se com Joaquim da linhagem do rei Davi, tornaram-se pais de Maria e avós de Jesus. Anna em sua condição de mulher estéril foi agraciada com a maternidade aos 40 anos. A figura de Santana – fusão de título e nome – está diretamente ligada à família e a educação dos filhos, tanto é assim que em sua iconografia o mais comum é encontrar imagens onde ela aparece com Maria a sua esquerda, em seu colo ou não, segurando um livro aberto, a popular “Santana Mestra” ou de mãos dadas com Maria, conhecida por “Santana Guia”. O culto às divindades femininas remonta da antiguidade, desde os primórdios a fertilidade seja da terra ou da mulher foi fator importante e determinante para grupos e sociedades. O poder de gerar, alimentar e renovar-se está diretamente ligado ao feminino, sejam as divindades pagãs, seja na iconografia do catolicismo, seja a relação estabelecida com a agricultura e a fecundidade da terra. O culto a Santana já existente no oriente surgirá no ocidente no século VIII, já no século X é celebrado em Nápoles, Itália, a festa da concepção de Santana, que em seguida se estenderia para outras partes da Europa. Sem origem nas sagradas escrituras, o culto a Santana é de origem popular, ligado a terra, tendo sido apropriado pelo catolicismo, chegando ao Brasil pela mão de colonizadores católicos.

Houve um tempo em que a iconografia dos santos me interessava bastante. Fruto da educação católica e do meu interesse pelas artes, observar os santos e santas era uma forma de também aprender história e, ao longo dessas minhas andanças pelo país, visitando igrejas e museus muitas foram as “Santanas” que encontrei.

Acabei equivocando-me em parte deste texto quando o publiquei no último dia 24, mas ao consultar o amigo Juan Carvalho (com quem dividi o sonho de implantar um serviço educativo no MIC de Mogi das Cruzes, há alguns anos atrás), tive a dúvida esclarecida e compartilho com meus leitores a informação correta. A imagem existente no acervo do MIC trata-se Santa Emerenciana, mãe de Santana, avó de Maria e bisavó de Jesus, na foto, segundo o amigo Juan “(...) A imagem a qual você se refere não é a tradicional Santana, mas sim, Santa Emerenciana, a bisavó de Jesus.. Não me lembro direito qual o lado ao certo, mas essa santa Emerenciana segura no braço direito a filha Santana, e no esquerdo a neta, Maria, que segura seu filho Jesus, que foi perdido com o tempo (...) Eu escrevi sobre essa imagem no meu TCC da graduação em artes, onde eu explicava melhor essa questão. Existe, que eu saiba, uma outra Emerenciana na igreja da Ordem Terceira do Carmo do Rio de Janeiro, aquela igreja ao lado da capela imperial, mas em tamanho menor”.
Quanto a outra imagem, não há dúvida alguma, pois em uma de minhas visitas ao Museo de Bellas Artes de Bilbao, adquiri o guia do acervo do museu e de lá tirei as informações para este artigo, além do que o comentário do amigo Juan veio para confirmar minha afirmação.

“A santa em estilo gótico alemão mostra sim ser Santana, porque em seus braços ela carrega um menino e Maria que, pelo que me parece carrega um livro, que é o símbolo da educação recebida da mãe”.
Mantendo as informações anteriores no que diz respeito à produção das peças, ambas foram feitas em madeira policromada e em tamanho grande, mostrando a força da mulher e do feminino nas antigas sociedades, seja na estatuária de Santana, seja na de sua mãe, Santa Emerenciana. Cada uma das imagens apesar de ter a mesma composição estética, são produções de períodos e lugares diferentes, e isso fica claro se observarmos as características físicas, roupas e acessórios com as quais foram representadas. A primeira pertence ao MIC - Museu de Arte Sacra das Igrejas do Carmo de Mogi das Cruzes e a outra ao Museo de Bellas Artes de Bilbao. Sobre a Santa Emerenciana que fotografei no MIC, ninguém melhor que o Juan Carvalho para contar um pouco dessa história, e foi o que ele fez ao enviar-me as informações que transcrevi anteriormente, já a Santana do MBAB, trata-se de produção do ateliê do alemão Michel Ehart (c. 1485-90) com 151 x 43 x 30 cm, possuindo uma postura austera e rígida, como imaginamos ser o caráter do povo alemão. As roupas também refletem os usos e costumes alemães, como o toucado na cabeça da santa – parte do vestuário da mulher casada da Alemanha no final do século XV –.

Mesmo sabendo, agora, que as imagens são de santas distintas, ainda assim, é possível perceber as similitudes entre as duas e estabelecer diálogos entre elas, pois a mensagem principal da Mãe Ancestral, no caso da Santana, tem raiz na educação recebida por ela da mãe Emerenciana. A educação passada de geração para geração, reforçando a idéia da mulher como a educadora e a guia que conduz a família.

Aproveito para agredecer aqui a importante colaboração do amigo Juan Carvalho.



Para conhecer um pouco mais da imaginária brasileira em especial a iconografia de Santana no Brasil, visite: Santanas “Coleção Angela Gutierrez”
http://www.santanas.com.br/geral.asp

Para Saber mais sobre a Santa Emerenciana de Mogi das Cruzes, entre em contato com Juan Cezar de Carvalho Borges, cujo TCC teve como objeto de pesquisa e ponto de partida a imagem de Santa Emerenciana pertencente ao acervo do Museu das Igrejas do Carmo de Mogi das Cruzes – MIC.

Ver também:
- Santa Anna das Cruzes de Mogy, de Jurandyr F. Campos e Tunico de Paula.
- Guia do Museu de Bellas Artes de Bilbao.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O Amor e uma Cabana.

Sempre ouvi essa frase por aí, gente que almeja um amor e uma cabana e crê que só isso lhes basta. Será? Tenho minhas dúvidas. Os românticos são tipos sofredores, em especial os apaixonados. As paixões nos exaltam, nos desequilibram, subimos alto para logo cair vertiginosamente. A paixão nos dá uma sensação de leveza, de que podemos tudo para em seguida nos deixar em pedaços. A paixão – do latim patior significa sofrer, suportar algo difícil – seja por um homem ou mulher, seja pelo time de futebol, seja pelo que seja a paixão é sinônimo de exagero e sofrimento. Eu só me dei conta depois de sofrer inúmeras vezes, além disso, participando de um bate-papo com o historiador Nicolau Sevcenko, escutei algo a certa altura que fez refletir, usando como exemplo a "paixão de Cristo" e a legendária história de "Tristão e Isolda", Sevcencko conseguiu de maneira simples esclarecer a diferença entre paixão e amor. Como disse, me apaixonei e sofri muitas vezes, hoje sei que o amor é muito mais sereno e equilibrado, além disso, quem ama não adoece e não me refiro ao livro do cardiologista Marco Aurélio D. Silva, apesar dele tratar da relação entre o amor e as doenças, me refiro ao estado que o amor em suas mais variadas formas pode nos deixar, o importante é estar pronto, receptivo e predisposto a amar, independente do “outro”. Já o romantismo, não sei até que ponto é bom ou não para relação a dois. Invenção do Homem moderno da Europa no final do XVIII, o romantismo teve especial importância na unificação da atual Alemanha, onde surgiria o movimento literário conhecido por Sturm und Drang – tempestade e ímpeto – quem nunca leu ou ouviu falar das cartas do jovem Werther, relatos da sua paixão por Charlotte, da obra “Os sofrimentos do jovem Werther” de Goethe. Deixando de lado as artes, passando para a vida cotidiana, o romantismo tomou conta do ocidente e a apropriação popular do amor romântico peculiar do gênero romance veio dar cor e dor aos corações mais sonhadores e idealistas. Ainda hoje, passado anos da minha tentativa de cursar Direito lembro-me bem de um texto intitulado “A razão sábia e a paixão louca” que discutimos em alguma disciplina e que explica muito do que vemos todos os dias na tv, nos jornais e na Internet, todos esses crimes movidos pela passionalidade. Mas voltando ao amor... Ah! O Amor, esse sim merece um lugar especial em nossas vidas e agora que eu o conheci, não quero mais deixá-lo partir, verdade que eu sempre parti e continuo partindo, mas agora sei que posso levá-lo comigo para onde eu for. Nunca é tarde para nada, pensei que conheceria somente o amor paterno, o fraternal, já que não tive filhos e até alguns anos atrás não havia experimentado o “amor” de um homem, foi preciso viajar quilômetros, falar outra língua, me afastar de tudo e de todos para descobrir que também sou capaz de amar. Mas a descoberta maior foi a de que posso sim ser feliz com esse amor, mesmo estando longe, porque minha felicidade depende de um conjunto de coisas, não somente do "amor e uma cabana", mesmo que essa cabana tenha quase 60 janelas... risos. O amor que experimentei é tranquilo, equilibrado, não é possessivo e ciumento “quando estive com ele estive nos braços da paz” como na música de Dominguinhos e Nando Cordel. Com ele aprendi que o amor depende de cada um de nós, que amamos as pessoas de maneiras diferentes, não tem como amar mais ou menos, pois ninguém é igual, além disso, a vida sempre nos impõe escolhas, eu, por exemplo: escolhi retornar ao Brasil porque necessitava outras coisas que também amo e que aqui deixei, meus pais, amigos, meus projetos. A rotina pode ofuscar o amor, roubando-lhe o brilho, transformando a relação em sofrimento. Confesso sem pesar que não derrubei lágrima alguma ao despedir-me dele no aeroporto, parti feliz. Parti com a certeza de que ele me deu o maior dos presentes que eu poderia ter recebido de alguém, pois com ele aprendi a lição de como “amar e ser amada” e hoje sei que Vinicius foi só razão quando escreveu os versos do seu Soneto de Fidelidade e eu, finalmente “posso dizer do amor que tive, que não é imortal posto que chama, mas que será infinito enquanto dure”.


Eu recomendo:

Os sentidos da Paixão, organizado por Adauto Novaes. Cia das Letras
A Paixão no banco dos réus de Luiza Nagib Eluf. Editora Saraiva.
Quem ama não adoece de Marco Aurélio Dias da Silva. Best Seller.
Médico de homens e de alma de Taylor Caldwell. Record.
Para viver um grande amor de Vinicius de Moraes. Cia das Letras.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Futebol, Samba e Feijoada.

Aguia de Ouro - SP. Jogo entre Brasil e Costa do Marfim em 20/06/10
(foto Meg Mamede)


Retornei ao Brasil em plena Copa do Mundo, evento que em 2010 tem a África do Sul como anfitriã colocando o continente em evidência. A beleza, a alegria e os contrastes do continente têm no Brasil sua equivalência, afinal, nós brasileiros temos na África uma das nossas matrizes, o que faz identificar-nos com aquele povo e cultura. E por falar em cultura, assisti ao jogo entre Brasil e Costa do Marfim ao som do samba e ao sabor da feijoada. Por primeira vez estive numa quadra de escola de samba. A convite da amiga Rose, vesti a camisa da escola do grupo especial de São Paulo Águia de Ouro – fundada em 1976 a partir de um batuque diferente que rolava na Vila Anglo Brasileira, resultado do encontro entre integrantes do time de futebol amador Faísca de Ouro e sambistas ex-integrantes da Pérola Negra –, pintei a cara com as cores do Brasil e fui para quadra assistir o jogo com cerca de 1.500 pessoas. Como bem observou minha amiga, aquele espaço bem debaixo de um movimentado viaduto da zona oeste paulistana, é o espaço da democracia, algo que não é, e nunca será imposto de cima para baixo, pois emana do povo. Depois desse comentário parei para refletir por um instante e percebi que ali, sob o viaduto, esperando na fila para provar a gostosa feijoada servida, procurando uma mesa vazia, ou não, para compartilhar, “todos éramos iguais”. Desconhecidos e famosos, “popozudas” e magrelas, pobres e ricos, brancos e negros, jovens e velhos, paulistanos, paulistas, cariocas e baianos, todos reunidos pelo mesmo motivo: ver a bola balançar na rede do adversário e em uníssono gritar de alegria festejando o gol, uns mais, outros menos. As vuvuzelas – nome sul africano dado a já conhecida corneta – ditaram o ritmo do ensurdecedor barulho produzido a cada gol marcado pela seleção Canarinho e para desmentir a máxima de que nesses lugares só há confusão, desde que cheguei até o momento que saí não vi discussão ou briga alguma, para ser sincera e para minha surpresa a única atitude mais exaltada que presenciei, foi justamente a de um professor universitário, com o qual compartilhávamos mesa, que incomodando com o som das cornetas e apitos durante a partida, lançou uma laranja em direção aos jovens que agitavam o evento, que por sua vez não revidaram a atitude e continuaram com a festa como se nada houvesse acontecido. Melhor para todos. Voltando à festa popular, a feijoada estava pra lá de boa, talvez os dois anos que estive fora me fez apreciar muito mais tudo aquilo, aumentando de alguma maneira minha percepção sobre o país, nossa gente e nossos hábitos. Fiquei feliz por fazer parte de algo de expressividade popular, onde a simplicidade e a alegria juntas foram capazes de tornar o espaço democrático, onde a apropriação acontece de forma natural, onde todos são bem vindos independentemente de classe, credo, etnia ou título, bastando para isso: vestir a camisa, colocar o melhor sorriso na cara e preparar-se para cair na folia. Começo a entender o que faz do povo brasileiro tão singular e sincrético e porque o mundo se encanta frente ao gigante.

Como bem cantou Caymmi Quem não gosta de samba bom sujeito não é É ruim da cabeça ou doente do pé... acrescente a isso a Feijoada e em tempos de mundial o Futebol.

Veja mais fotos no site da escola Águia de Ouro:

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus José Saramago.

Eu gostava dele. Aquela língua afiada, aquela mente brilhante, aquele humor ácido e aquela escrita corrida, apressada, ligeira, rápida que para mim é sinal de vida.

Mas, infelizmente e diferente do seu livro onde... "No dia seguinte ninguém morreu"... eis que ela chegou para ele, assim como chegará para todos. Vai o homem e ficam as letras, as metáforas, os prêmios, a crítica, os admiradores e seu legado.

Adeus Saramago!

terça-feira, 15 de junho de 2010

A melhor tortilla de patatas do mundo!

Joseba de Muguruza e a rica tortilla de patatas do Café Samaná.

De volta ao Brasil há duas semanas ainda estou matando as saudades de muita coisa, entre elas: a comida da mamy, a salada de agrião – que só comia em Portugal, já que no País Basco o mais parecido que encontrei foram canónigos – e agora começo a sentir a falta dos hábitos do País Basco, em especial a tortilla de patatas do Joseba do Bar Samaná em Orduña. Essa tortilla de patatas que lembra a omolete que a minha mãe fazia – na qual costumava acrescentar cebola –, é algo antigo na história da culinária. Na realidade a batata originaria da América do Sul que era chamada de papa – em quéchua – pelos incas, foi parar na Europa pelas mãos dos colonizadores. Hernán Cortés em suas cartas descreve muito do que encontrava nos mercados da Mesoamérica, já em crônica da Companhia das Índias datada de 1519 fala-se da tortilla (tortilha em português) de ovos que era conhecida tanto na Europa pelos espanhóis, como na América pelos aztecas, que as preparavam e as vendiam nos mercados de Tenochtitlan acompanhada de pão de milho.

Na Espanha, a tortilla de patatas é citada por primeira vez em um documento anônimo de 1817, dirigido à Corte de Navarra, onde se fazia uma comparação entre as condições dos agricultores da região e os moradores de Pamplona e da La Ribera Navarra, já que alguns deles devido a escassez de alimentos usavam truques para driblar essa falta "...dos o tres huevos en tortilla para cinco o seis, porque nuestras mujeres la saben hacer grande y gorda con pocos huevos mezclando patatas, atapurres de pan u otra cosa...". Mas há outras histórias sobre a tortilla de patatas, uma delas é que teria sido o general basco Tomás de Zumalacárregui (Guipúzcoa: 1788-1835), quem em Bilbao teria criado um prato, simples, rápido e nutritivo para saciar a fome do exército carlista e dali em diante o prato passaria a ser difundido pelo país. Há também outras versões para a criação dessa especialidade gastronômica: a de uma dona de casa navarra que teria preparado algo com simplicidade usando ovos, batatas e cebola e que o general Zumalacárregui teria gostado tanto que a popularizaria ou ainda que a tortilla teria sido criada em Villanueva de la Serena, Extremadura, mais ao sul da Espanha.

Independente de qual seja a verdadeira origem da tortilla de patatas a verdade é que ganhamos nós quando a experimentamos, seja a preparada de maneira tradicional ou em suas variadas formas de preparo, pois cada cozinheiro acrescenta o ingrediente ou o segredo culinário que queira. Segundo Joseba de Muguruza do Café Samaná de Orduña, para que sua tortilla de patatas seja a “melhor do mundo” o segredo é: fazê-la com amor. Quando cheguei no País Basco pesava 50kg, voltei para o Brasil pesando 54kg, não comi tortilla de patatas todos os dias que lá estive, mas sempre que chegava no Café Samaná e via aquela tortilla sorrindo pra mim, não resistia. Provei outras tortillas de patatas em outros lugares da Espanha, com pimentões, com carne, com camarões, com jamón, com bacalhau, etc, mas nada se compara ao inigualável sabor da “número 1”, me refiro aquela tortilla feita com amor e ingredientes de qualidade, por isso recomendo: se for à Espanha, arrume um tempinho para visitar Orduña, conhecer suas belezas naturais, seu patrimônio histórico e cultural e as delícias gastronômicas que aquela localidade vizcayna oferece e não se esqueça: procure o Café Samaná na calle Barria, 13, peça Txacolí ou um Crianza de La Rioja para acompanhar a melhor “tortilla de patatas del mundo”. Você não se arrependerá! Afinal, tudo que é feito com amor é muito mais saboroso.


Receita de Tortilla de Patatas tradicional:
Porção para 4 pessoas:

Ingredientes:

6 ovos
300 gr de batatas
9 colheres de azeite de oliva
Sal

Preparação:

Corte as batatas em pequenas lâminas (fatias finas e pequenas) e frite-as bem devagar numa frigideira com o azeite quente, tampando-a para que cozinhe um pouco as batatas, movendo-a de vez em quando para que não grudem. Uma vez prontas tire-as da frigideira em um escorredor de frituras, em seguida junte-as em uma tigela com os ovos já batidos e acrescente o sal. Coloque um pouco de azeite na frigideira, somente para untá-la, em seguida coloque a mistura de ovos batidos e a batata, mova levemente a frigideira em movimentos circulares e tampe-a por alguns minutos para que a mistura fique uniforme, quando perceba que a mistura está coalhando, isto é, com certa liga, cubra a frigideira com um prato e gire-a para dar a volta na tortilla, com cuidado para que ela não quebre, depois, movimente-a um pouco mais e tire-a para que não fique muito seca.

Sirva com pequenas fatias de pão e se tiver um vinho tinto ou um Txacolí não hesite em provar essa combinação.

Como dizem os espanhóis e bascos: ¡Que aproveché!.

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