domingo, 8 de novembro de 2009

Os prazeres do banho.


















Hammas de Al Andalus - Córdoba, Espanha.

Não há coisa melhor que um banho demorado com água quente, de preferência, ao fim de um longo dia de trabalho ou de uma jornada exaustiva. A água é um santo remédio, não lava só o corpo, costumo dizer que lava a alma também. O banho é o melhor companheiro para o choro, para o canto, para o amor, para a reflexão e acredite até para falar com Deus. Ainda criança a descoberta do corpo e os pequenos prazeres que o momento propiciava, conflitava com a moral e educação católica recebida, coisa inevitável, afinal, estar vivo é sentir dor e prazer, amor e raiva, conflito e paz.

Na adolescência tudo que eu queria era um banheiro só pra mim e que meus pais ou irmãos não ficassem batendo à porta todo tempo dizendo: Não vai sair! É pra hoje! E todas aquelas frases que só as famílias numerosas e de recursos escassos conhecem. Eu adorava cantar no chuveiro e quando algo me fazia chorar, era lá, com as águas doces do banho que o sal das minhas lágrimas encontrava companhia e eu saia mais leve.

Na roça, na casa da minha avó materna o banho era de bacia e canequinha, isso mesmo, não havia eletricidade, nem por isso fui menos feliz, havia um céu iluminado de estrelas e a água quentinha caindo das mãos da mãe é um luxo que nem todo mundo teve na vida, por isso, entre outras coisas, é que os fins de semana eram tão esperados e felizes.

Certa vez eu tomei banho de ofurô com a minha mãe, como sabem esse hábito japonês tem mesmo esse sentido familiar, eu devia ter uns 6 ou 7 anos e fomos ao Akimatsuri (festa do outono) que acontecia em uma colônia japonesa da minha cidade, era uma vila de casas cheia de cerejeiras à volta e, na casa de uma família amiga dos meus pais experimentamos esse raro momento. Aquela proximidade toda, o calor da água que ia aumentando ao longo dos minutos era extremamente relaxante e divertido, a posição quase fetal em que ficamos no banho japonês tem algo de retorno às origens, o ventre materno quente e protetor, foi uma experiência única.

No verão, os banhos com mangueira no quintal eram uma verdadeira festa para mim e meus irmãos, ao fim e ao cabo deles, tínhamos que tomar outro banho pois já estávamos cheios de mato e terra, mas, com um largo sorriso de alegria na cara.

Já na fase adulta, morando sozinha, podia tomar longos banhos que ninguém viria bater à porta pedindo para eu sair, então, eu aproveitava para cantar todo o meu repertório. Coitados dos vizinhos do prédio, imagino que aquele meu momento de prazer era para eles momento de tortura, mas... “Quem canta os males espanta” diz o ditado, assim que eles deveriam cantar também, risos.

Na adolescência havia uma canção, que dizia assim: “Hum! Mas se um dia eu chegar Muito estranho Deixa essa água no corpo Lembrar nosso banho...", a qual não fazia nenhum sentido pra mim aquela altura, foi necessário anos para o refrão me dizer algo... faz pouco, que descobri o quanto pode ser maravilhoso passar horas numa banheira com a pessoa amada, o prazer de dar ou receber um banho, a conversa descomprometida, o contato dos corpos num espaço reduzido, o relaxamento com a água quente, os aromas... velas acesas, um pouco de vinho ou o simples “estar” imerso, tombado e em silêncio ao lado daquela pessoa especial, acho que era a isso que Cláudio Rabello e Dalto faziam referência quando compuseram a canção.

Ainda no Brasil, depois de dias viajando de carro por Minas Gerais, eu e um ex-namorado chegamos ao sul do estado mineiro e passamos dois dias em Caxambu. No hotel Bragança aproveitamos para visitar as termas e águas do balneário, além de provar as águas medicinais das várias fontes espalhadas por lá, desfrutei de uma sessão de massagem esfoliante com maracujá e em seguida de um banho espumante perolado com algas marinhas, sai leve feito uma pluma e revigorada para continuar a viagem.

A história dos banhos vem de longe, dos romanos, dos turcos, dos árabes... Ah! Os banhos árabes. Se tiver a chance de estar em um, não pense duas vezes, entre e permita-se esse prazer. Quando estive em Córdoba por primeira vez, de visita ao amigo Jose Mari, além de me mostrar aquela linda cidade andaluz, ele me levou para conhecer e desfrutar do Hammas de Al Andalus (a água é um elemento essencial sem a qual não podemos compreender a cultura islâmica, sendo esse o recurso básico na construção das cidades mulçumanas desde os primeiros tempos e está diretamente ligado à cultura e religiosidade daquele povo), verdade é que entre a salas de água quente, morna e fria, passei momentos de total relaxamento. A beleza do lugar, os perfumes, a música e o barulho da água nos transporta para outra dimensão. A arquitetura do local é belíssima, a sala de água templada com seu teto abobadado, em noites de lua cheia deixa a luz entrar pelos pequenos furos em forma de estrelas refletindo-se nas águas e dando um toque especial aos banhos. Os aromas de jasmim, azahar e alecrim invadem o lugar e inundam os sentidos durante a massagem relaxante que recebemos ainda no Hammas. Durante as quase duas horas que ali estive, imaginei como seria estar num lugar assim em companhia do meu amor, num mundo de prazeres sensoriais e físicos estimulados por imagens, sons, toques e volúpia... como nos contos de Sherazade.

Nós brasileiros acostumados a tomar banho todos os dias, herança da nossa porção índia (em "Casa Grande & Senzala", Gilberto Freyre analisa os hábitos de higiene dos índios versus os do colonizador português. Depois das Cruzadas, como corolário dos contatos comerciais, o europeu se contagiou de sífilis e de outras doenças transmissíveis e desenvolveu medo ao banho e horror à nudez, o que muito agradou à Igreja. O índio não conhecia essas doenças e se lavava da cabeça aos pés nos banhos de rio, onde lavava também as redes nas quais dormiam. Já, o cheiro exalado pelo corpo dos portugueses, abafado em roupas que não eram trocadas com freqüência e raramente lavadas, aliado à falta de banho, causava repugnância aos índios. Então os índios, quando estavam fartos de receber ordens dos portugueses, mandavam que fossem "tomar banho", é daí que surge a expressão tão usada no Brasil “Vai tomar banho!”), podemos estranhar os hábitos de outros lugares, mas devemos levar em conta as questões cultural, climática e, sobretudo os recursos naturais de cada lugar. Afortunadamente, vivemos num país onde a água existe em abundância, contudo, sabemos que esse recurso também é finito e se mal empregado outras gerações não conhecerão os prazeres que um banho pode proporcionar, por isso temos que nos reeducar para garantir seja a higiene, a purificação ou o prazer que só a água nos dá.

Cante, chore, ame, pense, relaxe durante o banho, mas sempre consciente do valor da água, pois no futuro não será o carvão, o ouro ou o petróleo que moverá as relações no mundo, será a água, o bem mais precioso da humanidade.



Um comentário:

  1. Eu passo momentos no banho! me perdoem os ambientalistas,mas eu gasto muita água nesses banhos!
    O banho limpa mais que o corpo,a água limpa a alma da gente!
    Lá sim sou livre! ^^

    tem post novo lá !

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