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O desafio de ser Professor no século XXI.

Hoje 15 de outubro é “Dia do Professor” no Brasil(*), por isso resolvi falar um pouco do desafio que a profissão representa no século XXI. Obviamente, houve outros desafios relativos a tarefa de ensinar, a própria profissionalização e regulamentação do educador, entre outras coisas, lutas por melhores condições, reformas na educação, novas tecnologias e estudos sobre o tema, etc.. Mas não vivi esses momentos e por isso não posso falar sobre eles. Falo da minha curta, mas não menos intensa e conflitante passagem pela profissão. Sou “caloura” nessa área, mudei de carreira no auge dos meus 30 e poucos anos por paixão a História e ao iniciar na educação pública no Estado de São Paulo me senti como um soldado de infantaria, isso mesmo, me senti na linha de frente de uma batalha travada entre alunos, pais e o sistema educacional do país. Perdoem-me os pedagogos e outros profissionais, me refiro aqueles acadêmicos que escrevem tratados e mais tratados sobre “como educar” sem nunca ter saído de trás da mesa e do computador, sem nunca ter usado giz ou passado algumas horas do seu dia com uma turma de quase 40 ou mais alunos, em uma sala sem porta, numa escola sem infra-estrutura com uma direção laissez-faire e uma turma de adolescentes desinteressados, indolentes e por vezes agressivos. É disso que quero falar. Sei que há muita gente boa, fazendo ótimos trabalhos, dedicando suas vidas à pesquisa e análises comportamentais, mas para entender os meus sentimentos e inquietudes só indo para sala de aula.

Quando criança, minha mãe sempre me incentivou a seguir a carreira do magistério, eu sempre relutante e com uma resposta na ponta da língua: “Mãe, eu não quero ser professora. Se eu me tornar professora, ao final de cada ano terei que reunir as mães e dar-lhes um tubo de cola e pedir que encontre a respectiva orelha do filho entre as tantas que estarão espalhadas pela mesa” minha mãe me olhava com uma expressão que variava entre a surpresa e o riso, mas ao final ela me compreendia, sendo eu filha mais velha entre cinco irmãos, coube a mim, de certa maneira, ajudar-lhes na educação e isso colaborou, naquela altura, para a minha falta de interesse pela profissão.

Passadas quase quatro décadas, onde fui parar? Em uma sala de aula da maior escola pública da minha cidade, para ensinar – verbo pretencioso esse - história a duas turmas de 7º ano e cinco turmas de 8º ano… me senti o próprio “Daniel na cova dos leões” e não se trata de insegurança, até porque os desafios me estimulam sobremaneira, mas o choque de gerações e cultura foi tremendo… eu cheia de desejo de fazer aulas diferentes, ensinar história de maneira mais lúdica, estimular reflexões, provocar dúvidas, mexer mesmo com a turma – comportamento peculiar do professor iniciante – tudo que consegui foi emagrecer três quilos, ficar estressadíssima e aos poucos ir perdendo a sociabilidade. Acreditei que eles, os alunos, queriam o que eu tinha para oferecer, verdade é que não, talvez não tenha sabido fazê-lo como esperavam, confesso não tive tempo de compreendê-los, fui tomada por um sentimento de desprezo e ao fim frustração. Pensava comigo e meus botões: “tive as mesmas condições que eles, também sou de berço humilde, passei por dificuldades mil e agora que pensei em devolver uma parte do que recebi, contribuindo um pouco com a sociedade em que vivo, sou tratada dessa maneira?” Não é isso que eu quero para mim. Sei que a educação é uma troca, interação, há dinamismo nessa relação, é um caminho de mão dupla, damos e recebemos, ensinamos e aprendemos, mas… há que se estar muito bem preparada(o) para seguir em frente sem elouquecer ou alienar-se. Lembro-me que um dia, na tentativa de iniciar uma aula, pedi aos alunos que me ouvissem, sem êxito algum e ao fim disse-lhes que tanto fazia se não queriam aprender, daí um aluno disse: - “É professora, a Sra. não gosta da gente” e eu confirmei categoricamente, sem pestanejar: “Verdade, eu não gosto de vocês, quem tem que gostar de vocês, são os pais de vocês, de mim vocês terão a amizade e o respeito, mas terão que ser merecedores, conquistar isso, caso contrário nada feito”. Cansei de ver exemplos de professores que “passam a mão na cabeça do aluno” como se fossem os pais. O professor tem que se posicionar como um profissional de qualquer outra área, ser profissional e não maternal ou um braço da família dentro da escola, na minha opinião só assim seremos estimulantes e admirados… concordo que há que haver amor, “fraterno”, tolerância, algum afeto, afinal não somos “bichos” mas sem exageros… dessa maneira seremos respeitados como pessoas e profissionais pelos alunos, pela família, pela direção da escola e pelo governo, caso contrário seremos sempre esse joguete na mão da mídia e da política, esses mesmos que nos transformam em massa de manobra, fazendo e desfazendo da categoria. Os jovens, ou quase nenhum jovem, tem professores por ídolos ou modelos. Pergunte-lhes e dirão o nome de um jogador de futebol, um modelo, um ator, uma cantora… pergunte-lhes qual a profissão que gostariam de ter no futuro e, dirão: médico, advogado, bombeiro, atriz, jogador de futebol, cientista, cantor, engenheiro, etc… mas nunca professor. Uma vez eu até escutei: "Professor é profissão professora?" Risos. Não preciso dizer mais nada.

De tudo e apesar de tudo, ao fim de um ano o balanço que fiz foi aceitável, até porque houve momentos cativantes, declarações e relatos tocantes, palavras de carinho e ao final fui até convidada a ser paraninfa de uma turma, coisa que declinei, porque acreditava que o justo seria que a professora coordenadora da turma fosse a homenageada. De qualquer maneira me senti lisonjeada e, também homenageada por alguns alunos que ao receber o “canudo” erguiam-no e diziam: "para professora Margarete de História"…risos, até chorei. Alguns deles conquistaram sim minha amizade, meu respeito e meu carinho… Se vou voltar às salas de aula? Bem… isso só o futuro dirá. Por hora frequento salas de aula na condição de aluna e admiro muito aqueles que têm a força e determinação de continuar, de dedicar anos a fio a essa nobre tarefa mesmo quando tudo parece estar fora do lugar.

Hoje para comemorar o dia vou ao cinema ver “O dia da Saia” (La journée de la jupe) filme de Jean-Paul Lilienfeld (França, 2008) que trata exatamente da temática que abordei. A professora de francês Sónia Bergerac, personagem de Isabelle Adjanim vítima de descontrolo emocional causado pelo stress provocado pela indisciplina dos seus alunos. Um dia descobre na sala de aula uma arma na mochila de um aluno, toma-a e, na falta de melhor solução, usa-a para controlar os alunos e poder tentar dar a matéria. Um drama intenso que nos apresenta um rol de problemas habituais nas escolas francesas, mas também nas escolas do Brasil e do mundo, como indisciplina, abusos sexuais, racismo e até violência para com os docentes.

Vou desopilar o fígado! Fui!.



(*) Dia do Professor no Brasil acesse: http://www.portaldafamilia.org/

Comentários

  1. Não sei muito bem como me posicionar sobre a questão do ensino, justamente porque não sei de onde vem o desajuste das crianças. Se apenas dos primeiros anos de educação no lar, ou se de algum pacto com o coisa ruim, rs.
    Bjo!

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