quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sinais do tempo.

Foto by_Sebastião Salgado.

Esses dias vi coisas que não esperava ver. Cabelos brancos em maior número e concentrados em uma parte da minha cabeça e não parou por aí, noite dessas, acendi o abajur para ler na cama e notei pequenas rugas na lateral das minhas mãos, as mesma que vi há anos atrás nas mãos da minha mãe. Pensei: “estou ficando velha”! Óbvio que sim, é o curso natural das coisas, afinal, não sou Benjamin Button. Sempre digo que nasci velha e fui remoçando num processo inverso, mas, me refiro à posturas e atitudes que tive na infância e adolescência, o excesso de preocupações e pensamentos que me tomavam e que pertenciam ao mundo dos adultos. Aos pouco fui me livrando deles, ou melhor, com o passar dos anos, cheguei a um ponto de equilíbrio. Porém, nada me impediu de viver maravilhosamente cada uma das quatro décadas passadas. Agora… isso de pintar os cabelos para esconder os brancos por pura vaidade e passar cremes nas mãos para tentar retardar o envelhecimento da pele me parece total tirania televisiva. Por que não posso ser como minha mãe? Que no auge dos seus sessenta e poucos anos, nunca tingiu os cabelos ou passou cremes anti-rugas na pele. Em que sou diferente dela? Ela não é, nem mais, nem menos feliz que eu por isso. Ela é simplesmente – na acepção da palavra - linda, pois tem uma beleza invisível aos olhos. Lembro-me da suas mãos jovens passando xampu nos meus cabelos enquanto cantarolava algo como: “fecha os olhos e esqueça tudo que te fez chorar”, aquelas mãos firmes e suaves acariciavam meus cabelos de criança e naqueles momentos me sentia feliz e protegida.

Noutro dia, graças a indicação da amiga Maria Emília assisti ao Café Filosófico CPFL com o Historiador e Professor Leandro Karnal intitulado: “A utopia da melhor idade” e adorei, além do tema vir ao encontro dessas preocupantes e por vezes vazias verdades que aqui abordo, ouvir o Prof. Karnal é sempre um prazer. Como bem mencionaram ao final da apresentação, ele foi brilhante! Houve um momento em que ele utilizou a questão da publicidade do setor de cosmética para falar desses ideais que insistimos em perseguir, exemplificando com as imagens de uma mulher idosa, de rosto enrugado, um rosto que não vende creme anti-rugas e uma jovem e bela Gisele Bündchen. Na verdade, uma jovem de 25 anos faz milagre na propaganda de cosmética, ainda mais, fazendo-se passar por uma mulher de quarenta. Eu me pergunto: Há algum mérito nisso?

Verdade é que eu já não sou mais a mesma de antes, tudo mudou… o cabelo, a pele, a silhueta e felizmente as formas de pensar e viver. Não tenho medo de envelhecer, já a idéia da morte me incomoda, mas… gente! para quem assistiu Sítio do Pica Pau Amarelo na sua primeira edição, colecionou bonecas de papel, dançou ao som de Michael Jackson, Menudo, Kid Abelha, Titãs, Paralamas do Sucesso, etc, fez curso de datilografia (como bem lembrou o Prof. Karnal), usou: telegrafo de cartão perfurado, sistema MS-Dos, Lótus 1.2.3, impressoras matriciais com nomes de mulher, mimeógrafo e papel carbono, estar aqui “blogando”… é o máximo!

Um pouco antes de completar 40 anos, postei algo dizendo que a vida começaria agora… pois é, me preparo para viver o que resta sem pressa e da melhor maneira possível. Como estou longe da minha amada mãezinha e não tenho suas mãos para afagar meus cabelos toda as vezes que mesmo sem xampu as necessito, “vou fechar os olhos e esquecer tudo que me faça sofrer” e isso inclui cabelos brancos e rugas. Os únicos sinais do tempo que farei caso: serão os da meteorologia.


“A utopia da melhor idade” com o Historiador Leandro Karnal.
http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-utopia-da-melhor-idade


O Curioso caso de Benjamim Button de F. Scott Fitzgerald.
Em quadrinhos, Ediouro, 2008 ou Editora: Presença, 2009.

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