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Quintas e Quintais.

Foto do Museu Paulista e seus jardins by_Wanderley Celestino


“Abre minha guarda no espanto
Com o susto que seja
Que nem vento no palmeiral
Pra que eu desperte do sonho
Que traz as lembranças da terra natal toda vez
Pra que eu despenque dos cantos
Qual mais um azulejo colonial português
Vem, arrebenta o acalanto
Que guarda minha noite
E protege os jardins e quintais
Salta do fundo do escuro
Por cima dos muros, telhados, mirantes, portais
Rasga e arregala a cancela, escancara a janela
E guarda esse sonho pras noites de paz”

"Jardins e Quintais" (Composição de Oswaldo Montenegro)


Esta semana assisti ao Seminário "Quintas e Jardins Históricos: Investigar, Recuperar e Gerir” que tratou do patrimônio sob a ótica de arquitetos, paisagistas, arqueólogos, restauradores, historiadores, profissionais do turismo e afins. O evento aconteceu na Quinta da Piedade, uma “das Quintas que o município da Vila Franca de Xira escolheu adquirir e conservar, devolvendo-a para a fruição pública” e deleite de moradores e turistas.

Ao longo dos três dias o evento destacou trabalhos realizados em Quintas de norte a sul do país, como na Quinta da Regalera, Sintra, uma das quais tive o prazer de visitar. Os trabalhos detalhados e bastante técnicos, por vezes revelavam algum detalhe ou história curiosa acerca do patrimônio e dava um tom mais acessível para os que são da história como eu.

A Quinta da Piedade onde aconteceu o Seminário remonta ao século XIV, possuindo características do século XVIII, azulejos da época compõem seu interior e na área externa encontramos lagos e fonte e diversas capelas - Igreja de Nossa Senhora da Piedade, Ermida de Nossa Senhora da Piedade, Ermida do Senhor Morto e Oratório de São Jerónimo -, sendo a primeira do século XVIII e as restantes quinhentistas.

Ainda na Espanha me causava estranheza ouvir a palavra jardim sendo empregada para referir-se à parte traseira da casa, o que para mim tratava-se de um quintal, já a tal Quinta portuguesa, nada mais é do que o que chamamos de sítio, chácara, fazenda, dependendo do tamanho e aplicações, particularmente, ao conhecer a Quinta da Piedade, através de uma visita guiada pela arqueóloga Maria Miguel Lucas, me senti como no sítio da minha avó materna, apesar que nossa Quinta… risos, era muito mais verde e não estava inserida num centro urbano, melhor dizendo a urbanização vertical ainda não chegou lá e deve levar algumas décadas, com sorte, séculos para chegar. Outro ponto diferente é que: o que foi nosso sítio, hoje em mãos de novos proprietários, não tem o status de uma Quinta portuguesa onde a nobreza e aristocracia do país viveu momentos de glória e pujança. Imagine o povo se acotovelando para ver o despertar de reis, rainhas e outros nobres, ou o pequeno almoço – nosso café da manhã -, os passeios pelo jardim, ou ainda participar de alguma festividade, como bem descreve o historiador inglês Peter Burke em “A fabricação do Rei” ou como podemos notar em algumas cenas do filme “Maria Antonieta” de Sofia Coppola (2006).

Depois de ver imagens das várias Quintas portuguesas, fiquei com vontade de explorar um pouco mais o patrimônio do país, começando pela Quinta da Bacalhôa em Azeitão, patrimônio privado aberto à visitação pública, em estilo renascentista e jardim francês, com representativo acervo de arte, parte da coleção privada da família Berardo, onde, além de conhecer um pouco mais da cultura e história do local é possível provar o vinho da “Bacalhôa Vinhos de Portugal” (Conhecem-se vinhas no início do séc. XX, mas uma nova fase da sua produção inicia-se em 1974. O então proprietário Thomas Scoville convence António d'Avillez a criarem um vinho de topo que revolucionasse o sector em Portugal. Decidiram plantar uma vinha com as castas Cabernet Sauvignon e Merlot, encepamento típico de Bordéus. As condições edafoclimáticas da Quinta, a sua exposição suave a Norte e os seus solos, permitem uma maturação longa e completa das duas castas. Estas condições especiais marcam e personalizam o vinho aí produzido (*)) e passar momentos agradáveis.

Voltando aos jardins, ainda criança estive no Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, na cidade de São Paulo, a visão impactante daquele imenso jardim com monumental construção ao fundo ficou na minha memória, em estilo francês, com repuxos e aléias em declive, o jardim localiza-se em terreno rebaixado, proporcionando assim, maior destaque ao Museu. No ano passado visitei o Alcázar de los Reyes Católicos em Córdoba, seus jardins lindíssimos nos convidam a viajar no tempo, lugar que serviu de fortaleza para visigodos, passando a palácio para o Califado Omíada até chegar as mãos dos Reyes Católicos Isabel I de Castela y Fernando II de Aragão, local importante na história dos descobrimentos, em 1492 os Reis Isabel e Fernando receberam Cristóvão Colombo antes de sua primeira viagem rumo à América. Outros jardins, como os botânicos e japoneses também são de encher os olhos, mas de todos os que conheci, o da Casa Llaguno no País Basco é o que mais gosto, um jardim de perspectiva romântica, onde pude presenciar de maneira singular todas as estações do ano, observar uma gama de cores e sentir todos os aromas ao longo dos meses que ali vivi, além dos alegres e saborosos almoços e jantares que tivemos junto aos amigos, entre as árvores e plantas fui tão feliz como no sítio da minha família no Brasil, onde minha infância correu de maneira lúdica, sem o glamour dos nobres, mas repleta de paz e liberdade.

Entre Quintas e Quintais vou descobrindo a história que nos faz diferentes enquanto povos e iguais enquanto seres humanos, afinal de contas, desde a Grécia antiga, para não citar outros povos, passear por jardins ou quintais, cultivar hortas, são expressões de amor a vida ao ar livre. O paraíso na terra como citado no livro do Gênesis não é privilégio de nobres e sim daquele que ama o seu “lugar” e, para nós brasileiros o privilégio está muito presente no dia a dia, cultivar pequenas hortas e quintais faz parte da vida cotidiana, até porque, vivemos em uma terra, que segundo Pêro Vaz de Caminha, escrivão português da frota de Pedro Alvares Cabral, em sua carta a El Rei D. Manuel (…) “Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e- -Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!” (…).

Pronto, se o problema é espaço… providencie uma pequena floreira, dessas que encontramos em supermercados e plante especiarias, tomates ou as flores que mais goste, compre um Bonsai ou desfrute dos jardins e parques da sua cidade, com certeza esses espaços também têm muito a contar, basta querer ouví-los.

(*) Quinta da Bacalhôa:

A fabricação do rei. A construção da imagem pública de Luis XIV de Peter Burke. Editora Jorge Zahar, 1994.

Comentários

  1. Oi, querida Amiga, Meg!
    Parabéns pela matéria e vivência! Bendito o fb que nos vai revelando viveres e gostares comuns!
    Seja feliz sempre!

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  2. Olá Nelson, que bom que tenha gostado. Seja sempre benvindo neste meu Diário de Bordo. Abraços e sucesso!

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