segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Os homens que não amavam as mulheres.


Ainda bem que existe o cinema, onde em companhia de uma porção de gente desconhecida e estranha - no sentido literal da palavra - podemos passar os momentos de tédio. Confesso que com tudo que Portugal, em especial Lisboa tem a oferecer, esse inicio aqui tem sido entediante, sinto que não terei uma adaptação fácil, salvo consiga atingir alguns objetivos, ou melhor, um objetivo: o de cursar especialização de meu interesse na antiga metrópole. As horas se arrastam. Na tv nada me agrada - o excesso de canais me faz desistir de encontrar algo "assistível"-, talvez os lugares menores tenham mais charme e sejam mais atrativos que as cidades grandes, em Sampa me viro fantasticamente bem e, aqui munida de mapas e consultando a internet para tudo, também encontro as "coisas" porque eu sempre as encontro mesmo, mas... não as pessoas. Sinto uma melancolia no ar, uma quase inércia, não minha, já está aqui. Me parece tudo muito esquisito, brasileiro que não quer saber de brasileiro fora do país, português que olha o imigrante - hoje sei a diferença entre turista e imigrante - com espanto ou desconfiança, fruto de anos de esteriótipos e rótulos, em especial para mulher brasileira. Por esses motivos todos, minha melhor companhia, de momento, tem sido o cinema, mesmo que me faça ter raiva ou chorar, como nos dois últimos filmes que vi.

Ontem vi a produção sueca baseada no best seller do também sueco Stieg Larsson (1954-2004), escritor que faceleu antes de ver sua trilogia alcançar sucesso mundial. Eu não li nenhum dos títulos da trilogia Millennium, mas nos últimos meses vi os livros expostos de livrarias a supermercados na Espanha, e sei que o mesmo ocorreu no resto da Europa. No mundo artístico - seja no cinema, na música, nas artes plásticas - existe um certo burbúrio e alta do produto no mercado quando um autor ou artista morre, imagino que na literatura não seja diferente, podemos dizer tratar-se de um último golpe de marketing, pode soar a humor negro, mas verdade seja dita, é assim que a coisa passa. Voltando ao filme, observei que a maioria do público presente no cinema era de jovens e adolescentes e, posso até imaginar porque, afinal um dos protagonistas: Lisbeth Salander (interpretado por Noomi Rapace), jovem magra, de comportamento rebelde e visual punk, hacker de deixar qualquer CSI estupefato, consegue subverter os meios com inteligência e certa docilidade - me refiro a personagem do filme, não li o livro - que com seus piercings, tatuagens e traumas, se trasnforma em uma heroína moderna, pronta a resolver qualquer questão investigativa, uma verdadeira guerreira. Fazendo um recorte do filme, até porque que ele aborda muitas questões atuais, como a corrupção no mundo corporativo, os trabalhos jornalísticos de denúncia, as correntes racistas e conservadoras presentes na Europa, opto por destacar a "violência de gênero", porque é justamente o fio condutor da trama.

Houve cenas do filme que escolhi não ver, tamanha violência, por outro lado há cenas de muito carinho, afeto velado entre os protagonistas, mas notável... também há enquadramentos e belas fotografias e digo isso porque andei lendo alguns comentários na net, sobre uma esperada produção norte-americana para o livro de Larsson, o que creio não seja necessário, haja vista tanto produção, direção quanto elenco terem dado conta do recado, há que se dar os devidos créditos, afinal o livro narra uma história passada na Suécia, risos... é como se os norte-americanos quizessem montar uma superprodução de "Grande Sertão: Veredas" do Guimarães Rosa, não vejo desmérito em atores estrangeiros interpretando Diadorim e Riobaldo, mas não seria a mesma coisa.

Quanto a tal violência de gênero, antiga e incomoda realidade para mulher e que... só quem é mulher pode entendê-la bem, porque pode sentí-la de maneira diferente e sem nunca tê-la sofrido inclusive, é disso que boa parte do filme trata. Sentimentos como dor, desinteresse pela vida, raiva e vontade de vingança podem mudar por completo a vida de alguém, especialmente dos mais jovens e tornar-los repetidores da situação. Pode parecer idiota mas ontem, fechei os olhos quando a Lisbeth era brutalmente atacada, contudo, quando ela teve a chance de vingar-se, eu estive com os olhos "bem abertos" e não perdi detalhe algum, confesso sem vergonha que vibrei com a lição dada ao seu maltratador. Quem já assistiu filmes comigo sabe o quanto me envolvo com as histórias, creio que o casal jovem que estava sentado quase ao meu lado notou o meu sofrimento e raiva, porque às vezes percebia o olhar curioso que me lançavam, mas não importa, necessitava algo para me distrair. Ainda assim, prefiro a ação à inercia, a paz à violência.

Diga não a violência! Quando sentir algum sentimento nada nobre, vá ao cinema ou a livraria mais próxima.



Livro: "OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES", de Stieg Larsson Editora: Companhia das Letras, Tradução: Paulo Neves.

Filme: Män Som Hatar Kvinnor - Direção do norueguês Niels Arden Oplev, com Michael Nyqvist e Noomi Rapace e outros nomes do cinema sueco. País/Ano: Suécia, Dinamarca e Alemanha, 2009.


Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto... estou terminando o primeiro livro dessa série e estou muito interessado em ver uma visão europeia de uma adaptação...
    depois desse seu texto com certesa procurarei esse filme, nem que infelizmente (pelo pouco caso das distribuidoras brasileiras) tenha que baixar pela internet...
    Quanto a Portugal, boa sorte. Somos brasileiros e acho que ninguém se adapta a uma cultura melhor do que nós. Aproveite e continue escrevendo textos interessantes.
    Abs

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