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Caminho das Índias nas ruas de Martim Moniz, Lisboa.


"Sem fanfarra não há casamento"
(fotos by_Meg Mamede)

Domingo, ainda no metro resolvi ir até Martim Moniz, um dos bairros mais antigos de Lisboa. Depois de passar alguns meses vendo como a intolerância e o preconceito cresceram em relação ao imigrante em países da Europa, fui conferir a proposta de TODOS Caminhada de Culturas de “Viajar pelo mundo sem sair de Lisboa”. Entre ruelas, escadarias, azulejos, flores nas janelas, casarios antigos e o comércio mantido por gente de toda parte do mundo, conheci, as várias “caras” da cidade, outra Lisboa que como os próprios organizadores do evento afirmam: “deve ser incluída definitivamente na identidade urbana da cidade”. A proposta que promovia a integração, teve um que de festa internacional, destacando os lugares de origem dos moradores do bairro – Índia, Moldávia, China, África, Ucrânia, Brasil, etc – e, através da música, fotografia, oficinas, culinária e o cinema, mostrou ser possível a convivência harmônica de várias culturas num mesmo espaço.

Enquanto esperava próximo ao Largo dos Trigueiros pela apresentação da fanfarra indiana Jaipur Maharaja Brass Band, tive tempo de entrar numa pequena cafeteria e observar algumas Sras. portuguesas que após o almoço, com a desculpa de tomar um café, buscavam naquela tarde de domingo uma conversa furtiva com as vizinhas de bairro. Ali, me senti em casa, me lembrei da D. Albertina – minha mãe – e suas amigas, lembrei da minha avó paterna e das minhas tias, cada Senhorinha que ali entrava ou saía e que educadamente me saudava, mesmo sem me conhecer - comportamento há muito esquecido pelas novas gerações – me fez voltar no tempo, para minha infância na cidade de Salesópolis, onde passávamos os fins de semana e, as pessoas possuíam as mesmas características das desse bairro Lisboeta.

Ao passar pelo Beco das Farinhas, encontrei fotografias impressas diretamente nas paredes das casas, fotos dos moradores mais antigos e de mais idade do Beco e arredores, na Mouraria. O trabalho da fotógrafa Camilla Watson intitulada “Tributo”, composto de imagens em preto e branco, mostra cenas cotidianas, comuns em qualquer parte do mundo e cheias de humanidade, transformando os moradores do bairro em protagonistas dessa festa.

Em seguida as primeiras notas da alegre música indiana se fez ouvir e logo tomou conta do Largo dos Trigueiros, moradores, turistas e curiosos juntaram-se ao grupo que seguia a Jaipur Maharaja Brass Band pelas ruas do bairro e ao passar, o Brass Band trazia as pessoas às janelas de suas casas, o que inicialmente, se tratava de um olhar curioso e tímido dava lugar a sorrisos, fotografias e aplausos. E por falar em sorrisos, isso foi o que me chamou muito a atenção na banda, apesar do calor que fazia em Lisboa e da roupa que usavam, caminhavam pelas ruas tocando seus intrumentos e nunca deixavam de sorrir, sorriso de uma brancura que contrastava com a tez escura de sol. A música alegre animou o público e alguns indianos que vivem no bairro sairam para dançar ao som de canções familiares, homens, mulheres e crianças, sempre com um sorriso estampado no rosto, em seguida, uma bailarina e um faquir se juntaram ao grupo para mostrar sua arte. Porque estou falando da India? Bem, nos últimos tempos essa cultura milenar, cheia de cores, sabores exóticos e espiritualidade tornou-se mais conhecida dos brasileiros, considerando ser a bola da vez para Glória Perez, passando pela última Festa do Oscar onde Slumdog Millionaire de Danny Boyle levou várias estatuetas e desembocando finalmente no BRIC, para nós brasileiros essa ligação é antiga, vindo desde as viagens dos descobrimentos. Voltando à Brass Band, interessante que no programa da Festa no Martim Moniz, lia-se que a música tocada pelo grupo, cujo conjunto de metais – trompetes, trombones, tubas, clarinetes e saxofones - juntamente com a bailarina e o faquir, “representam uma tradição que vem de longe: na Índia, sem fanfarra, não há casamento!” coisa que podemos comprovar nos filmes made in Bollywood, onde a música e a dança são protagonistas na história. Já a culinária indiana, é um capítulo à parte, sedutora por execelência, colorida, de aroma e sabor para lá de exótico - com especiarias que portugueses e brasileiros souberam bem como tirar proveito - convida todos os sentidos a viajar por prazeres gastronômicos inigualáveis, saborosos e afrodisíacos.

Retomando a idéia central da festa TODOS Caminhada de Culturas, sobre a integração dos diferentes e o quanto temos a aprender com o “outro”, acredito que nesse mundo globalizado tudo é possível, estamos "todos" conectados… Quando imaginamos que nossos pensamentos e idéias são só nossos ou originais, nos enganamos, porque tudo que diz respeito ao ser humano é universal. Muitos pensaram e pensam, sentiram e sentem o mesmo em lugares e tempos diferentes. Quando saí do Brasil para viver na Espanha com uma família basca, descobri que muito do que eu acreditava e dizia da vida ia ao encontro do que o indiano Osho - professor de filosofia na Universidade de Jabalpur na década de 50 – abordava em suas aulas e que anos depois tornara-se sucesso editorial e só me dei conta disso quando conheci Joseba, que afortunadamente não somente lê, mas aplica algo da filosofia de Osho a sua vida e, se eu não estivesse aberta ao novo, talvez a adaptação em terras ibéricas seria mais díficil, penso que isso ocorra com todos, tanto para mim quanto para qualquer outro que tenha deixado seu país para viver noutro, como os moradores de Martim Moniz que fizeram desse bairro de Lisboa sua nova casa e se sentem tão lisboeta, quanto os nascidos aqui. De certa maneira, todos temos algo em comum, me refiro aquela necessidade que impele o Homem na busca do novo, o mesmo espírito aventureiro que levou navegadores de outrora à Índia, à China, à Africa, à América, ao Brasil e agora a fazer o caminho inverso, como na filosofia de Osho “Sempre permaneça aventureiro. Por nenhum momento se esqueça de que a vida pertence aos que investigam. Ela não pertence ao estático; Ela pertence ao que flui. Nunca se torne um reservatório, sempre permaneça um rio.”

Vou seguindo o Tejo.


Para saber mais:

Jaipur Maharaja Brass Band: http://www.jaipurmaharajabrassband.com/accueil_en.html

Camilla Watson: http://camillawatsonphotography.org/

Filmes: A FNAC tem grande oferta de filmes asiáticos e garimpando as videolocadoras alternativas é possível encontrar produções indianas, como “Noiva e Preconceito” de Gurindher Chadha, baseada na obra de Jane Austen, entre muitas outras.

Osho: http://www.oshobrasil.com.br/

Livros que recomendo:
Vislumbres da India - Um diálogo com a condição humana de Octavio Paz (escritor mexicano) 4a edição. Tradução de Olga Savary, Editora Mandarim.

O Banqueiro dos Pobres de Muhammad Yunus (banqueiro e economista indiano, prêmio Nobel da paz 2006) e Alan Jolis, Tradução: Maria Cristina Guimarães Cupertino, Ed Ática.

Comentários

  1. Maravilhoso estar por aqui....ver as suas fotos, as suas experiencias, sentir suas emoções e viver sua nostalgia. Sofrer com a sua partida e se alegrar com a sua chegada a um novo "mundo"....Bom estar aqui....e viajar contigo......Saudadessssssssss mil

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  2. “Sempre permaneça aventureiro. Por nenhum momento se esqueça de que a vida pertence aos que investigam. Ela não pertence ao estático; Ela pertence ao que flui. Nunca se torne um reservatório, sempre permaneça um rio.”

    Adorei.

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  3. Tenho a dizer que tudo que vivi em um ano de Europa foi uma vida completa, com todos os anos que uma vida pode comportar. Amei cada lugar por onde passei, não me integrei tanto aos locais, será que teria tido uma visão diferente? Não sei. Como você disse, ser humano é igual em todo lugar, só muda as dancinhas e a comida, rs.

    Beijo!
    De.

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