quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sinais do tempo.

Foto by_Sebastião Salgado.

Esses dias vi coisas que não esperava ver. Cabelos brancos em maior número e concentrados em uma parte da minha cabeça e não parou por aí, noite dessas, acendi o abajur para ler na cama e notei pequenas rugas na lateral das minhas mãos, as mesma que vi há anos atrás nas mãos da minha mãe. Pensei: “estou ficando velha”! Óbvio que sim, é o curso natural das coisas, afinal, não sou Benjamin Button. Sempre digo que nasci velha e fui remoçando num processo inverso, mas, me refiro à posturas e atitudes que tive na infância e adolescência, o excesso de preocupações e pensamentos que me tomavam e que pertenciam ao mundo dos adultos. Aos pouco fui me livrando deles, ou melhor, com o passar dos anos, cheguei a um ponto de equilíbrio. Porém, nada me impediu de viver maravilhosamente cada uma das quatro décadas passadas. Agora… isso de pintar os cabelos para esconder os brancos por pura vaidade e passar cremes nas mãos para tentar retardar o envelhecimento da pele me parece total tirania televisiva. Por que não posso ser como minha mãe? Que no auge dos seus sessenta e poucos anos, nunca tingiu os cabelos ou passou cremes anti-rugas na pele. Em que sou diferente dela? Ela não é, nem mais, nem menos feliz que eu por isso. Ela é simplesmente – na acepção da palavra - linda, pois tem uma beleza invisível aos olhos. Lembro-me da suas mãos jovens passando xampu nos meus cabelos enquanto cantarolava algo como: “fecha os olhos e esqueça tudo que te fez chorar”, aquelas mãos firmes e suaves acariciavam meus cabelos de criança e naqueles momentos me sentia feliz e protegida.

Noutro dia, graças a indicação da amiga Maria Emília assisti ao Café Filosófico CPFL com o Historiador e Professor Leandro Karnal intitulado: “A utopia da melhor idade” e adorei, além do tema vir ao encontro dessas preocupantes e por vezes vazias verdades que aqui abordo, ouvir o Prof. Karnal é sempre um prazer. Como bem mencionaram ao final da apresentação, ele foi brilhante! Houve um momento em que ele utilizou a questão da publicidade do setor de cosmética para falar desses ideais que insistimos em perseguir, exemplificando com as imagens de uma mulher idosa, de rosto enrugado, um rosto que não vende creme anti-rugas e uma jovem e bela Gisele Bündchen. Na verdade, uma jovem de 25 anos faz milagre na propaganda de cosmética, ainda mais, fazendo-se passar por uma mulher de quarenta. Eu me pergunto: Há algum mérito nisso?

Verdade é que eu já não sou mais a mesma de antes, tudo mudou… o cabelo, a pele, a silhueta e felizmente as formas de pensar e viver. Não tenho medo de envelhecer, já a idéia da morte me incomoda, mas… gente! para quem assistiu Sítio do Pica Pau Amarelo na sua primeira edição, colecionou bonecas de papel, dançou ao som de Michael Jackson, Menudo, Kid Abelha, Titãs, Paralamas do Sucesso, etc, fez curso de datilografia (como bem lembrou o Prof. Karnal), usou: telegrafo de cartão perfurado, sistema MS-Dos, Lótus 1.2.3, impressoras matriciais com nomes de mulher, mimeógrafo e papel carbono, estar aqui “blogando”… é o máximo!

Um pouco antes de completar 40 anos, postei algo dizendo que a vida começaria agora… pois é, me preparo para viver o que resta sem pressa e da melhor maneira possível. Como estou longe da minha amada mãezinha e não tenho suas mãos para afagar meus cabelos toda as vezes que mesmo sem xampu as necessito, “vou fechar os olhos e esquecer tudo que me faça sofrer” e isso inclui cabelos brancos e rugas. Os únicos sinais do tempo que farei caso: serão os da meteorologia.


“A utopia da melhor idade” com o Historiador Leandro Karnal.
http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-utopia-da-melhor-idade


O Curioso caso de Benjamim Button de F. Scott Fitzgerald.
Em quadrinhos, Ediouro, 2008 ou Editora: Presença, 2009.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Os homens que não amavam as mulheres.


Ainda bem que existe o cinema, onde em companhia de uma porção de gente desconhecida e estranha - no sentido literal da palavra - podemos passar os momentos de tédio. Confesso que com tudo que Portugal, em especial Lisboa tem a oferecer, esse inicio aqui tem sido entediante, sinto que não terei uma adaptação fácil, salvo consiga atingir alguns objetivos, ou melhor, um objetivo: o de cursar especialização de meu interesse na antiga metrópole. As horas se arrastam. Na tv nada me agrada - o excesso de canais me faz desistir de encontrar algo "assistível"-, talvez os lugares menores tenham mais charme e sejam mais atrativos que as cidades grandes, em Sampa me viro fantasticamente bem e, aqui munida de mapas e consultando a internet para tudo, também encontro as "coisas" porque eu sempre as encontro mesmo, mas... não as pessoas. Sinto uma melancolia no ar, uma quase inércia, não minha, já está aqui. Me parece tudo muito esquisito, brasileiro que não quer saber de brasileiro fora do país, português que olha o imigrante - hoje sei a diferença entre turista e imigrante - com espanto ou desconfiança, fruto de anos de esteriótipos e rótulos, em especial para mulher brasileira. Por esses motivos todos, minha melhor companhia, de momento, tem sido o cinema, mesmo que me faça ter raiva ou chorar, como nos dois últimos filmes que vi.

Ontem vi a produção sueca baseada no best seller do também sueco Stieg Larsson (1954-2004), escritor que faceleu antes de ver sua trilogia alcançar sucesso mundial. Eu não li nenhum dos títulos da trilogia Millennium, mas nos últimos meses vi os livros expostos de livrarias a supermercados na Espanha, e sei que o mesmo ocorreu no resto da Europa. No mundo artístico - seja no cinema, na música, nas artes plásticas - existe um certo burbúrio e alta do produto no mercado quando um autor ou artista morre, imagino que na literatura não seja diferente, podemos dizer tratar-se de um último golpe de marketing, pode soar a humor negro, mas verdade seja dita, é assim que a coisa passa. Voltando ao filme, observei que a maioria do público presente no cinema era de jovens e adolescentes e, posso até imaginar porque, afinal um dos protagonistas: Lisbeth Salander (interpretado por Noomi Rapace), jovem magra, de comportamento rebelde e visual punk, hacker de deixar qualquer CSI estupefato, consegue subverter os meios com inteligência e certa docilidade - me refiro a personagem do filme, não li o livro - que com seus piercings, tatuagens e traumas, se trasnforma em uma heroína moderna, pronta a resolver qualquer questão investigativa, uma verdadeira guerreira. Fazendo um recorte do filme, até porque que ele aborda muitas questões atuais, como a corrupção no mundo corporativo, os trabalhos jornalísticos de denúncia, as correntes racistas e conservadoras presentes na Europa, opto por destacar a "violência de gênero", porque é justamente o fio condutor da trama.

Houve cenas do filme que escolhi não ver, tamanha violência, por outro lado há cenas de muito carinho, afeto velado entre os protagonistas, mas notável... também há enquadramentos e belas fotografias e digo isso porque andei lendo alguns comentários na net, sobre uma esperada produção norte-americana para o livro de Larsson, o que creio não seja necessário, haja vista tanto produção, direção quanto elenco terem dado conta do recado, há que se dar os devidos créditos, afinal o livro narra uma história passada na Suécia, risos... é como se os norte-americanos quizessem montar uma superprodução de "Grande Sertão: Veredas" do Guimarães Rosa, não vejo desmérito em atores estrangeiros interpretando Diadorim e Riobaldo, mas não seria a mesma coisa.

Quanto a tal violência de gênero, antiga e incomoda realidade para mulher e que... só quem é mulher pode entendê-la bem, porque pode sentí-la de maneira diferente e sem nunca tê-la sofrido inclusive, é disso que boa parte do filme trata. Sentimentos como dor, desinteresse pela vida, raiva e vontade de vingança podem mudar por completo a vida de alguém, especialmente dos mais jovens e tornar-los repetidores da situação. Pode parecer idiota mas ontem, fechei os olhos quando a Lisbeth era brutalmente atacada, contudo, quando ela teve a chance de vingar-se, eu estive com os olhos "bem abertos" e não perdi detalhe algum, confesso sem vergonha que vibrei com a lição dada ao seu maltratador. Quem já assistiu filmes comigo sabe o quanto me envolvo com as histórias, creio que o casal jovem que estava sentado quase ao meu lado notou o meu sofrimento e raiva, porque às vezes percebia o olhar curioso que me lançavam, mas não importa, necessitava algo para me distrair. Ainda assim, prefiro a ação à inercia, a paz à violência.

Diga não a violência! Quando sentir algum sentimento nada nobre, vá ao cinema ou a livraria mais próxima.



Livro: "OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES", de Stieg Larsson Editora: Companhia das Letras, Tradução: Paulo Neves.

Filme: Män Som Hatar Kvinnor - Direção do norueguês Niels Arden Oplev, com Michael Nyqvist e Noomi Rapace e outros nomes do cinema sueco. País/Ano: Suécia, Dinamarca e Alemanha, 2009.


sábado, 26 de setembro de 2009

Quintas e Quintais.

Foto do Museu Paulista e seus jardins by_Wanderley Celestino


“Abre minha guarda no espanto
Com o susto que seja
Que nem vento no palmeiral
Pra que eu desperte do sonho
Que traz as lembranças da terra natal toda vez
Pra que eu despenque dos cantos
Qual mais um azulejo colonial português
Vem, arrebenta o acalanto
Que guarda minha noite
E protege os jardins e quintais
Salta do fundo do escuro
Por cima dos muros, telhados, mirantes, portais
Rasga e arregala a cancela, escancara a janela
E guarda esse sonho pras noites de paz”

"Jardins e Quintais" (Composição de Oswaldo Montenegro)


Esta semana assisti ao Seminário "Quintas e Jardins Históricos: Investigar, Recuperar e Gerir” que tratou do patrimônio sob a ótica de arquitetos, paisagistas, arqueólogos, restauradores, historiadores, profissionais do turismo e afins. O evento aconteceu na Quinta da Piedade, uma “das Quintas que o município da Vila Franca de Xira escolheu adquirir e conservar, devolvendo-a para a fruição pública” e deleite de moradores e turistas.

Ao longo dos três dias o evento destacou trabalhos realizados em Quintas de norte a sul do país, como na Quinta da Regalera, Sintra, uma das quais tive o prazer de visitar. Os trabalhos detalhados e bastante técnicos, por vezes revelavam algum detalhe ou história curiosa acerca do patrimônio e dava um tom mais acessível para os que são da história como eu.

A Quinta da Piedade onde aconteceu o Seminário remonta ao século XIV, possuindo características do século XVIII, azulejos da época compõem seu interior e na área externa encontramos lagos e fonte e diversas capelas - Igreja de Nossa Senhora da Piedade, Ermida de Nossa Senhora da Piedade, Ermida do Senhor Morto e Oratório de São Jerónimo -, sendo a primeira do século XVIII e as restantes quinhentistas.

Ainda na Espanha me causava estranheza ouvir a palavra jardim sendo empregada para referir-se à parte traseira da casa, o que para mim tratava-se de um quintal, já a tal Quinta portuguesa, nada mais é do que o que chamamos de sítio, chácara, fazenda, dependendo do tamanho e aplicações, particularmente, ao conhecer a Quinta da Piedade, através de uma visita guiada pela arqueóloga Maria Miguel Lucas, me senti como no sítio da minha avó materna, apesar que nossa Quinta… risos, era muito mais verde e não estava inserida num centro urbano, melhor dizendo a urbanização vertical ainda não chegou lá e deve levar algumas décadas, com sorte, séculos para chegar. Outro ponto diferente é que: o que foi nosso sítio, hoje em mãos de novos proprietários, não tem o status de uma Quinta portuguesa onde a nobreza e aristocracia do país viveu momentos de glória e pujança. Imagine o povo se acotovelando para ver o despertar de reis, rainhas e outros nobres, ou o pequeno almoço – nosso café da manhã -, os passeios pelo jardim, ou ainda participar de alguma festividade, como bem descreve o historiador inglês Peter Burke em “A fabricação do Rei” ou como podemos notar em algumas cenas do filme “Maria Antonieta” de Sofia Coppola (2006).

Depois de ver imagens das várias Quintas portuguesas, fiquei com vontade de explorar um pouco mais o patrimônio do país, começando pela Quinta da Bacalhôa em Azeitão, patrimônio privado aberto à visitação pública, em estilo renascentista e jardim francês, com representativo acervo de arte, parte da coleção privada da família Berardo, onde, além de conhecer um pouco mais da cultura e história do local é possível provar o vinho da “Bacalhôa Vinhos de Portugal” (Conhecem-se vinhas no início do séc. XX, mas uma nova fase da sua produção inicia-se em 1974. O então proprietário Thomas Scoville convence António d'Avillez a criarem um vinho de topo que revolucionasse o sector em Portugal. Decidiram plantar uma vinha com as castas Cabernet Sauvignon e Merlot, encepamento típico de Bordéus. As condições edafoclimáticas da Quinta, a sua exposição suave a Norte e os seus solos, permitem uma maturação longa e completa das duas castas. Estas condições especiais marcam e personalizam o vinho aí produzido (*)) e passar momentos agradáveis.

Voltando aos jardins, ainda criança estive no Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, na cidade de São Paulo, a visão impactante daquele imenso jardim com monumental construção ao fundo ficou na minha memória, em estilo francês, com repuxos e aléias em declive, o jardim localiza-se em terreno rebaixado, proporcionando assim, maior destaque ao Museu. No ano passado visitei o Alcázar de los Reyes Católicos em Córdoba, seus jardins lindíssimos nos convidam a viajar no tempo, lugar que serviu de fortaleza para visigodos, passando a palácio para o Califado Omíada até chegar as mãos dos Reyes Católicos Isabel I de Castela y Fernando II de Aragão, local importante na história dos descobrimentos, em 1492 os Reis Isabel e Fernando receberam Cristóvão Colombo antes de sua primeira viagem rumo à América. Outros jardins, como os botânicos e japoneses também são de encher os olhos, mas de todos os que conheci, o da Casa Llaguno no País Basco é o que mais gosto, um jardim de perspectiva romântica, onde pude presenciar de maneira singular todas as estações do ano, observar uma gama de cores e sentir todos os aromas ao longo dos meses que ali vivi, além dos alegres e saborosos almoços e jantares que tivemos junto aos amigos, entre as árvores e plantas fui tão feliz como no sítio da minha família no Brasil, onde minha infância correu de maneira lúdica, sem o glamour dos nobres, mas repleta de paz e liberdade.

Entre Quintas e Quintais vou descobrindo a história que nos faz diferentes enquanto povos e iguais enquanto seres humanos, afinal de contas, desde a Grécia antiga, para não citar outros povos, passear por jardins ou quintais, cultivar hortas, são expressões de amor a vida ao ar livre. O paraíso na terra como citado no livro do Gênesis não é privilégio de nobres e sim daquele que ama o seu “lugar” e, para nós brasileiros o privilégio está muito presente no dia a dia, cultivar pequenas hortas e quintais faz parte da vida cotidiana, até porque, vivemos em uma terra, que segundo Pêro Vaz de Caminha, escrivão português da frota de Pedro Alvares Cabral, em sua carta a El Rei D. Manuel (…) “Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e- -Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!” (…).

Pronto, se o problema é espaço… providencie uma pequena floreira, dessas que encontramos em supermercados e plante especiarias, tomates ou as flores que mais goste, compre um Bonsai ou desfrute dos jardins e parques da sua cidade, com certeza esses espaços também têm muito a contar, basta querer ouví-los.

(*) Quinta da Bacalhôa:

A fabricação do rei. A construção da imagem pública de Luis XIV de Peter Burke. Editora Jorge Zahar, 1994.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Coisas de Criança.


Quando nasci, plantaram uma jaboticabeira no sítio, curioso que assim como eu, ela nunca deu frutos, a última vez que lá estive, em janeiro do ano passado, ela continuava firme e forte, sem uma jaboticaba sequer. Tenho uma marca de nascença, entre a cintura e o quadril do lado direito que se assemelha a uma folha, segundo minha mãe – a D. Albertina – quando estava grávida teve vontade de comer ameixa do pé que tínhamos em casa, lá subiu e se fartou, horas depois descobriu uma folha da ameixeira justamente no lugar onde levo a tal marca. Se tem alguma relação lógica? Nem imagino, mas... me faz graça ouvir essas histórias. Na infância muitas foram as árvores que subi, no sítio da nossa família tinha de tudo, a maioria árvores frutíferas. Entre macieiras, laranjeiras, pitangueiras, ameixeiras, pessegueiros e outras eiras e eiros cresci. Em casa tínhamos uma preciosidade, uma goiabeira gigante que era nossa diversão, até que um dia o pai acabou com ela alegando fazer sombra para as outras plantas da pequena horta. Adulto tem cada coisa! Aquela goiabeira era nossa alegria, ali brincávamos eu e meus irmãos – éramos cinco – e os amigos todos. Uma vez, um desses fotógrafos que batiam de porta em porta, entre os 70 e 80, para fazer fotos caseiras – quem tem entre 30 e 40 anos deve ter alguma foto dessas perdida em algum canto – fez umas fotos nossas no quintal, dias de mato alto… eu claro, subi na goiabeira e esbocei um sorriso tímido, tinha 12 anos. Noutra vez, fizemos guerra de goiaba e entre goiabas verdes que doíam à bessa quando nos acertavam e as maduras que viravam uma “meleca” a tarde foi curta para tanta diversão, essa árvore também era nosso esconderijo quando aprontávamos alguma coisa em casa, passávamos horas na parte mais alta da goiabeira, fugidos da mãe. Nessa época também, não me lembro ao certo se com 11 ou 12 anos, plantei minha primeira e única árvore, uma ameixeira. Foi na escola onde eu estudava e em comemoração ao dia da árvore. Não sei se transplantaram a árvore de lugar, pois há alguns anos novas salas de aula foram construídas no espaço onde algumas árvores foram plantadas naquele dia, ao menos cumpri um dos objetivos para realização do Homem: o de plantar uma árvore – também comprei um bicicleta, mas… ainda não escrevi um livro (serve um blog?) e não tive filhos -. Em casa, meu pai – o Sr. Mamede – não cansava de se valer dos poderes medicinais das árvores, suas folhas, flores, etc – para a diarréia ele nos dava folhas de figueira ou broto de goiaba, para pedra nos rins, várias foram às vezes que tomamos uma mistura na qual as folhas do chapéu de couro, aquela árvore praieira era um dos ingredientes. Ah! Mas as árvores também podem ser mal empregadas, como no caso dos pequenos caules do pé de marmelo, isso mesmo, uma vez, creio que tinha uns 7 anos, apanhei de vara de marmelo, por um motivo banal, a mando da minha avó paterna minha mãe me deu uma varada na perna, chorei de soluçar e demorei anos para ver minha avó com outros olhos, sempre que olhava para ela via a tal vara de marmelo. Me lembro também de um domingo no parque municipal da minha cidade, onde eu e mais alguns amigos resolvemos fazer uma pequena trilha seguindo um dos garotos que dizia conhecer bem o caminho, o que no começo foi divertido, logo tornou-se assustador, no fim da tarde nos perdemos entre aquelas árvores todas e, se não fossem os bombeiros e funcionários do parque, teríamos passado parte da noite entre tombos, espinhos e carrancas que algumas árvores nos sugeriam. Como já disse em outro texto, às vezes uma imagem, um e-mail, um artigo de jornal me transporta ao passado… Relembrei essas pequenas histórias de criança, justamente porque recebi um e-mail do IVA Voluntariado sobre a Campanha “Dia da Árvore – Plante essa ideia” e resolvi escrever sobre as árvores da minha vida…risos. Escrevemos sobre paixões, viagens e outras coisas, porque não falar das nossas árvores. E por falar em nossa árvore - de acordo com nosso nascimento - a minha é a Macieira, coincidência ou não, era a primeira árvore para a qual eu me dirigia quando chegava ao sítio da minha avó materna. Bons tempos aqueles.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Caminho das Índias nas ruas de Martim Moniz, Lisboa.


"Sem fanfarra não há casamento"
(fotos by_Meg Mamede)

Domingo, ainda no metro resolvi ir até Martim Moniz, um dos bairros mais antigos de Lisboa. Depois de passar alguns meses vendo como a intolerância e o preconceito cresceram em relação ao imigrante em países da Europa, fui conferir a proposta de TODOS Caminhada de Culturas de “Viajar pelo mundo sem sair de Lisboa”. Entre ruelas, escadarias, azulejos, flores nas janelas, casarios antigos e o comércio mantido por gente de toda parte do mundo, conheci, as várias “caras” da cidade, outra Lisboa que como os próprios organizadores do evento afirmam: “deve ser incluída definitivamente na identidade urbana da cidade”. A proposta que promovia a integração, teve um que de festa internacional, destacando os lugares de origem dos moradores do bairro – Índia, Moldávia, China, África, Ucrânia, Brasil, etc – e, através da música, fotografia, oficinas, culinária e o cinema, mostrou ser possível a convivência harmônica de várias culturas num mesmo espaço.

Enquanto esperava próximo ao Largo dos Trigueiros pela apresentação da fanfarra indiana Jaipur Maharaja Brass Band, tive tempo de entrar numa pequena cafeteria e observar algumas Sras. portuguesas que após o almoço, com a desculpa de tomar um café, buscavam naquela tarde de domingo uma conversa furtiva com as vizinhas de bairro. Ali, me senti em casa, me lembrei da D. Albertina – minha mãe – e suas amigas, lembrei da minha avó paterna e das minhas tias, cada Senhorinha que ali entrava ou saía e que educadamente me saudava, mesmo sem me conhecer - comportamento há muito esquecido pelas novas gerações – me fez voltar no tempo, para minha infância na cidade de Salesópolis, onde passávamos os fins de semana e, as pessoas possuíam as mesmas características das desse bairro Lisboeta.

Ao passar pelo Beco das Farinhas, encontrei fotografias impressas diretamente nas paredes das casas, fotos dos moradores mais antigos e de mais idade do Beco e arredores, na Mouraria. O trabalho da fotógrafa Camilla Watson intitulada “Tributo”, composto de imagens em preto e branco, mostra cenas cotidianas, comuns em qualquer parte do mundo e cheias de humanidade, transformando os moradores do bairro em protagonistas dessa festa.

Em seguida as primeiras notas da alegre música indiana se fez ouvir e logo tomou conta do Largo dos Trigueiros, moradores, turistas e curiosos juntaram-se ao grupo que seguia a Jaipur Maharaja Brass Band pelas ruas do bairro e ao passar, o Brass Band trazia as pessoas às janelas de suas casas, o que inicialmente, se tratava de um olhar curioso e tímido dava lugar a sorrisos, fotografias e aplausos. E por falar em sorrisos, isso foi o que me chamou muito a atenção na banda, apesar do calor que fazia em Lisboa e da roupa que usavam, caminhavam pelas ruas tocando seus intrumentos e nunca deixavam de sorrir, sorriso de uma brancura que contrastava com a tez escura de sol. A música alegre animou o público e alguns indianos que vivem no bairro sairam para dançar ao som de canções familiares, homens, mulheres e crianças, sempre com um sorriso estampado no rosto, em seguida, uma bailarina e um faquir se juntaram ao grupo para mostrar sua arte. Porque estou falando da India? Bem, nos últimos tempos essa cultura milenar, cheia de cores, sabores exóticos e espiritualidade tornou-se mais conhecida dos brasileiros, considerando ser a bola da vez para Glória Perez, passando pela última Festa do Oscar onde Slumdog Millionaire de Danny Boyle levou várias estatuetas e desembocando finalmente no BRIC, para nós brasileiros essa ligação é antiga, vindo desde as viagens dos descobrimentos. Voltando à Brass Band, interessante que no programa da Festa no Martim Moniz, lia-se que a música tocada pelo grupo, cujo conjunto de metais – trompetes, trombones, tubas, clarinetes e saxofones - juntamente com a bailarina e o faquir, “representam uma tradição que vem de longe: na Índia, sem fanfarra, não há casamento!” coisa que podemos comprovar nos filmes made in Bollywood, onde a música e a dança são protagonistas na história. Já a culinária indiana, é um capítulo à parte, sedutora por execelência, colorida, de aroma e sabor para lá de exótico - com especiarias que portugueses e brasileiros souberam bem como tirar proveito - convida todos os sentidos a viajar por prazeres gastronômicos inigualáveis, saborosos e afrodisíacos.

Retomando a idéia central da festa TODOS Caminhada de Culturas, sobre a integração dos diferentes e o quanto temos a aprender com o “outro”, acredito que nesse mundo globalizado tudo é possível, estamos "todos" conectados… Quando imaginamos que nossos pensamentos e idéias são só nossos ou originais, nos enganamos, porque tudo que diz respeito ao ser humano é universal. Muitos pensaram e pensam, sentiram e sentem o mesmo em lugares e tempos diferentes. Quando saí do Brasil para viver na Espanha com uma família basca, descobri que muito do que eu acreditava e dizia da vida ia ao encontro do que o indiano Osho - professor de filosofia na Universidade de Jabalpur na década de 50 – abordava em suas aulas e que anos depois tornara-se sucesso editorial e só me dei conta disso quando conheci Joseba, que afortunadamente não somente lê, mas aplica algo da filosofia de Osho a sua vida e, se eu não estivesse aberta ao novo, talvez a adaptação em terras ibéricas seria mais díficil, penso que isso ocorra com todos, tanto para mim quanto para qualquer outro que tenha deixado seu país para viver noutro, como os moradores de Martim Moniz que fizeram desse bairro de Lisboa sua nova casa e se sentem tão lisboeta, quanto os nascidos aqui. De certa maneira, todos temos algo em comum, me refiro aquela necessidade que impele o Homem na busca do novo, o mesmo espírito aventureiro que levou navegadores de outrora à Índia, à China, à Africa, à América, ao Brasil e agora a fazer o caminho inverso, como na filosofia de Osho “Sempre permaneça aventureiro. Por nenhum momento se esqueça de que a vida pertence aos que investigam. Ela não pertence ao estático; Ela pertence ao que flui. Nunca se torne um reservatório, sempre permaneça um rio.”

Vou seguindo o Tejo.


Para saber mais:

Jaipur Maharaja Brass Band: http://www.jaipurmaharajabrassband.com/accueil_en.html

Camilla Watson: http://camillawatsonphotography.org/

Filmes: A FNAC tem grande oferta de filmes asiáticos e garimpando as videolocadoras alternativas é possível encontrar produções indianas, como “Noiva e Preconceito” de Gurindher Chadha, baseada na obra de Jane Austen, entre muitas outras.

Osho: http://www.oshobrasil.com.br/

Livros que recomendo:
Vislumbres da India - Um diálogo com a condição humana de Octavio Paz (escritor mexicano) 4a edição. Tradução de Olga Savary, Editora Mandarim.

O Banqueiro dos Pobres de Muhammad Yunus (banqueiro e economista indiano, prêmio Nobel da paz 2006) e Alan Jolis, Tradução: Maria Cristina Guimarães Cupertino, Ed Ática.

sábado, 12 de setembro de 2009

Por onde tenho andado.

Detalhe do Monumento aos Navegantes - Lisboa (foto by_Meg Mamede)

Navigare necesse, vivere non est necesse".
(Pompeu, General Romano)

As férias de verão acabaram. Os europeus retornam à rotina. As crianças iniciam novo ano letivo, enquanto os adultos enfrentam a tal depressão pós-férias - algo novo que ouvi no rádio dia desses - e eu desembarquei em Lisboa. Na realidade antes de chegar aqui, na terra do Pessoa, dos pastéis de Belém, da arte manuelina e do fado, estive a conhecer outros tantos lugares de Portugal. Em companhia das meninas Nerea e Ainhoa e de Joseba, deixei a Espanha rumo ao país vizinho, passando pelas já conhecidas Salamanca e Cáceres, onde as meninas fizeram questão de ir, por conta das piscinas que adoraram estar no ano passado. Dessa vez entramos em Bejar, uma cidade a caminho de Cáceres, da estrada se vê a muralha e parte do que restou das construções antigas, a cidade apesar de seu passado medieval, nos pareceu um pouco decadente, ladeiras e ruas estreitas onde motoristas descuidados trafegam como se estivessem em uma rodovia. Nessa época do ano as temperaturas podem chegar aos 40 graus fácil, fácil, por isso as cidades ao longo do dia são quase cidades fantasmas. Somente o turista de passagem e o burro – me refiro ao animal quadrúpede macho da mula - é que se arrisca ao sol, por isso as fontes de água e os lugares climatizados são tão importantes, além é claro, de muito protetor solar e água para hidratar. Eu é que o diga, o calor me deixa insuportável, me comporto como uma criança mimada e impertinente, dessa vez, depois de muitos anos fiquei feito “camarão”, descuidei da proteção solar e, em Cascais, litoral de Lisboa, o vento frio me fez sair da sombra, não senti o calor e com pouca proteção tive parte do corpo bastante queimado, depois senti até calafrios, Nerea brincava comigo dizendo que queria esquentar os pés frios na minha perna quente... risos. Voltando ao nosso roteiro, saímos da Praia do Guincho em Cascais e seguimos para Sintra, andamos um pouco e o clima mudou totalmente, a neblina deixava tudo encoberto e notávamos o ar frio ao abrir a janela do carro, uma região de Serra, com mata mais densa e brisa bastante fresca. Seguindo os trilhos do elétrico (o que no Brasil chamamos de bonde), logo fomos descobrindo uma cidade que há alguns séculos atrás serviu de refúgio de veraneio para monarquia portuguesa, com Palácios românticos e Castelos, entre os quais destaco o Castelo dos Mouros, construção remanescente do século IX - período da ocupação muçulmana na Península Ibérica - que bravamente Ainhoa explorou com Aita, enquanto Nerea e eu provávamos amoras e enchíamos as garrafas de água em uma fonte ao pé da muralha, depois fomos à Quinta da Regalera, construção do XVII em estilo manuelino. Já nas ruas estreitas do centro histórico a cidade nos presenteou com imagens, aromas e sabores, porém para o turista mais sossegado, vale dizer que: não demore a sair, pois os portugueses fecham o comércio muito cedo e você pode não provar aquele vinho ou pastel. Na estrada novamente, desta vez seguimos para Nazaré, lugar muito peculiar, onde a pesca dita os usos e costumes dos seus habitantes, o contraste das barracas de praia coloridas com os trajes negros usados por mulheres e homens da cidade confere um ar curioso ao lugarejo e, os mais idosos são os que mantêm viva a cultura local, entre elas a de secar os peixes no areal perto dos barcos coloridos, lugar ideal para apreciar as delicias do mar, aproveitamos para comer “Arroz de Marisco” prato preferido de Joseba, à base de arroz, mariscos e peixes, com um toque todo especial dado pelo coentro. Próxima parada Torreira – Aveiro – onde além da bela praia para os amantes do surf, a Ria de Aveiro é um atrativo à parte, a tranquilidade das águas com seus barcos de pesca, nos convida ao relaxamento. Depois de alguns dias e noites explorando parte de Portugal, veio o pior momento: despedir-me das meninas Nerea e Ainhoa e de Joseba, o que aconteceu na cidade do Porto...meu coração que partiu ao sair do Brasil em 2008, quando deixei minha família, agora partiu-se novamente ao deixar minha família basca, essa que me recebeu tão bem e com a qual vivi os últimos 17 meses... “que lastima pero adiós, me despido de ti y me voy”... sinto um nó na garganta sempre que lembro desse momento. Mas nem tudo é tristeza, elas me deixaram e levaram outra passageira, isso mesmo, uma iguana portuguesa, rs, que a pedido das meninas, Joseba comprou no Porto, resta saber se ela, acostumada a couve, irá comer acelga ou canonegos. Já no Porto reencontrei a amiga Talita, aquela que conheci na FLIP 2004 em Paraty e juntas passamos dias divertidos e muito produtivos, ela me mostrou a cidade do Porto, fomos também a Bussaco visitar o Palácio de Bussaco – hoje hotel – construído pelos monarcas portugueses no XIX em estilo neo-manuelino, contando com um conjunto que exibe uma riqueza de decoração e uma exuberância de arcos abobadados, escadarias em mármore, tapeçarias raras, quadros de mestres pintores e peças de alguns dos mais notáveis artistas portugueses, para espanto e encanto dos hóspedes e visitantes. Ao cair da tarde chegamos a Coimbra, onde pudemos admirar a cidade alta desde a margem do Rio Mondego. Aproveitamos para fazer fotos, tomar um café e falar do futuro, nosso futuro aqui na Península Ibérica. Tudo isso me fez lembrar a necessidade que o Homem tem de renascer, reinventar-se como bem escreveu Fernando Pessoa “Viajar! Perder países! Ser outro a cada dia”… Não pense ser fácil, eu tenho tentado. Eu tenho andando por aí, mas... meu coração ficou na Espanha.




Slide show - Fotos by_Meg Mamede

Outras viagens que podem interessar:

Related Posts with Thumbnails