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Coisas de Criança.


Ela tinha 11 anos, por primeira vez fazia parte de algo importante. Era a 1ª. suplente (ou vogal) na chapa de alunos que havia ganho as eleições escolares (quanta ingenuidade). Naquele tempo em que Educação Moral e Cívica e OSPB (Organização Social e Política do Brasil) eram disciplinas levadas a sério - caso contrário, sério seria a bronca -, uma vitória nas urnas conferia certo status aos alunos. Ensinavam-lhes que tinham muitas obrigações e que deveriam cumpri-las da melhor maneira possível, entre as quais: a de representar seus colegas nas reivindicações e buscar soluções para os problemas do grupo, a de aprender e cantar corretamente o hino nacional, a de respeitar os símbolos nacionais e a de conhecer protocolos como: hastear, arriar e dobrar adequadamente a bandeira nacional demonstrando-lhe respeito, deferência sempre, mesmo que isso significasse pagar o maior mico (risos). E foi exatamente isso que ocorreu... um mico cívico. Acontecimento que quase provoca uma CPI escolar, o que seria muito educativo, para não dizer saboroso, afinal, essas coisas sempre acabavam em “pizza”.

Num fim de semana qualquer e por um motivo qualquer, ela foi incumbida por uma professora – aliás, não era uma professora qualquer, era a assistente da direção, cargo importante na hierarquia escolar naqueles tempos - de passar na escola, arriar a bandeira e levá-la para casa, devolvendo-a na segunda-feira quando fosse à aula. E foi exatamente o que ela fez. Tocou a campainha, como o caseiro não apareceu, ela resolveu, depois de esperar alguns minutos, escalar o muro da escola e pular para dentro do pátio, em seguida, subiu a escada que dava para a quadra de esportes, onde três mastros ostentavam as bandeiras em dias de festa, e aproximou-se, naquele dia havia somente a bandeira do Brasil hasteada e a coisa ficou mais fácil, sozinha, com o corpo ereto e a mão no peito, ela cantou afinada o hino nacional brasileiro (risos, muitos risos), depois, arriou com todo cuidado aquela flâmula e dobrou-a como lhe ensinaram, em forma de uma “esfiha”, melhor dizendo, de um triângulo, pousou-a no antebraço esquerdo e deixou a escola rumo à casa, feliz da vida, com a sensação de dever cumprido e orgulhosa de si mesma.

Quando já havia chegado a casa e passado alguns minutos, ela escuta uma sirene, alguém a chamava pelo nome no portão. Era um policial – marido de outra professora – que foi a pedido da esposa buscar a bandeira na escola e deparou com o mastro vazio. Ao sair, um vizinho lhe contou que uma menina franzina, de cabelos curtos, havia pulado o muro e levado a bandeira, com mais algumas informações ele facilmente chegou até a “meliante” que supostamente havia surrupiado a bandeira da escola. Ao ser indagada, ela confirma estar em posse da bandeira, conta sua história e se nega terminantemente a entregá-la, dizendo que só a entregaria na segunda-feira para professora que lhe havia destinado aquela missão, disse também que era integrante do grêmio escolar e que havia cantado o hino nacional inteirinho e sem errar antes de arriar a bandeira e em seguida, pergunta ao policial:

- Você sabe cantar o hino nacional? E... o cantaria antes de arriar a bandeira?

Houve silêncio por alguns segundos. O policial apenas riu e foi embora.

Ela demorou anos para entender o porque daquele riso.

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