quarta-feira, 10 de junho de 2009

Ideal para o momento.

Ideal - adj. m. e f. 1. Que existe apenas na idéia.
2. Imaginário, fantástico, quimérico.
3. Que reúne todas as perfeições concebíveis e independentes da realidade.
S. m. 1. Aquilo que é objeto de nossa mais alta aspiração. 2. Perfeição.


Você já teve a sensação de que algo é ideal para você? Como por exemplo, aquele sapato lindo que você viu em uma vitrine e que combinaria perfeitamente com o modelito que você escolheu para ir a uma festa? Aquele vinho que casa exatamente com prato que você servirá? Aquela gravata que vai bem com qualquer camisa que você coloque? Aquela peça bonita que se encaixa perfeitamente na decoração da sua casa? Ou simplesmente a doce combinação da goiabada com queijo branco. E, quanto às pessoas? Será que podemos pensar dessa maneira? Há o ideal ou será fruto da nossa mente que persiste em buscar modelos e encaixá-los em nossa vida? Sim, porque no inicio, tudo e todos nos parecem exatamente o que buscamos, logo, notamos as diferenças e o perfeito (ou quase perfeito) perde o efeito balsamo, o estado de graça se desvanece dando lugar à decepção e algumas vezes à frustração também.

Idealizamos tudo nessa vida, a própria vida inclusive e, essa é a que menos se parece com o que aspiramos. Mas há coisas que acontecem, pessoas e oportunidades que passam por nossa vida e que são realmente ideais para determinados momentos. Um exemplo: você sai de viagem para um país do qual não conhece o idioma, conhece alguém nascido ali que se dispõem a mostrar o lugar, te acompanhar e te servir de tradutor, porque ele(a) coincidentemente conhece o seu idioma. Não é ideal para esse momento? Pois bem, o que quero dizer é que: nós estamos sempre buscando algo, coisas e pessoas, sem nos dar conta do que está posto, do que realmente é tangível e, quando encontramos o que supostamente buscamos, sofremos por medo de perdê-las ou o que é pior por medo de deixá-las e assim nos mantemos presos a coisas e situações que em dado momento já cairam em desuso ou se gastaram, deixando então de ser ideais. Para que manter aquela camisa antiga e sem cor pensando que a moda sempre retorna? Imagine, as relações desgastantes que manteríamos, seja no trabalho, namorado(a), família, amigos, se não houvesse a possibilidade da mudança. Pense, a vida é dinâmica, se algo não está bom é momento de rever seus valores sobre as coisas e as pessoas, buscar o ideal para o momento que está vivendo e... saber quando esse momento chegou ao fim, é primordial para viver bem.

Vou ser mais clara, para mim não há almas gêmeas ou meias laranjas por um único motivo: somos inteiros... isso mesmo, eu por exemplo não espero (talvez já tenha esperado) hoje não mais, que alguém me complete, tão pouco, que eu complete alguém, relações baseadas na dependência, seja ela qual for, são desequilibradas e perigosas. Se você pensa que precisa estar com alguém ou ter alguém (num sentido de posse) para sentir-se feliz ou menos solitário(a), me desculpe mas... o que te falta é amor próprio. Pode parecer arrogância da minha parte, egocêntrismo, mas o fato é que nascemos sozinhos e morremos sozinhos... as pessoas nos acompaham ao longo da vida (família, amigos, amores) mas não estão o tempo todo conosco e se nossa auto-estima anda em baixa e tudo parece pior do que possa ser, ninguém quererá estar conosco e continuaremos sozinhos e não seremos nem metades, seremos cacos. Porém, se você se ama, gosta da sua própria companhia, é capaz de preparar um jantar delicioso e abrir aquele vinho (que estava à espera de uma grande ocasião ou motivo para ser aberto), se é capaz de (no caso das mulheres) ir ao salão de beleza fazer as unhas o cabelo para passar uma noite de sábado em casa sentindo-se bela e feliz, eis a diferença, você é inteiro(a) e não necessita de metades. Desta maneira poderá transformar oportunidades em situações e relações ideais. Por esse motivo acredito que somos “ideais para o momento”, momento que pode durar o espaço de um beijo, de uma viagem, de semanas, de meses e quem sabe de muitos anos.

Eu estou há pouco mais de um ano vivendo longe da família, dos amigos de tudo que foi (e será quando eu retornar) ideal para mim. Hoje o ideal é outro porque se encaixa na realidade e momento que estou vivendo e com isso me sinto inteira e feliz. Neste momento, estou em contagem regressiva, deixando a Espanha para seguir para Itália, num misto de excitação e nostalgia. Excitação pelo novo e nostalgia antecipada pelo que deixarei (risos). Para ser mais clara, deixarei as vistas do meu quarto, onde, todos os dias quando desperto, vejo um homem nú abrindo a janela do quarto que dá para o Txarlazo, montanha que parece uma muralha cercando a cidade. Nestes dias de primavera às 7h da manhã, quando ele desperta e abre as janelas, a montanha tem uma cor entre o rosa e o laranja, por conta dos primeiros raios de sol e ele, branco como a neve caminha nú pelo quarto enquanto eu o observo feliz. Gosto da maneira tranqüila com que ele caminha e do sorriso que esboça quando percebe que o olho. Esse homem inteiro é ideal para esse meu momento, essa janela, a casa em que vivo e a cidade foram ideais para esse tempo que aqui passei e as outras situações e relações que virão serão ideais para outros momentos que passarei, afinal “Tento fazer desse lugar o meu lugar, ao menos por enquanto, enquanto isso durar”. Esse trecho da canção “O meu lugar” da Zélia Duncan resume bem o que sinto e o quanto me esforçarei para sentir-me assim nos outros lugares por onde eu passar, essa máxima serve para todos os que queiram evitar dissabores e sofrimento, aplicável a lugares, coisas e pessoas... o “fazer” de algo ideal, vivendo de forma ideal o momento presente, pois... ao idealizar o futuro caminhamos à utopia.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

5 de Junho - Dia Mundial do Meio Ambiente.

video

Vídeo produzido pela WWF Worlwide Fund for Nature.

Não há muito que acrescentar o vídeo diz tudo. E... você tem feito sua parte?

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Quero falar de poesia.

“A poesia é o sentimento que sobra ao coração e sai pela mão."
(Carmen Conde - Professora e poeta espanhola)

Quero falar de poesia. Começando por uma poeta que me encantou desde o primeiro momento quando me foi apresentada. Falo de Floberla Espanca, a quem conheci um pouco tarde eu diria. Foi no curso de história, o professor de “fundamentos da comunicação” levou os versos de Aonde? da poeta portuguesa e, me lembro que quando me pediu para lê-los, li com o acento dos portugueses, ora pois! e isso deu lugar a outra história, digna das poesias da Florbela. A verdade é que, se eu a tivesse conhecido aos 14, 15 anos, teria me inundado a excitação que seus versos provocam e com certeza seria ela minha musa inspiradora, aquela alma incomprendida, rebelde e doce. Como me identifiquei com ela! Eu viajaria nos seus versos. Imagine uma adolescente que começa a sofrer de “amor”, que escreve poemas à noite trancada no quarto e as lê para poucos. Nessa época meu livro preferido era um dos volumes do Anuário dos Poetas do Brasil de 1979, organizado por Aparício Fernandes, não me lembro como esse livro chegou às minhas mãos, mas lembro como saiu, emprestei-o para amiga Sandra e nunca mais o recebi de volta, uma perda irreparável que só se compara à minha vitrola portátil (aquelas em forma de maleta) que eu ingenuamente emprestei a outra amiga que nunca a devolveu (Pode isso? E eu ainda chamo de amiga!), nela eu ouvia LP’s e singles, enquanto suspirava lendo Pablo Neruda, Goulart de Andrade, Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Eça de Queiroz, Érico Veríssimo, Vinícius de Moraes e muitos outros. Era meu mundo desmoronando, sem meu livro de cabecereira e minha companheira vitrola. Bem, ao menos não precisei fazer terapia por isso e fui aprendendo desde cedo a lidar com as “perdas”.

O período de 80 a 87 foram os anos mais criativos, escrevia muita coisa, depois parei e anos mais tarde quando revi meus rascunhos pensei: Como eu podia ter escrito sobre sentimentos, paixões, amores, decepções e sofrimentos com tão pouca experiência de vida? Acredito que me alimentei dos livros e do cinema, fonte inesgotável de inspiração. Me lembro também que nós adolescentes da década de 80, tínhamos por hábito e passatempo, fazer cadernos de poesia e de recordações, ah! e responder questinários com perguntas onde mencionávamos nossas preferências e conhecíamos as preferências dos demais, era uma maneira divertida de saber os segredos e desejos dos amigos de ginásio e isso também facilitava os devaneios pueris e os amores platônicos, matéria prima para as primeiras poesias.

Por que eu tô falando tudo isso mesmo? Nem sei, acho que estou sentimental esses dias, fui tomada de assalto por uma nostalgia, às vezes me sinto arremessada ao passado, observando-me de trás para frente, tentando buscar algumas respostas, noutras vezes, um simples verso ou algo que leio ou vejo me coloca no túnel do tempo e regresso a lugares e momentos preferidos, nos quais me sinto aconchegada e em paz.

Ainda sobre poesia, há poetas que são ótimos escritores e outros que são a poesia em pessoa. Há filmes que são poesia pura e há muita poesia musicada. Há poesia no dia a dia, enquanto a vida se alterna entre o lirismo e a licença poética e, as pessoas fazem poesia sem se dar conta. Já o Pessoa, o Fernando Pessoa! esse “poeta fingidor” fez mais que poesia, fez história. Ele foi muitos e foi singular. Ele me lembra alguém… ou melhor, alguém me lembra ele! ah já sei… aquele professor que me apresentou à Florbela era o Fernando em pessoa. Ah! E…esse outro Fernando, que não é o Pessoa e… que é José (o professor) me apresentou a outros também, me levou à casa do Drummond e à cidade do Guimarães Rosa… leu para mim, na cama, Mário de Andrade, Clarice Lispector entre outros, resumo: me apaixonei por suas interrogações, eu, que segundo ele era uma mulher de vírgulas, vivi momentos de exclamação (risos). Verdade, é que pusemos um ponto final depois de tantos dois pontos. Ademais disso, fui trocada pelos Saraus, isso mesmo… nos útimos dias, ou melhor dizendo nas últimas noites da nossa odisséia, ele esteve em companhia da sedutora poesia, não aguentei queria estar com eles, num triângulo perfeito. Melhor assim, hoje entendo o significado de algo que ouvi ele citar algumas vezes “(…) As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas muito mais que lindas essas ficarão” (Drummond). E… que assim seja.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Os Plátanos de La Antigua.

Plátanos de La Antigua no outono (foto by Meg Mamede)

Sempre dou uma passada em O Cardeno de Saramago para ler o que tem de novo. É incrível essa coisa do pensamento, isso de pensar e sentir "as coisas" como outro também as sentem, sem nunca ter conhecido tal pessoa e, em se tratando de um grande escritor como José Saramago, me contento em conhecê-lo através dos seus escritos. Compartilhamos idéias e reflexões, ele lá e eu cá.

Em seu artigo "Viagens" Saramago cita um plátano "O plátano em frente da casa é um autêntico esplendor, uma gama de verdes riquíssima que atrai para uma demorada contemplação e me fez pensar: “Não mudes, deixa-te ser como és”. Inútil desejo, virá o Verão com os seus calores, o Outono com o primeiro frio, e as folhas cairão, o esplendor apaga-se, a árvore adormece até que a nova Primavera venha tomar o lugar desta que está terminando". A mesma árvore da qual falo quando escrevo sobre a Casa Llaguno e, as mesmas sensações que me suscitaram os plátanos do Paseo de La Antigua, encontrei no texto do escritor português.

A questão do tempo, da mudança, o ciclo da vida... o morrer para voltar a nascer, a energia do novo que substitui a experiência do velho e que um dia também será velho e dará lugar a outro.

Quantos ainda passarão por entre as sombras dos plátanos, se deterão para admirá-los, falarão com eles e lhes contarão segredos, notarão os verdes, amarelos e ocres ao longo do ano. Quantos como eu ou Saramago terão algum tempo para simplesmente admirar a natureza sem pressa, como um viajante que chega por primeira vez a um lugar.

Sei, sei... ando viajando (risos), mas... tenho vivido.


Para ler o texto: Viagens by José Saramago acese: http://caderno.josesaramago.org/2009/06/03/viagens/



segunda-feira, 1 de junho de 2009

Mulheres viajantes.


Estava lendo a Revista Mercurio (nº 109 de março/2009) publicação espanhola cujo o tema "El viaje, mito literario" trazia artigos sobre viajantes de várias épocas e partes do mundo, desde a Grécia antiga de Homero, Xenofontes e Herótodo, passando por viajantes anglo-saxones dos séculos XIX e XX que transformaram suas aventuras de viagem em grande literatura, chegando aos exploradores do século XX e XXI que se lançaram a explorar a Àfrica e a Àsia, cada qual a seu modo e com olhares diferentes... como é o caso dos italianos Pier Paolo Pasolini (escritor e cineasta) e o casal Alberto Moravia (jornalista e escritor) e Elsa Morante, ambos publicariam posteriormente suas impressões sobre a Índia, contraditórias entre eles, mas não menos interessantes.

O que me chamou a atenção na revista foi o artigo intitulado "Trotamundos olvidadas" que falava das mulheres viajantes, as quais no período Vitoriano, foram chamadas de "feias, imorais e masculinas". A dificuldade enfrentada por elas, ultrapassa o preconceito social e as coloca no território masculino, por assim dizer onde o homem sempre se destacou. Mas, isso não lhes tira o mérito, a mim me parece que justamente por isso há que dar-lhes o devido crédito, afinal de contas não se trata apenas de romper limites físicos e espaciais, essas mulheres vanguardistas ultrapassaram os limites sociais de suas épocas. Hoje em dia e para nossa sorte, quando uma mulher se lança a uma empreitada dessas é vista com outros olhos e os adjetivos atribuídos a ela também são outros: coragem, valentia, ousadia e para algumas torna-se um estilo de vida e/ou uma fonte de renda. Sabemos que muitas foram as mulheres que acompanharam seus maridos em viagens exploratórias, viagens diplomáticas, comerciais ou mesmo viagens de aventura, seja na África, Ásia ou Ámerica, mas... não é a mesma coisa que deixar tudo e empreender uma viagem solitária.

No Brasil por exemplo, quase todo material: relatos, apontamentos, gravuras, pinturas, cartas que nos ajudam a conhecer um pouco mais da nossa história, foi produzido por homens. Até meados do XIX a dificuldade de viagem era um impedimento para que mulheres empreendessem uma expedição intercontinental, ainda assim algumas aventuraram-se a deixar o conforto e segurança da vida na Europa e acompanharam seus maridos, todavia raramente figuram ou são mencionadas, algumas delas também produziram material, como a Baronesa de Langsdorff ou a francesa Adèle Toussaint-Samson. Interessante que esses materiais se diferenciam entre si, haja vista o enfoque masculino e o feminino, a visão sintética e lógica e a analítica e subjetiva. Os detalhes sempre foram privilégios da mulher.

Ainda sobre o artigo da Revista Mércurio, o texto inicia citando uma religiosa galega que no século IV (meados do ano 381) teria feito sozinha uma viagem de Constantinopla à Jerusalém e durante os três anos que passou viajando, esteve do Egito ao Sinaí, passando por Alexandria e outros lugares santos. Egeria escreveu cartas com relatos minuciosos de sua viagem a suas companheiras, o que mais tarde seria conhecido como "Peregrinación o Itinerario" trazendo à luz detalhes que deixaria estupefata a sociedade, simplesmente, por ser obra de uma mulher.

No século XIX a escritora brasileira Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) , nascida no Rio Grande do Norte, percorreria a Itália e faria um relato de viagem cheio de sobreposições entre Brasil e aquele país, um olhar romântico das paisagens italianas, carregado de recordações da pátria que adotaria no nome. Seu livro intitulado Trois ans en Italia, publicado na França, fruto dos anos que viveu no país, trata-se de valiosa fonte para entender um pouco mais da história italiana.

"(...) Em Trois ans en Italie, Nísia Floresta inicia a narrativa como um diário de viagem e termina o segundo volume como uma crônica histórica. Opera ainda neste texto uma singular fusão entre as duas formas de diário, "o de viagem" e o "diário íntimo", além de guardar uma semelhança com o gênero epistolar, quando se dirige a outra pessoa. Mesmo no diário, aqui e ali surge um vocativo com quem a narradora dialoga (ou "monologa"), que tanto pode ser alguém de seu relacionamento, como um personagem histórico, uma cidade ou um país. (...)" (extraído de: http://www.geocities.com/ail_br/oolhardeumaviajantebrasileira.htm).

À minha maneira eu sempre viajei, na tela do cinema, nas páginas de um livro. Hoje, tenho a oportunidade de fazer isso mais concretamente e me sinto uma Mulher privilegiada e feliz, não me sinto feia, nem imoral, muito menos masculina (risos), me sinto plena e realizada, assim como devem ter se sentido todas as outras mulheres que em outras épocas e cirscuntâncias escolheram mudar o rumo de suas vidas, conhecendo outros caminhos, até porque, como bem cantou o Skank "O caminho só existe quando você passa". Caminhe!

*Fotos extraídas do artigo da Revista Mércurio (nº 109 de março/2009). http://www.revistamercurio.es/index_800.htm

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