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Casa Llaguno, Orduña.

Casa Llaguno - Lar da Família Muruguza. Foto: Ainhoa e Nerea com Yako e Toulouse

"Lar é onde habita o coração." (Plínio, o moço)

Antes de vir para o País Basco, ainda no Brasil, busquei saber mais sobre a pequena Orduña, uma cidade cujo centro histórico está repleto de construções medievais. Igrejas com estilos que variam do românico ao gótico, passando pelo barroco inclusive. Da fortificação que protegia a cidade restou somente parte da muralha, o Castelo foi destruído e com as pedras retiradas foram construídas algumas casas. A antiga praça deu lugar a uma que seria remodelada anos mais tarde, com um coreto, uma fonte e árvores que ocupam toda sua extensão. Nesse mesmo lugar encontramos o que hoje é um hotel balneário, antiga aduana que foi criada no século XVIII no auge do comércio da região. Orduña, que até o século XV teria a denominação de Vila, receberia então o título de cidade. Passear por suas ruas estreitas, passar por entre os arcos das construções que se voltam para sua Plaza Mayor é como voltar no tempo, além disso, a pequena Orduña tem um entorno encantador, berço do Rio Nervión, com sua cascata e a bela paisagem que se vê desde o Txarlazo ou do Monte Santiago, parte da Sierra Salvada (Cordilheira que se estende ao sul de Vizcaya, limitando-se com Álava e Burgos).

Quando cheguei aqui para viver na Casa Llaguno, a imagem que ficou retida na minha mente, impactando-me em todas as estações do ano, foi a dos plátanos que rodeiam o Paseo de La Antigua, uma árvore robusta, elegante e de sombra generosa, que se entrelaça como amigos que dão os braços em uma grande ciranda. A partir dessa rua, uma das ruas mais largas da cidade, onde há pouco mais de um século a burguesia basca construiria suas casas, é possível ter uma das vista mais bonitas da cidade, seguindo pela alameda de plátanos chegamos ao Txarlazo onde a Virgen de La Antigua tem seu monumento e a natureza dá lugar as mais variadas paisagens, do colorido da primavera, passando pelo ocre do outono até a brancura do inverno ou ainda o fenômeno atmosférico conhecido por aqui como Bollo, resultando do encontro do ar homogêneo e frio, com vento do sul-suldoeste e a umidade relativa do ar de 100%. Tudo isso pude ver e fotografar desde as janelas e sacadas da Casa Llaguno.

A Casa ou Chalet Llaguno como é chamada, esta localizada no Paseo de La Antigua, 7, trata-se de uma construção de 1913 do arquiteto bilbaino (de origens alemã) Emiliano Amann, obra do inicio de sua carreira, mas, importante para entender o amplo caminho criativo de sua vida profissional. As referências neo-regionalistas são uma primeira e absolutamente enganosa visão da casa. Suas fachadas, laterais e traseira mostram uma composição limpa, nua, ao gosto centro europeu que Amann conhecia bem, a casa se insere em uma perspectiva romântica do jardim (anteriormente, com grandes hortas na parte traseira da casa, o que depois daria lugar a um conjunto de casas construídas pelo atual dono da Casa Llaguno). A casa tem muito da maneira de integrar ambiente do inglês Luthiens, tanto em seu espaço interior como em seu visual externo. O conceito da Casa Llaguno é muito mais avançado do que possa parecer à primeira vista, esta muito longe do caráter eclético das casas vizinhas, demonstrando as linhas simplificadas que Amann adotaria em obras posteriores.

Vivendo em Orduña há um ano, ouvi algumas histórias sobre esta casa e seus antigos moradores. A família Llaguno-Acha, cujo brasão de família se pode ver na fachada central da casa, viveu aqui durante o século XX e seu antigo dono foi militar e colaborador do regime franquista. Além de festas e reuniões, esta casa presenciou conversas e decisões durante os anos em que a Espanha sofreu com a guerra civil, enquanto que, os bascos de Durango e Guernica padeceriam com os bombardeios efetuados. Entre as histórias que ouvi, destaco a bizarra mania do antigo dono desta casa, que mesmo com o término da guerra e até o fim da sua vida, mantinha seus uniformes limpos, engomados e alinhados em um quarto, como se a qualquer momento fosse usá-los novamente. Minha imaginação voava e meus pelos arrepiavam toda vez que eu, sozinha aqui nesta casa, ouvia barulho de uma porta batendo ou passos na escada, imaginava dar de cara com um fantasma ostentando uniforme e arma em punho. A Casa Llaguno passou por algumas reformas, em uma delas, teriam usado como mão-de-obra prisioneiros de guerra que foram trazidos para o que hoje é o Colégio dos Josefinos, às vezes andando pela casa ou pelo jardim tentava imaginar diálogos ou cenas da qual a casa foi palco e me surpreendia com a quantidade de idéias que me vinham à cabeça.

Em meados do ano 2000 Joseba Muguruza, atual dono e amável anfitrião, compra a propriedade da família Llaguno onde passa a viver com sua família e, por conta das meninas Nerea e Ainhoa filhas de Joseba, vim parar aqui. O pai, é um homem empreendedor, criativo e sonhador, trabalha duro e, apesar de sua formação em psicologia optou por trabalhar com o que gosta, a construção civil e a hosteleria. Lembro-me que as primeiras vezes que nos falamos, ele me contou seus planos para Casa Llaguno e confesso ter ficado animada com a possibilidade de vir para trabalhar com hotelaria e turismo, algo novo para mim, mas, muito ligado às questões históricas, ainda mais, em um lugar como Orduña, porém, a crise financeira atrapalharia seus planos e a reforma que havia iniciado sofreu uma parada temporária. Penso que esta casa será um lugar agradabilíssimo para passar fins de semana ou férias, localização privilegiada e com vistas pra lá de bonitas. Imagino, hóspedes sentados no salão principal tomando uma bebida, escutando música. No verão os passeios pelo jardim, um pouco de sol à piscina, um churrasco no fim da tarde e, no frio o calorzinho da lareira, o vinho de La Rioja e uma boa conversa aquecerá os corações viajantes que por aqui passarem.

Sou suspeita para falar, aqui passei um dos anos mais felizes da minha vida e agora que me preparo para seguir para Toscana já sinto saudades de tudo e tenho esperanças de voltar. Com ou sem reforma, a Casa Llaguno habitada hoje pela Família Muguruza é um lugar aconchegante e alegre, porque o que dá vida a uma casa não é seu mobiliário e seus adornos, é a sua gente.

O que alegra nosso coração são as boas recordações e disso, minhas malas estão cheias.

Eskerrik Asko Família Muguruza!


Veja a seguir Slide Show com imagens da Casa Llaguno e o entorno Orduñês.


Comentários

  1. A Toscana me parece um destino completo.
    Parla italiano?

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