domingo, 31 de maio de 2009

Não estou só!


Com a proximidade da minha ida para Itália, ademais de ler Roberto Saviano, tenho buscado notícias sobre o país nos jornais. Surpreendentemente aqui na Espanha quando se fala de Itália, se fala do 1º Ministro. Quando "Papi" não está cometendo gafes, quebrando protocolos, ainda assim figura nas primeiras páginas dos jornais europeus de maneira nada positiva (com exceção dos jornais italianos, já que boa parte deles são de sua propriedade e quando não, têm que passar por seu crivo). Il Caveliere circula em festas privadas com suas "coristas", presenteia suas "lolitas" com jóias caras, enquanto a esposa pede o divórcio, vida pessoal a parte, isso é o que menos interessa, destaco aqui justamente o conservadorismo de uma figura nada conservadora... no melhor estilo "faça o que eu digo, mas... não faça o que eu faço".

Afortunadamente, não estou sozinha, são muitos os que criticam os caminhos escolhidos pela Itália, principalmente no que se refere à política protecionista e xenófoba... entre tantos, cito José Saramago. O escritor português que sempre editou seus livros na Itália pela Editora Einaudi, não publicará seu próximo livro "O Cardeno" (com reflexões publicadas em seu blog) por essa editora, porque a parceria de anos entre editora e autor foi rompida pela primeira sob a alegação de que em seu último livro o autor tece severa crítica (e verdadeira) ao primeiro ministro italiano.

"(...) A História de Itália surpreende qualquer um. É um extensíssimo rosário de génios, sejam eles pintores, escultores ou arquitectos, músicos ou filósofos, escritores ou poetas, iluminadores ou artífices, um não acabar de gente sublime que representa o melhor que a humanidade tem pensado, imaginado, feito. Nunca lhe faltaram catilinas de maior ou menor envergadura, mas disso nenhum país está isento, é lepra que a todos toca. O Catilina de hoje, em Itália, chama-se Berlusconi. Não necessita assaltar o poder porque já é seu, tem dinheiro bastante para comprar todos os cúmplices que sejam necessários, incluindo juízes, deputados e senadores. Conseguiu a proeza de dividir a população de Itália em duas partes: os que gostariam de ser como ele e os que já o são. Agora promoveu a aprovação de leis absolutamente discricionárias contra a emigração ilegal, põe patrulhas de cidadãos a colaborar com a polícia na repressão física dos emigrantes sem papéis e, cúmulo dos cúmulos, proíbe que as crianças de pais emigrantes sejam inscritas no registo civil. Catilina, o Catilina histórico, não faria melhor. Disse acima que a História de Itália surpreende qualquer um. Surpreende, por exemplo, que nenhuma voz italiana (ao menos que haja chegado ao meu conhecimento) tenha retomado, com uma ligeira adaptação, as palavras de Cícero: “Até quando, ó Berlusconi, abusarás da nossa paciência?” Experimente-se, pode ser que dê resultado e que, por esta outra razão, a Itália volte a surpreender-nos".

Assim como Saramago, prefiro lembrar a Itália por seus gênios artísticos, por seu cinema, por sua música, por sua bela paisagem e sobretudo por sua gente, essa mesma que... há mais de um século emigrou para o Brasil e fez do país sua terra.


Canção dos imigrantes toscanos que chegaram ao Brasil entre o final do XIX e começo do XX.

"Itália bela, mostra-te gentil e os filhos teus não abandonaram,
se não eles vão todos para o Brasil e não se lembram mais de voltar.
Ainda aqui haveria trabalho, sem ter que emigrar para a América.
O século presente está nos deixando, e o novecentos se aproxima.
Eles tem a fome pintada na cara e para saciá-los não existe a medicina.
A cada momento escutamos dizer: "E vou pra lá onde tem a colheita do café".
A cada momento escutamos dizer: "E vou pra lá onde tem a colheita do café".
O operário não trabalha e a fome o devora,
e aqui os assalariados não sabem como fazer para ir pra frente.
Esperaremos no novecentos, acabará este tormento, mas este é o problema,
o pior toca sempre ao operário.
A cada momento escutamos dizer: "E vou pra lá onde tem a colheita do café".
A cada momento escutamos dizer:
"E vou pra lá onde tem a colheita do café".
Não sobrou mais do que padres e frades, freiras de convento e franciscanos,
e certos comerciantes desesperados de impostos não conhecem os limites.
Virá um dia que também eles deverão partir pra lá onde tem a colheita do café.
Virá um dia que também eles deverão partir pra lá onde tem a colheita do café.
Garotas que procuravam marido vêem partir o seu namorado.
Vêm partir o seu namorado e elas ficam aqui com o senhor pároco.
Virá um dia que também elas deverão partir pra lá onde tem a colheita do café.
As casas ficam todas sem inquilino, os proprietários perdem o aluguel,
e os ratos fazem longos passeios, vivem tranqüilos com todos os direitos.
Virá um dia que também eles deverão partir pra lá onde tem a colheita do café.
Virá um dia que também eles deverão partir pra lá onde tem a colheita do café."


Toscana tô chegando!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Quem é você?


Quem será que me chega na toca da noite.
Vem nos braços de um sonho que eu não desvendei.
Eu conheço o teu beijo, mas não vejo teu rosto.
Quem será que eu amo e ainda não encontrei...
Que sorriso aberto
Um olhar tão profundo
Que disfarce será que usa pro resto do mundo
Onde será que você mora, em que língua me chama
Em que cena da vida haverá de comigo cruzar
Que saudade é essa do amor que eu não tive
Porque é que te sinto se nunca te vi
Será que são lembranças de um tempo esquecido
Ou serão previsões de te ver por aqui
Então vem
Me desvenda esse amor que me faz renascer
Faz do sonho algo lindo
Que me faça viver
E se fiz com os céus algum trato
Esclarece esse fato e me faz compreender
Desse beijo esse abraço na imaginação
E descobre o que guardo pra ti no meu coração
Mas deixe eu sonhar, deixa eu te ver
Vem e me diz quem é você
Mas deixa eu sonhar, deixa te ver
Vem e me diz quem é você.

(Composição de Isolda e Eduardo Duzek)

Um pouco de poesia. Por que? Porque... estou feliz e triste ao mesmo tempo, creio que seja a proximidade da "partida", me sinto dividida. O coração bate acelerado, já não tenho certeza se a paz que ele encontrou aqui perdurará, todavia é possível sonhar... ontem já não existe e o amanhã? A quem interessa? Enquanto isso deixa eu sonhar!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Casa Llaguno, Orduña.

Casa Llaguno - Lar da Família Muruguza. Foto: Ainhoa e Nerea com Yako e Toulouse

"Lar é onde habita o coração." (Plínio, o moço)

Antes de vir para o País Basco, ainda no Brasil, busquei saber mais sobre a pequena Orduña, uma cidade cujo centro histórico está repleto de construções medievais. Igrejas com estilos que variam do românico ao gótico, passando pelo barroco inclusive. Da fortificação que protegia a cidade restou somente parte da muralha, o Castelo foi destruído e com as pedras retiradas foram construídas algumas casas. A antiga praça deu lugar a uma que seria remodelada anos mais tarde, com um coreto, uma fonte e árvores que ocupam toda sua extensão. Nesse mesmo lugar encontramos o que hoje é um hotel balneário, antiga aduana que foi criada no século XVIII no auge do comércio da região. Orduña, que até o século XV teria a denominação de Vila, receberia então o título de cidade. Passear por suas ruas estreitas, passar por entre os arcos das construções que se voltam para sua Plaza Mayor é como voltar no tempo, além disso, a pequena Orduña tem um entorno encantador, berço do Rio Nervión, com sua cascata e a bela paisagem que se vê desde o Txarlazo ou do Monte Santiago, parte da Sierra Salvada (Cordilheira que se estende ao sul de Vizcaya, limitando-se com Álava e Burgos).

Quando cheguei aqui para viver na Casa Llaguno, a imagem que ficou retida na minha mente, impactando-me em todas as estações do ano, foi a dos plátanos que rodeiam o Paseo de La Antigua, uma árvore robusta, elegante e de sombra generosa, que se entrelaça como amigos que dão os braços em uma grande ciranda. A partir dessa rua, uma das ruas mais largas da cidade, onde há pouco mais de um século a burguesia basca construiria suas casas, é possível ter uma das vista mais bonitas da cidade, seguindo pela alameda de plátanos chegamos ao Txarlazo onde a Virgen de La Antigua tem seu monumento e a natureza dá lugar as mais variadas paisagens, do colorido da primavera, passando pelo ocre do outono até a brancura do inverno ou ainda o fenômeno atmosférico conhecido por aqui como Bollo, resultando do encontro do ar homogêneo e frio, com vento do sul-suldoeste e a umidade relativa do ar de 100%. Tudo isso pude ver e fotografar desde as janelas e sacadas da Casa Llaguno.

A Casa ou Chalet Llaguno como é chamada, esta localizada no Paseo de La Antigua, 7, trata-se de uma construção de 1913 do arquiteto bilbaino (de origens alemã) Emiliano Amann, obra do inicio de sua carreira, mas, importante para entender o amplo caminho criativo de sua vida profissional. As referências neo-regionalistas são uma primeira e absolutamente enganosa visão da casa. Suas fachadas, laterais e traseira mostram uma composição limpa, nua, ao gosto centro europeu que Amann conhecia bem, a casa se insere em uma perspectiva romântica do jardim (anteriormente, com grandes hortas na parte traseira da casa, o que depois daria lugar a um conjunto de casas construídas pelo atual dono da Casa Llaguno). A casa tem muito da maneira de integrar ambiente do inglês Luthiens, tanto em seu espaço interior como em seu visual externo. O conceito da Casa Llaguno é muito mais avançado do que possa parecer à primeira vista, esta muito longe do caráter eclético das casas vizinhas, demonstrando as linhas simplificadas que Amann adotaria em obras posteriores.

Vivendo em Orduña há um ano, ouvi algumas histórias sobre esta casa e seus antigos moradores. A família Llaguno-Acha, cujo brasão de família se pode ver na fachada central da casa, viveu aqui durante o século XX e seu antigo dono foi militar e colaborador do regime franquista. Além de festas e reuniões, esta casa presenciou conversas e decisões durante os anos em que a Espanha sofreu com a guerra civil, enquanto que, os bascos de Durango e Guernica padeceriam com os bombardeios efetuados. Entre as histórias que ouvi, destaco a bizarra mania do antigo dono desta casa, que mesmo com o término da guerra e até o fim da sua vida, mantinha seus uniformes limpos, engomados e alinhados em um quarto, como se a qualquer momento fosse usá-los novamente. Minha imaginação voava e meus pelos arrepiavam toda vez que eu, sozinha aqui nesta casa, ouvia barulho de uma porta batendo ou passos na escada, imaginava dar de cara com um fantasma ostentando uniforme e arma em punho. A Casa Llaguno passou por algumas reformas, em uma delas, teriam usado como mão-de-obra prisioneiros de guerra que foram trazidos para o que hoje é o Colégio dos Josefinos, às vezes andando pela casa ou pelo jardim tentava imaginar diálogos ou cenas da qual a casa foi palco e me surpreendia com a quantidade de idéias que me vinham à cabeça.

Em meados do ano 2000 Joseba Muguruza, atual dono e amável anfitrião, compra a propriedade da família Llaguno onde passa a viver com sua família e, por conta das meninas Nerea e Ainhoa filhas de Joseba, vim parar aqui. O pai, é um homem empreendedor, criativo e sonhador, trabalha duro e, apesar de sua formação em psicologia optou por trabalhar com o que gosta, a construção civil e a hosteleria. Lembro-me que as primeiras vezes que nos falamos, ele me contou seus planos para Casa Llaguno e confesso ter ficado animada com a possibilidade de vir para trabalhar com hotelaria e turismo, algo novo para mim, mas, muito ligado às questões históricas, ainda mais, em um lugar como Orduña, porém, a crise financeira atrapalharia seus planos e a reforma que havia iniciado sofreu uma parada temporária. Penso que esta casa será um lugar agradabilíssimo para passar fins de semana ou férias, localização privilegiada e com vistas pra lá de bonitas. Imagino, hóspedes sentados no salão principal tomando uma bebida, escutando música. No verão os passeios pelo jardim, um pouco de sol à piscina, um churrasco no fim da tarde e, no frio o calorzinho da lareira, o vinho de La Rioja e uma boa conversa aquecerá os corações viajantes que por aqui passarem.

Sou suspeita para falar, aqui passei um dos anos mais felizes da minha vida e agora que me preparo para seguir para Toscana já sinto saudades de tudo e tenho esperanças de voltar. Com ou sem reforma, a Casa Llaguno habitada hoje pela Família Muguruza é um lugar aconchegante e alegre, porque o que dá vida a uma casa não é seu mobiliário e seus adornos, é a sua gente.

O que alegra nosso coração são as boas recordações e disso, minhas malas estão cheias.

Eskerrik Asko Família Muguruza!


Veja a seguir Slide Show com imagens da Casa Llaguno e o entorno Orduñês.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

18 de Maio - Dia Internacional do Museu.

1- Museu da Língua Portuguesa, Estação da Luz, S.Paulo-SP/Brasil.
2- Museu Oscar Niemayer, Curitiba-PR/Brasil.
3- Museo Guggenheim, Bilbao- PV/Espanha.
4- Museu de Arte de São Paulo, S.Paulo-SP/Brasil.

Não me lembro ao certo quando o Museu se tornou uma paixão na minha vida, desde a infância era adepta de colecionismo. Colecionei de pedras a acredite, sabonetes...rs, passando por bonecas de papel, pápeis de carta, sêlos, santinhos, moedas e objetos antigos. Me lembro o quanto me sentia bem na casa da D. Tata, uma senhora que morava em uma casa ao final da nossa rua, com a qual passava algumas horas da tarde durante a semana, adorava ir a sua casa e ver máquinas de costura, rádios, ferros de passar e chaleiras de ferro, todos, objetos antigos que ela usava para decorar a casa. Em outro momento passei a admirar as coisas da minha avó materna, tudo naquela casa era de museu, se não era, ao menos na minha cabeça de criança o mundo estava rodeado de coisas lúdicas que tinham vida própria, coisas essas que habitavam meu imaginário.

A primeira vez que estive em um Museu de verdade foi com a escola, primeiro visitando um Espaço dentro do prédio da Prefeitura da minha cidade, onde um amontoado de coisas contava um pouco da história de Mogi das Cruzes, de documentos a objetos, passando por fotografias, minerais e armas que retratavam um pouco da vida do município. Depois conheci o Museu do Ipiranga (Museu Paulista), fiquei fascinada com a aquela beleza de lugar, arte e arquitetura que só fui compreender mais tarde. Daquela visita ao Museu do Ipiranga, o que de fato ficou na minha mente, foram os meninos que viviam cerca do Museu e aproveitavam o chafariz para refrescarem-se do calor em meio aquele lindo jardim e, a imagem de uma liteira que vi e na qual queria subir e ter o gostinho de ser carregada...rs, hoje entendo esse desejo de Sinhá Moça que tive quando criança, nada mais era que fruto das novelas de época, diferente da realidade onde a pluridade étnica nos mostra que Sinhás Moças são coisas do imaginário, longe disso, nossa realidade é feita de variadas cores que hoje afortunadamente se misturam nas ruas, ônibus e metrôs e... a liteira ficou no passado, no Museu do Ipiranga.

Com o tempo aprendi o valor da memória, do entorno, da nossa herança cultural, das artes, entre outras coisas e sempre que viajava para algum lugar, buscava saber um pouco mais falando com as pessoas, visitando os Museus, observando as construções. Quando estive em Caxias do Sul visitei a Casa de Pedra da Família Lucchese e o seu interior muito me lembrou a casa da minha avó, depois estive na Casa Merlo em Bento Gonçalves e outros pontos daquele região predominantemente italiana e me dei conta da importância de preservar memória e entorno. Ah! As Igrejas, capítulo a parte nas minhas andanças, adoro fotografá-las, os detalhes do interior, as fachadas, a iconografia religiosa, tudo isso sempre me atraiu... em Floripa fotografei se não todas quase todas, em Minas Gerais... as vezes que lá estive foram poucas para tantas Igrejas, de todas as que visitei entre Mariana, Ouro Preto, Diamantina, Tiradentes, S.João del Rey, Ouro Branco, Sabará, Congonhas do Campo, Santa Barbara, Serro, Caraça, Itabira, Codisburgo, Belo Horizonte, etc, a que mais me encantou foi a de Catas Altas, vendo de fora não se pode imaginar a surpresa que nos aguarda...tantos altares, uns terminados, outro não, outros em restauro... parece um daqueles teatros antigos, bem... o barroco e a Igreja desse período é puro teatro. De obras de Mestre Athaide a Aleijadinho à Casas Museus, como as de JK e Chica da Silva em Diamantina, Guimarães Rosa em Codisburgo, Carlos Drummond em Itabira, Minas Gerais é um encanto, um doce de Estado, como os doces preparados pelas Sras. mineiras. Ainda falando de Minas, visitei os Museus do Oratório, da Inconfidência, entre outros e gostaria de destacar o Museu do Diamante de Diamantina, lá, além de me encontrar novamente com uma velha conhecida minha, a liteira, entre arte sacra, objetos de mineração, etc, conheci o trabalho que eles desenvolviam com a família e trabalhadores dos garimpos da região, uma oficina de produção de semi-jóias, peças e assessórios com prata, couro e outros materiais para incrementar a renda das famílias, é a função social do Museu posta em prática, a Ação Educativa que valoriza o entorno e busca soluções, combinando história, arte e preservação do patrimônio. Não posso deixar de citar a arte rupestre de Barão de Cocais, em um lugar chamado Pedra Pintada na Serra da Conceição, vi e me encantei com os desenhos nas rochas em meio a uma natureza bela e bem cuidada pelos donos da propriedade que com toda a gentileza do mundo conservam o lugar e recebem os visitantes, um exemplo de iniciativa que supera a falta de apoio governamental e uma boa política pública para preservação do patrimônio local e nacional.

Sempre estive voltada para as questões dos museus enquanto cursava história e, a medida que fui conhecendo um pouco mais sobre o tema, sobretudo visitando e participando das atividades oferecidas por muitos Museus de São Paulo, fiquei cada vez mais interessada no assunto. São Paulo tem grande número de Museus, Espaços Expositivos, Galerias de Arte, Centros Culturais para todos os gostos e bolsos. Que saudades sinto dos Encontros de História da Arte à partir do Acervo do MASP ministrados pelo Prof. Renato Brolezzi, aquele auditório ficava tomado no primeiro sábado de cada mês, alí aprendi muito sobre História da Arte e fiz amigos... não tenho dúvidas de que o Serviço Educativo do MASP, independente de qualquer problema que o Museu enfrente, é modelo no segmento, o profissionalismo e dedicação com que a equipe do Paulo Portella trabalha, garante a satisfação daqueles que procuram o serviço. Mas, São Paulo não é o só o MASP, tem o Museu da Língua Portuguesa, a Pinacoteca do Estado, o Museu do Imigrante, o Memorial da América Latina, o MAM, o Museu de Arte Sacra, o Museu da Cidade, o Museu Pe. Anchieta, a Caixa Cultural, o CCBB, o Espaço Cultural da BM&F, o Museu Lasar Segall (com trabalho maravilhoso do educativo), o MAC, o Museu Afro Brasil, o Itaú Cultural, o Museu do Ipiranga, MIS, MUBE, MAB da Faap, MAE-Usp. Ufa!! Como disse o que não falta é museu... durante os últimos anos tive o privilégio de ver exposições, participar de eventos culturais e fazer cursos em boa parte dessas instituições. Se... você está pensado "nossa que coisa mais chata" ou "museu é lugar de velharia", com todo respeito te digo: "você está muito enganado"... o que te falta é fruição e isso não carregamos nos genes ao nascer, isso alcançamos com o tempo, apredemos a gostar, aprendemos a ver o que os objetos contidos nesses espaços, sejam eles de arte, religião, história natural, música, fotografia, etc... nos dizem. O objetos têm história, fazem história e fazem parte de uma história.

A partir do suposto de que a escola não é a única responsável pela construção do saber histórico e compreensão da cultura; entendo que a memória, o patrimônio material e imaterial, a oralidade, a iconografia, a tecnologia e outros, contribuem para a formação do indivíduo, interagindo com a educação formal. Para construção do saber, para a fruição e formação do cidadão, a educação escolar se completa no entorno, nos lugares de memória, nos espaços expositivos – museus e outras instituições –, na tradição oral e na produção cultural de uma sociedade ou grupo. Por isso, as parcerias devem se estruturar na possibilidade de aproveitar melhor nossa diversidade, na valorização da micro-história e no intuito de apreensão do devir, situando sujeitos históricos que a partir da memória individual interagem com um grupo, entorno e sentem-se de fato responsáveis pela constituição da memória coletiva e parte da História.

Por que falei tudo isso? Porque assim como muitos, eu não nasci gostando de Museu e acreditando que eles fossem o melhor lugar do mundo, mas aprendi muito com eles e se hoje enxergo meu entorno diferente e consigo ver coisas sobre o meu lugar estando longe dele, devo isso ao aprendizado, à mudança na minha forma de ver e sentir os objetos, os espaços e o tempo. Precisei conhecer muitos Museus do meu país para descobrir uma jóia que estava muito próxima de mim e da qual não havia notado o brilho... me refiro ao MIC - Museu das Igrejas do Carmo de Mogi das Cruzes, cujo conjunto arquitetônico, seu interior somado ao acervo documental e de arte sacra me fizeram por algum tempo sonhar ... me fizeram pensar numa Ação Educativa que envolvesse os alunos e professores da região de maneira a conhecer um pouco mais da história local, a tal micro história que citei antes, para depois poder apreciar todo o resto. Aqui na Europa tive oportunidade de conhecer "museus a céu aberto" cidades patrimônios da humanidade: Cáceres, Burgos, Mérida, Córdoba, Évora com seus monumentos, igrejas, museus... mas nada apagou a doce lembrança que tenho do MIC, menina dos olhos do Frei Tinus van Balen e do jovem Juan Carvalho, espero voltar à minha cidade e contribuir com iniciativas realmente eficazes para parceria do museu com o entorno e a escola, inclusive isso foi meu objeto de estudo durante a gradução e tema em uma mesa que participei no XXIV Simpósio Nacional de História de ocorrido na UNISINOS em S.Leopoldo/RS em 2007.

Aqui conheci o monumental Museo Guggenheim, com sua arquitetura moderna e um pouco assustadora, ademais de caríssimo e... confesso preferir o Museo de Bellas Artes de Bilbao, um espaço mais aconchegante, onde se pode estar por horas, fechar os olhos e imaginar estar visitando espaços de São Paulo como MASP, Pinacoteca do Estado... a arquitetura, o cheiro, a luz me faz viajar de volta a terra da garoa mesmo estando em solo basco. Estive também no Museo de la Paz de Guernica, onde a triste memória da guerra é mantida e superada pela alegria da reconstrução da cidade, em um exemplo de força e luta constante pela paz.

Para aqueles que gostam ou não de museus, para aqueles que colecionam ou já colecionaram algo, para aqueles que acham isso uma total perda de tempo e para aqueles que nunca entraram em um museu por qualquer motivo que seja, eu gostaria de deixar uma mensagem:


"Os objetos têm história, deixe que eles lhes conte".


Texto do trabalho apresentado no XXIV SNH 2007

Ensino de história, patrimônio e memória: Parcerias possíveis.

http://snh2007.anpuh.org/resources/content/anais/Margarete%20da%20Costa%20Cardoso.pdf

** Todas as fotos que ilustram este texto pertecem ao meu arquivo pessoal.





quinta-feira, 14 de maio de 2009

Protesto!

Fotografía extraída de Noborder Network, em sua galería de Flickr. Licença Creative Commons.
Galeria completa:
http://www.flickr.com/photos/noborder/page2/

“(…) Si la luna suave se desliza por cualquier cornisa sin permiso alguno.
Porque el mojado precisa comprobar con visas que no es de neptuno(...)
(...) Si la visa universal se extiende el día en que nacemos y caduca en la muerte.
Porque te persiguen mojado, si el cónsul de los cielos ya te dio permiso.”

(Trecho da música “Mojado” de Ricardo Arjano)


Verdadeiro e cruel o fato. Linda e sensível a música. Chorei ao ver o que me enviou o amigo Ricardo. Sou chorona sim, isso me toca profudamente. Quem vê as fotos que divulgamos em sites, blogs, flicker's etc, não imagina os sacrifícios que fazemos para realizar um sonho. Assim como escolhemos as fotos que vamos mostrar, na vida, também fazemos escolhas. Escolhas essas, que nem sempre são as melhores. O chamado 1º Mundo, os países da Europa abrem as portas para o dinheiro, não para os sonhos. Você pode até estar mal intencionado, mas se tem dinheiro… tudo é relevado, todavia se você tiver lindos sonhos e não tiver metal, esqueça! As portas se fecham! Muitos são os que perseguem os sonhos até as últimas consequências, como os mexicanos que pagam os chamados "coyotes" e muitas vezes nunca chegam ao destino, enganados por seus iguais (hermanos mexicanos), cubanos que fazem loucuras para deixar a ilha em busca de outra vida e são tragados pelo mar. Aqui, são os africanos que chegam em massa na Ilhas Canárias/Espanha e Lampedusa/Itália. O que lhes espera? A prisão e a deportação. Em outros tempos eram aproveitados em postos de trabalho que ninguém queria e por vezes explorados, aliás, explorador é o adjetivo mais adequado ao Homem. Atualmente, os governos têm fechado o cerco, medidas protecionistas provocadas pela crise estimulam o preconceito, a xenofobia, a hostilidade. Que mundo é esse? Não é o mundo que eu sonhei para mim, nem para minha família, nem para os meus amigos e nem para os quais eu nem conheço, não é o mundo do qual falei aos meus alunos e, eu me pergunto: Sempre que há uma grande guerra, uma guerra mundial... enquanto os grandes e desenvolvidos se metem a matar, morrer, vender armas e vender a própria alma... pra onde os demais correm? Para América! Os números da imigração mostram que a América, o Brasil (me refiro a ele por ser meu país de origem) receberam grande contigente de estrangeiros nos períodos entre-guerras, aqueles que deixaram tudo em seu país de origem em busca de uma vida melhor ou simplesmente para manter-se vivos. Eu sou paulista e vejo gente de todo lugar em S.Paulo, espanhóis, italianos, japoneses, alemães, etc... Alguém pediu visa para eles entrarem no país? Perguntaram o que eles traziam nas malas, além da tristeza de deixar sua terra, seus amigos e os sonhos que tinham?

Eu não vim fazer a Europa como os que foram há tempos atrás fazer a América... eu vim para conhecer, para ver o que esses meus olhos só conheciam dos livros, do cinema e dos relatos de amigos, vim para sentir os sabores do azeite, do vinho, do jamón, do pão, da pasta, sentir os cheiros, ouvir a música, ver a arte e voltar para casa, para os meus. Eu sei de onde vim e sei também onde quero estar. É duro como na canção “Mojado” de Ricardo Arjona, ter que apresentar um Visa para provar que não se é de Netuno. O Homem vai à Lua, explora Marte e o seus iguais não podem conhecer as belezas desse aqui que é o nosso planeta… grande, belo e nosso, ao menos em teoria seria de todos, não fosse as fronteiras. As físicas com persistência e um pouco de sorte podemos ultrapassar, mas… as mentais, essas custam a ser vencidas, por vezes, muitos nadam, nadam e morrem na praia (literalmente).

Resolvi vir para cá num momento difícil, crise mundial, pandemia de gripe, endurecimento dos Estados, falta de cooperação entre governos. Estou farta de abrir os jornais e ler sobre as medidas adotadas por governos ultra-conservadores, que ressucitando o fascismo, alimentando o pré-conceito, acreditam que um mundo melhor não será um mundo Multi-Étnico. Se for assim… se a máxima “cada macado no seu galho” valer de algo… que não queiram a banana brasileira, o cacau, as frutas tropicais, as ervas da Amazônia, as praias ensolaradas, a água de côco, a hospitalidade do povo, a cana-de-açúcar, porque não são merecedores. Querem os mercados, mas não as pessoas, querem o metal e isso basta! Já tiveram o ouro, a madeira, o marfim, o diamante, etc, mas, não desejam o Homem da América Latina, da África, do Leste Europeu ou do Oriente Médio. Confesso que sofro com isso, me sinto inconformada e só posso manifestar-me em forma de PROTESTO, um protesto pacífico… um grito preso na garganta e uma lágrima contida ao ouvir “Mojados”.

Meu grito, minhas lágrimas e meus sonhos, ninguém poderá tirar de mim, são meus! Ninguém me representa, senão eu mesma! Quem me pariu foi minha mãe, não um Estado… minha Pátria sou eu, meu territorio é meu corpo e vou onde os meus pés me levem e minha mente vá. Sou dona do meu tempo! Assim nasci e assim hei de morrer!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

"Ao menos, os porcos não se transformam em Homens quando bebem"

Foto tirada em Salamanca, 2008

Apocalíptico! Não! Não se trata do filme de Mel Gibson, tão pouco é um comentário sobre o último livro bíblico, Apocalipse. Trata-se de como a mídia mundial têm noticiado a questão sanitária e, que tem preocupado países de todos os continentes nos últimos dias.

Claro que com a saúde não se brinca, mas... daí gerar pânico, xenofobia, protecionismo e insegurança é mais que sensacionalismo, eu diria ser irresponsabilidade, tanto dos meios de comunicação, dos orgãos sanitários (locais e mundiais) quanto e sobretudo dos governos que têm usado o assunto para tomar medidas pra lá de protecionistas em plena crise financeira global.

Tecnicamente não posso discorrer sobre o assunto, pois as questões de saúde e doenças infecto-contagiosas não fazem parte do meu métier, para isso indico o esclarecedor e bem humorado artigo do Dr. Alessandro Loiola*/Especial para BR Press, entre muitos outros existentes na rede.
http://br.noticias.yahoo.com/s/04052009/48/saude-gripe-porco.html. Todavia gostaria de fazer um breve comentário sobre o reflexo disso tudo por aqui.

Como sabem na Espanha há grande produção de suínos, haja vista o consumo do delicioso jamón ibérico e serrano, entre outros, tradição gastronômica por aqui, mais que isso, questão cultural... os espanhóis crescem comendo bocadillos, bocatas, pintxos e outros pratos mais sofisticados à base de carne suína, desde a mais tenra idade, me refiro a infância, à mais sábia idade, a melhor idade (nomenclatura que tenho ouvido por aí), sentados nas plazas mayores de suas cidades ou nos vários bares e restaurantes espalhados por toda a Espanha, desfrutam de um prazer tipicamente espanhol e eu que no Brasil não comia bisteca de porco, somente a pururuca que o Sr. Mamede (meu pai) faz, cheguei aqui e me entreguei aos prazeres da mesa... inclusive em um churrasco que fizemos aqui em casa, comi, inicialmente sem saber, costelas de porco assadas e me deliciei. O chorizo e outros embutidos à base de carne de porco também não podem faltar na mesa do espanhol. Ora, num país em que suíno acabou no cinema, quem não viu Javier Barden com aquele jamón nas mãos, no filme de Bigas Luna Jamón, Jamón (1992) e... não teve vontade de prová-lo? Me refiro ao jamón (risos).

Bem, humor à parte o que quero dizer é que ao abrir os jornais, ligar a TV me deparo com as mesmas notícias que meus amigos no Brasil e no mundo têm presenciado... gripe suína, porcina, nova gripe, gripe A... pessoas sendo isoladas em hotéis, casas, mexicanos sendo repatriados, porcos sendo queimados em países como Egito e agora o veto à importação... Rússia proibindo a entrada do gado suíno espanhol e gado bovino americano, a China proibindo vôos com origem ou destino ao México... se a moda pega, além da pandemia divulgada pelos meios, logo teremos um aumento voraz da xenofobia, uma crise financeira agravada por medidas protecionistas nada boa para o momento que atravessamos.

Voltando ao artigo "Gripe do porco: o fim?" dei boas risadas... precisamos de mais textos assim, que desmistificam tabus e esclarecem de maneira bem humorada o que a mídia em geral adora explorar de maneira extremada e por vezes equivocada até encher a paciência do cidadão .

O suíno transmite o vírus da gripe e o Homem o vírus da ignorância, uma verdadeira cegueira (até me lembrou a obra do Saramago, levada ao cinema pelo Fernando Meirelles, que trata justo de uma pandemia de cegueira branca)... as pessoas não vêm as coisas com clareza, assustados com o destino do mundo, com previsões apocalípticas feitas por sensacionalistas esquecem da razão e sobretudo de viver.

Ah! Os porcos, queimados pela inquisição moderna... imagine a Espanha sem seu rebanho de Patas Negras, sem jamón... Sabem o que me consola de verdade?

É... saber a diferença entre o Homem e os porcos, isto é: "que os porcos não se transformam em Homens quando bebem".

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