quarta-feira, 8 de abril de 2009

Visita à Burgos, entre o sagrado e o mundano.

Burgos vista desde o mirante do Castelo (foto by Meg Mamede)

Desde que aqui cheguei, queria conhecer Burgos. Lugar por onde passei nas vezes que fui que à Córdoba. A bela paisagem da região coberta pela neve (vista desde a janela do trem) ficou na minha memória e há algum tempo vendo o filme Juana, la loca de Vicente Aranda / 2001, pensei: "não posso ir embora sem antes ver um pouco da província de Burgos”. O municipio de Burgos capital da província que leva o mesmo nome, faz parte da comunidade autônoma de Castela e Leão. Fundada como fortaleza em 884, foi elevada à categoria de sede episcopal em 1029. Durante os séculos XV e XVI constituiu um lugar de importantes feiras. Infelizmente, nem tudo na história é alegria, a cidade também foi sede do governo de Franco durante a Guerra civil espanhola (1936-1939) e, encontramos algunas construções dedicadas a esse período. Burgos é uma cidade rica em arte gótica, destacando-se as igrejas de Santa Gadea do século XII, a de Santo Estêvão do XIII e S.Gil do XIII-XIV, o Hospital del Rey, o Solar del Cid, os conventos das Carmelitas e Agostinhas, e, sobretudo, a Catedral, cuja construção iniciada por Fernando III, inspirou-se no modelo francês de Reims e é considerada a Jóia Gótica Européia e, a única na Espanha declarada Patrimônio da Humanidade independente do título concedido à cidade.

No trajeto até Burgos encontramos muitas construções medievais e uma natureza belissíma. Durante a noite, na cidade, nada como tapear provando as comidinhas e petiscos oferecidos pelos muitos bares espalhados pelo centro antigo dessa cidade monumental. Burgos, lugar lembrado na gesta castelhana, passagem de peregrinos a caminho de Santiago de Compostela e patrimônio histórico e cultural da humanidade, como muitas outras cidades e destinos visitados, andar por suas ruas antigas, conhecer seus monumentos e tradições é como falar com Homens de outros tempos.

Burgos está a apenas 113 km de Orduña, na realidade saimos para Miranda de Ebro, para levar a Furgoneta Hotel 6 estrelas (história que contarei logo mais) para passar na vistoria do seguro obrigatório e aproveitamos para ir à Burgos, num desses passeios relâmpago de fim de semana. Durante o trajeto paramos em alguns lugares cuja paisagem resultou em lindas fotos, tais como: o Rio Ebro, Fontecha com as Torres de Condestable e do Conde de Orgáz (ainda em Álava), o desfiladeiro de Pancorbo e suas casas antigas. As paisagem primaveril ao longo da estrada e as cerejeiras em flor coloriram nosso passeio. Ademais de tudo isso, a curta estada em Burgos foi divertidíssima, entre copas y tapas, arte e fé, natureza e arquitetura, passamos muito bem.

Começamos a noite com a cerveja sevilhana Cruz Campos, depois passamos para o vinho de La Rioja e para terminar Cubas Libres com rum dominicano (terra do simpático Francis que conhecemos no bar Los Herreros). Fomos de bar em bar e nos divertimos muito provando um pouco da gastronomia local, além disso bailamos muito no Bar Negra Candela, inclusive salsa e merengue (Joseba é um grande dançarino de rítimos latinos). Chegamos em nosso hotel bastante tarde, na madrugada do sábado, mas como estávamos muito bem localizados (nossa furgoneta estava estacionada em uma das ruas do centro histórico próxima a Calle de Lain Calvo) dormimos ali mesmo, em um colchão na parte traseira do veículo. Eu que nunca tinha dormido nem em um trailler, me diverti muito com a novidade e me senti mais aventureira do que de costume. Às 8h das manhã do sábado já estávamos acordados e saímos para tomar nosso café e explorar a pé a cidade. Depois de alguns minutos andando pelo centro, encontramos finalmente uma cafeteria aberta, perto da Catedral o Restaurante e Café Bonfim, caríssimo (dois sucos de laranja, dois cafés com leite e dois croissants nos custaram 11 euros, o equivalente a 30 reais) lugar de passo de estrangeiros e peregrinos, bem cuidado, mas o custo beneficio não vale a pena, de qualquer maneira nosso hotel furgoneta não servia café (rs) e estávamos ávidos por sentir o gostinho de um, ainda mais depois da bebedeira da noite anterior.

Depois do café seguimos para Catedral, monumento da arte gótica, iniciada em 1221, cujo aspecto atual se deve a 300 anos de construção, remodelações e anexos. Apesar do estilo gótico predominar, encontramos altares, escadas e outros detalles em estilo barroco e renascentista. Um lugar de arte e fé, parada obrigatório para viajantes.

Seguindo pelas ruas da cidade, descobrimos novos ângulos e aproveitamos também para echar una siesta perto do Castelo de Burgos, onde do mirante fizemos belas fotos da cidade e descansamos o esqueleto cansado de tanto dançar e andar. Logo, descemos e fomos surpreendidos pelo encontro de Irmandades (Confradías) locais, que por tradição se apresentam nas ruas da cidade durante a Semana Santa. Em seguida caminhamos pelo Paseo de Espolón, onde pudemos observar o Arco de Santa Maria, construção de século XVI em homenagem a Carlos V, assim como plátanos (árvore típica de algunas regiões da Espanha) que rodeiam o largo calçadão. À essa altura, o cansaço já tomava conta de nós, eu já não tinha vontade de fotografar mais nada, rs, quando isso ocorre é hora de voltar para casa, antes ainda paramos frente à Casa Del Cordón, exemplar do gótico (civil) tardio que testemunhou importantes momentos da história espanhola, tais como: a morte de Felipe El hermoso (esposo e grande amor de Juana la Loca) e um dos encontros dos reis católicos Fernando y Isabel com Cristovão Colombo.

Entre o sagrado e o mundano, Burgos foi uma grata surpresa. Agora, programamos a próxima aventura, um roteiro por La Rioja em Enobus, para conhecer las bodegas mais importantes da região e como não poderia deixar de ser, degustar vinhos e provar a gastronomia local, afinal de contas “nem só de trabalho vive o Homem”.

Para saber mais sobre Burgos:

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Los Abrazos Rotos - Pedro Almodóvar.


"Según Almodóvar, por debajo de las historias de amor cruzadas que conforman la narración subyace 'mi historia de amor al cine. La película es, sobre todo, mi declaración de amor al cine'".

Desde muito criança o cinema me fascinou. Me lembro das tardes e noites que passava no sofá ao lado do meu pai vendo os filmes da sessão Bang Bang à Italiana e muitos outros gêneros. Entre os muitos filmes que vi, um que me marcou bastante foi Os Girassóis da Rússia de Vittorio de Sica /1970 (uma história de amor durante a II Guerra Mundial e campos de girassóis belíssimos) eu devia ter uns 12 ou 13 anos e nunca me esqueci daqueles girassóis ao vento e do olhar perdido de Giovanna (Sophia Loren) ao encontrar seu Antonio (Marcello Mastroianni) sem memória e com outra mulher.

Minha estréia no cinema frente àquela tela mágica, que me transportava e me transporta para espaços e tempos inimagináveis não poderia ter sido mais emocionante... em uma tarde de domingo fui ao antigo Cine Avenida, de minha cidade, para assistir a Contatos Imediatos do Terceiro Grau de Steven Spilberg /1977, sai do cinema olhando para os lados tamanho impacto que o filme me causou, ia completar 10 anos em 1978 quando o filme estreiou no Brasil e, toda aquela produção e ficcão científica, somada a fotografia e à trilha sonora impressionou-me, sobremaneira. Depois disso, os domingos eram os dias mais esperados, saímos em bando (eu, minhas amigas e nossos respectivos irmãos) íamos ao cinema para deleitar-nos com a Sétima Arte e comer pipocas, depois pastéis e sucos, afinal, éramos crianças!

Eu e me meus irmãos víamos quase todos os filmes que passavam na TV e, quando podíamos íamos às estréias de cinema. Quando surgiram os aparelhos de vídeo (VHS), tecnologia que ainda não tínhamos em casa, íamos a casa de uma amiga para as sessões de cinema e nos divertíamos muito.

Me lembro com nostalgia, que em uma tarde estávamos eu e meus irmãos vendo na Sessão da Tarde o filme A Fantástica fábrica de chocolate, de Mel Stuart / 1970, hora em que como de costume, esperávamos o lanche da tarde preparado por minha mãe: Toddy com leite quente e pão torrado com manteiga, mas... naquela tarde tivemos uma supresa extra, sentados no sofá sob o vitrô da sala, vimos uma chuva de chocolates cair pelo vidro em nossos colos. Ah! As mães sempre conhecem as vontades dos filhos, assim que... com tanto chocolate na tv era natural que estívessemos ávidos por provar um, dois ou mais...rs, fizemos a festa e foi uma tarde inesquecível.

Eu amo o cinema, ele me ensinou muito, me fez e me faz, rir, chorar, me emociona, me provoca, me ensina, me transporta. Tenho uma amiga que costumava dizer que eu conhecia tudo de cinema, fazia piada dizendo que eu sabia inclusive o nome de algum figurante que passasse quase despercebido numa cena...rs. Mais tarde meus irmãos reclamavam de ver filmes comigo, porque sem tê-los visto eu antecipava o que ia passar, pura provocação, me divertia com isso.

Dos diretores todos, os italianos têm meu carinho especial. Nomes como Pier Paul Pazolini, Vittorio de Sica, Ettore Scola, Roberto Fellini, Bernardo Bertolucci, Luchino Visconti, estiveram presentes na minha infância e adolescência, me sinto um pouco como Toto, personagem de Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore / 1989, o cinema teve e tem um peso imenso na construção do meu imaginário e saber.

Mais tarde, comecei a explorar outras possibilidades do cinema europeu e asiático, foi quando conheci o cinema espanhol, através do trabalho de diretores como Luis Buñuel (naturalizado mexicano), Vicente Aranda, Bigas Luna, Carlos Saura, Fernando Trueba, David Trueba, Alejandro Amenábar (nascido no Chile, radicado na Espanha) e Pedro Almodóvar, diretores mais conhecidos pelo público brasileiro, sobretudo Almodóvar que já há alguns anos tem estado em cartaz nos cinemas brasileiros, filmes como: Mulheres à beira de um ataque de nervos /1988, Ata-me /1990, De salto alto /1991, Kika /1993, A Flor do meu segredo /1995, Carne Trêmula /1997, Tudo sobre minha mãe /1999, Fale com ela /2002, Má educação /2004, Volver/ 2006, são exibidos inclusive pelos canais de televisão.

No início, a estética de Almodóvar me incomodava, não sei dizer o que, mas... algo me inquietava. Às vezes via seu trabalho psicodélico de mais, carregado de uma sexualidade que eu não compreendia ou exageradamente melodramático, depois de algumas películas passei a apreciá-lo e ver seu trabalho com outros olhos (diria que alcancei a fruição). Hoje me deleito com seu cinema... histórias como as de Tudo sobre minha mãe, Má Educação, Fale com ela, Volver e sua última película, ainda não lançada no Brasil Los abrazos rotos... têm os elementos anteriores que mencionei somados a humanidades, coisas prosaícas e conflitos que nos levam à reflexão com muito humor e sensibilidade. Um cinema passional, tragicômico, carregado de hispanidades e sublimemente subversivo.

E... por que tive regastar parte da minha história com o cinema para falar de Pedro Almodóvar?

Porque ao assistir ao filme Los abrazos rotos, me deparei com o cinema dentro do cinema, a metalinguagem ou o metacinema. A história de amor entre Mateo (Lluís Homar) um diretor de cinema e Lena (Penélope Cruz) aspirante a atriz, interrompida pela tragédia bem representada nas fotos rasgadas, onde os abraços foram interrompidos pelo destino... diferentemente do casal da cena de Romance em Itália (original: Viaggio in Italia de Roberto Rossellini /1953) o filme dentro do filme (onde o casal Joyce, George Sanders e Ingrid Bergman, em crise no casamento, vêm em sua visita à Pompéia os corpos dos amantes que morreram abraçados, unidos pela lava do vulcão e se emocionam) que emociona a Mateo, sobretudo por sua Lena que se foi sem seu abraço. O filme de Almodóvar, trata exatamente desses abraços, das relações, da traição e do amor. Almodóvar faz sua homenagem ao cinema, através de trechos e citações dos filmes que fazem parte do seu arcabouço e que muito contribuiram para sua carreira como cineasta.

Ao lançar o filme Los abrazos rotos aqui na Espanha, o diretor disse tratar-se de uma "declaração de amor ao cinema".

Eu recomendo!

Los abrazos rotos de Pedro Almodóvar, Espanha / 2009 (com Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo e grande elenco). Previsto para estreiar em novembro/09 no Brasil.
site: http://www.losabrazosrotos.com/

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