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Com que roupa eu vou? – Carnaval no País Basco.

Não! Não se trata de dúvida de que roupa colocar para sair para balada, casamento ou coisa do tipo. Trata-se de um disfarce de Carnaval, uma fantasia. Que eu me lembre, usei uma fantasia de Carnaval uma única vez. Eu tinha uns 16 ou 17 anos, o flyer dizia entrada franca para quem vier vestida de havaina. Eu... não tinha roupa de havaina, mas uma amiga tinha uma roupa de baiana, rs, isso mesmo, uma roupa vermelha de bolinhas brancas, cheia de babados, no melhor estilo Carmen Miranda, não tive dúvidas, vesti a tal fantasia, coloquei uns colares de flores coloridas, me enchi de coragem e fui para o salão. Chegando lá o porteiro: Hei! Garota, essa roupa não é de havaina?! Eu respondi com uma pergunta. – Como não???? (indignada) Não vê que se trata de uma havaina estilizada no melhor estilo tropical? Taí, ainda não entendia o conceito “baianidade”[1] mas, a criatividade e jogo de cintura já estavam presentes. A verdade é que o episódio rendeu boas gargalhadas e foi uma das poucas vezes em que pulei carnaval junto à minha turma de amigos.

Sábado de Carnaval - Praça maior de Orduña.

Confesso que não sou muito de Carnaval, inclusive já disse isso em outro post, creio que os excessos, muita gente na rua, muito barulho, muita bebedeira, muito calor, muito tudo me incomodam e acabo perdendo a chance de apreciar o “maior espetáculo da terra” isso é o que as manchetes de jornais aqui noticiam e, só agora pude entender o porque do nosso Carnaval fascinar tanto aos estrangeiros. Animação, somada a boa música, sol, calor, muita cerveja, vibração contagiante e pouca roupa, combinação perfeita para atrair tanta gente. Isso não é uma crítica anti-carnaval, ao contrário, trata-se de um elogio e explico porque: por aqui o Carnaval de igual só tem a bebedeira e as pessoas na rua, a animação é diferente, além do frio, a música e o gingado nada têm a ver com a nossa festa. Tanto é assim que para não morrer de frio e sair um pouco na rua - aqui o Carnaval acontece nas ruas e nos bares, no melhor estilo Salvador, Olinda, São Luis do Paraitinga, guardadas as devidas proporções - eu tive dúvidas entre sair fantasiada de Índia Apache ou Esquimó, porque de Ceci ou Moema, morreria de frio. Escolhi sair de Esquimó e ao som de “Maite zaitut, maite- maite zaitut; pila, pila, pila patata tortilla! Maite zaitut. Maite-maite zaitut, ilargiraino eta buelta maite zaitut”[2] dancei na Plaza Mayor de Orduña, juntamente com piratas, bruxas, toureiros, dançarinas de flamenco, hipppies, ciganas, super-heróis, odaliscas, sultões, mosqueteiros e toda a sorte de animais, aliás uma boa fantasia aqui, seria aqueles bichos de pelúcia Parmalat, espanta o frio e ninguém te reconhece. Havia disfarces muito criativos, feitos de jornal, de material reciclado, de objetos de cozinha, etc. Nerea saiu de Cleópatra, Ainhoa de Cigana e Joseba de Presidiário. Depois, Joseba e eu seguimos para Bilbao, onde a festa não foi diferente.

Parei para pensar e, numa rápida viagem às origens, cheguei a conclusão que quando voltar ao Brasil, tenho que passar um Carnaval em Olinda ou Salvador para ver de perto essa festa, logo outro São Paulo, vendo o desfile das escolas de Samba do Grupo Especial, principalmente para ver o colorido da festa e ouvir o som da bateria. Deve ser, emocionante, eu diria de arrepiar... a platéia em uníssono, cantando o samba enredo das escolas enquanto um mar de alegorias baila ao compasso da bateria, num espetáculo de harmonia e beleza. Coisa que aqui, verdade seja dita, não há. Talvez o mais próximo do nosso Carnaval seja o de Las Palmas de Gran Canaria, todavia tenho que reconhecer que o espetáculo do Carnaval (moderno) é brasileiro, assim como a Tourada é espanhola, o Ritual do Chá é japonês, o Tango é argentino, a Festa dos Mortos é mexicana, os Orixás são africanos, cada macaco no seu galho e, de certa maneira todos representados na nossa festa maior, afinal de contas o Brasil é isso, um pouco de tudo num grande caldeirão cultural, miscigenado e efervescente que atravessa oceanos, desce serras, canta e encanta por onde quer que passe. Impossível é, não mover os pezinhos ou mexer as cadeiras ao ouvir:

“A minha alegria atravessou o mar E ancorou na passarela Fez um desembarque fascinante No maior show da terra Será que eu serei o dono dessa festa Um rei No meio de uma gente tão modesta Eu vim descendo a serra Cheio de euforia para desfilar O mundo inteiro espera Hoje é dia do riso chorar Levei o meu samba pra mãe de santo rezar Contra o mal olhado eu carrego meu patuá Eu levei ! Acredito Acredito ser o mais valente nessa luta do rochedo com o mar E como ar! É hoje o dia da alegria E a tristeza, nem pode pensar em chegar Diga espelho meu! Diga espelho meu Se há na avenida alguém mais feliz que eu!”
(É hoje – Caetano Veloso)

[1] Expressão freqüentemente usada para definir características do “modus viven dos baianos, mais especificamente, dos que nascem em Salvador e no Recôncavo Bahia. Inserido no contexto da construção de tradições (HOBSBAWN e RANG 1984) e de discursos identitários, como forma de produzir coesão e consenso social conceito de baianidade representa uma imagem da Bahia, dos baianos e especificidades, adequando a busca da modernização capitalista, que, neste verbete, refere à industrialização ocorrida a partir da segunda metade do século XX. (...)
Extraído de: http://www.cult.ufba.br/maisdefinicoes/BAIANIDADE.pdf

[2] “Maite Zaitut” Canção basca composta por Xabier Zabala e que fez sucesso na voz de Pirritx eta Porrotx.

Comentários

  1. Tudo que é excesso é feio. Carnaval é o escesso da alegria, mas é tão bonito. É essa incongruência que faz o Carnaval ser o que é, o feio e o bonito e muita cerveja!

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