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O que move também imobiliza.

Todos os dias quando vejo a TV, leio o jornal ou alguma revista, observo os comentários e artigos sobre a atual crise econômica que o mundo atravessa, a Espanha encontra-se bastante afetada e imagino que no Brasil a situação não deva ser diferente. Aqui desde que se iniciou essa crise cerca de 1 milhão de pessoas perderam seus postos de trabalho e outras tantas estão em vias de perdê-los. Entre as muitas empresas encontram-se as montadoras, segmento importante para o PIB nacional.

E, falando em montadoras, há alguns anos li o artigo "Sinal verde para o caos da crise: Ascensão e limites do capitalismo automobilístico" de Robert Kurz(1) e alguns pontos abordados pelo autor me fizeram refletir, é interessante ver como Kurz tece comparação entre o automóvel e o homem autômato, como ele nos apresenta as relações de poder presentes o tempo todo e ao longo da história à partir do advento do automóvel, objeto criado pelo homem para otimização do tempo e que se transformaria no carrasco. A criatura que devora o criador. Ao mesmo tempo em que o artigo esclarece, amedronta, haja vista, o preço alto que pagamos pelo desenvolvimento tecnológico.

Em certo momento do texto o autor nos compara a macacos amestrados “o ser, enquanto ganhador de dinheiro, faz de si seu próprio macaco”, remeto-me a obra ontológica de Stanley Kubrick: 2001-Uma Odisséia no Espaço.(*)
Feitas algumas ressalvas, podemos entender o que muda para o homem, neste caso para o ancestral do homem. A descoberta da ferramenta – o osso utilizado como utensílio e como arma – a possibilidade de desenvolvimento, as relações de trabalho, poder e estranhamento decorrentes da descoberta. Assim como o osso para o macaco, o automóvel surge para o homem como algo sedutor, deslumbrante, quase mágico, representando na modernidade o trabalho, comida, casa, lazer e por fim o caos e a crise sugerida por Kurz.

Para Marx, o trabalho é indispensável ao homem. Seria o trabalho indispensável à existência ou é uma invenção da modernidade? Difícil resposta essa. O tempo do homem moderno é outro, muito diferente do tempo do macaco, do homem do campo, do homem do feudo, do homem anterior ao capitalismo. Costumamos ouvir expressões como: “matar o tempo”, “tempo é dinheiro” ou ainda "não tenho tempo", "meu dia deveria ter 30 horas". E nós o que somos? Escravos do relógio, do dinheiro, da esteira de Ford e agora do automóvel. O homem não morre se não trabalhar, mas morre se não comer. A fome mata, a doença mata, a miséria mata, a guerra mata, o trabalho também mata – quantos foram os que perderam suas vidas em fábricas desde o inicio da industrialização ou em acidentes de trânsito – como mencionado no artigo de Kurz. Quantos perdem suas vidas em guerras falaciosas movidas pelo interesse no “ouro negro” que move o capital, move o poder. Ah! E... antes que eu esqueça, move os automóveis. (*)

Antes dos carros, a ferrovia. Os trens eram o progresso, forneciam ao homem a possibilidade de expansão, escôo de produção e para os mais abastados representava lazer. Mas essa tecnologia trazia consigo elementos limitadores, tratava-se de um bem da coletividade em um mundo moderno regido pelo individualismo, a limitação de destinos e a impossibilidade de horários. Torna-se-ia necessária a descoberta de algo que funcionasse de forma autônoma e atendesse a demanda ávida por consumo. Criava-se o cenário perfeito para as idéias e práticas de homens como Taylor, Ford, alemães, japoneses e tantos quantos viram o automóvel como algo além do fetichismo masculino, aqueles que viram nesse monte de lata, engrenagens e motor à combustão, o meio perfeito de mover o mercado e, porque não dizer mover o mundo. Mesmo havendo homens preocupados em alertar sobre os pontos negativos da tecnologia, tais como: Seume, Thoreau, etc, a corrida continuou. (*)

A produção em série partindo do automóvel para os bens de consumo de menor porte já tinha um destino, produtos impostos à massa de forma irrecusável – lembremos do poder sedutor da propaganda, (*)
somado a redução de preços alcançada através de uma produção massiva, o pseudo-poder aquisitivo da classe operária, da facilitação na hora da compra com o surgimento das compras a prazo – tornando o trabalhador assalariado e seriado em consumidor em potencial. Produtos que hoje em dia se tornaram descartáveis e por vezes supérfluos.

O homem moderno, tornar-se-ia tão seriado quanto os produtos produzidos por ele. Kurz nos alerta quanto a isso quando fala da preocupação para com o lazer bradado por algumas empresas em décadas atrás, o equivalente ao que hoje ouvimos como “preocupação das empresas com a qualidade de vida de seus funcionários”. Na realidade o ciclo vicioso é o mesmo de antes, o sujeito produz, compra, usa, desce a Serra para ir à praia – quando tem sorte de não pegar quilômetros de congestionamento, momento esse em que entram em cena outros produtos, os que o ajudam na espera como: celular, mp3, palmtop, laptop, ipod para os mais hig tech - e para os mais ricos, bem... esses vão de avião e não têm problemas com congestionamento, os problemas são outros.

Hoje como bem lembra o autor, estamos mais imóveis do que em movimento. O que sugere os radicais da palavra automóvel por si próprio e móvel está longe da realidade, basta sair de carro no horário de rush em qualquer grande cidade. Independentes? Não. Individualistas. Trocamos o ser coletivo pelo ter individual, ferimos a natureza alterando-lhe a paisagem, matamos mais em guerras por petróleo e morremos mais nas autobans. Perdemos os postos de trabalho – necessários no mundo capitalista – para a robótica inclusive. Mas... alguém já viu um robô comprando um carro e indo à praia? Com produção em larga escala produzida de maneira robotizada, um mercado inchado pela oferta e uma procura escassa - considerando o grande número de automóveis existentes no mundo todo - basta ver as estatísticas e as projeções. O que faremos com essa produção? O que faremos com a camada de ozônio quando um dos principais paises responsável por esse problema, recusa-se em assinar tratados que demandam a redução de poluentes e gases tóxicos? O que faremos com o estranhamento que rege as relações humanas? E... as tais guerras falaciosas?

Tudo isso nos leva ao ponto de partida. Esse homem de tão desenvolvido e técnico, esquece das suas outras necessidades e segue no caminho inverso rumo ao primitivismo do macaco. É assustador imaginar o quão nos tornamos escravos do trabalho e dos valores impostos pela sociedade de consumo, pelos grandes impérios econômicos detentores da informação e do poder. Talvez necessitemos imobilizar-nos para depois mobilizarmos em outro sentindo.

Parafraseando Marx "Humanos do mundo, movei-vos!"

1 Tradução de Heinz Dieter Heidemann, em colaboração com Tatiana Schor. Difundido originalmente pelos cadernos do Laboratório de Geografia Urbana do Departamento de Geografia da FFLCH da Universidade de São Paulo, ano 1, n. 1, Abril de 1996.

(*) Cena do filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço (2001, A Space 0dissey /Ficção Científica / Origem/Ano: UK-EUA/1968) direção: Stanley Kubrick.
(*) Propaganda alemã do fusca - Imagem extraída do site: www.manalais.com.br/blog/propaganda/velhos-tempos/
(*) Cena do filme Tempos Modernos (Modern Times - The Masses / Comédia / Origem/Ano: EUA/1936) direção: Charles Chaplin.
(*) Propaganda de eletroeletrônicos - Imagem extraída do site: http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/1980410:BlogPost:22265

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