sábado, 31 de janeiro de 2009

Câmbios climáticos. A Mãe Natureza reclama!

Lembro-me que pelos idos dos anos 80 ouvi pela primeira vez a expressão efeito estufa (1). Não entendia muito bem do que se tratava, todavia tinha a noção de que algo estava mudando no planeta. Da infância ainda me lembro que as estações do ano eram bem marcadas... da geada que cobria a horta do meu pai no inverno e, deixava uma fina camada de gelo na qual gostávamos de pisar para ouvir o estalito e do sítio da minha avó muito florido na primavera. Lembro-me também da primeira enchente que peguei e que atingiu nossa casa, depois as muitas outras terríveis que castigaram Mogi das Cruzes e por fim, Sampa diversas vezes alagada (as cheias da Várzea do Carmo são nostálgicas se comparadas ao drama dos dias atuais nas marginais e outros pontos da cidade) depois de um dia de verão abafado e asfixiante.

Em 2001 voltava de Minas Gerais (região de Barbacena), saindo na noite do domingo logo após o Reveillon, o ônibus passava pelo Sul de Minas e por algumas cidades do Rio até chegar a minha cidade em S.Paulo. A viagem já era custosa normalmente, quase 10 horas num ônibus convencional... e naquele dia a top, a viagem duraria quase 30 horas. Pegamos ou seria melhor dizer, nos pegou uma terrível enchente ao longo do caminho, cidades inteiras debaixo d'água, prefeitos decretando "estado de calamidade pública" e nós, parados em um congestionamento quilométrico... num determinado momento me pareceu cena de filme (de cinema catástrofe norte-americano) parados, sem comida e sem sinal nos poucos celulares que havia, resolvemos descer do ônibus e buscar um lugar para comprar água e algo para comer, aproveitando também para avisar do ocorrido à família e trabalho. Encontramos um lugar depois de caminhar alguns minutos na estrada, já não havia muito pra comprar, afinal a necessidade era a mesma para os vários viajantes parados naquela estrada. O mais engraçado (porque passado o momento conseguimos ver graça até na desgraça) é que o único telefone público que havia estava quebrado, se não fosse a boa vontade do dono do local em emprestar o telefone para chamadas à cobrar, não sei o que seria daquela multidão, a mesma que cronometrava o tempo que cada um demorava para fazer a chamada, ora aplaudia, ora vaiava o colega. Quando voltei ao ônibus, lembrei que tinha uma embalagem cheia de pães de queijo e bombons de noz, que a saudosa D. Lula (cozinheira de mão cheia) gentilmente fez e me deu quando deixei sua casa em Barroso. Então, distribui pelo ônibus para disfarçar a fome que já apertava. Por fim deu tudo certo e na madrugada da terça-feira cheguei a minha casa.

Dezembro de 2004, estava em Florianópolis, SC e dessa vez o que assutava era o vento. No sul já não é novidade os chamados Ciclones Tropicais ou Extra-Tropicais como o Catarina, contudo e tristemente em 2008 cidades sucumbiram as fortes chuvas que assolaram a região. Acompanhei pelos jornais, internet e informes de amigos a tristeza que tomou conta dos brasileiros. Mais uma vez a solidariedade brasileira se fez notar e foi notícia por aqui também.

Janeiro de 2006, estava viajando pelas Cidades Históricas de Minas Gerais, mais uma vez tivemos por companhia a chuva, prolongava-se por horas e horas. Estradas cheias de buracos, melhor dizendo, buracos cheios de estrada... mas a pior visão, não foi ver estradas esburacadas e sim, ver as crateras deixadas em parte do Mar de Morros - belíssima formação encontrada no estado de Minas Gerais - fruto da exploração desmedida de minérios por parte de grandes empresas nacionais e estrangeiras, não maiores que as feridas abertas na natureza.

Agosto de 2008. Como passei calor no sul da Espanha!!! Estive por Mérida, Cáceres, Sevilha e também em Évora, Portugal, só podia caminhar ao cair da noite... os quase 40 graus que fazia na cidade medieval de Cáceres era de tirar o ar, de desanimar qualquer pessoa. Não fosse as pequenas fontes de água encontradas, com as quais me molhava e tomava novo ânimo, o passeio seria inesquecível não pela beleza dos lugares e sim pela desidratação eminente. As cidades durante o dia eram uma calmaria, até porque todos estavam em suas casas ou no trabalho em ambientes climatizados, nas ruas só os desavisados turistas atreviam-se a "fritar-se" sob um sol escaldante.

Aqui no País Basco, a neve chegou mais cedo, tivemos as primeiras nevadas ainda em novembro de 2008, as temperaturas despencaram próximo ao Natal... mas o pior estava por vir, a chamada Ciclogenesis Explosiva ou Tormenta Perfecta, com ventos que iam dos 110 aos 193km/h passamos noites com medo, no nosso caso um dia sem energia elétrica (para alguns cerca de 4 dias) e no litoral ondas que variavam de 10 a 16m de altura. Depois que os ventos derrubaram árvores, telhados e levaram o que encontraram pelo caminho, veio a chuva de granizo e as inundações... mais uma vez acordamos sem energia elétrica, o primeiro piso da casa (o que seria um porão) amanheceu inundado... problema que resolvemos desobstruindo as saídas de esgoto da casa. Sem mais transtornos retomamos a rotina.

A vida fora do país da gente, nem sempre é um mar de rosas como muitos pensam, problemas há em todas as partes do mundo (assim como fábricas, carros e outros ítens poluentes) e não é privilégio de países em desenvolvimento, talvez a diferença seja como o governo de cada país lida com esses problemas, como estabelece políticas para o meio ambiente, planos de segurança e infra-estrutura à população. A única certeza é que a Mãe Natureza reclama com todo direito seus prejuízos e alguém tem que pagá-los.... em geral a população mais carente de recursos (Alguém tem que pagar o pato, esteja ele limpo ou sujo de óleo).

Uma coisa é passar calor, frio ou pegar chuva quando se está de férias, viajando. Outra coisa é perder tudo ou quase tudo em catástrofes naturais. Mas... Naturais até que ponto? Temos parado para pensar sobre o assunto? Conhecemos nossas responsabilidades diretas ou indiretas relacionadas ao entorno? Temos feito nossa parte? Ou, cruzamos os braços esperando que os governos façam algo? Podemos começar informando-nos e refletindo sobre o tema, em seguida socializando a informação. Quem sabe assim, futuras gerações ainda terão mais que a música de Vilvaldi para desfrutar... estações do ano com suas cores e sensações, as quais a memória nunca esquecerá.

Notas:

Fábrica inglesa /Fotografia: Jason Hawks/Getty Images

(1) O efeito estufa é um fenômeno natural, ele mantém a Terra aquecida ao impedir que os raios solares sejam refletidos para os espaço e que o planeta perca seu calor, sem ele a Terra teria temperaturas medias abaixo de 10ºC negativos. O que vem ocorrendo e o aumento do efeito estufa causado pelas intensas atividades humanas, sendo a principal delas a liberação de CO2 (dióxido de carbono) na atmosfera. Ele é um dos gases que naturalmente contribuem para a o efeito estufa normal do planeta, mas que agora com seu aumento na atmosfera pode intensificar esse efeito, levando a uma aquecimento maior do planeta. A principal fonte de liberação de CO2 é a queima de combustíveis fosseis (combustíveis derivados do petróleo, como a gasolina; carvão e gás natural). Outros gases liberados pelo homem também aumentam o efeito estufa, são eles o Metano, CFC e outros. Fonte: http://br.geocities.com/atitudecologica/

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

"Voar, Voar, Subir, Subir, Ir por onde for" (*)


Voar, voar Subir, subir Ir por onde for Descer até o céu cair Ou mudar de cor Anjos de gás Asas de ilusão E um sonho audaz Feito um balão... No ar, no ar Eu sou assim Brilho do farol Além do mais Amargo fim Simplesmente sol... Rock do bom Ou quem sabe jazz Som sobre som Bem mais, bem mais... O que sai de mim Vem do prazer De querer sentir O que eu não posso ter O que faz de mim Ser o que sou É gostar de ir Por onde, ninguém for... Do alto coração Mais alto coração... Viver, viver E não fingir Esconder no olhar Pedir não mais Que permitir Jogos de azar Fauno lunar Sombras no porão E um show vulgar Todo verão... Fugir meu bem Pra ser feliz Só no pólo sul Não vou mudar Do meu país Nem vestir azul... Faça o sinal Cante uma canção Sentimental Em qualquer tom... Repetir o amor Já satisfaz Dentro do bombom Há um licor a mais Ir até que um dia Chegue enfim Em que o sol derreta A cera até o fim... Do alto, coração Mais alto, coração...


(*) Sonho de Ícaro por Byafra - Composição: Pisca / Claudio Rabello

O primeiro vôo duplo de parapente que fiz foi no Pico Agudo em Santo Antonio do Pinhal, São Paulo, em setembro de 2007 e graças ao meu amigo Alexandre que foi fotografar uns amigos "voadoares". Estava de bobeira vendo as saídas dos paracas e asas deltas, quando me perguntaram se queria voar... não pensei duas vezes, quando dei por mim, estava correndo com o instrutor, também chamado Alexandre, e o parapente... já não "podia amarelar" era "voar ou voar" risos. A experiência foi maravilhosa!

Quando estive em Floripa, SC, no Reveillon de 2004, queria ter feito um vôo sobre a Lagoa da Conceição, todavia as condições climáticas não me deixaram e, na Pedra Grande, Atibaia, SP, algo parecido aconteceu, não havia vento, me contentei em ver a bonita vista e relaxar ao pôr do sol.

Repeti o feito de Santo Antonio do Pinhal aqui em Orduña, dois meses após minha chegada. Do balcão que há na parte de trás aqui de casa, podemos apreciar as saídas de "voadores". Em dias de céu espelhado, de um azul lindo e vento convidativo... podemos contar entre 10 a 20 parapentes colorindo o céu de Orduña. Foi numa dessas tardes, ao ver certo número de parapentes no céu, nos dirigimos, Joseba e eu, ao lugar de pouso e, ao ver aqueles "Homens Passáros" não aguentei a vontade e perguntei se alguém fazia vôo duplo, o que aqui chamam Biplaza. Um rapaz chamado Joseba (outra coincidência) disse que sim e, quando dei por mim, novamente, já estava no carro subindo o Porto de Orduña para o local da saída, parte do Monte Santiago... Aqui, diferente do Pico Agudo, não havia espaço para correr... o parapente era levantado pelo vento, retrocedemos alguns passos e logo nos atiramos no nada... Foi estupendo!!!



Para concluir, quero dizer que "A vida é uma só. Atreva-te!"





Links para ver meu vôo em Orduña:


http://es.youtube.com/watch?v=NZxEQqaobLk

http://es.youtube.com/watch?v=gi3DZ5xqVaM

http://es.youtube.com/watch?v=PnpNu-iMUW


(*) Fotos do Pico Agudo, Sto. Antonio do Pinhal e Pedra Grande, Atibaia_by Alexandre Salti.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

SÃO PAULO faz aniversário - 455 Anos.


“É sempre lindo andar na cidade de São Paulo,de São Paulo
O clima engana, a vida é grana em São Paulo
A japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo
Gatinhas punks, um jeito yankee de São Paulo, de São Paulo (*)”

São Paulo, a paisagem conta sua história e sua história faz parte da história dos muitos paulistanos e não paulistanos que te escolheram para viver. Que encontraram em suas ruas e esquinas, no antigo e no novo, no concreto e na cultura um motivo para ficar e, que ao partir levam consigo um pouco de ti, deixando na cidade suas memórias.

São Paulo, que nasceu num Pátio e da necessidade de se encontrar um local seguro e bem posicionado como o Planalto de Piratininga, com “ares frios e temperados como os de Espanha" e "uma terra mui sadia, fresca e de boas águas", assim diziam jesuítas como: José de Anchieta e Manoel da Nóbrega que ali chegaram e fundaram, em 1554, o que viria a ser hoje a São Paulo que conhecemos.

São Paulo, metrópole cosmopolita onde o velho e novo se esbarram, o bonito e o feio se confundem, onde o rico e pobre trafegam em seus carros do ano ou em “peruas” de lotação.

São Paulo, das cheias na Várzea do Carmo às enchentes nas marginais, cidade dos muitos rios e seus nomes indígenas – Tamanduateí, Anhangabaú, Tiête – indígenas que somados a outras etnias – portugueses, espanhóis, italianos, japoneses ... – deram vida, cor, sotaques, costumes e feições a essa cidade.

São Paulo, Terra da Garoa, lembrada nos versos da música de muitos compositores, como o ilustre Adoniran Barbosa que cantou tão bem São Paulo e, dizia não poder ficar porque morava em Jaçanã, ou Caetano, que tornou famosa a esquina da Ipiranga com a São João.

São Paulo, na crítica ácida mas verdadeira do contemporâneo Ferrez em “Capão Pecado” ou na literatura do modernista Mário de Andrade "Lá fora o corpo de São Paulo escorre, vida ao guampasso dos arranhacéus".
E por falar em arranhacéus, olhemos para fora das janelas do carro, do ônibus ou do metrô. O que vemos?

Vemos a história de São Paulo através de sua paisagem, composta do feio e do belo, do velho e do novo.

Mas o que seria feio se não conhecêssemos o belo?

Como reconheceríamos a sinuosidade do Vale Anhangabaú sem as linhas retas dos edifícios?

Como perceberíamos o despojamento e o caos dos camelôs no Centro sem a imagem de uma São Paulo elegante e culta da década de 50? Se podemos achar exótico e atrativo os mercados do mundo – Marrakesh, Índia, Hong Kong –, por que não achar graça no balé dos camelôs quando ouvimos nas ruas: Olha o rapa! e deleitar-se ao experimentar um pedaço de abacaxi doce e gelado ou um pastel de bacalhau, enquanto observamos os lindos vitrais do Mercado Municipal.

Quanta mudança! Onde se ouvia os apitos dos trens chegando e partindo, hoje se ouvem os acordes de instrumentos afinados e vozes melodiosas, arquitetura restaurada preservando um pedaço da história. Lá dentro a elite, os bem nascidos, o cheiro de perfume bom. Lá fora? Os excluídos, os sem-teto e, o mal cheiro que exala nas ruas.

São Paulo Cultura é seu nome. Paulista e adjacências, tantos teatros, restaurantes, livrarias, cinemas, espaços expositivos e museus. Ah! Nesse lugar se respira cultura. Mas não podemos esquecer que nessa extensa avenida, bate o coração financeiro dessa que é a maior cidade do país, melhor dizendo, da América Latina! Onde homens e mulheres elegantes disputam espaço pra tomar um café expresso, sem saber que esse mesmo café foi quem deu alma a esse empreendimento chamado Paulista.

São Paulo, Progresso é o seu nome. Essa cidade não pára. Construções babilônicas, avenidas imponentes com seus prédios imensos, espelhados – puro narciso – para atender a demanda que a cada dia cresce mais e mais, homens de negócio que trocaram os carros por helicópteros. Notem, na Berrini quase todos os prédios têm helipontos, valem-se da máxima que “tempo é dinheiro” e por isso não podem perder tempo no trânsito caótico de cidades como São Paulo.

São Paulo, mais uma vez o contraste: os prédios ao fundo se erguem imponentes na Marginal Pinheiros, seguidos pela favela do Jardim Edith, que tempos depois daria lugar a projetos mais ambiciosos. Tudo em nome do progresso. Os neo-liberais, a globalização, o mundo digital chegaram pra ficar, pelo menos ao longo da Marginal Pinheiros, onde pedacinhos de todo o mundo trazido pelas multinacionais dividem os metros quadrados mais caros da cidade. Para quê? Para garantir sua fatia nesse mercado emergente.

Ah... São Paulo! O que era taipa de pilão, hoje é pura fibra óptica. E eu, paulista com origens no Vale do Paraíba, acostumada a calmaria e muito verde, fui parar nessa Selva de Pedra e me apaixonei pela história, pela paisagem e pela vida que ai encontrei.

Parabéns São Paulo!

(*) Foto do Centro de São Paulo a partir do Prédio do Banespa (hoje Santander) tirada em janeiro de 2005.
(*) Trecho da Música "São Paulo, São Paulo" Premeditando o Breque (Premê) / Composição: Oswaldo, Biafra, Claus, Marcelo e Wa.

domingo, 4 de janeiro de 2009

O que move também imobiliza.

Todos os dias quando vejo a TV, leio o jornal ou alguma revista, observo os comentários e artigos sobre a atual crise econômica que o mundo atravessa, a Espanha encontra-se bastante afetada e imagino que no Brasil a situação não deva ser diferente. Aqui desde que se iniciou essa crise cerca de 1 milhão de pessoas perderam seus postos de trabalho e outras tantas estão em vias de perdê-los. Entre as muitas empresas encontram-se as montadoras, segmento importante para o PIB nacional.

E, falando em montadoras, há alguns anos li o artigo "Sinal verde para o caos da crise: Ascensão e limites do capitalismo automobilístico" de Robert Kurz(1) e alguns pontos abordados pelo autor me fizeram refletir, é interessante ver como Kurz tece comparação entre o automóvel e o homem autômato, como ele nos apresenta as relações de poder presentes o tempo todo e ao longo da história à partir do advento do automóvel, objeto criado pelo homem para otimização do tempo e que se transformaria no carrasco. A criatura que devora o criador. Ao mesmo tempo em que o artigo esclarece, amedronta, haja vista, o preço alto que pagamos pelo desenvolvimento tecnológico.

Em certo momento do texto o autor nos compara a macacos amestrados “o ser, enquanto ganhador de dinheiro, faz de si seu próprio macaco”, remeto-me a obra ontológica de Stanley Kubrick: 2001-Uma Odisséia no Espaço.(*)
Feitas algumas ressalvas, podemos entender o que muda para o homem, neste caso para o ancestral do homem. A descoberta da ferramenta – o osso utilizado como utensílio e como arma – a possibilidade de desenvolvimento, as relações de trabalho, poder e estranhamento decorrentes da descoberta. Assim como o osso para o macaco, o automóvel surge para o homem como algo sedutor, deslumbrante, quase mágico, representando na modernidade o trabalho, comida, casa, lazer e por fim o caos e a crise sugerida por Kurz.

Para Marx, o trabalho é indispensável ao homem. Seria o trabalho indispensável à existência ou é uma invenção da modernidade? Difícil resposta essa. O tempo do homem moderno é outro, muito diferente do tempo do macaco, do homem do campo, do homem do feudo, do homem anterior ao capitalismo. Costumamos ouvir expressões como: “matar o tempo”, “tempo é dinheiro” ou ainda "não tenho tempo", "meu dia deveria ter 30 horas". E nós o que somos? Escravos do relógio, do dinheiro, da esteira de Ford e agora do automóvel. O homem não morre se não trabalhar, mas morre se não comer. A fome mata, a doença mata, a miséria mata, a guerra mata, o trabalho também mata – quantos foram os que perderam suas vidas em fábricas desde o inicio da industrialização ou em acidentes de trânsito – como mencionado no artigo de Kurz. Quantos perdem suas vidas em guerras falaciosas movidas pelo interesse no “ouro negro” que move o capital, move o poder. Ah! E... antes que eu esqueça, move os automóveis. (*)

Antes dos carros, a ferrovia. Os trens eram o progresso, forneciam ao homem a possibilidade de expansão, escôo de produção e para os mais abastados representava lazer. Mas essa tecnologia trazia consigo elementos limitadores, tratava-se de um bem da coletividade em um mundo moderno regido pelo individualismo, a limitação de destinos e a impossibilidade de horários. Torna-se-ia necessária a descoberta de algo que funcionasse de forma autônoma e atendesse a demanda ávida por consumo. Criava-se o cenário perfeito para as idéias e práticas de homens como Taylor, Ford, alemães, japoneses e tantos quantos viram o automóvel como algo além do fetichismo masculino, aqueles que viram nesse monte de lata, engrenagens e motor à combustão, o meio perfeito de mover o mercado e, porque não dizer mover o mundo. Mesmo havendo homens preocupados em alertar sobre os pontos negativos da tecnologia, tais como: Seume, Thoreau, etc, a corrida continuou. (*)

A produção em série partindo do automóvel para os bens de consumo de menor porte já tinha um destino, produtos impostos à massa de forma irrecusável – lembremos do poder sedutor da propaganda, (*)
somado a redução de preços alcançada através de uma produção massiva, o pseudo-poder aquisitivo da classe operária, da facilitação na hora da compra com o surgimento das compras a prazo – tornando o trabalhador assalariado e seriado em consumidor em potencial. Produtos que hoje em dia se tornaram descartáveis e por vezes supérfluos.

O homem moderno, tornar-se-ia tão seriado quanto os produtos produzidos por ele. Kurz nos alerta quanto a isso quando fala da preocupação para com o lazer bradado por algumas empresas em décadas atrás, o equivalente ao que hoje ouvimos como “preocupação das empresas com a qualidade de vida de seus funcionários”. Na realidade o ciclo vicioso é o mesmo de antes, o sujeito produz, compra, usa, desce a Serra para ir à praia – quando tem sorte de não pegar quilômetros de congestionamento, momento esse em que entram em cena outros produtos, os que o ajudam na espera como: celular, mp3, palmtop, laptop, ipod para os mais hig tech - e para os mais ricos, bem... esses vão de avião e não têm problemas com congestionamento, os problemas são outros.

Hoje como bem lembra o autor, estamos mais imóveis do que em movimento. O que sugere os radicais da palavra automóvel por si próprio e móvel está longe da realidade, basta sair de carro no horário de rush em qualquer grande cidade. Independentes? Não. Individualistas. Trocamos o ser coletivo pelo ter individual, ferimos a natureza alterando-lhe a paisagem, matamos mais em guerras por petróleo e morremos mais nas autobans. Perdemos os postos de trabalho – necessários no mundo capitalista – para a robótica inclusive. Mas... alguém já viu um robô comprando um carro e indo à praia? Com produção em larga escala produzida de maneira robotizada, um mercado inchado pela oferta e uma procura escassa - considerando o grande número de automóveis existentes no mundo todo - basta ver as estatísticas e as projeções. O que faremos com essa produção? O que faremos com a camada de ozônio quando um dos principais paises responsável por esse problema, recusa-se em assinar tratados que demandam a redução de poluentes e gases tóxicos? O que faremos com o estranhamento que rege as relações humanas? E... as tais guerras falaciosas?

Tudo isso nos leva ao ponto de partida. Esse homem de tão desenvolvido e técnico, esquece das suas outras necessidades e segue no caminho inverso rumo ao primitivismo do macaco. É assustador imaginar o quão nos tornamos escravos do trabalho e dos valores impostos pela sociedade de consumo, pelos grandes impérios econômicos detentores da informação e do poder. Talvez necessitemos imobilizar-nos para depois mobilizarmos em outro sentindo.

Parafraseando Marx "Humanos do mundo, movei-vos!"

1 Tradução de Heinz Dieter Heidemann, em colaboração com Tatiana Schor. Difundido originalmente pelos cadernos do Laboratório de Geografia Urbana do Departamento de Geografia da FFLCH da Universidade de São Paulo, ano 1, n. 1, Abril de 1996.

(*) Cena do filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço (2001, A Space 0dissey /Ficção Científica / Origem/Ano: UK-EUA/1968) direção: Stanley Kubrick.
(*) Propaganda alemã do fusca - Imagem extraída do site: www.manalais.com.br/blog/propaganda/velhos-tempos/
(*) Cena do filme Tempos Modernos (Modern Times - The Masses / Comédia / Origem/Ano: EUA/1936) direção: Charles Chaplin.
(*) Propaganda de eletroeletrônicos - Imagem extraída do site: http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/1980410:BlogPost:22265

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