quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Retrospectiva 2009.

Mais um ano chega ao fim. Que ano! 2009 foi cheio de surpresas boas e ruins. Algumas delas fruto de escolhas nem sempre acertadas. Não sou do tipo que teme desafios, me empenho para que as coisas saiam bem, mas isso nem sempre acontece. Neste ano aprendi muitas coisas, a maioria delas foi pela dor, mas o amor foi sempre o redentor de tudo e por isso avalio o ano como positivo. Eu e a minha sanha por conhecer, estar, ver, sentir. Neste ano cumpri isso de maneira diferente do planejado por azar ou quem sabe por pura sorte, depende do ponto de vista. Em alguns dias farei 41 anos, na realidade 41 Natais e continuo na concorrência com o filho de Deus, afinal, também sou filha do Homem e mesmo que às vezes me esqueça dele, Ele sempre olha por mim e durante esse ano não foi diferente, Ele colocou na minha vida um anjo chamado Joseba. 2009 foi o ano do aprendizado, não obtive nenhum diploma – e quem precisa? -, mas aprendi que humildade e educação abrem qualquer porta.

Em julho deste ano estava tudo acertado, deixaria minha família basca para seguir para Florença e Ravenna, viveria seis meses com uma família italiana, estava radiante, felicíssima por realizar o sonho de conhecer a Itália e triste por deixar o carinho e o amor que encontrei aqui. Estava decidida, por isso organizei tudo, malas, passagens, etc. De Barcelona para Milão, dali para Florença e em Empoli os Feruzzi me receberiam. As coisas começaram a dar errado ainda em Barcelona, por problemas na reserva passamos parte da tarde, de calor infernal, carregando minha pesada mala pelas ruas do centro de Barcelona buscando um lugar para passar a noite. Encontramos um hotel próximo à Estação onde eu embarcaria no dia seguinte, depois saímos para passear pelo Porto de Barcelona e jantamos em La Rambla. Eu estava tão ansiosa com tudo que não consegui dormir. Mal sabia o que me esperava e se soubesse nunca teria embarcado naquele trem.

No dia seguinte por volta das 19h30 me despeço de Joseba na estação de trens, sem olhar para fora. Não queria chorar. Chegando à Itália ligaria para ele e para meus pais no Brasil. Nunca cheguei. Na fronteira entre Espanha e França, mas precisamente na estação de Perpgnan na França, fui convidada a deixar o trem e acompanhar a polícia de estrangeiria e fronteiras por estar com o visto vencido e não ter autorização de residência ou trabalho. Leram meus direitos, fui revistada e toda minha bagagem também, depois de 24 horas em uma cela na comissaria de polícia, fui encaminhada para o Centro de Retenção Administrativa de Cornebarrieu em Toulouse, França, a uns 200 km de Perpgnan e quase 500 km de Orduña, onde passei 12 dias até que decidiram meu destino. Mais uma vez meu anjo da guarda esteve comigo e me ajudou a retornar à Espanha, diferente de outras mulheres que estavam na mesma situação que eu, não me obrigaram a retornar ao Brasil e tão pouco recebi alguma sanção seja na França ou Espanha. Na fronteira entre La Jonquera e Le Perthus meu anjo me esperava, lá me devolveram meu passaporte intacto, retornei assustada e feliz para o País Basco. Passei mais um mês na Espanha e ao final de agosto saí de viagem para Portugal com Joseba e as meninas. Terminada as férias, fiquei na cidade do Porto na casa de uma amiga, depois segui para Lisboa onde planejava ficar até agosto de 2010, pois havia ingressado na pós gradução da Universidade Católica Portuguesa para cursar Relações Culturais Internacionais. Ao cabo de quase três meses, vivendo com uma família portuguesa e estudando, fiquei doente, contraí gripe A - a tal gripe suína – passei muito mal, me senti muito sozinha e vulnerável, por esse motivo resolvi mudar tudo e repensar as coisas para terminar o ano bem. Para que prolongar minha estada ali? - Por pura vaidade. Pensei e decidi: vou embora, volto para o lugar de onde eu não deveria ter saído. Mais uma vez meu anjo da guarda veio ao meu encontro, com um sorriso no rosto deixei Lisboa com destino a Orduña, eu, minhas malas e Joseba.

Hoje, a uma semana de completar 41 anos compreendo que “a vida só se vive uma vez” por isso quero vivê-la ao lado das pessoas que me querem bem. Sinto-me afortunada, além da minha família biológica que ficou em São Paulo, dos meus amigos que sempre me escrevem, tenho uma família adotiva, a qual me acolheu com carinho aqui no País Basco. Sei que tenho motivos para agradecer e acreditar que nada acontece por acaso. Se não cheguei à Itália, se não permaneci em Lisboa e se deixei São Paulo para vir para Espanha é porque algo bom me esperava e hoje tenho plena consciência disso. Não planejo mais nada, não quero perder tempo pensando no futuro, quero viver o presente de maneira intensa e agradecida porque a vida não se vive amanhã, se vive hoje, agora... nesse exato momento em que escrevo. Do amanhã nada sei e não quero saber... Quero apenas viver!

Despeço-me de 2009 com uma canção muito especial e... que venha 2010, 2011, 2012, 2013... ... ...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Paz e Amor.








“Faça amor. Não faça Guerra”


Os ícones da Contra Cultura, do movimento Hippie marcaram presença em mais uma Fiesta de los 60. A pequena Orduña, cidade de Vizcaya no País Basco recebeu John Lemon e Yoko Loco com muita festa…Yoko fez questão de presentear o Bar Amnésia Inn com uma obra sua, um singelo painel com o lema da geração Woodstock “Paz y Amor”. Em 2009 o festival que cumpri 40 anos continua presente na memória de muitos. Passa ano, entra ano, os anseios dos jovens são os mesmos: Paz, Amor e para os que curtem… muita erva. 40 anos atrás a Guerra do Vietnã fazia suas vítimas, hoje Iraque, Afeganistão e outras guerras combram também sua parcela, por isso a presença de John e Yoko na Festa de Samaná e Amnésia Inn é algo para guardar. Cantamos, bebemos, dançamos, rimos e fomos muito felizes nessa noite de festa.

sábado, 28 de novembro de 2009

Arrumando as malas.

Mais uma partida... hoje 28 de novembro de 2009 às 11h da manhã aqui em Lisboa (12h em Orduña e 9h em São Paulo) terminei de arrumar minhas malas, dessa vez a sensação não é ruim, pois quero ir e não deixarei nada que me faça sentir saudades. Lisboa é bonita, mas não tenho motivos para ficar... escolhi outras coisas. O bom é justamente isso poder mudar de idéia e escolher o que realmente tem valor para nós, sorte a minha ter tido tempo e quem sabe uma febre alta que me fez perceber que orgulho, vaidade e ambição nem sempre nos levam aquele porto seguro no qual tanto queremos estar um dia, mesmo que a expressão “porto seguro” seja utópica e subjetiva, refletindo algo quimérico, ainda assim, todos sonhamos com isso e é justamente isso que nos move e nos faz sentir vivos. Verdade que em Lisboa eu estava morrendo um pouco a cada dia, a vida estava passando e eu me fechando pro mundo - minha vida sem mim - emagreci, fiquei doente, perdi o brilho no olhar e logo deixaria de sorrir. Não quero sofrer da melancolia que sofre o povo português e não que eu goste da euforia às vezes extremada de alguns brasileiros, a verdade é que nem uma coisa nem outra me agrada. Quando cheguei não entendia muito bem o que a amiga Talita, que vivia no Porto e hoje está em alguma outra parte do mundo, talvez Londres ou São Paulo... dizia quanto a mudar o comportamento, perder um pouco da vivacidade para adaptar-se a sociedade portuguesa, eles vivem noutro tempo, não quero ser injusta mas me pareceu sim um povo atrasado, parado no tempo e que depois da entrada na UE corre atrás do prejuízo, acreditando que isso se faz através do consumismo... mas veja, não é regra..conheci gente muito interessante, as amigas da pós, Maria do Céu, Mercedes, Carolina, Céu, Maria João... também conheci a Ana, uma historiadora portuguesa muito diferente da média... penso que hoje sei o que me incomoda no que diz respeito ao brasileiro e isso vem de casa, meus pais são uma mescla cuja uma das partes é portuguesa e a maneira como encaram a vida e como nos educaram tem muito dos costumes daqui, hábitos esses que desde muito jovem já eram motivo de conflito para mim, mas não vou discuti-los. Talvez alguém que tenha feito turismo em Portugal ao ler esse post dirá que estou totalmente enganada, mas queria lembrar que turismo é uma coisa e a vida diária é outra totalmente diferente, nosso estado de ânimo é outro e o das pessoas que tratam conosco também, assim que não venha querer me dizer outra coisa... se queres comprovar junte os seus trapos e venha viver uns meses aqui e depois me conte como foi. Ainda não consigo ver positivamente esse período aqui e tenho meus motivos, mas como tudo é aprendizado, no futuro talvez eu veja com outros olhos esses meses em terras lusitanas. Por hora espero ansiosa minha carona de volta pra casa... mas uma vez o paciente e generoso Joseba vem a meu encontro..risos, primeiro foi Bilbao, depois França e agora Portugal... isso me faz lembrar minha mãe, ela sempre disse que tratava os filhos dos outros muito bem, porque sabia que em algum momento ou lugar alguém faria o mesmo pelos filhos dela, sábia mãe eu tenho... se ela soubesse...rs. Próximo passo, desapegar para ter leveza, literalmente... tenho por objetivo reduzir minhas coisas a uma mala somente ou melhor ainda “ficar” em um lugar, criar raízes e não querer e nem ter mais porque partir. Estou cansada.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

25 de Novembro - Dia Internacional da não violência contra as Mulheres!

"Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rí
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta"

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Um ano de Diário de Bordo.

"Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria…
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja
Ou se envaidece (...)"

(trecho de Monte Castelo, composição de Renato Russo)


Hoje 20 de novembro de 2009 faz um ano que o Diário de Bordo saiu da cabeça e veio para blogosfera. Nesse tempo muita coisa aconteceu, posso dizer que apenas uma quarta parte de tudo veio parar aqui, até porque há coisas em depuração, outras esquecidas - propositalmente ou não - a tal memória seletiva também figura por aqui, afinal trata-se de um diário pessoal que não tem a obrigação de estar em dia com os fatos e muito menos formar opinião ou obter a concordância e apreço de todos os seus leitores ou visitantes esporádicos. Assim também é a vida, não tenho a ambição de "agradar a gregos e troianos" até porque não tenho leitor, nem amigo por esses sítios...risos. Tento a meu modo falar das coisas que vivo e como as vivo, dos sentimentos que são meus e de todos, das descobertas que nos fazem acreditar que verdadeiramente viver é um mistério e que a vida em si é o nosso bem mais precioso e tudo o mais é decorrente dela.

Costumo ser prolixa e escrever longos textos, hoje tentarei ser breve, no meu primeiro post havia timidez, era o inicio de uma coisa nova... nunca tive um diário antes porque não queria ninguém lendo as minhas coisas... agora escrevo sobre "minhas coisas" para que todo mundo as leia. Como mudamos... risos.

Esses dias estive doente mas já estou melhor agora, por isso andei longe do Diário de Bordo, nem por isso deixei de pensar na vida ... e foi durante esse momento ruim, entre tremores e suores que a febre provoca que tive "insights" consideráveis, percebi que muitas das nossas escolhas são estimuladas pela vaidade, desde a compra de uma roupa, um carro novo e até um novo curso ou título para o curriculum. E por que queremos isso? Essa é a pergunta que faço. A única resposta que encontrei é a de que queremos ser amados, por um homem, uma mulher, pela família, pelos amigos ou desconhecidos... todos queremos ser amados. Acreditamos que essas coisas nos tornam mais desejáveis e interessantes, quando na verdade nada disso muda o que somos... são coisas acessórias e sem as quais somos os mesmos, nem melhores, nem piores... apenas humanos.

Minha mãe sempre diz que há tempo para tudo nessa vida e que nada acontece por acaso... eu já semeei, colhi, me apaixonei, parti, cheguei, parti de novo.... agora é hora de Amar... isso mesmo, creio que as minhas viagens em busca do self começam a fazer sentido, pois... "quero ficar" sem data pré estabelecida... quero estar e sentir as coisas que só o AMOR é capaz de nós fazer compreender. Diferente da paixão o amor está livre da tal vaidade... ele é generoso e grande, divertido e tranquilo, doce e pacífico, bom e libertário e... é tudo o que eu quero nesse momento.

E ao comemorar um ano do Diário de Bordo não poderia deixar de agradecer aquele que me inspira, incentiva e me dá forças para continuar sempre... se não o maior responsável por eu querer escrever, é ele, um dos maiores responsáveis por mais essa viagem.

AMOR, obrigada (eskerrik asko) por existir!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Comic do País Basco.

Quando vivia em Orduña (Vizkaya), lendo uma publicação local conheci o trabalho do Joseba Gomez, me pareceu tão interessante as inquietudes daquele rapaz que assim como eu foi buscar na história e na cultura de outros povos algumas respostas. Dessa busca nasceu o trabalho "Comic Ciclocirco" em formato HQ, editado pela Saure e com ilustrações de Josema Carrasco.

De maneira acessível e contemporânea o historiador Joseba Gomez faz sua contribuição para o entedimento do momento presente, onde as relações homem e entorno estão no cerne da questão. O mais interessante é que esse tipo de publicação atinge os vários públicos e em especial as crianças e jovens, os agentes transformadores do amanhã.

O primeiro número da coleção "Ciclocirco y El viaje de las semillas" contemplou o trabalho da ativista queniana Wangari Muta Maathai, ganhadora do Nobel da Paz em 2004 e sua relação com a natureza, indo ao encontro dos pensamentos do autor "Es mi pretensión plasmar este cariño al medio ambiente en cada viñeta de la serie, así como acercar al lector a un espacio de encuentro y reflexión consigo mismo. El viaje de Ciclocirco es un viaje al interior del alma humana. Siempre he tenido una especial predilección por un tipo en concreto de cómics: los que, además de entretener, hacen reflexionar al lector".

Acabei de receber o convite do Joseba para o lançamento no dia 18/11 em Vitoria-Gasteiz, do novo número do comic Ciclocirco "Diamantes en la arena", infelizmente não poderei comparecer, mas com certeza conhecerei o trabalho e o amigo Joseba (que ainda não conheço pessoalmente) em dezembro quando viajar para o País Basco, até lá acompanharei as notícias no blog do Comic Ciclocirco http://www.comicciclocirco.blogspot.com/.

Desejo muito sucesso ao Joseba e todos os envolvidos nesse bonito projeto. Zorionak!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Fechem o acordo!

Copenhague Data:07/12/2009

A Campanha Fechem o Acordo!, liderada pela ONU, tem como objetivo estimular determinação política e apoio público para alcançar um acordo climático abrangente em Copenhague.

A mudança do clima afeta a todos nós. Nove de cada dez desastres registrados estão relacionados com o clima. Temperaturas elevadas, secas, tempestades e enchentes cada vez mais frequentes afetam a vida de milhões de pessoas. E isto reflete também em um já existente cenário de insegurança financeira e alimentar.

No dia 7 de Dezembro, governos de todo o mundo se reunirão em Copenhague, na Dinamarca, para responder a um dos maiores desafios enfrentados pela humanidade. A principal questão a ser discutida será como proteger o planeta e criar uma economia verde que conduza a uma prosperidade a longo prazo.

Alcançar um acordo até o final da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (a COP-15), no dia 18 de Dezembro, vai depender não apenas de negociações políticas complexas, mas também da pressão pública mundial.

Por isso, a ONU lançou a Campanha Fechem o Acordo! (do inglês, Seal the Deal), visando estimular internautas a assinar uma petição online que será apresentada pela sociedade civil aos governantes de todo o mundo.

A petição servirá como um lembrete aos nossos líderes sobre a importância de negociar um acordo justo, equilibrado e efetivo em Copenhague, com o objetivo de potencializar um crescimento verde, proteger nosso planeta e construir uma economia global mais sustentável e próspera que beneficie todas as pessoas e nações.

Por isso, não há mais tempo a perder:
Acesse o site http://www.sealthedeal2009.org/ e assine a petição online! Faça a sua parte!

domingo, 8 de novembro de 2009

Os prazeres do banho.


















Hammas de Al Andalus - Córdoba, Espanha.

Não há coisa melhor que um banho demorado com água quente, de preferência, ao fim de um longo dia de trabalho ou de uma jornada exaustiva. A água é um santo remédio, não lava só o corpo, costumo dizer que lava a alma também. O banho é o melhor companheiro para o choro, para o canto, para o amor, para a reflexão e acredite até para falar com Deus. Ainda criança a descoberta do corpo e os pequenos prazeres que o momento propiciava, conflitava com a moral e educação católica recebida, coisa inevitável, afinal, estar vivo é sentir dor e prazer, amor e raiva, conflito e paz.

Na adolescência tudo que eu queria era um banheiro só pra mim e que meus pais ou irmãos não ficassem batendo à porta todo tempo dizendo: Não vai sair! É pra hoje! E todas aquelas frases que só as famílias numerosas e de recursos escassos conhecem. Eu adorava cantar no chuveiro e quando algo me fazia chorar, era lá, com as águas doces do banho que o sal das minhas lágrimas encontrava companhia e eu saia mais leve.

Na roça, na casa da minha avó materna o banho era de bacia e canequinha, isso mesmo, não havia eletricidade, nem por isso fui menos feliz, havia um céu iluminado de estrelas e a água quentinha caindo das mãos da mãe é um luxo que nem todo mundo teve na vida, por isso, entre outras coisas, é que os fins de semana eram tão esperados e felizes.

Certa vez eu tomei banho de ofurô com a minha mãe, como sabem esse hábito japonês tem mesmo esse sentido familiar, eu devia ter uns 6 ou 7 anos e fomos ao Akimatsuri (festa do outono) que acontecia em uma colônia japonesa da minha cidade, era uma vila de casas cheia de cerejeiras à volta e, na casa de uma família amiga dos meus pais experimentamos esse raro momento. Aquela proximidade toda, o calor da água que ia aumentando ao longo dos minutos era extremamente relaxante e divertido, a posição quase fetal em que ficamos no banho japonês tem algo de retorno às origens, o ventre materno quente e protetor, foi uma experiência única.

No verão, os banhos com mangueira no quintal eram uma verdadeira festa para mim e meus irmãos, ao fim e ao cabo deles, tínhamos que tomar outro banho pois já estávamos cheios de mato e terra, mas, com um largo sorriso de alegria na cara.

Já na fase adulta, morando sozinha, podia tomar longos banhos que ninguém viria bater à porta pedindo para eu sair, então, eu aproveitava para cantar todo o meu repertório. Coitados dos vizinhos do prédio, imagino que aquele meu momento de prazer era para eles momento de tortura, mas... “Quem canta os males espanta” diz o ditado, assim que eles deveriam cantar também, risos.

Na adolescência havia uma canção, que dizia assim: “Hum! Mas se um dia eu chegar Muito estranho Deixa essa água no corpo Lembrar nosso banho...", a qual não fazia nenhum sentido pra mim aquela altura, foi necessário anos para o refrão me dizer algo... faz pouco, que descobri o quanto pode ser maravilhoso passar horas numa banheira com a pessoa amada, o prazer de dar ou receber um banho, a conversa descomprometida, o contato dos corpos num espaço reduzido, o relaxamento com a água quente, os aromas... velas acesas, um pouco de vinho ou o simples “estar” imerso, tombado e em silêncio ao lado daquela pessoa especial, acho que era a isso que Cláudio Rabello e Dalto faziam referência quando compuseram a canção.

Ainda no Brasil, depois de dias viajando de carro por Minas Gerais, eu e um ex-namorado chegamos ao sul do estado mineiro e passamos dois dias em Caxambu. No hotel Bragança aproveitamos para visitar as termas e águas do balneário, além de provar as águas medicinais das várias fontes espalhadas por lá, desfrutei de uma sessão de massagem esfoliante com maracujá e em seguida de um banho espumante perolado com algas marinhas, sai leve feito uma pluma e revigorada para continuar a viagem.

A história dos banhos vem de longe, dos romanos, dos turcos, dos árabes... Ah! Os banhos árabes. Se tiver a chance de estar em um, não pense duas vezes, entre e permita-se esse prazer. Quando estive em Córdoba por primeira vez, de visita ao amigo Jose Mari, além de me mostrar aquela linda cidade andaluz, ele me levou para conhecer e desfrutar do Hammas de Al Andalus (a água é um elemento essencial sem a qual não podemos compreender a cultura islâmica, sendo esse o recurso básico na construção das cidades mulçumanas desde os primeiros tempos e está diretamente ligado à cultura e religiosidade daquele povo), verdade é que entre a salas de água quente, morna e fria, passei momentos de total relaxamento. A beleza do lugar, os perfumes, a música e o barulho da água nos transporta para outra dimensão. A arquitetura do local é belíssima, a sala de água templada com seu teto abobadado, em noites de lua cheia deixa a luz entrar pelos pequenos furos em forma de estrelas refletindo-se nas águas e dando um toque especial aos banhos. Os aromas de jasmim, azahar e alecrim invadem o lugar e inundam os sentidos durante a massagem relaxante que recebemos ainda no Hammas. Durante as quase duas horas que ali estive, imaginei como seria estar num lugar assim em companhia do meu amor, num mundo de prazeres sensoriais e físicos estimulados por imagens, sons, toques e volúpia... como nos contos de Sherazade.

Nós brasileiros acostumados a tomar banho todos os dias, herança da nossa porção índia (em "Casa Grande & Senzala", Gilberto Freyre analisa os hábitos de higiene dos índios versus os do colonizador português. Depois das Cruzadas, como corolário dos contatos comerciais, o europeu se contagiou de sífilis e de outras doenças transmissíveis e desenvolveu medo ao banho e horror à nudez, o que muito agradou à Igreja. O índio não conhecia essas doenças e se lavava da cabeça aos pés nos banhos de rio, onde lavava também as redes nas quais dormiam. Já, o cheiro exalado pelo corpo dos portugueses, abafado em roupas que não eram trocadas com freqüência e raramente lavadas, aliado à falta de banho, causava repugnância aos índios. Então os índios, quando estavam fartos de receber ordens dos portugueses, mandavam que fossem "tomar banho", é daí que surge a expressão tão usada no Brasil “Vai tomar banho!”), podemos estranhar os hábitos de outros lugares, mas devemos levar em conta as questões cultural, climática e, sobretudo os recursos naturais de cada lugar. Afortunadamente, vivemos num país onde a água existe em abundância, contudo, sabemos que esse recurso também é finito e se mal empregado outras gerações não conhecerão os prazeres que um banho pode proporcionar, por isso temos que nos reeducar para garantir seja a higiene, a purificação ou o prazer que só a água nos dá.

Cante, chore, ame, pense, relaxe durante o banho, mas sempre consciente do valor da água, pois no futuro não será o carvão, o ouro ou o petróleo que moverá as relações no mundo, será a água, o bem mais precioso da humanidade.



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Que País é esse?


Confesso que fiquei surpresa e indignada ao ver em um canal de tv aqui de Portugal a notícia sobre a confusão na UNIBAN de S.Bernardo do Campo, onde um bando, uma verdadeira turba, estudantes mal preparados, mal educados, criaram uma confusão de proporções desnecessárias, mobilizando inclusive policiais que poderiam ser realmente utéis em outra situação. Não consigo compreender o que aconteceu com esses estudantes, quando é necessário uma mobilização por motivo realmente justo e para beneficio coletivo, são poucos os que dão a cara. A maneira animalesca como acuaram uma colega de faculdade, simplesmente porque ela usava um mini-vestido é mais uma prova do despreparo da nossa sociedade, uma sociedade hipócrita, para não dizer podre. Os valores individuais dizem respeito a cada um de nós, mas os direitos são iguais e inerentes a todos... se a estudante em questão se sente bem usando uma saia ou vestido mais curto, é ela quem decide... nós possuimos o livre arbítrio e liberdade para agir dentro do que julgamos seja bom para nós, cabe aos demais respeitar para serem respeitados. O que falta a esses jovens é perspectiva de vida, objetivos claros e sobretudo uma boa educação ainda em casa. Eu que não vivo no Brasil há quase dois anos, me senti envergonhada da atitude desses alunos. ELES, deveriam agora retratar-se publicamente e desculpar-se por essa atitude intolerante, misógena e sexista e ELAS deveriam envergonhar-se por apoiarem a atitude masculina, afinal hoje foi a Geyse e amanhã poderá ser qualquer uma delas.

Um país que brada aos quatro cantos do mundo sobre sua capacidade de tolerância para com os diferentes, que têm como característica primeira a hospitalidade e bom acolhimento à gente de todas as partes, como pode permitir esse tipo de comportamento?

Tenho orgulho de ser BRASILEIRA, mesmo que aqui fora os rótulos já tenham sido perpetuados... afinal, nós não somos só bundas, peitos e pernas! Mas... como podemos cobrar respeito dos outros se nem em nosso país somos respeitadas?

Que país é esse? Ou... Que país será esse?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Só hoje (e... sempre).



"Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal...
Olhar teus olhos de promessas fáceis
E te beijar a boca de um jeito que te faça rir
(que te faça rir)

Hoje eu preciso te abraçar...
Sentir teu cheiro de roupa limpa...
Pra esquecer os meus anseios e dormir em paz!

Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua!
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria...
Em estar vivo.

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar...
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia...
Que eu faço tudo errado sempre, sempre.

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje (...)"

(Composição: Fernanda Mello e Rogério Flausino)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Onde eu sou feliz.


"A Chegada" oleo sobre tela by_Meg Mamede

Melancolia, tédio, desencontros.
Bad news, mentiras distantes.
Noite mal dormida, calle barulhenta, insônia, olheiras.
Dia nublado, cinzento, mau humor.
Não vejo o Txarlazo, nem La Virgen.
Tento ver o Tejo, mas antes prédios e containeres.
Textos e mais textos, leitura pouco interessante, variações do mesmo tema, linguagem empolada, o método, o conceito e todos os rigores acadêmicos.
Prefiro meus livros de viagem, para viagem e naqueles que viajo.
Prefiro um colchão no chão a uma cama, se, a companhia for boa ou o cansaço extenuante, ou posso trocar por um sofá velho perto do calorzinho de uma lareira.
Saudades da família, daquela que queria estar longe mas da qual quero estar perto.
Coração dividido, Brasil, Espanha, mas nunca Portugal.
Eu já havia esquecido como é viver num caixote, tenho que me readaptar.
Alguns dias desconectada do mundo... wireless em greve.
Incertezas, dúvidas, sempre as escolhas.
Estradas sem sinalização, o que nos induz ao erro.
Vampirismo! Sinto minha energia se esvaindo. Nem centrum dá jeito...risos.
Nossa! Eu ri... Nem tudo está perdido! Há luz no fim do túnel ou quem sabe um comboio.
Outono sem o ocre das folhas dos plátanos no chão, sem o cheiro da chuva no jardim.
Sem Yako ou Toulouse a pedir mimos.
Sem o melhor café do mundo.
Sin la mejor tortilla de patatas del mundo.
Sem as mãos carinhosas de Mamy.
Sem a rabugice do meu Velho.
Sem tantas outras coisas.
Nada e nem ninguém me parece interessante.
Será que estou deprimida?
Creio que seja a TPM chegando.
Verdade, logo será a vez do iboprofeno.
Ah! Dezembro, nunca esperei por você com tanta avidez.
Época do ano em que nada será gris, haverá o branco da neve, o vinho de La Rioja com todos seus tons rojos e todas as cores que os olhos só vêm quando o coração as sente.
Estar lá, onde a vista é sempre bonita, onde o imperfeito é o mais próximo do perfeito que já conheci um dia e tudo é colorido mesmo no inverno.

Lá... Eu sou feliz!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O desafio de ser Professor no século XXI.

Hoje 15 de outubro é “Dia do Professor” no Brasil(*), por isso resolvi falar um pouco do desafio que a profissão representa no século XXI. Obviamente, houve outros desafios relativos a tarefa de ensinar, a própria profissionalização e regulamentação do educador, entre outras coisas, lutas por melhores condições, reformas na educação, novas tecnologias e estudos sobre o tema, etc.. Mas não vivi esses momentos e por isso não posso falar sobre eles. Falo da minha curta, mas não menos intensa e conflitante passagem pela profissão. Sou “caloura” nessa área, mudei de carreira no auge dos meus 30 e poucos anos por paixão a História e ao iniciar na educação pública no Estado de São Paulo me senti como um soldado de infantaria, isso mesmo, me senti na linha de frente de uma batalha travada entre alunos, pais e o sistema educacional do país. Perdoem-me os pedagogos e outros profissionais, me refiro aqueles acadêmicos que escrevem tratados e mais tratados sobre “como educar” sem nunca ter saído de trás da mesa e do computador, sem nunca ter usado giz ou passado algumas horas do seu dia com uma turma de quase 40 ou mais alunos, em uma sala sem porta, numa escola sem infra-estrutura com uma direção laissez-faire e uma turma de adolescentes desinteressados, indolentes e por vezes agressivos. É disso que quero falar. Sei que há muita gente boa, fazendo ótimos trabalhos, dedicando suas vidas à pesquisa e análises comportamentais, mas para entender os meus sentimentos e inquietudes só indo para sala de aula.

Quando criança, minha mãe sempre me incentivou a seguir a carreira do magistério, eu sempre relutante e com uma resposta na ponta da língua: “Mãe, eu não quero ser professora. Se eu me tornar professora, ao final de cada ano terei que reunir as mães e dar-lhes um tubo de cola e pedir que encontre a respectiva orelha do filho entre as tantas que estarão espalhadas pela mesa” minha mãe me olhava com uma expressão que variava entre a surpresa e o riso, mas ao final ela me compreendia, sendo eu filha mais velha entre cinco irmãos, coube a mim, de certa maneira, ajudar-lhes na educação e isso colaborou, naquela altura, para a minha falta de interesse pela profissão.

Passadas quase quatro décadas, onde fui parar? Em uma sala de aula da maior escola pública da minha cidade, para ensinar – verbo pretencioso esse - história a duas turmas de 7º ano e cinco turmas de 8º ano… me senti o próprio “Daniel na cova dos leões” e não se trata de insegurança, até porque os desafios me estimulam sobremaneira, mas o choque de gerações e cultura foi tremendo… eu cheia de desejo de fazer aulas diferentes, ensinar história de maneira mais lúdica, estimular reflexões, provocar dúvidas, mexer mesmo com a turma – comportamento peculiar do professor iniciante – tudo que consegui foi emagrecer três quilos, ficar estressadíssima e aos poucos ir perdendo a sociabilidade. Acreditei que eles, os alunos, queriam o que eu tinha para oferecer, verdade é que não, talvez não tenha sabido fazê-lo como esperavam, confesso não tive tempo de compreendê-los, fui tomada por um sentimento de desprezo e ao fim frustração. Pensava comigo e meus botões: “tive as mesmas condições que eles, também sou de berço humilde, passei por dificuldades mil e agora que pensei em devolver uma parte do que recebi, contribuindo um pouco com a sociedade em que vivo, sou tratada dessa maneira?” Não é isso que eu quero para mim. Sei que a educação é uma troca, interação, há dinamismo nessa relação, é um caminho de mão dupla, damos e recebemos, ensinamos e aprendemos, mas… há que se estar muito bem preparada(o) para seguir em frente sem elouquecer ou alienar-se. Lembro-me que um dia, na tentativa de iniciar uma aula, pedi aos alunos que me ouvissem, sem êxito algum e ao fim disse-lhes que tanto fazia se não queriam aprender, daí um aluno disse: - “É professora, a Sra. não gosta da gente” e eu confirmei categoricamente, sem pestanejar: “Verdade, eu não gosto de vocês, quem tem que gostar de vocês, são os pais de vocês, de mim vocês terão a amizade e o respeito, mas terão que ser merecedores, conquistar isso, caso contrário nada feito”. Cansei de ver exemplos de professores que “passam a mão na cabeça do aluno” como se fossem os pais. O professor tem que se posicionar como um profissional de qualquer outra área, ser profissional e não maternal ou um braço da família dentro da escola, na minha opinião só assim seremos estimulantes e admirados… concordo que há que haver amor, “fraterno”, tolerância, algum afeto, afinal não somos “bichos” mas sem exageros… dessa maneira seremos respeitados como pessoas e profissionais pelos alunos, pela família, pela direção da escola e pelo governo, caso contrário seremos sempre esse joguete na mão da mídia e da política, esses mesmos que nos transformam em massa de manobra, fazendo e desfazendo da categoria. Os jovens, ou quase nenhum jovem, tem professores por ídolos ou modelos. Pergunte-lhes e dirão o nome de um jogador de futebol, um modelo, um ator, uma cantora… pergunte-lhes qual a profissão que gostariam de ter no futuro e, dirão: médico, advogado, bombeiro, atriz, jogador de futebol, cientista, cantor, engenheiro, etc… mas nunca professor. Uma vez eu até escutei: "Professor é profissão professora?" Risos. Não preciso dizer mais nada.

De tudo e apesar de tudo, ao fim de um ano o balanço que fiz foi aceitável, até porque houve momentos cativantes, declarações e relatos tocantes, palavras de carinho e ao final fui até convidada a ser paraninfa de uma turma, coisa que declinei, porque acreditava que o justo seria que a professora coordenadora da turma fosse a homenageada. De qualquer maneira me senti lisonjeada e, também homenageada por alguns alunos que ao receber o “canudo” erguiam-no e diziam: "para professora Margarete de História"…risos, até chorei. Alguns deles conquistaram sim minha amizade, meu respeito e meu carinho… Se vou voltar às salas de aula? Bem… isso só o futuro dirá. Por hora frequento salas de aula na condição de aluna e admiro muito aqueles que têm a força e determinação de continuar, de dedicar anos a fio a essa nobre tarefa mesmo quando tudo parece estar fora do lugar.

Hoje para comemorar o dia vou ao cinema ver “O dia da Saia” (La journée de la jupe) filme de Jean-Paul Lilienfeld (França, 2008) que trata exatamente da temática que abordei. A professora de francês Sónia Bergerac, personagem de Isabelle Adjanim vítima de descontrolo emocional causado pelo stress provocado pela indisciplina dos seus alunos. Um dia descobre na sala de aula uma arma na mochila de um aluno, toma-a e, na falta de melhor solução, usa-a para controlar os alunos e poder tentar dar a matéria. Um drama intenso que nos apresenta um rol de problemas habituais nas escolas francesas, mas também nas escolas do Brasil e do mundo, como indisciplina, abusos sexuais, racismo e até violência para com os docentes.

Vou desopilar o fígado! Fui!.



(*) Dia do Professor no Brasil acesse: http://www.portaldafamilia.org/

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Women In Art and In Film, by Philip Scott Johnson.

Dois excelentes trabalhos de arte digital do norte-americano Philip Scott Johnson (St.Louis, Missouri). Animação morfológica com destaque para mulher na arte e no cinema. Vale a pena ver.


Para conhecer outros trabalhos acesse: www.vimeo.com/psjohnson

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

E... Colombo chegou à América.


Alcázar de Los Reyes Cristianos en Córdoba. Os reis espanhóis recebem Cristóvão Colombo (foto_Meg Mamede)


(...) e foi deslumbrante ver o arvoredo, o frescor das folhagens, a água cristalina, as aves e a amenidade do clima. Vontade tenho de não mais sair daqui. E, para descrever aos reis as coisas que vi, não bastariam mil línguas ou mil mãos para escrever, pois parecíamos encantados... E logo apareceu gente nua e todos que vi eram jovens, muito bem-feitos; os cabelos grossos como crinas de cavalo... E se pintam de preto e vermelho e são da cor dos canários, nem negros nem brancos. Não andam com armas, que nem conhecem, pois lhes mostrei espadas que pegaram pelo fio e se cortaram, por ignorância, sorrindo encantados para nossos guizos e miçangas (...)


(trecho dos Diários de Cristóvão Colombro)


Hoje 12 de Outubro, Espanha e outros países latino americanos, a exceção do Brasil, comemoram “el dia de la Hispanidad”, mesmo com controvérsias e mágoas perpetradas ao longo dos 517 anos do “descobrimento” e colonização das terras nomeadas América – em homenagem a Américo Vespúcio - o dia é de comemoração. Verdade é que o povo gosta mesmo de festa, seja na 5ª Avenida de Nova York, onde a comunidade hispânica ostenta com orgulho bandeiras e trajes típicos, seja no País Basco, onde o desejo de independência é uma utopia mas o feriado prolongado é bem vindo e ainda nos países da América Latina onde as comemorações têm características e motivações próprias.

Cristóvão Colombo (1451-1506), navegador genovês, inspirado por navegadores como Marco Pólo e suas viagens, encontra apoio para sua empreitada nos Reis Católicos de Espanha, Fernando V de Aragão (1452-1516) e Isabel I de Castela (1451-1504) já que italianos e portugueses não quiseram financiar seu projeto. Em 6 de setembro de 1492 Colombo parte do Porto de Palos na Espanha e depois de cinco semanas de viagem e vários problemas decorridos desta, chega as terras que chamariam de América no dia 12 de outubro de 1492. A expedição chega onde provavelmente hoje se localizam as Bahamas, passando depois pelo que atualmente corresponde aos territórios de Cuba, Haiti e República Dominicana.

O feito de Cristóvão Colombo é de fundamental importância para nossa história. Com sua chegada à América ele consegue naquele tempo, unificar o planeta, já que ao chegar ao Caribe – imaginando estar na Índia - havia aproximadamente nove milhões de nativos no hemisfério ocidental, os quais, não faziam idéia da existência do hemisfério oriental. Por outro lado, os próprios europeus não imaginavam haver um continente a oeste. Hemisférios tão distintos entre si e independentes, que naquela época era como se fossem verdadeiramente separados. Colombo ainda faria mais viagens de colonização com apoio da coroa Espanhola, morrendo em 1506 sem ter atingindo a Ásia. Suas “descobertas” foram recebidas com entusiasmos por parte do governo da Espanha, que prosseguiu com o processo de exploração e colonização das terras. É então que surgem as expressões “Novo Mundo” e “Velho mundo” que até hoje ouvimos.

Lendo alguns textos, percebi que o dia de hoje suscita discussões e sentimentos dos mais variados: alegria, euforia, nostalgia e também lugar para protesto, rancor, desdém e outros adjetivos. De um lado a figura dos destemidos navegadores e dos conquistadores impiedosos, do outro os dóceis gentis e povos autóctones massacrados, clamando por justiça e querendo de volta o que lhes foi tomado. Eu me pergunto: - Nesse processo todo, há de fato vencedores e vencidos? Como bem explorou o Prof. Leandro Karnal em uma aula sobre América… Não seria essa questão mais um axioma historiográfico?

O que ganhamos e o que perdemos nós latino-americanos com a viagem de Colombo?

Não vim aqui para esclarecer ou dar respostas, vim para provocar… provocar algo de reflexão. Além da opinião dos outros - a qual podemos aceitar ou não -, formulemos a nossa própria, os fatos estão aí para que qualquer um possa analisá-los e chegar a síntese própria. Como diria Descartes “Penso, logo existo” e… depois de pensar, relaxe ao som de Vangelis e a bonita trilha sonora do filme “1492 A conquista do Paraíso” do Ridley Scott (1992).



domingo, 11 de outubro de 2009

Política, Igreja e Máfia: A tríade italiana.

Ahh! A Itália... meu sonho de consumo. Pensado bem, meu sonho de cultura La bella Itália e toda aquela beleza renascentista, em especial a Toscana com seus girassóis, gastronomia, vinhos, arte e arquitetura, essa região me encanta e atrai sobremaneira. Berço de artistas, pensadores, religiosos, eminências pardas e conspiradores, Florença é onde a “fogueira das vaidades” sempre deu o que falar ou queimar - como na época de Savonarola - porém, essa briga de egos e disputa de poder não foi privilégio do homem do renascimento ou somente da Itália, mas... ela sempre estampa algum jornal para além do caderno da cultura. Sai um, entra outro… o circo está montado. O Berlusconi que o diga, o povo precisa de circo e às vezes... um fim de semana no camping.

Essa acidez toda é um pouco de “dor de cotovelo”. Isso mesmo, frustração por “ainda” não ter conhecido um pouco da Itália. A culpa é dos franceses! Deixa pra lá, isso é outra história.

Na realidade voltei a divagar sobre a Itália ao sair do cinema. Ontem, fui ver “Il Divo” com direção e produção de Paolo Sorrentino (Itália / França, 2008), filme presente na 33ª Amostra Internacional de Cinema de São Paulo que acontece de 25/10 a 5/11/09. Não se trata de um filme divertido, é de fato um drama, mas, possui enquadramentos, personagens caricatos como o próprio Andreotti (Toni Servillo, que também fez Gomorra de Matteo Garrone) e trilha sonora que arranca algum riso do público. Para mim, o mérito do filme está na forma como mostra as relações entre política, Igreja e a máfia na Itália - por vezes até parecem uma só - através da trajetória de Giulio Andreotti “Il Divo”, um dos políticos italianos mais influentes e controversos do pós-Guerra. Sete vezes primeiro-ministro, teve a carreira marcada por conflitos eleitorais, atentados terroristas e várias acusações, apesar disso, nunca perdeu a serenidade e um certo carisma. Diferente de outros políticos da Itália e de outras partes do planeta, abriu mão da sua imunidade a favor da investigação que sofria e em 2004, após 11 anos de processo, foi absolvido da pena, mas não da culpa. No inicio dos 90, próximo dos 70 anos, Andreotti não tem medo de nada e ninguém, sabe lidar com o poder, saindo incólume das suas batalhas políticas e do processos judiciais pelos quais passou, até que a Máfia atravessou o seu caminho. Andreotti “a raposa” como é chamado por seus adversários políticos, é um homem aparentemente frágil, mas na verdade é uma fortaleza que faz frente a tudo, por anos e décadas até à morte. Como ele mesmo mencionou em seu 90º aniversário, quando indagado, disse não ter medo da morte e que “Se vou mesmo para o paraíso, não sei. Mas talvez ganhe um desconto no purgatório”. Quanto a sua lápide, o veterano político sugere a seguinte frase “Cuidem de seus próprios problemas”.

Bem, se você quer saber um pouco mais do mundo para além do show business e retornar ao passado não tão distante, vá ver "Il Divo". Não se incomode se você for o mais jovem da sala de cinema, no auge dos meus 40 e na sessão das 16h45 num cinema de Lisboa eu era a mais jovem, todos que ali estavam já eram jovens ou adultos no 25 de Abril de 1974 - Revolução dos Cravos - e de tudo que ouvi e vi no filme, somente a menção ao atentado que matou o juiz italiano Giovanni Falcone em 1992 é que tenho alguma memória, contudo sei que para compreender um pouco mais o panaroma global atual há que se voltar no tempo para entender causas e consequências. Capicce?


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Amália Rodrigues revisitada.

(“Amália Rodigues” grafite de Jef Aerosol na Travessa de Queimada, Bairro Alto, Lisboa)

"O sal das minhas lágrimas de amor criou o mar
Que existe entre nós dois pra nos unir e separar
Pudesse eu te dizer a dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão que não tem fim

Ausência tão cruel, saudade tão fatal!
Saudades do Brasil em Portugal!

Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer, desolador, na voz do vento,
Sou eu em solidão pensando em ti,
Chorando todo o tempo que perdi!"


(“Saudades Do Brasil Em Portugal” fado que ficou conhecido na voz de Amália Rodrigues,
composição de Vinicius de Morais / Homem Cristo)

Uma década sem a rainha, sem a dama do fado. Portugal revive a trajetória da diva “Amália Rodrigues” (1920-1999) através de documentários, exposições e relatos dos que conviveram de perto com a filha mais ilustre de Lisboa. Nasceu Amália da Piedade Rodrigues, na freguesia lisboeta da Pena, a vizinhança foi pouco para tanto talento, de Lisboa para Europa e da Europa para o mundo. Amália Rodrigues levou o fado para os quatro cantos do planeta: de Lisboa para Madrid, passando por Roma, Londres, Rio de Janeiro, Nova York, até chegar a Hollywood meca do showbisness. Com Amália o fado extrapola ruas e vielas de Lisboa, deixa os retiros e casas rurais para inaugurar um novo conceito as “casas de fado”, segundo Amália “o fado não se canta, acontece”. Logo que aqui cheguei, há pouco mais de um mês, senti uma melancolia no ar, já disse isso em outro texto inclusive, às vezes penso: Será coisa minha? mas... sei que não, ouvindo outros brasileiros que aqui vivem escutei o mesmo, às vezes com outros adjetivos mas com o mesmo sentido. Dizem que a arte é a representação maior de um povo, um grupo… se for assim podemos perceber isso na música, creio que a alma portuguesa é um pouco como fado, alguns dizem que o fado teria herdado uma dolência e melancolia do canto dos mouros, os que aqui permaneceram após a retomada cristã ou ainda que o fado seria uma mistura de influências moura, africana e brasileira, de qualquer maneira e independente da sua verdadeira origem o fato é que o fado lisboeta é carregado do romantismo do século XIX, letras nostálgicas, mas também alegres, que falam das desilusões e esperanças do povo, dos amores e das tristezas humanas. Amália cantou os sentimentos contidos na poesia, cantou Camões e outros tantos nomes importantes do cenário cultural português e mundial. Confesso que pouco sei ou ouvi do fado, sei que Amália Rodrigues esteve muitas vezes no Brasil, até casou-se com um brasileiro, mas cresci ouvindo outros estilos musicais, sei também, que Amália Rodrigues pertence à constelação das grandes estrelas como: Edith Piaf, Maria Callas, Carmen Miranda, Mercedes Sosa, além de outras mulheres que em lugares e tempos distintos marcaram com graça, força e coragem o cenário artístico mundial. Ainda bem que nunca é tarde para conhecer, para viajar e se encantar com o novo, por isso hoje, 6 de Outubro de 2009, no 10º Aniversário da morte de Amália Rodrigues, fadista portuguesa que emocionou e emociona corações no mundo todo e em especial o do povo luso, aproveito para render homenagem através da Amália revisitada, seja na imagem do artista francês Jef Aerosol ou através da música que ouvi no rádio dia desses e gostei… descobri que “Gaivota” composição de Alexandre O'Neill e Alain Oulman, imortalizada pela diva Amália, faz sucesso hoje na voz de Sónia Tavares e do projeto “Amália Hoje” da banda The Gift, fazendo com que avós, país e filhos revivam ou conheçam – no caso das novas gerações – a importância do fado para história de Portugal e relembrem seu ícone maior.

“Se uma gaivota viesse Trazer-me o céu de Lisboa No desenho que fizesse, Nesse céu onde o olhar É uma asa que não voa, Esmorece e cai no mar. Que perfeito coração No meu peito bateria, Meu amor na tua mão, Nessa mão onde cabia Perfeito o meu coração”(…)


domingo, 4 de outubro de 2009

Raios que me partam!

Raios sobre a Bobadela, Lisboa (foto_autor desconhecido)


Estava eu no quinto sono quando de sobressalto acordei, aliás, acordei assustada, tamanho estrondo que ouvi. O que seria aquilo? Comemoração antecipada da passagem de ano? Alguma pedreira sendo dinamitada? Implosão de algum prédio vizinho? Ou seria São Pedro dando uma ordem no céu e ao mover algum móvel fez aquele barulho todo? Na realidade, a resposta não é nenhuma das anteriores. O que me fez acordar do sono dos justos, foram os raios - relâmpagos seguido de trovões - (*), que caíram aqui na região de Lisboa… chuva mesmo nada, mas… o barulho. Na hora pensei… “raios que me partam” como posso dormir assim. Tenho medo de duas coisas nesta vida: filmes de terror e relâmpagos e trovões. Me lembro que quando vivia sozinha, ainda no Brasil, quando chovia forte e havia muitos relâmpagos e trovões, me deitava na cama e de lá saia só quando tudo acabasse. Segundo estudos de probabilidade, as chances de ganharmos na Mega Sena é de 1 em 50.063.860, já a de ser atingido por um raio é de 1 em 576.000, com certeza a primeira opção é de longe a única desejada por nós, contudo, a sorte de fotografar esse bonito fenômeno natural é para poucos, primeiro, porque você tem que estar no lugar e hora certa, bem posicionado e seguro, além ter um bom equipamento. Mas a máquina não é garantia de uma boa imagem, saber usar suas funções é fundamental. O tempo de exposição determinado pela velocidade do obturador em combinação com a abertura do diafragma é o que permitirá a entrada de luz que comporá a foto, além da focagem manual no infinito e uso de um tripé para estabilização da imagem garantirão o resultado, ainda há a variante da foto noturna ou diurna, pois, fazer fotos de raios durante o dia é bem mais difícil, coisa para profissional ou aficionado.

Voltando aos raios, esses dias, recebi por e-mail as fotos dos famigerados e belos raios que me acordaram, fotos sacadas desde algum prédio vizinho aqui na Bobadela, Lisboa, onde podemos ver a ponte Vasco da Gama e o Rio Tejo - cartões postais da cidade -, cujo autor desconheço. A imagem é tão bonita, um verdadeiro espetáculo de luz, que não pude deixá-la guardada na minha caixa postal. Como diria Dickie Vigarista (personagem da Corrida Maluca) “Raios, raios duplos, triplos. Particularmente prefiro a famosa “Vá pros raios que te partam”, risos... imagine como seria desaparecer no melhor estilo Jeremy Reed, protagonista do filme “Energia Pura” (Powder, 1995). Agora... pense bem antes de dizer: "Quero que um raio caia na minha cabeça se eu estiver mentindo", olha que há mais possibilidade de isso ocorrer do que você ganhar na loteria.

(*) “Um raio dura em média meio segundo. Nesse intervalo de tempo, muitos fenômenos se combinam, principalmente físicos e climáticos, para resultar naquilo que vemos e ouvimos. Conforme eles variam, as descargas podem ser mais ou menos intensas. Algumas regiões do planeta têm maior tendência a produzir descargas elétricas atmosféricas. As principais conseqüências das descargas elétricas atmosféricas (raios) são a luz (relâmpago) e o som (trovão). Os relâmpagos são produzidos basicamente pela radiação eletromagnética emitida por elétrons que, após serem excitados pela energia elétrica, retornam a seus estados fundamentais. Isto ocorre principalmente na Descarga de Retorno e por esta razão, no caso da descarga nuvem-solo, a geração da luz é feita de baixo para cima. A luz do relâmpago é bastante intensa devido à grande quantidade de moléculas excitadas. Pode-se observar que as ramificações do canal são menos brilhantes pela menor quantidade de cargas presentes nessa região. A geração de luz dura cerca de um décimo de segundo. Portanto, os fótons produzidos no início da trajetória, apesar de chegarem primeiro na retina do observador, conseguem mantê-la sensibilizada até a chegada dos fótons provenientes do final da trajetória. Por isso, é comum se pensar que o canal se iluminou todo de uma vez ou ainda que o relâmpago caiu, vindo de cima para baixo, talvez por colocarmos a nuvem como nossa referência. Geralmente a luz do relâmpago é de cor branca, mas pode variar, dependendo das propriedades atmosféricas entre o relâmpago e o observador”.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O Amor e a Pomba.

Sevilha, Espanha (foto by_Meg Mamede)

Venho aqui para falar do amor. Mas do amor que é meu, não de outra pessoa, ou dele, ou nosso. Do amor que emana de mim. Que está no meu coração e que só eu conheço. Alguém pode até percebê-lo, mas... ninguém o sente como eu. Porque é: o meu amor. Ele tem razão quando diz que "o Amor é como uma pomba que... costuma voar, fugir, se tentamos pegá-la, mas que permanece ao sentir-se livre". Pois então, deixo-te livre para voar ou permanecer, porque esse amor que menciono é meu, sou eu que o sinto e quero sentí-lo. Ele é meu e quero dar-te, como quando me ensinastes que o que é nosso damos a quem queremos e da maneira como queremos, seja a pessoa merecedora ou não. Mas você! Você merece todo o meu amor e... se quiser sabe exatamente onde encontrá-lo.


"Voe por todo mar e volte aqui
Voe por todo mar e volte aqui
Pro meu peito...

Se você for, vou te esperar
Com o pensamento que só fica em você

Aquele dia, um algo mais
Algo que eu não poderia prever
Você passou perto de mim
Sem que eu pudesse entender
Levou os meus sentidos todos pra você

Mudou a minha vida e mais
Pedi ao vento pra trazer você aqui
Morando nos meus sonhos e na minha memória
Pedi ao vento pra trazer você pra mim

Vento traz você de novo
O Vento faz do meu mundo um novo
E voe por todo o mar e volte aqui
E voe por todo o mar e volte aqui
Pro meu peito..."


("Vento" composição de Márcio Buzelin, música do Jota Quest)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sinais do tempo.

Foto by_Sebastião Salgado.

Esses dias vi coisas que não esperava ver. Cabelos brancos em maior número e concentrados em uma parte da minha cabeça e não parou por aí, noite dessas, acendi o abajur para ler na cama e notei pequenas rugas na lateral das minhas mãos, as mesma que vi há anos atrás nas mãos da minha mãe. Pensei: “estou ficando velha”! Óbvio que sim, é o curso natural das coisas, afinal, não sou Benjamin Button. Sempre digo que nasci velha e fui remoçando num processo inverso, mas, me refiro à posturas e atitudes que tive na infância e adolescência, o excesso de preocupações e pensamentos que me tomavam e que pertenciam ao mundo dos adultos. Aos pouco fui me livrando deles, ou melhor, com o passar dos anos, cheguei a um ponto de equilíbrio. Porém, nada me impediu de viver maravilhosamente cada uma das quatro décadas passadas. Agora… isso de pintar os cabelos para esconder os brancos por pura vaidade e passar cremes nas mãos para tentar retardar o envelhecimento da pele me parece total tirania televisiva. Por que não posso ser como minha mãe? Que no auge dos seus sessenta e poucos anos, nunca tingiu os cabelos ou passou cremes anti-rugas na pele. Em que sou diferente dela? Ela não é, nem mais, nem menos feliz que eu por isso. Ela é simplesmente – na acepção da palavra - linda, pois tem uma beleza invisível aos olhos. Lembro-me da suas mãos jovens passando xampu nos meus cabelos enquanto cantarolava algo como: “fecha os olhos e esqueça tudo que te fez chorar”, aquelas mãos firmes e suaves acariciavam meus cabelos de criança e naqueles momentos me sentia feliz e protegida.

Noutro dia, graças a indicação da amiga Maria Emília assisti ao Café Filosófico CPFL com o Historiador e Professor Leandro Karnal intitulado: “A utopia da melhor idade” e adorei, além do tema vir ao encontro dessas preocupantes e por vezes vazias verdades que aqui abordo, ouvir o Prof. Karnal é sempre um prazer. Como bem mencionaram ao final da apresentação, ele foi brilhante! Houve um momento em que ele utilizou a questão da publicidade do setor de cosmética para falar desses ideais que insistimos em perseguir, exemplificando com as imagens de uma mulher idosa, de rosto enrugado, um rosto que não vende creme anti-rugas e uma jovem e bela Gisele Bündchen. Na verdade, uma jovem de 25 anos faz milagre na propaganda de cosmética, ainda mais, fazendo-se passar por uma mulher de quarenta. Eu me pergunto: Há algum mérito nisso?

Verdade é que eu já não sou mais a mesma de antes, tudo mudou… o cabelo, a pele, a silhueta e felizmente as formas de pensar e viver. Não tenho medo de envelhecer, já a idéia da morte me incomoda, mas… gente! para quem assistiu Sítio do Pica Pau Amarelo na sua primeira edição, colecionou bonecas de papel, dançou ao som de Michael Jackson, Menudo, Kid Abelha, Titãs, Paralamas do Sucesso, etc, fez curso de datilografia (como bem lembrou o Prof. Karnal), usou: telegrafo de cartão perfurado, sistema MS-Dos, Lótus 1.2.3, impressoras matriciais com nomes de mulher, mimeógrafo e papel carbono, estar aqui “blogando”… é o máximo!

Um pouco antes de completar 40 anos, postei algo dizendo que a vida começaria agora… pois é, me preparo para viver o que resta sem pressa e da melhor maneira possível. Como estou longe da minha amada mãezinha e não tenho suas mãos para afagar meus cabelos toda as vezes que mesmo sem xampu as necessito, “vou fechar os olhos e esquecer tudo que me faça sofrer” e isso inclui cabelos brancos e rugas. Os únicos sinais do tempo que farei caso: serão os da meteorologia.


“A utopia da melhor idade” com o Historiador Leandro Karnal.
http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-utopia-da-melhor-idade


O Curioso caso de Benjamim Button de F. Scott Fitzgerald.
Em quadrinhos, Ediouro, 2008 ou Editora: Presença, 2009.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Os homens que não amavam as mulheres.


Ainda bem que existe o cinema, onde em companhia de uma porção de gente desconhecida e estranha - no sentido literal da palavra - podemos passar os momentos de tédio. Confesso que com tudo que Portugal, em especial Lisboa tem a oferecer, esse inicio aqui tem sido entediante, sinto que não terei uma adaptação fácil, salvo consiga atingir alguns objetivos, ou melhor, um objetivo: o de cursar especialização de meu interesse na antiga metrópole. As horas se arrastam. Na tv nada me agrada - o excesso de canais me faz desistir de encontrar algo "assistível"-, talvez os lugares menores tenham mais charme e sejam mais atrativos que as cidades grandes, em Sampa me viro fantasticamente bem e, aqui munida de mapas e consultando a internet para tudo, também encontro as "coisas" porque eu sempre as encontro mesmo, mas... não as pessoas. Sinto uma melancolia no ar, uma quase inércia, não minha, já está aqui. Me parece tudo muito esquisito, brasileiro que não quer saber de brasileiro fora do país, português que olha o imigrante - hoje sei a diferença entre turista e imigrante - com espanto ou desconfiança, fruto de anos de esteriótipos e rótulos, em especial para mulher brasileira. Por esses motivos todos, minha melhor companhia, de momento, tem sido o cinema, mesmo que me faça ter raiva ou chorar, como nos dois últimos filmes que vi.

Ontem vi a produção sueca baseada no best seller do também sueco Stieg Larsson (1954-2004), escritor que faceleu antes de ver sua trilogia alcançar sucesso mundial. Eu não li nenhum dos títulos da trilogia Millennium, mas nos últimos meses vi os livros expostos de livrarias a supermercados na Espanha, e sei que o mesmo ocorreu no resto da Europa. No mundo artístico - seja no cinema, na música, nas artes plásticas - existe um certo burbúrio e alta do produto no mercado quando um autor ou artista morre, imagino que na literatura não seja diferente, podemos dizer tratar-se de um último golpe de marketing, pode soar a humor negro, mas verdade seja dita, é assim que a coisa passa. Voltando ao filme, observei que a maioria do público presente no cinema era de jovens e adolescentes e, posso até imaginar porque, afinal um dos protagonistas: Lisbeth Salander (interpretado por Noomi Rapace), jovem magra, de comportamento rebelde e visual punk, hacker de deixar qualquer CSI estupefato, consegue subverter os meios com inteligência e certa docilidade - me refiro a personagem do filme, não li o livro - que com seus piercings, tatuagens e traumas, se trasnforma em uma heroína moderna, pronta a resolver qualquer questão investigativa, uma verdadeira guerreira. Fazendo um recorte do filme, até porque que ele aborda muitas questões atuais, como a corrupção no mundo corporativo, os trabalhos jornalísticos de denúncia, as correntes racistas e conservadoras presentes na Europa, opto por destacar a "violência de gênero", porque é justamente o fio condutor da trama.

Houve cenas do filme que escolhi não ver, tamanha violência, por outro lado há cenas de muito carinho, afeto velado entre os protagonistas, mas notável... também há enquadramentos e belas fotografias e digo isso porque andei lendo alguns comentários na net, sobre uma esperada produção norte-americana para o livro de Larsson, o que creio não seja necessário, haja vista tanto produção, direção quanto elenco terem dado conta do recado, há que se dar os devidos créditos, afinal o livro narra uma história passada na Suécia, risos... é como se os norte-americanos quizessem montar uma superprodução de "Grande Sertão: Veredas" do Guimarães Rosa, não vejo desmérito em atores estrangeiros interpretando Diadorim e Riobaldo, mas não seria a mesma coisa.

Quanto a tal violência de gênero, antiga e incomoda realidade para mulher e que... só quem é mulher pode entendê-la bem, porque pode sentí-la de maneira diferente e sem nunca tê-la sofrido inclusive, é disso que boa parte do filme trata. Sentimentos como dor, desinteresse pela vida, raiva e vontade de vingança podem mudar por completo a vida de alguém, especialmente dos mais jovens e tornar-los repetidores da situação. Pode parecer idiota mas ontem, fechei os olhos quando a Lisbeth era brutalmente atacada, contudo, quando ela teve a chance de vingar-se, eu estive com os olhos "bem abertos" e não perdi detalhe algum, confesso sem vergonha que vibrei com a lição dada ao seu maltratador. Quem já assistiu filmes comigo sabe o quanto me envolvo com as histórias, creio que o casal jovem que estava sentado quase ao meu lado notou o meu sofrimento e raiva, porque às vezes percebia o olhar curioso que me lançavam, mas não importa, necessitava algo para me distrair. Ainda assim, prefiro a ação à inercia, a paz à violência.

Diga não a violência! Quando sentir algum sentimento nada nobre, vá ao cinema ou a livraria mais próxima.



Livro: "OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES", de Stieg Larsson Editora: Companhia das Letras, Tradução: Paulo Neves.

Filme: Män Som Hatar Kvinnor - Direção do norueguês Niels Arden Oplev, com Michael Nyqvist e Noomi Rapace e outros nomes do cinema sueco. País/Ano: Suécia, Dinamarca e Alemanha, 2009.


sábado, 26 de setembro de 2009

Quintas e Quintais.

Foto do Museu Paulista e seus jardins by_Wanderley Celestino


“Abre minha guarda no espanto
Com o susto que seja
Que nem vento no palmeiral
Pra que eu desperte do sonho
Que traz as lembranças da terra natal toda vez
Pra que eu despenque dos cantos
Qual mais um azulejo colonial português
Vem, arrebenta o acalanto
Que guarda minha noite
E protege os jardins e quintais
Salta do fundo do escuro
Por cima dos muros, telhados, mirantes, portais
Rasga e arregala a cancela, escancara a janela
E guarda esse sonho pras noites de paz”

"Jardins e Quintais" (Composição de Oswaldo Montenegro)


Esta semana assisti ao Seminário "Quintas e Jardins Históricos: Investigar, Recuperar e Gerir” que tratou do patrimônio sob a ótica de arquitetos, paisagistas, arqueólogos, restauradores, historiadores, profissionais do turismo e afins. O evento aconteceu na Quinta da Piedade, uma “das Quintas que o município da Vila Franca de Xira escolheu adquirir e conservar, devolvendo-a para a fruição pública” e deleite de moradores e turistas.

Ao longo dos três dias o evento destacou trabalhos realizados em Quintas de norte a sul do país, como na Quinta da Regalera, Sintra, uma das quais tive o prazer de visitar. Os trabalhos detalhados e bastante técnicos, por vezes revelavam algum detalhe ou história curiosa acerca do patrimônio e dava um tom mais acessível para os que são da história como eu.

A Quinta da Piedade onde aconteceu o Seminário remonta ao século XIV, possuindo características do século XVIII, azulejos da época compõem seu interior e na área externa encontramos lagos e fonte e diversas capelas - Igreja de Nossa Senhora da Piedade, Ermida de Nossa Senhora da Piedade, Ermida do Senhor Morto e Oratório de São Jerónimo -, sendo a primeira do século XVIII e as restantes quinhentistas.

Ainda na Espanha me causava estranheza ouvir a palavra jardim sendo empregada para referir-se à parte traseira da casa, o que para mim tratava-se de um quintal, já a tal Quinta portuguesa, nada mais é do que o que chamamos de sítio, chácara, fazenda, dependendo do tamanho e aplicações, particularmente, ao conhecer a Quinta da Piedade, através de uma visita guiada pela arqueóloga Maria Miguel Lucas, me senti como no sítio da minha avó materna, apesar que nossa Quinta… risos, era muito mais verde e não estava inserida num centro urbano, melhor dizendo a urbanização vertical ainda não chegou lá e deve levar algumas décadas, com sorte, séculos para chegar. Outro ponto diferente é que: o que foi nosso sítio, hoje em mãos de novos proprietários, não tem o status de uma Quinta portuguesa onde a nobreza e aristocracia do país viveu momentos de glória e pujança. Imagine o povo se acotovelando para ver o despertar de reis, rainhas e outros nobres, ou o pequeno almoço – nosso café da manhã -, os passeios pelo jardim, ou ainda participar de alguma festividade, como bem descreve o historiador inglês Peter Burke em “A fabricação do Rei” ou como podemos notar em algumas cenas do filme “Maria Antonieta” de Sofia Coppola (2006).

Depois de ver imagens das várias Quintas portuguesas, fiquei com vontade de explorar um pouco mais o patrimônio do país, começando pela Quinta da Bacalhôa em Azeitão, patrimônio privado aberto à visitação pública, em estilo renascentista e jardim francês, com representativo acervo de arte, parte da coleção privada da família Berardo, onde, além de conhecer um pouco mais da cultura e história do local é possível provar o vinho da “Bacalhôa Vinhos de Portugal” (Conhecem-se vinhas no início do séc. XX, mas uma nova fase da sua produção inicia-se em 1974. O então proprietário Thomas Scoville convence António d'Avillez a criarem um vinho de topo que revolucionasse o sector em Portugal. Decidiram plantar uma vinha com as castas Cabernet Sauvignon e Merlot, encepamento típico de Bordéus. As condições edafoclimáticas da Quinta, a sua exposição suave a Norte e os seus solos, permitem uma maturação longa e completa das duas castas. Estas condições especiais marcam e personalizam o vinho aí produzido (*)) e passar momentos agradáveis.

Voltando aos jardins, ainda criança estive no Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, na cidade de São Paulo, a visão impactante daquele imenso jardim com monumental construção ao fundo ficou na minha memória, em estilo francês, com repuxos e aléias em declive, o jardim localiza-se em terreno rebaixado, proporcionando assim, maior destaque ao Museu. No ano passado visitei o Alcázar de los Reyes Católicos em Córdoba, seus jardins lindíssimos nos convidam a viajar no tempo, lugar que serviu de fortaleza para visigodos, passando a palácio para o Califado Omíada até chegar as mãos dos Reyes Católicos Isabel I de Castela y Fernando II de Aragão, local importante na história dos descobrimentos, em 1492 os Reis Isabel e Fernando receberam Cristóvão Colombo antes de sua primeira viagem rumo à América. Outros jardins, como os botânicos e japoneses também são de encher os olhos, mas de todos os que conheci, o da Casa Llaguno no País Basco é o que mais gosto, um jardim de perspectiva romântica, onde pude presenciar de maneira singular todas as estações do ano, observar uma gama de cores e sentir todos os aromas ao longo dos meses que ali vivi, além dos alegres e saborosos almoços e jantares que tivemos junto aos amigos, entre as árvores e plantas fui tão feliz como no sítio da minha família no Brasil, onde minha infância correu de maneira lúdica, sem o glamour dos nobres, mas repleta de paz e liberdade.

Entre Quintas e Quintais vou descobrindo a história que nos faz diferentes enquanto povos e iguais enquanto seres humanos, afinal de contas, desde a Grécia antiga, para não citar outros povos, passear por jardins ou quintais, cultivar hortas, são expressões de amor a vida ao ar livre. O paraíso na terra como citado no livro do Gênesis não é privilégio de nobres e sim daquele que ama o seu “lugar” e, para nós brasileiros o privilégio está muito presente no dia a dia, cultivar pequenas hortas e quintais faz parte da vida cotidiana, até porque, vivemos em uma terra, que segundo Pêro Vaz de Caminha, escrivão português da frota de Pedro Alvares Cabral, em sua carta a El Rei D. Manuel (…) “Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e- -Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!” (…).

Pronto, se o problema é espaço… providencie uma pequena floreira, dessas que encontramos em supermercados e plante especiarias, tomates ou as flores que mais goste, compre um Bonsai ou desfrute dos jardins e parques da sua cidade, com certeza esses espaços também têm muito a contar, basta querer ouví-los.

(*) Quinta da Bacalhôa:

A fabricação do rei. A construção da imagem pública de Luis XIV de Peter Burke. Editora Jorge Zahar, 1994.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Coisas de Criança.


Quando nasci, plantaram uma jaboticabeira no sítio, curioso que assim como eu, ela nunca deu frutos, a última vez que lá estive, em janeiro do ano passado, ela continuava firme e forte, sem uma jaboticaba sequer. Tenho uma marca de nascença, entre a cintura e o quadril do lado direito que se assemelha a uma folha, segundo minha mãe – a D. Albertina – quando estava grávida teve vontade de comer ameixa do pé que tínhamos em casa, lá subiu e se fartou, horas depois descobriu uma folha da ameixeira justamente no lugar onde levo a tal marca. Se tem alguma relação lógica? Nem imagino, mas... me faz graça ouvir essas histórias. Na infância muitas foram as árvores que subi, no sítio da nossa família tinha de tudo, a maioria árvores frutíferas. Entre macieiras, laranjeiras, pitangueiras, ameixeiras, pessegueiros e outras eiras e eiros cresci. Em casa tínhamos uma preciosidade, uma goiabeira gigante que era nossa diversão, até que um dia o pai acabou com ela alegando fazer sombra para as outras plantas da pequena horta. Adulto tem cada coisa! Aquela goiabeira era nossa alegria, ali brincávamos eu e meus irmãos – éramos cinco – e os amigos todos. Uma vez, um desses fotógrafos que batiam de porta em porta, entre os 70 e 80, para fazer fotos caseiras – quem tem entre 30 e 40 anos deve ter alguma foto dessas perdida em algum canto – fez umas fotos nossas no quintal, dias de mato alto… eu claro, subi na goiabeira e esbocei um sorriso tímido, tinha 12 anos. Noutra vez, fizemos guerra de goiaba e entre goiabas verdes que doíam à bessa quando nos acertavam e as maduras que viravam uma “meleca” a tarde foi curta para tanta diversão, essa árvore também era nosso esconderijo quando aprontávamos alguma coisa em casa, passávamos horas na parte mais alta da goiabeira, fugidos da mãe. Nessa época também, não me lembro ao certo se com 11 ou 12 anos, plantei minha primeira e única árvore, uma ameixeira. Foi na escola onde eu estudava e em comemoração ao dia da árvore. Não sei se transplantaram a árvore de lugar, pois há alguns anos novas salas de aula foram construídas no espaço onde algumas árvores foram plantadas naquele dia, ao menos cumpri um dos objetivos para realização do Homem: o de plantar uma árvore – também comprei um bicicleta, mas… ainda não escrevi um livro (serve um blog?) e não tive filhos -. Em casa, meu pai – o Sr. Mamede – não cansava de se valer dos poderes medicinais das árvores, suas folhas, flores, etc – para a diarréia ele nos dava folhas de figueira ou broto de goiaba, para pedra nos rins, várias foram às vezes que tomamos uma mistura na qual as folhas do chapéu de couro, aquela árvore praieira era um dos ingredientes. Ah! Mas as árvores também podem ser mal empregadas, como no caso dos pequenos caules do pé de marmelo, isso mesmo, uma vez, creio que tinha uns 7 anos, apanhei de vara de marmelo, por um motivo banal, a mando da minha avó paterna minha mãe me deu uma varada na perna, chorei de soluçar e demorei anos para ver minha avó com outros olhos, sempre que olhava para ela via a tal vara de marmelo. Me lembro também de um domingo no parque municipal da minha cidade, onde eu e mais alguns amigos resolvemos fazer uma pequena trilha seguindo um dos garotos que dizia conhecer bem o caminho, o que no começo foi divertido, logo tornou-se assustador, no fim da tarde nos perdemos entre aquelas árvores todas e, se não fossem os bombeiros e funcionários do parque, teríamos passado parte da noite entre tombos, espinhos e carrancas que algumas árvores nos sugeriam. Como já disse em outro texto, às vezes uma imagem, um e-mail, um artigo de jornal me transporta ao passado… Relembrei essas pequenas histórias de criança, justamente porque recebi um e-mail do IVA Voluntariado sobre a Campanha “Dia da Árvore – Plante essa ideia” e resolvi escrever sobre as árvores da minha vida…risos. Escrevemos sobre paixões, viagens e outras coisas, porque não falar das nossas árvores. E por falar em nossa árvore - de acordo com nosso nascimento - a minha é a Macieira, coincidência ou não, era a primeira árvore para a qual eu me dirigia quando chegava ao sítio da minha avó materna. Bons tempos aqueles.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Caminho das Índias nas ruas de Martim Moniz, Lisboa.


"Sem fanfarra não há casamento"
(fotos by_Meg Mamede)

Domingo, ainda no metro resolvi ir até Martim Moniz, um dos bairros mais antigos de Lisboa. Depois de passar alguns meses vendo como a intolerância e o preconceito cresceram em relação ao imigrante em países da Europa, fui conferir a proposta de TODOS Caminhada de Culturas de “Viajar pelo mundo sem sair de Lisboa”. Entre ruelas, escadarias, azulejos, flores nas janelas, casarios antigos e o comércio mantido por gente de toda parte do mundo, conheci, as várias “caras” da cidade, outra Lisboa que como os próprios organizadores do evento afirmam: “deve ser incluída definitivamente na identidade urbana da cidade”. A proposta que promovia a integração, teve um que de festa internacional, destacando os lugares de origem dos moradores do bairro – Índia, Moldávia, China, África, Ucrânia, Brasil, etc – e, através da música, fotografia, oficinas, culinária e o cinema, mostrou ser possível a convivência harmônica de várias culturas num mesmo espaço.

Enquanto esperava próximo ao Largo dos Trigueiros pela apresentação da fanfarra indiana Jaipur Maharaja Brass Band, tive tempo de entrar numa pequena cafeteria e observar algumas Sras. portuguesas que após o almoço, com a desculpa de tomar um café, buscavam naquela tarde de domingo uma conversa furtiva com as vizinhas de bairro. Ali, me senti em casa, me lembrei da D. Albertina – minha mãe – e suas amigas, lembrei da minha avó paterna e das minhas tias, cada Senhorinha que ali entrava ou saía e que educadamente me saudava, mesmo sem me conhecer - comportamento há muito esquecido pelas novas gerações – me fez voltar no tempo, para minha infância na cidade de Salesópolis, onde passávamos os fins de semana e, as pessoas possuíam as mesmas características das desse bairro Lisboeta.

Ao passar pelo Beco das Farinhas, encontrei fotografias impressas diretamente nas paredes das casas, fotos dos moradores mais antigos e de mais idade do Beco e arredores, na Mouraria. O trabalho da fotógrafa Camilla Watson intitulada “Tributo”, composto de imagens em preto e branco, mostra cenas cotidianas, comuns em qualquer parte do mundo e cheias de humanidade, transformando os moradores do bairro em protagonistas dessa festa.

Em seguida as primeiras notas da alegre música indiana se fez ouvir e logo tomou conta do Largo dos Trigueiros, moradores, turistas e curiosos juntaram-se ao grupo que seguia a Jaipur Maharaja Brass Band pelas ruas do bairro e ao passar, o Brass Band trazia as pessoas às janelas de suas casas, o que inicialmente, se tratava de um olhar curioso e tímido dava lugar a sorrisos, fotografias e aplausos. E por falar em sorrisos, isso foi o que me chamou muito a atenção na banda, apesar do calor que fazia em Lisboa e da roupa que usavam, caminhavam pelas ruas tocando seus intrumentos e nunca deixavam de sorrir, sorriso de uma brancura que contrastava com a tez escura de sol. A música alegre animou o público e alguns indianos que vivem no bairro sairam para dançar ao som de canções familiares, homens, mulheres e crianças, sempre com um sorriso estampado no rosto, em seguida, uma bailarina e um faquir se juntaram ao grupo para mostrar sua arte. Porque estou falando da India? Bem, nos últimos tempos essa cultura milenar, cheia de cores, sabores exóticos e espiritualidade tornou-se mais conhecida dos brasileiros, considerando ser a bola da vez para Glória Perez, passando pela última Festa do Oscar onde Slumdog Millionaire de Danny Boyle levou várias estatuetas e desembocando finalmente no BRIC, para nós brasileiros essa ligação é antiga, vindo desde as viagens dos descobrimentos. Voltando à Brass Band, interessante que no programa da Festa no Martim Moniz, lia-se que a música tocada pelo grupo, cujo conjunto de metais – trompetes, trombones, tubas, clarinetes e saxofones - juntamente com a bailarina e o faquir, “representam uma tradição que vem de longe: na Índia, sem fanfarra, não há casamento!” coisa que podemos comprovar nos filmes made in Bollywood, onde a música e a dança são protagonistas na história. Já a culinária indiana, é um capítulo à parte, sedutora por execelência, colorida, de aroma e sabor para lá de exótico - com especiarias que portugueses e brasileiros souberam bem como tirar proveito - convida todos os sentidos a viajar por prazeres gastronômicos inigualáveis, saborosos e afrodisíacos.

Retomando a idéia central da festa TODOS Caminhada de Culturas, sobre a integração dos diferentes e o quanto temos a aprender com o “outro”, acredito que nesse mundo globalizado tudo é possível, estamos "todos" conectados… Quando imaginamos que nossos pensamentos e idéias são só nossos ou originais, nos enganamos, porque tudo que diz respeito ao ser humano é universal. Muitos pensaram e pensam, sentiram e sentem o mesmo em lugares e tempos diferentes. Quando saí do Brasil para viver na Espanha com uma família basca, descobri que muito do que eu acreditava e dizia da vida ia ao encontro do que o indiano Osho - professor de filosofia na Universidade de Jabalpur na década de 50 – abordava em suas aulas e que anos depois tornara-se sucesso editorial e só me dei conta disso quando conheci Joseba, que afortunadamente não somente lê, mas aplica algo da filosofia de Osho a sua vida e, se eu não estivesse aberta ao novo, talvez a adaptação em terras ibéricas seria mais díficil, penso que isso ocorra com todos, tanto para mim quanto para qualquer outro que tenha deixado seu país para viver noutro, como os moradores de Martim Moniz que fizeram desse bairro de Lisboa sua nova casa e se sentem tão lisboeta, quanto os nascidos aqui. De certa maneira, todos temos algo em comum, me refiro aquela necessidade que impele o Homem na busca do novo, o mesmo espírito aventureiro que levou navegadores de outrora à Índia, à China, à Africa, à América, ao Brasil e agora a fazer o caminho inverso, como na filosofia de Osho “Sempre permaneça aventureiro. Por nenhum momento se esqueça de que a vida pertence aos que investigam. Ela não pertence ao estático; Ela pertence ao que flui. Nunca se torne um reservatório, sempre permaneça um rio.”

Vou seguindo o Tejo.


Para saber mais:

Jaipur Maharaja Brass Band: http://www.jaipurmaharajabrassband.com/accueil_en.html

Camilla Watson: http://camillawatsonphotography.org/

Filmes: A FNAC tem grande oferta de filmes asiáticos e garimpando as videolocadoras alternativas é possível encontrar produções indianas, como “Noiva e Preconceito” de Gurindher Chadha, baseada na obra de Jane Austen, entre muitas outras.

Osho: http://www.oshobrasil.com.br/

Livros que recomendo:
Vislumbres da India - Um diálogo com a condição humana de Octavio Paz (escritor mexicano) 4a edição. Tradução de Olga Savary, Editora Mandarim.

O Banqueiro dos Pobres de Muhammad Yunus (banqueiro e economista indiano, prêmio Nobel da paz 2006) e Alan Jolis, Tradução: Maria Cristina Guimarães Cupertino, Ed Ática.

Outras viagens que podem interessar:

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