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Uma estranha no ninho

É curioso sentir-se assim: Uma estranha no ninho. Quando sai do Brasil para vir para Espanha, não tinha clara a idéia que tenho agora sobre as Espanhas que iria conhecer, concordo com Amyr Klink quando diz que “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”

Sabemos o quão grande e diferente é nosso Brasil, mas não temos a real dimensão do que passa fora dele, até que viajemos a outro lugar. Quando cheguei a Euskadi ou Euskal Herria (País Basco em euskera), para mim havia chegado à Espanha. Geograficamente falando cheguei, contudo, com o passar dos dias percebi que estava no norte e isso fazia toda a diferença. A Espanha está dividida em comunidades autonomas, entre elas destaco País Basco (País Vasco), Galícia (Galiza), Catalunha (Cataluña) como protagonistas na luta por uma identidade nacional própria, onde a língua e a cultura são fatores fundamentais para manutenção dessa identidade. Por que estou falando disso? Porque ao chegar percebi que àquela imagem que tinha da Espanha Vermelha e Amarela, Flamenco, Touros e Toureiros, não representava sua totalidade, assim como nosso Brasil não se resume em Rio de Janeiro, Carnaval, Samba, Futebol e Bunda.

De fato me senti "uma estranha no ninho" não porque tenham me rechaçado ou sofrido algum tipo de preconceito (temor e realidade para alguns latinos desafortunados aqui na Europa) e sim por meu desconhecimento do "Outro". É! Amyr, os livros e as artes nos estimulam, é bem verdade, mas não nos ensinam tudo. Temos que ver com "esses olhos que a terra há de comer". Quando e como me dei conta disso? Bem, disse que queria voltar a pintar (na realidade brincar com tintas e pincéis), então, Joseba me comprou pincéis, telas e tintas... foi quando percebi meu equívoco. Sempre que vou ao Bar Samaná aproveito para ler os jornais (El País e El Correo), num dia desses deparei com uma foto de "El Cid en su primera faena de la tarde", aquela foto me encantou... creio que pelo movimento da capa e a postura do toureiro, pela sensualidade e plástica, pelo traje colorido e impecável, nunca pensei na crueldade do espetáculo e quem sou eu para julgar, nunca vi uma tourada ao vivo e a cores, assim que no dia seguinte recortei do jornal aquela e foto e resolvi pintá-la na tela maior que o Joseba me deu... não disse nada a ninguém e comecei a pintar. Ainda no inicio e cheia de entusiasmo por minha eleição, mostrei a Joseba a tela (cheia de vermelho e amarelo, cores da bandeira espanhola) e ele me disse, num misto de decepção e riso: "Ah! Bonito, mas... pensei que você poderia pintar outra coisa" foi aí que percebi que as diferenças existem e que eu jamais poderia presentear um basco com algo de touradas, flamenco, coisas tão espanholas.


Agora minha tela esta quase terminada, retomei as aulas de pintura, somos 17 alunos e adivinhem! A única que está pintando uma tourada sou eu... entre naturezas mortas, paisagens bascas, abstratos, cópias de Gaugin ou Rubens, eis que meu Toureiro espera o momento de deixar àquela sala e seguir direto para o Brasil. Lugar neutro, para onde algum amigo carinhosamente o receberá e me dirá: "Que lindo! Foi você quem pintou?" risos. E... todo o vermelho e amarelo contido na tela lhe parecerá energia, festa e tradição.

Viva a diferença!

Comentários

  1. Querida MEG:

    Entendo que neste momento de você verificar que a Espanha são várias. Neste exato momento é que podemos entender quão importante é a figura do rei e da rainha da Espanha, que mesmo em desagradando a diversas situações, são um fator de unidade nacional, por mais difícil que se possa imaginar. Sabemos que as divisões existentes, ultrapassam qualquer imagionário possível e que se desenrolam através dos séculos, e que também não serão resolvidas tão brevemente (dentro dos anseios regionais). Divisões sempre existirão e a custa de muito sangue (quem vive aí que bem o sabe históricamente). O Brasil também tem suas diferenças, notadamente sobrepujadas pelo instinto democrático e pouco egocentrista que felizmente o brasileiro possui. Somente no Brasil, por exemplo, é possível poder existir um dia em um estado para comemorar uma revolução que por certo teria desdobramentos separatistas, e isto ser respeitado com todo o estilo democrático. É viajando que temos a dimensão do quão somos grandes (em todos os sentidos), grandeza que faz nossa nação ficar mais ainda orgulhosa com a demonstração de civismo, humanidade, sentido de agrupamento nacional, com que estamos presenciando com a catástrofe sem precedentes (a maior da história do país), vivida por nossos irmãos catarinenses. É nestes momentos que vemos que ném um bilhão de copas do mundo juntas, não perfazem ném um por cento do sentido de solidariedade nacional que estamos vivendo nestes dias. Comovido me dirigi a Santa Catarina, e estou até o presente momento atordoado com tudo que presenciei. Indizível... Me orgulho de ser brasileiro e do povo que temos.
    Beijos.

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  2. Perfeita a sua pintura... achei íncrivel.
    Quanto ao texto, exatamente feito de sensibilidade e razões, para se ler, sentir e guardar.
    É sempre um prazer embarcar na sua viagem.

    Beijões da Eve!

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  3. Meg,

    Se não tiver destino certo, mande o quadro para mim.

    Os dois seus, na parede da sala vão gostar da companhia.

    Bj carinhoso.

    Roberto.

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